O PESCADOR DE ALMAS
VALTER TURINI


PELO ESPRITO MONSENHOR EUSBIO 
SINTRA 


O Pescador de Almas  um romance de poca -sculo I da era crist -, 
perodo em que os seguidores de Jesus foram perseguidos pelo imperador 
New, o incendirio de Roma, que viu, nos proslitos do Cristianismo 
nascente, as vtimas perfeitas para encobrirem seu abominvel crime 
contra os prprios patrcios. Acossado pelos inimigos polticos e pelo 
povo, Nero, ento, imputou aos cristos toda a culpa pela monstruosa 
tragdia e mandou suplici-los, impiedosamente, no Circus Maximus, com 
requintes de crueldade. 


Valter Turini 


O Pescador de Almas  um romance de poca, que se desenvolve durante 
os trgicos panoramas da segunda perseguio aos cristos, ocorrida no 
ano 65, quando o imperador Nero, aps ter mandado incendiar Roma, com 

o intuito de reerguer uma nova cidade -mais moderna e mais rica que a 
#
anterior -, v-se acossado por seus inimigos polticos e pelo povo e decide, 
ento, lanar a culpa da autoria do monstruoso incidente -provocado por 
ele mesmo e por seus asseclas -aos seguidores do Cristianismo nascente, 
conseguindo, dessa fornia, eximir-se da responsabilidade pela terrvel 
tragdia que vitimara milhares e milhares de cidados romanos. 
Alm da narrativa impecvel, que dos fatos faz, o insigne Esprito 
Monsenhor Eusbio Sintra, acompanha-se, tambm, o desenrolar de bem 
urdida trama a envolver personagens que, premidas por provaes 
durssimas, deixam-se tocar pela doce e consoladora mensagem do 
Evangelho de Jesus, trazida a Roma por incansveis missionrios dos 
primeiros tempos do Cristianismo, como Pedro, o valoroso apstolo de 
Jesus, que  supliciado na Colina Vaticana, crucificado de cabea para 
baixo, a dar o exemplo de como se deveria morrer por Jesus, diante da 
terrvel perseguio que contra eles desencadeara a fria do imperador 
Nero. 

O PESCADOR DE ALMAS 
VALTER TURINI 


PELO ESPRITO MONSENHOR EUSBIO 
SINTRA 


"Disse Jesus a Simo: No temas: doravante sers 
pescador de homens. " -Lucas 5-10 

#
ndice 


Palavras do Autor Espiritual 
Captulo I -Mais uma vitria 
Capitulou -O regresso ao lar 
Captulo III -O banquete de Nero 
Captulo IV -Pela primeira vez, Jesus 
Captulo V -O novo Templo 
Captulo VI -Conhecendo Jesus 
Captulo VII -Na Seara do Mestre 
Captulo VIII -Terrvel tragdia 
Captulo IX -Roma em chamas 
Captulo X -O terrvel holocausto 
Captulo XI -O incio das dores 
Captulo XII -Pedro, o apstolo 
Captulo xm -Os terrores do crcere 
Captulo XIV -O terrvel suplcio 
Captulo XV -A caada 

Eplogo 

Palavras do Autor Espiritual 

Nos primrdios do movimento cristo, o homem comum achava-se, 
indiscutivelmente, em situaes ainda piores das que hoje se 
encontra, apesar da triste constatao, depois de se ponderar, 
seriamente, que a evoluo muito pouco ou quase nada avanou, 
durante o transcorrer desse lapso de mais de dois mil anos de 
Histria. Contudo, enganam-se os que assim pensam!... E bem 
possvel que a tirania e a vilania tenham ganhado tonalidades um 

#
pouco mais suaves de disfarada polidez, mascarando o real sentido 
de sua frieza e crueldade, mas, se cotejarem as duas pocas, poder-
se-, facilmente, aferir que boa parte da humanidade encontra-se j 
bem distanciada do nivelamento brutal que antes atingia a 
esmagadora maioria das criaturas. 
Se, no grande panorama do mundo, o homem ainda  o grande 
sofredor -vtima de sua prpria incria e insensatez! -, por outro 
lado, o avano das conquistas sociais no campo da previdncia e 
assistncia, embora incipiente, j  algo que se mostra palpvel, 
mormente nos pases ricos, fato que prova o real avano em direo 
 irmanao de todos os homens, aplainando, assim, 
equitativamente, os brutais desnivelamentos sociais, os principais 
causadores da segregao e do preconceito raciais. 
Na Roma de antanho, panem et circenses -po e circo -para 
engambelar e desviar a ateno da massa ignara e embrutecida; 
hoje, os modernos escravocratas usam de artifcios e subterfgios 
no menos engenhosos e eficazes para alongarem, ao mximo 
possvel, o imprio das trevas da ignorncia, a geradora de uma 
srie de vantagens para os que almejam locupletar-se  custa do 
sangue humano!... Entretanto, Jesus, o insigne Senhor da Luz, 
permanece fiel  Sua promessa de Consolador do Mundo e, embora 
tanto tempo j tenha se transcorrido desde a Sua passagem pelas 
terras da Palestina, Sua mensagem de paz e de consolo ainda no 
perdeu a validade: mantm-se mais evidente e atuante que nunca, a 
consolar os coraes aflitos e a dar esperanas de que a vida no se 
finda sob a fria lpide de um tmulo; que continua, que vai mais 
alm, a descortinar-se em regies distintas, a receberem o homem, 
segundo as obras que realizou no mundo, e no mais lhe dando 
estapafrdias promessas simplistas de um cu de contemplao, 
calcado na imobilidade ociosa, mas, sim, de trabalho constante, em 
prol da prpria evoluo, e da busca de conhecimentos infinitos, 
consoante a grandeza do Criador; nem, ainda, a ameaa de um 
inferno terrificante e assombroso, que lana o homem  danao 

#
eterna, sem a mnima chance de perdo e de reabilitao!... Que 
Deus seria esse?... Que Pai de Misericrdia Infinita condenaria os 
prprios filhos a tal degredo, sem qualquer chance de retorno a 
Seus braos?... Nem mesmo o mais mpio dos homens relegaria  
sua prole tamanho castigo!... 
Felizmente, o dealbar de Nova Era faz-se no horizonte da Terra!... A 
Cincia, a incontestvel aliada da Verdade, aponta, 
indiscutivelmente, para o alto, desvelando os segredos do cosmo 
infinito e, ao mesmo tempo, aponta para baixo, revelando a 
intimidade do infinitamente pequeno, e ai daqueles que tentarem, 
doravante, pr-lhe a mordaa!... A Liberdade de Expresso, 
finalmente, veio, como alavanca imprescindvel  Evoluo da 
Humanidade, e a Verdade emergir, cantando as imarcescveis 
glrias do Criador de todas as coisas! 

Tupi Paulista, outono de 2006. 

Eusbio Sintra 

Captulo I 
Mais uma vitria. 


Caius Petronius Tarquinius, do alto de sua montaria, observa 
melanclico o campo de batalha, pejado de cadveres. Uma saliva 
espessa, carregada de forte gosto amargo, invade-lhe a boca, e ele 
cospe, repetidas vezes. "Mais um galardo para depositar aos ps 

#
daquele monstro", pensa, enquanto sente a boca enchendo-se, novamente, 
daquela baba absintada, e uma insofrevel vontade de 
vomitar advm-lhe, fazendo-o curvar-se, acentuadamente, sobre a 
sela de seu cavalo, para premer fortemente o ventre. A voz de um 
de seus ordenanas tira-o daquela estranhssima posio em que se 
colocara. 
-Alguma ordem mais, general? 
-No, filho -responde ele com a voz fraca. -Faze soarem o toque 
de recolher e levantarem a flmula de descanso. Que se distribuam 
raes de gua e de po. Dentro de duas horas, recolheremos nossos 
mortos e lhes daremos as honradas sepulturas. 
-Estais passando bem, comandante?... -pergunta o jovem ordenana, 
percebendo que o outro se encontrava excessivamente 
plido. -Desejais que vos traga um mdico? 
-Faze isso, Valerius -diz Caius Petronius Tarquinius. -Chama 
Cesonius, que eu o aguardarei em minha tenda. 
Pouco depois, o velho general encontrava-se estirado sobre o catre 
recoberto de peles, e o mdico examinava-lhe, cuidadosa e meticulosamente, 
o abdmen. 
-Di aqui, comandante? -pergunta o facultativo, apalpando-lhe, 
fortemente,  direita do alto ventre. 
-Sim, a, Cesonius!... -responde ele, com um gemido, e contorcendo 
as feies num esgar doloroso. -Exatamente a onde apertaste!... 

-Tendes o fgado em frangalhos, comandante!... -diz o mdico, 
encarando-o. E prossegue, demonstrando profunda preocupao: Pela 
palpao, pude depreender que o rgo apresenta-se bastante 
avolumado; o ingurgitamento de vosso fgado  patente! 
O outro se limita a olh-lo, esperando que lhe desse o resultado da 
anamnsia. 
-Por ora, pouco posso fazer por vs; a no ser prescrever-vos 
infuses de matricria e de absinto e parcimnia na alimentao e, 
ainda, a completa abstinncia de vinho. Entretanto, quando 

#
chegardes em Roma,  preciso que consulteis os sacerdotes de 
Aesculapius,1o mais depressa possvel -observa o mdico. 
Caius Petronius Tarquinius emite longo suspiro e nada diz. Depois, 
com um aceno de mo, despede o mdico, que se afasta, fazendo 
ligeira reverncia. A cabea principia a martelar-lhe, nas tmporas, e 

o gosto amargo na boca -lhe insuportvel. Deitado de costas sobre 
o catre forrado de peles, olha desalentado para o teto da tenda. 
Estava no fim. Sabia que o fim se lhe aproximava sorrateiro, cruel. 
Cospe a saliva grossa e amarga, e o cheiro de carne assada que se 
preparava no acampamento invade o ar, causando-lhe mais enjo 
ainda. Ouve o riso e a algazarra dos jovens soldados -seus 
ordenanas -que bebiam vinho e jogavam dados, animadssimos, no 
grande ptio, diante da tenda. "Ah, a juventude...", pensa ele, 
olhando para as listras azuis e brancas da cpula da tenda. "Que se 
reserva a essa juventude?..." Sabia que bom futuro no aguardava o 
povo romano. Tanta glria, tanta riqueza!... Os donos do mundo!... 
A guia voava soberana pelos quatro cantos da terra. Entretanto, 
no estava ele ali, na Glia, terminando de abafar mais uma 
rebelio? Quantas j no haviam acontecido?... Fecha os olhos e os 
preme forte. Estava cansado. Lembra-se da esposa, e profunda 
emoo invade-o. "Ah, Drusilla, que falta me fazem teus carinhos e 
teus conselhos!... Haver, em todo o Imprio, criatura mais sbia 
que tu?...", pensa ele e esboa um sorriso. 
Somente a lembrana da mulher amada para faz-lo esquecer-se, 
temporariamente, dos desgostos que o vinham acometendo fazia j 
um bom tempo. "Sempre foste desmedidamente perfeita, durante 
esses anos todos; apenas pecaste numa s coisa, minha doce 
Drusilla: no me deste o to sonhado herdeiro, o fruto de nosso 
amor!..." -Agora, duzentos sestrcios!... 
-No,  muito!... 
-Ests com medo?!... 


1Esculpio, o deus da medicina, na mitologia romana. 

#
De fora, vem a saudvel arenga e os gritos efusivos dos soldados, 
comemorando os resultados das partidas de dados. Isso o faz 
cogitar sobre o futuro daqueles rapazes e pensar sobre a sua prpria 
vida. Como desejara ter um filho!... Entretanto, os deuses 
permaneceram insensveis aos seus rogos, aliados aos de sua 
adorada Drusilla Antnia, que tambm no se cansara de suplicar 
aos imortais, freqentando-lhes, insistentemente, os diversos 
templos, espalhados por toda a cidade, e at haviam ido, em 
peregrinao, a santurios estrangeiros, famosos pelos milagres l 
concedidos. Tudo em vo!... Quantos orculos no haviam 
consultado?... Foram tantos os sacrifcios feitos em honra de tantos e 
de to variados deuses!... Foram tantos os aruspcios!... E, a resposta 
era sempre e invariavelmente a mesma: 'Tereis muitos filhos!..." O 
tempo escoara-se, e tanto ele quanto Drusilla Antnia envelheceram, 
sem terem recebido a graa de gerar o to sonhado herdeiro!... E, 
com que pesar carregaram o eterno desgosto de verem frustrar-se, a 
cada dia que passava, o sonho eternamente acalentado e nunca 
realizado, culminando, por fim, na senectude de ambos e na cruel 
constatao de que o que to ardentemente desejavam no se 
realizariajamais!... Por isso, talvez,  que se afeioava tanto queles 
jovens, filhos de patrcios amigos seus, que faziam questo de 
coloc-los nas mos dele, para que os ensinasse a serem homens de 
verdade!... Toda a Roma sabia que o general Tarquinius tratava seus 
comandados como se fossem todos filhos seus!... 
Caius Petronius Tarquinius d um gemido de dor e tenta se virar no 
catre, procurando uma posio melhor. Roma... O que as legies ora 
faziam era abafar as rebelies; havia revoltas em quase todas as 
provncias. O imperador2 no tomava conhecimento: at j havia 
abandonado a Hispnia e a Britnia. As legies l sediadas haviam 
debandado e se passado para o lado inimigo!... O canalha apenas se 

2.Referncia a Nero Cludio Csar (37 -68 d.C), imperador romano. 

#
dignara a decretar que os comandantes das guarnies sediadas 
naquelas regies, dali para frente, passavam a ser considerados 
traidores da ptria e os execrara publicamente. Em outros tempos, 
tais insubordinaes afigurar-se-iam sobremodo intolerveis e 
seriam afogadas num mar de sangue!... Quem diria!... 
Simplesmente, aquele imbecil abominava, publicamente, os 
insurretos e decretava que no passavam de vis traidores e inimigos 
da ptria!... Havia feito tais coisas, dramaticamente, diante do Frum 
e ido ao teatro tocar lira e cantar para uma scia de bajuladores!... 
Ser que estariam todos cegos?... No enxergavam que o trono 
estava ocupado por um monstro?... Um monstro parricida!... Havia 
fortes indcios de que mandara envenenar o prprio pai adotivo!... 
Claudius gozava de invejvel sade ao morrer. E Agrippina, sua 
me?... Fazia um ano j que havia morrido, e todos sabiam que a 
tinha mandado assassinar, alegando um pretenso crime de lesa-
majestade!... A que ponto tinham chegado?... E a imperatriz 
Otavia?... No conseguindo repudi-la, como pretendia, sob a acusao 
de adultrio, posto que a esposa sempre lhe fora fiel, 
subornou seu pedagogo, Anicetus, que acabou por confessar ter 
abusado da infeliz, condenando-a, assim, ao repdio e  morte! Vosso 
remdio, comandante. 
A voz do herbanarium tira-o das reflexes. Com alguma dificuldade, 
senta-se no catre, apanha o clice que o outro lhe estende e ingere a 
beberagem, em largos goles. 
Novamente s, deita-se no grabato recoberto de peles. A lembrana 
do antigo imperador f-lo sorrir. Claudius havia criado um monstro 
pior que ele prprio!... Que maldio abater-se-ia sobre a famlia 
Domitia?... Sabia-se que procediam de dois dos mais valorosos 
ramos de distintssimas famlias do patriciado romano, os Calvinus e 

3.Referncia a Tibrio Cludio Druso (10 a.C -54 d.C), 4o imperador romano e 
antecessor de Nero. 

#
os Enobarbus; entretanto, a loucura vinha, insistentemente, 
acometendo-os, um atrs do outro!... Agora, este que detinha a 
coroa, mostrava-se mais cruel e mais desumano que todos os seus 
antecessores juntos!... 

L fora, a tarde caa lenta, e os rapazes haviam se aquietado. Certamente, 
estariam comendo e, apenas, ao longe, ouviam-se algumas 
gargalhadas. 
-Trago vosso almoo, comandante? -pergunta um dos cozinheiros, 
entrando na tenda. 
-No, no desejo nada -responde ele e se levanta, meio cambaleante. 
Encaminha-se para fora, e a luz do sol f-lo premer os olhos, para 
acostum-los  forte claridade. As sentinelas que guardavam a 
entrada de sua tenda empertigam-se  sua passagem, batendo os 
taces das caligae4 umas s outras. Ele d alguns passos diante da 
tenda e observa a imensido de tendas quadradas que se armavam, 
no ligeiro declive do campo que se estendia para baixo, em direo 
do vale verdejante. O acampamento encontrava-se quieto; os 
soldados, possivelmente, faziam a sesta. Ainda tinha uma tarefa a 
desempenhar, antes de voltar para casa: precisava enterrar os 
mortos daquela derradeira batalha. Havia dado uma trgua aos 
remanescentes inimigos para que recolhessem os cadveres dos 
seus; agora, era preciso que ele recolhesse os dele. Estava cansado 
daquilo, no mais sentia o prazer, o indescritvel prazer da vitria. 
Seria, certamente, aclamado pelos patrcios e pela plebe e recebido 
com mais um aparatoso triumphus5 e incontveis honras pelo... 
Como estava enojado!... Sentia-se enojado at em pronunciar-lhe o 
nome. Um prncipe!... At onde havia chegado!... E, a dizer-se que 
havia lutado para p-lo no trono!... Deveria era ter-se juntado aos 

4. Calado militar, usado  poca. 
5. Na antiga Roma, entrada solene e aparatosa que a cidade fazia aos seus 
generais vitoriosos 
#
que desejavam mat-lo!... Oh, como se arrependia de t-lo 
defendido!... Agora, pouco poderia fazer para desalojar aquela fera 
e expuls-lo a pontaps do palcio real!... Sentia-se fraco, doente... 
Aquele verme enganara a todos!... Nos primeiros cinco anos de seu 
governo, mostrara-se to humano, to afvel no trato!... Relegara ao 
seu praeceptore,6 Sneca,7 e  me,Agrippina, as questes mais 
importantes do governo; a si, autodenominara-se de eterno 
aprendiz de ambos, ouvindo e deles acatando os sbios conselhos. 
Entretanto, pouco demorou para que a fera que dentro dele 
dormitava revelasse as fauces mais horrendas que se podia 
imaginar!... Bem depressa tratou de desfazer-se de seus dois mais 
preciosos alter egos: a me e o preceptor; quela, depois de 
inmeras tentativas de mat-la, simulando acidentes dos quais ela, 
milagrosamente, conseguira safar-se inclume, viu-se enredada, por 
fim, numa infame intriga, urdida pelo filho que, por esse tempo, j 
se havia aliado aos piores tipos de pessoas que possam existir, 
conseguindo, assim, justificar-lhe o torpe assassinato, atravs de um 
inexistente crime de lesa-majestade; ao professor, amigo e filsofo, 
que to esplendidamente o iniciara nas artes de bem governar, 
imputara-lhe o crime de alta traio, juntamente com o poeta e 
escritor Petronius, 8 incluindo-os no rol dos que tomaram parte na 
conspirao dos Pises, que pretendiam assassin-lo. A Sneca, 
condenou-o a cometer suicdio; ao grande poeta Petronius, condenou-
o  morte por decapitao. 

6.Preceptor, em latim. Na antiga Roma, mestre encarregado da educao de 
crianas, no lar. 

7. Lucius Aneus Sneca (02 -66 d.C), filsofo nascido em Crdoba, Espanha, e 
desencarnado em Roma. 
8. Titus Petronius Arbiter, escritor e poeta latino, nascido na Glia, famoso pelo 
Satiricon, obra em que descreve, com excelente valor histrico, os desmandos, a 
degradao dos valores morais e a dissoluo dos costumes, ocorridos  sua 
poca. Foi condenado  morte por Nero, em 66 d.C. 
#
-Morbi animi perniciosiores sunt quam morbis corporis...9 -murmura 
baixinho e sorri. Depois, prossegue, cheio de amargura: -Eu tenho o 
corpo podre, e ele, a alma!... 
-Comandante!... 
Caius Petronius Tarquinius acorda um pouco irritado com os trs 
rapazes que se achavam ali diante dele, olhando-o, apreensivos. A 
custo, adormecera havia poucos minutos e sonhava com Drusilla 

Antnia. No sonho, encontrava-se em sua villa, deitado no triclinium, 
recostando a cabea ao colo da esposa, e ela lhe afagava, docemente, 
os cabelos, e ele se sentia deleitar, com a suavidade dos toques da 
mo dela. 
-Soubemos que vos encontrais doente, comandante!... -diz, preocupado, 
um dos rapazes. 
-No h nada de grave, Antoninus -diz ele, mentindo e se levantando 
do leito. 
-De fato, vossa aparncia no  das mais agradveis, comandante! observa 
um outro rapaz. 
-Sim, general -diz o terceiro jovem -, vossa pele encontra-se um 
pouquinho esverdeada! 
-Acho que exageras, Silverius!... -exclama o velho comandante, mal 
disfarando a irritabilidade que o acometia. E prossegue, depois de 
beber longos e muitos goles de uma taa com gua: -Apenas uma 
ligeira indisposio. No h motivo para tanta preocupao! 
Os rapazes entreolham-se, muito pouco convencidos da veracidade 
das palavras do velho general. 
-"Nullus locus est domestica sede iucundior! 10 " -exclama Caius 
Petronius Tarquinius, esforando-se para mudar o humor cido que o 
invadira. -Vamos para casa, que nossa misso aqui j se cumpriu!... 

9."-As doenas da alma so to perniciosas quanto as do corpo...", em latim. 

10.  Nenhum lugar  mais bonito que o prprio lar!, em latim 
#
Julius Vindex continua o vice-pretor da Gaula Cisalpina, e nada mais 
temos que fazer por aqui!... 
Os rapazes entreolham-se, e seus olhos fascam de alegria. 
-Levantemos o acampamento e rumemos para casa!... -ordena 
resoluto Caius Petronius Tarquinius. 


***** 
Drusilla Antnia passeava pelas alias floridas do viridarium11 de sua 
villa. Naquela manh, despertara feliz; sonhara com Caius Petronius 
e se animara mais ainda, pois tinha a certeza de que o marido estava 
retomando para casa. Sabia que ele no andava bem, ultimamente, e 
at j havia se queixado a ela, diversas vezes, sobre as fortes e 
constantes dores que vinha sentindo no abdmen. "Tu tens o fgado 
opilado. Por que no vais at o templo de Aesculapius!... Quem sabe 
l no te daro um jeito?...", dissera, preocupada, a ele. "No tenho 
tempo para isso agora, minha cara!... Em primeiro lugar, chama-me 

o dever!... Os infames gauleses, uma vez mais, esto a dar-nos dores 
de cabea e  preciso mostrar a eles quem  que manda!...", 
respondera ele, rindo-se das preocupaes dela. Por isso  que o 
amava e admirava tanto!... Pensava sempre na ptria e nos outros, 
acima de tudo!.. . Drusilla Antnia sorri, cheia de ternura, ao 
rememorar-lhe as feies queridas. Quantas vezes ele no declinara 
de coisas de que tanto gostava, somente para atender-lhe os 
mnimos caprichos?... E, ela se sentia lisonjear, ao v-lo adulando-ae 
a cobrindo, sempre, de mimos e de eternas carcias!... Ah, nem 
mesmo o tempo, que a tudo corri, conseguira menoscabar o amor 
deles!... 
-Domina, um mensageiro da parte do nobre senador Cornlius 
Helvetius acaba de trazer-vos uma mensagem -diz uma criada, 
aproximando-se e a tirando desses pensamentos e lhe estendendo, 
com ligeira reverncia, a correspondncia, envolta num pano de 
linho branco. 
11. O jardim, nas antigas casas romanas. 
#
Dulcina Antonia l as palavras nervosamente rabiscadas na cera da 
tabula, 12 numa caligrafia j bem conhecida sua, e semblante carrega-
se de preocupao 
-Dulcina, depressa, manda Iustus preparar a liteira!... -ordena ela 
para a criada. E prossegue, encaminhando-se, ligeira, para dentro 
de casa: -Vou sair dentro de meia hora!... Vamos, avia-te, sem delongas, 
que tenho muita pressa!... 
Pouco tempo depois, enquanto transpunha os poucos quilmetros 
que separavam a sua casa da esplndida residncia do velho amigo 
de famlia e sacolejando, de leve, ao sabor dos passos dos 
carregadores de sua liteira, Drusilla Antnia cogitava sobre o que 
desejaria de si Cornlius Helvetius, para t-la chamado, assim, s 
pressas. 


-Ave, carssima Drusilla!... -recebe-a o venervel tribuno, no atrium 
de sua manso. 
-Ave, nobre Cornelius!... -diz ela, abraando, ternamente, o adorado 
amigo. E prossegue, enquanto se encaminhavam para o tablinum13, 
ainda repousando, amorosamente, os braos em redor do pescoo 
do velho senador: -No me digas que pioraste!... 
-Ah, Drusilla, Drusilla!.... -exclama Cornlius Helvetius, osculando-a, 
terna e respeitosamente,  face. -Que bom que vieste, atendendo ao 
meu chamado!... 
Uma vez acomodados no tablinum, refestelados em confortveis 
cadeiras de buinho tranado, e servidos de bandejas de guloseimas, 


12. Pequena placa de madeira, marfim ou metal, escavada para conter camada de 
cera, na qual os antigos romanos escreviam com um estilo -pequena haste feita 
de osso, madeira ou metal, com uma extremidade pontiaguda e a outra 
espatulada. 
13. Nas antigas casas romanas, era o lugar mais ou menos reservado, onde o 
anfitrio recebia os amigos e onde guardava os documentos da administrao 
domstica  modernamente, o escritrio. 
#
que serviais prestimosos depuseram em rica mesa baixa, lavrada 
em madeira de lei, tauxiada em marfim e ouro, prosseguem a 
conversa. 
-Dize-me, Cornlius, que  que te apoquenta, assim, a cabea? pergunta 
Drusilla, encarando-o, amorosamente, nos olhos, como era 
de seu feitio. 
-Oh, minha boa amiga!... -exclama o velho senador, com a voz 
carregada de ternura por aquela mulher, a quem aprendera a amar 
e a respeitar, como a uma irm, e que, coincidentemente, era a 
esposa de seu melhor amigo e companheiro de tantos anos. E 
prossegue, com a voz embargada pela emoo: -Tu e Caius 
Petronius sempre me fostes to amigos e sempre estivestes a meu 
lado, nos bons e, tambm, nos maus momentos de minha vida!... -e 
se cala, por instantes, com a voz reprimida pela forte emoo. 
Drusilla Antnia limita-se a encar-lo, tambm fortemente tocada 
pelas palavras do amigo. 
-No  segredo para ningum o fato de eu me encontrar muito 
doente, minha cara... -prossegue, por fim, o velho senador, aps 
forte esforo para reprimir as emoes que o invadiam. -Entretanto, 
 a ti e  teu esposo a quem devo confiar minhas derradeiras 
vontades... 


-Ora, Cornelius!... Deixa de dizer asneiras!...-exclama a matrona, 
ralhando, amorosamente, com o amigo. -No creio que me tenhas 
aqui chamado para tais coisas!... 
-Sim, Drusilla, sei que esse assunto pode parecer-te penoso, mas  
intil posterg-lo! -diz o velho tribuno, emitindo longo suspiro. E, 
depois, fixando, demoradamente, o nada, como se ordenasse as 
idias para o que iria expor, prossegue: -Tu e Caius Petronius sois, 
na realidade, os nicos e verdadeiros amigos que possuo neste 
mundo!... 


#
-No, Cornlius!... -atalha Drusilla. -Tens a Susanna Procula, tua 
adorvel neta, e a Iulius Maximus, teu sobrinho, filho de tua irm 
Metella!... Ests, por acaso, esquecendo-te deles?... 
Cornlius Helvetius fixa, demoradamente, na amiga, um par de 
insones e lassos olhos e abre um sorriso triste. Depois meneia, lentamente, 
a cabea e prossegue: 
-Ah, minha cara, para que, prematuramente, no concluas que 
ando caducando, deixa-me expor o que acontece!... Antes de te 
mandar chamar, aqui esteve meu mdico, a quem ordenei 
buscarem, s pressas, depois de eu ter passado uma noite terrvel, 
premido por dores insuportveis em meu estmago. Quando, de 
manhzinha, pude, finalmente, conciliar o sono, no consegui 
descansar por muito tempo, pois, em uma hora e pouco, acordei-me 
sufocado por um vmito sanguinolento. Servula e Priscus 
socorreram-me, s pressas, com uma tisana de menta e limo, o que 
favoreceu, ao menos, temporariamente, a hemstase, conforme me 
asseverou o mdico; entretanto, ele no me deixou qualquer iluso, 
minha cara: meu fim est prximo!... 
-Oh, meu amigo!... -exclama Drusilla Antnia, com os olhos 
mareados de lgrimas. -Que tristes notcias ests a dar-me!... 
-Entretanto, como sabes, Susanna Procula ainda  uma jovenzinha 
de catorze anos, e eu lhe tenho sido o pai e a me, desde que perdeu 
os genitores, quando ainda era um beb recm-nascido! 
-Sim, meu amigo!... -diz Drusilla Antnia, abrindo ligeiro sorriso, 
ao recordar-se dos atrapalhos pelos quais o av tivera que passar, 
ao ver-se, de repente, s voltas com um bebezinho de poucos dias. Tu 
realmente tiveste que abandonar tudo, para te dedicares  
criao de tua neta!... 
-Sim, Drusilla!... Por ela, abandonei tudo!... -exclama o velho, com 

o rosto repentinamente iluminado, ao lembrar-se de coisas que, 
efetivamente, deram-lhe prazer no passado. E prossegue, como se 
ganhasse inusitado vigor: -E tu, embora nunca tivesses sido me, 
de que valia me foste!... 
#
-Puro instinto maternal, meu caro!... -exclama a matrona, rindo-se. 
E continua: -Puro instinto maternal!... Tu sabes que eu sempre fui 
doida por um beb!... 
-Eu havia perdido meu filho, Cneius Cornlius, na guerra, e minha 
adorvel nora, Luclia Augusta, foi-se, em seguida, de complicaes 
do parto, legando-me o rebento do amor deles: Susanna Procula!.... 
No fosse a existncia de minha neta, eu, possivelmente, teria 
sucumbido de dor, j naquela poca!... 
-Sei que no te foi fcil perder a famlia toda, assim, de repente, 
meu caro!... -diz Drusilla Antnia. -Ainda bem que os imortais 
legaram-te Susanna Procula, para consolo de tua velhice!... 
-Sim, Susanna Procula  a luz dos meus dias de velhice; entretanto, a 
danadinhaest a dar-me terrveis preocupaes... -diz o velho senador, 
segurando a cabea com ambas as mos. E prossegue, em 
tom de desabafo: -Imagina que agora vive intrigando-se com a 
idia de que nada sabe sobre si, que desconhece, completamente, 
tudo sobre os pais, que a deixaram ainda quando era um beb, e 
coisas assim!... 
-Adolescentia, meu caro, adolescentia!... -diz Drusilla Antnia, rindo-se 
do excesso de preocupaes do amigo. -No te esqueas de que 
essa fase da vida  deveras cheia de confuso!... 
-Seria exagero de minha parte o fato de estar preocupando-
me, assim, com as atitudes de minha neta, no fosse a persistncia 
que ela demonstra, digo, quase uma fixao, em descobrir os gostos 
e preferncias que tinham os pais, em relao a vestimentas, 
comidas, passatempos... Imagina, cara Drusilla, que vive nos 
templos, principalmente o de Vesta14, a ofertar incensos e sacrifcios, 
um atrs do outro, em busca de augures!... Deseja, ardentemente, 
conhecer o futuro que a aguarda, se vai casar-se logo e com quem!... 
Que criatura!... Manda-me  morte, antes da hora!... 

14. A deusa do fogo, na mitologia romana. 
#
-Oh, meu bom Cornlius!... -exclama Drusilla Antnia, procurando 
reconfortar o amigo. -Tu te preocupas  toa!... Tua neta  uma 
criatura adorvel, cheia de sade e, principalmente, belssima! ... 
-A  que reside minha maior preocupao, Drusilla!... -diz o velho 
senador, demonstrando excesso de preocupao. -A  que est o 
maior problema: a beleza de minha neta  realmente estonteante, e 
isso tem chamado a ateno de metade dos homens de Roma sobre 
ela!... 
-E isso no deveria ser motivo de orgulho para ti? -pergunta 
Drusilla Antnia, olhando-o com ar divertido. 
-Tu conheces muito bem Susanna, minha cara, posto que me ajudaste 
a cri-la!... Sabes o quanto  vaidosa, desde quando era peque-
nina!... Parece que a danadinha sempre teve noo da beleza com 
que lhe presentearam os imortais e comea, finalmente, a descobrir 

o fascnio que tal coisa exerce sobre os homens!... 
-De fato, a beleza pode tomar-se perigosa arma nas mos de quem 
no sabe manej-la!...-concorda Drusilla Antnia, agora, tambm, 
preocupando-se. -Tu sabes o quanto andam mudados os tempos... 
-Roma envergonha-me!... -exclama Cornlius, com a fisionomia 
arriada pela amargura. E, depois de estirar os lbios, numa larga 
expresso de desprezo, prossegue: -Longe vo os dias gloriosos de 
nossa ptria!... Por todos os lados, grassa a corrupo, impera a degradao 
dos valores mais sagrados e recrudesce a devassido!... 
No h limites para mais nada!... 
-As vezes, compenso minha frustrao por no ter dado  luz o 
herdeiro que meu adorado Caius tanto desejou, pensando no 
mundo que essa criana iria encontrar!... -diz a matrona, sria. Como 
poderamos nos sentir felizes e sossegados, sabendo que, por 
todo lado, viceja o crime, a degradao e os vcios mais aviltantes?... 
-Agora tens a exata medida de minhas preocupaes, cara Drusilla!... 
-exclamao velho senador, encarando-a, srio. E prossegue, 
depois de engolir em seco, por diversas vezes, como que a indicar 

#
que tinha que deglutir algo realmente muito indigesto e que o 
estava deveras incomodando. -Tu sabes agora o quanto me 
preocupa ver minha neta por a, sendo assediada por todos os 
lados!... -e se cala, fixando o vazio. 
-Sei que isso te incomoda muito, Cornlius -diz, sria, a matrona -, 
entretanto tenho que te dizer: a educao que deste a Susanna fez 
dela uma jovem muito independente e no te ser fcil pr-lhe os 
freios, agora que cresceu!... 
-Tens toda a razo, minha amiga!... -concorda o senador. E prossegue, 
altamente amargurado: -Eu a criei, dando-lhe plena e total 
liberdade!... Agora, faz o que deseja e no aceita que ningum lhe d 
ordens!... 
-Por outro lado, acredito que isso seja passageiro, coisas da idade, 
que -queiram os imortais!... -seja, realmente, apenas uma fase!... 
-Mas, o que mais me preocupa, querida Drusilla,  que estou no 
fim... -diz o velho, grandemente alquebrado. -Acho que tenho pouqussimo 
tempo de vida, e como ficar minha netinha?... 
Drusilla Antonia levanta-se da cadeira e abraa, condoda, o velho 
amigo. Duas grossas lgrimas rolavam-lhe pelas faces 
emurchecidas. 
-Ora, Cornlius, onde est o leo que conheci?... -ralha ela, 
amorosamente, com o amigo, e lhe afagando, ternamente, os 
encanecidos e ralos cabelos, prossegue: -No vim at aqui para 
ouvir-te falar asneiras!... 
-No digo tolices, Drusilla!... -diz o velho, abrindo-se em lgrimas. 
A ternura e os carinhos que recebia da amiga acabam por desarmlo 
ainda mais, e ele chora, e diz, entre soluos pungentes: -Tu sabes 
que  verdade!... Definho a cada dia!... As dores so-me 
insuportveis!... 
-Olha, Cornlius -diz Drusilla, ajoelhando-se diante dele e lhe 
tomando as mos entre as suas -, se, de fato, essa tolice que dizes 
venha a realizar-se, juro-te, tomaremos, eu e meu adorado Caius, o 
lugar que ocupas na vida de Susanna!... Garanto-te, tua menina no 

#
ficar desprotegida neste mundo!... Ns a defenderemos como se 
fora tu prprio!... Fica tranqilo!... 
-Oh, Drusilla, Drusilla!... -repete o velho, chorando e se abraando  
amiga. -Somente tu e Caius para ocupardes o meu lugar!... 
Ningum mais mereceria minha confianae meu respeito!... Oh, que 
peso tiras de meus ombros!... 
L fora, o dia avanava lindo, azul, com toda a fora da primavera, e 
Drusilla Antnia envolveu o velho amigo em temo e caloroso abrao, 
e lhe osculou, repetidas vezes, as faces banhadas de lgrimas. 
Pouco depois, percebendo que o amigo tranqilizava-se um pouquinho 
mais, Drusilla Antnia retoma o dilogo: 
-A propsito, onde se encontra Susanna! 
-Saiu bem cedinho, como sempre faz, s sextas-feiras, para ir ao 
templo de Apolo15, que, como sabes,  quando os augures lem o 
futuro no vo dos pssaros!... -exclama o velho, rindo-se. -E tu 
achas que Susanna iria perder isso?... Nem mesmo sabendo que eu 
no passava bem foi motivo para ret-la em casa!... Prometeu-me, 
entre uma nuvem de beijos que me enviava pelo ar, que iria oferecer 
um novilho a Jpiter Capitolinus16 pelo meu rpido restabelecimento, 
mas que j havia marcado encontrar-se com Iulius Maximus, e que 
no iria deix-lo l, esperando por ela, como um tonto. "Sabes como 
Iulius  irascvel, no  vov?...", disse-me ela, gritando l de fora. 
"Se eu o fizer de bobo, nunca mais me acompanhar aos espetculos 
no Circus Maximus,17 e sei que tu, com toda a certeza, nunca me 

15. Deus da luz, das artes e da adivinhao -a personificao do Sol, na mitologia 
romana. 
16. O pai dos deuses, na mitologia romana. 
17. Antiga praa de arena, onde se realizavam espetculos pblicos com 
gladiadores, feras e outros de carter circense. Posteriormente, o imperador 
Vespasiano iniciou a construo do Coliseu ou anfiteatro Flvio, em 69 d.C, e seu 
filho Tito terminou-o em 80 d.C Esse novo circo era de propores bem maiores 
que o antigo e cujas runas persistem at os dias de hoje, na cidade de Roma. 
#
levars, no  mesmo?...", e sumiu, apressada, a danadinha, 

fechando as cortinas da liteira nas minhas fuas!... 
-E Iulius Maximus acompanha-a sempre? -pergunta Drusilla, 
demonstrando ares de preocupao. 
-No se desgrudam, minha cara!... -responde o velho senador, de 
repente, tambm mostrando-se srio. -Noto que te preocupas com 
isso e eu muito mais!... Sabes o quanto ele  violento!... Metella e o 
pai mimaram-no muito e veja no que deu!... Quintus Salvius relatou-
me, h dias, quando veio visitar-me, o que esses jovens patrcios 
vm fazendo ultimamente!... Tu ficars boquiaberta quando eu te 
contar!... Porm, antes, convido-te para almoar, e no aceito 
recusas! -diz Cornlius, enchendo-se de nimo, como se, de repente, 
os males que lhe acometiam o decrpito corpo no mais existissem. 
Drusilla Antnia sorri, agradecida. Jamais recusaria um convite do 
amigo. Como as horas haviam passado!... O dia j avanara bastante, 
e ela nem tinha percebido. 
Pouco depois, instalam-se no triclinium, refestelando-se em confortveis 
canapei18, e solcitos serviais trazem o almoo, que se constitua 
de variados e apetitosos manjares, servidos em bandejas de 
prata. O velho senador, entretanto, comia, com parcimnia, apenas 
pequenos pedaos de po os quais ele mergulhava em leite de 
cabra, adoado com mel. 
-Ultimamente, meu alimento tem se reduzido a isto, minha cara!... 
-observa ele, ao constatar que a amiga estranhava o fato de ele no 
tocar nos outros alimentos. -Divitiarum gloria fluxafragilis est.'...19 

18. Canaps, em latim. Tratava-se de uma espcie de poltrona alongada, 
normalmente forrada de palhinhas tranadas ou de lona e recoberta de 
almofades, sobre os quais era costume recostar-se, para tomar as refeies ou 
para conversar; esse mvel constitua parte da moblia do triclinium -lugar mais 
importante das antigas residncias romanas e onde se recebiam as visitas. 
19."A glria das riquezas  instvel e frgil!...", em latim. 
#
-exclama ele, olhando em derredor. Depois, prossegue cheio de 
amargura: -De que me vale todo esse luxo, se no posso dele 
usufruir?... 
-Non semper pretiosissimae res utilissimae sunt,20 meu caro amigo!... exclama 
Drusilla, condoendo-se da terrvel situao em que se 
encontrava o amigo. 

-Eu que o diga, minha doce Drusilla!... Eu que o diga!... -diz 
Cornlius Helvetius, meneando, tristemente, a cabea. E prossegue: Daria 
toda a minha fortuna em troca da sade que j no mais 
possuo!... Mas, o que te dizia sobre meu sobrinho  de veras 
terrvel!... Tu nem imaginas o que ele e outros rapazes -que 
deveriam ser a fina flor de nosso patriciado -andam aprontando 
por a ...Tarde da noite, quando se faz bem escuro, saem em 
bandos, pelas ruas, cobertos por mantos para no serem 
reconhecidos, a maltratarem e a perseguirem os mendigos, os 
bbados, as prostitutas e os retardatarios, infligindo-lhes as maiores 
judiaes!... E, o que me deixa ainda mais estarrecido  que, 
conforme me asseverou o capito Primus Quintilianus, comandante 
da guarda urbana e com quem detenho fortes laos de amizade, os 
rapazes andam afogando essas pobres criaturas nos regos dos 
esgotos, aps terem nelas descarregado toda a sua fria bestial! 
-No me espantam tais coisas, Cornelius!... -exclama Drusilla 
Antonia. -Tu no desconheces que o prprio imperador fazia essas 
mesmas bestialidades pelas ruas, at h bem pouco tempo, quando 
ainda no detinha o cetro!... 
-Sim, e deixou proslitos, por sinal!... O capito contou-me que 
recolhem, todas as manhs, pelo menos uma dezena de corpos dos 
que foram afogados na imundcie e sempre apresentando as 
mesmas caractersticas: os corpos tremendamente mutilados por 
severo espancamento! 

20."Nem sempre as coisas mais preciosas so as mais teis", em latim. 

#
-E o que te faz pensar que Iulius Maximus encontra-se entre os tais? 
-pergunta Drusilla. 
-O prprio capito afirmou-mo. Diante do grande nmero de cadveres 
encontrados em tal situao, passaram a vigiar, com mais 
ateno, as ruas mais escuras e chegaram aos executores de tais 
brutais assassinatos! E, aps minuciosa investigao, chegaram aos 
culpados. 
-Oh, se Metella e Otvio ainda vivessem, por certo, envergonhar-seiam 
do filho!... -exclama a matrona. 
-Entretanto, eu nada posso fazer por meu sobrinho, pois eleja tem 
dezoito anos e  dono de seus prprios atos!... O que realmente me 
entristece e me deixa deveras preocupado  que ele anda atrs de 

Susanna Procula como uma sombra!... E ela o admira, pois o acha 
arrojado e corajoso, e o que  pior: cuida para que os mnimos 
desejos dela sejam realizados!... Tu sabes que dinheiro nunca lhe foi 
problema, no ?... O pai deixou-lhe tamanha fortuna que nem ele 
mesmo conhece a extenso de tudo o que possui!... 
-Oh, pobre Cornelius!...-exclama Drusilla Antnia, apiedando-se da 
situao do amigo. -Comeo a entender que a tua situao no das 
melhores!... 
-E, o que me entristece mais  saber que esse jovem continua 
terrivelmente cruel, como foi, desde menino!...  triste reconhecer 
que os pais nada fizeram para moldar-lhe o carter, infundir-lhe 
novos e bons propsitos!... Que tolice pensar que a maturidade, 
como num passe de mgica, pudesse trazer firmeza de carter a 
quem nunca se preocupou em cultivar valores e preceitos essenciais 
 boa vivncia!... Minha irm e meu cunhado criaram um 
monstro!... 
-Oh, Cornlius, agora passo a compartilhar contigo a preocupao 
de que a companhia de Iulius Maximus poder influenciar o 
comportamento de tua neta!... -exclama Drusilla Antnia, apertando 
forte a mo do amigo. 

#
-J a est influenciando, minha cara!... -diz o outro, cheio de 
desolao. -Percebo, claramente, que o rapaz est perdidamente 
apaixonado por Susanna! 
-Que te faz ter tanta certeza disso? 
-O modo como ele se comporta com ela, perseguindo-a aonde quer 
que ela v como se fosse a sombra dela!... -diz ele, altamente 
consternado, e prossegue, com uma pontinha de despeito: -Traz-lhe 
mimos, faz-lhe agrados e gracejos, uns atrs dos outros, 
incansavelmente!... 
Drusilla Antnia nada diz; apenas se limita a olh-lo. O velho, ento, 
prossegue, acabando por exaltar-se: 
-Drusilla, Iulius Maximus no deixa esta casa!... At parece que se 
mudou de vez para c!... 
-E tua neta corresponde aos agrados e gracejos dele? -pergunta a 
matrona. 


-Susanna adora-o, minha cara!... -exclama Cornelius, extravasando 
cime por todos os poros. -Vivem ambos perdidos no mundo, e 
minha maior preocupao  que, na verdade, no sei o que andam 
fazendo por a!... 
-No ests, acaso, com excesso de preocupao, Cornlius?... 
-pergunta Drusilla Antonia, percebendo que o amigo roa-se de 
cime da neta. -Concordo quando dizes que Iulius talvez no seja 
boa companhia para Susanna, mas teria ele coragem de fazer mal a 
ela, se, de fato, encontra-se to apaixonado assim?... No agiria, 
acaso, ao contrrio, protegendo-a de casuais perigos que, 
eventualmente, ela correria? 
-No sei, minha cara -diz ele muito desolado. -O que realmente 
me preocupa  o rumo que as coisas esto tomando. Ao menos, se 
eu me encontrasse saudvel, poderia seguir-lhes os passos e 
averiguar o que andam fazendo por a! 
-Aquieta o teu corao, Cornelius!... -exclama Drusilla Antonia. 
-Assim que Caius Petronius regressar da Glia -e creio que isso est 
por acontecer muito brevemente -, ns te faremos esse favor. Desejo 


#
aproximar-me mais de Susanna -quem sabe at toma-me sua confidente 
-, e assim, ficaremos a par de tudo o que lhe vai pela cabea!... 
Sossega a tua alma que as coisas arranjar-se-o, no  mesmo? 
O velho limita-se a sacudir a cabea. Estava cansado. O estmago 
doa-lhe terrivelmente. Drusilla Antonia olha-o, apiedada. Levanta-
se do canapeum e, aproximando-se do amigo, enlaa-lhe 
amorosamente a cabea, atraindo-a para si. Com gestos suaves, 
acaricia-lhe, longa e demoradamente, os ralos cabelos encanecidos. 
Entendia, sim, o fogo que queimava o corao do amigo. Ele estava 
certo. Quem  que gostaria de perder o nico tesouro que lhe 
restava?... 
-Hominifelici tempus breve est, infelici longum...21 -murmura ela, 
baixinho, e beija a testa do velho amigo, que lhe sorri, agradecido. 
E, por muito tempo ainda, ela ali ficou confortando-o e lhe fazendo 
companhia. L fora, a tarde caa morna, banhada por radiante luminescncia 
primaveril. 


21. "-O tempo feliz dos homens  breve, o infeliz  longo...", em latim. 
#
Captulo II 
O regresso ao lar 


A grande praa diante do Frum fervilhava. A tarde caa quente e 
abafada, e os vendedores ambulantes apregoavam, aos gritos, suas 
mercadorias. Susanna Procula e seu jovem companheiro, Iulius 
Maximus, desciam apressados as escadarias do Capitolium1 
-Oh, no pude aproximar-me do sumo sacerdote, o quanto eu 
desejava, para suplicar-lhe uma audincia! -exclama a mocinha, 
grandemente contrariada. 
-No te apoquentes, carssima Susanna, pois te fao esse favor logo 
mais! -exclama o rapaz, cheio de si. E prossegue, puxando-a pela 
mo: -Cneius Horatius, o filho de Lucius Flamulus, o sumo sacerdote 
do Capitolium,  meu amigo e, mais tarde, conduzir-te-ei at a casa 
dele!... 
-Verdade?!... -exclama a moa, detendo-se no meio da escadaria e 
fixando o rosto do companheiro com olhos extasiados. -Vais levar-
me diante do grande Lucius Flamulus?... 
-Garanto-te isso, minha cara!... -exclama ele, puxando-a, delicadamente, 
pela mo e a incitando a segui-lo. E prossegue, animadssimo: 
-Mas, agora, vamos ao Theatrum que o imperador, em pessoa, 
dar um recital de canto, acompanhando-se  lira!... -e completa, 
meneando a cabea, divertido: -No desejo perder essa, de jeito 
nenhum!... 
-Mas, no seremos barrados,  entrada, pela guarda pretoriana? pergunta, 
preocupada, a jovem. 

1. Na antiga Roma, o magnfico templo erigido em honra de Jpiter, o pai de 
todos os deuses. 
#
-Que nada!... -diz ele, cheio de si. -Tu te esqueces de que eu tenho 
acesso at ao palcio imperial?... No vivo sendo convidado para os 
festins que l se realizam?... Nero  meu amigo de longa data, 
mesmo antes de meter as mos na coroa! 
-Ah, esquecia-me de que eras assim to chegado  famlia real!... exclama 
ela, cheia de sarcasmo. E prossegue, fazendo amuo: -Tu 
nunca te lembraste de me levar a uma dessas festas, no  mesmo? 
-Oh, pressinto que ainda no tens idade suficiente para frequentares 
as festas que se do no pao real, minha cara!... -diz ele, com 
um sorriso maroto. 
-Por qu?... Que  que tem de mais em tais festas?... -pergunta ela, 
agora de brao dado com o rapaz, enquanto atravessavam, com 
passos ligeirssimos, a longa praa retangular, apinhada de 
transeuntes que, apressados, iam e vinham de todas as direes. 
-Nem te conto, minha cara!... -diz ele, com um riso malicioso nos 
lbios. E prossegue, olhando-a de soslaio: -O imperador  mestre na 
arte de agradar e de divertir seus convidados, com coisas 
inusitadas!... A cada festa, h sempre uma ou duas surpresas 
deveras impensadas!... 
-Agora quero saber!... -exclamada, beliscado-lhe o flanco. -Tu me 
deixas curiosssima e depois no vais me contar?... 
-Ora, Susanna!... -diz ele, rindo-se. -So coisas para gente mais 
velha que tu!... No posso te contar!... 
-s um ingrato!... -diz ela, contrariada. -Tu me assanhas a curiosidade 
com tais coisas e depois nada me dizes!... 
Nesse nterim, aproximam-se das escadarias de mrmore escuro do 
Theatrum, e ele, desvencilhando-se do brao dela, precede-a, 
galgando apressado os degraus da larga escada at o grandioso 
prtico da entrada principal do magnfico edifcio que, no 
momento, encontrava-se guardada por grossa fileira de pretorianos 
armados de lanas. Aproximando-se, Iulius Maximus cochicha 
algumas palavras ao ouvido do comandante, que lhe sorri e ordena, 
sem delongas, que lhe franqueiem a entrada. O rapaz, ento, faz um 

#
sinal com a mo para Susanna, que o aguardava a alguns passos 

atrs, incitando-a a segui-lo. 
Dentro do teatro, o espetculo j comeara, e se ouviam estrepitosas 
gargalhadas, sinal de que encenavam alguma comdia. Os jovens 
entram um tanto atropelados e se sentam na arquibancada. No 
palco, iluminados por velas e pequenas tochas envoltas em seda 
colorida, dois atores, caracterizados e mascarados, como era comum 
 poca, encenavam um trecho. Um deles, pela forma caracterstica 
do corpo, que apresentava cabea redonda, pescoo grosso, ventre 
volumoso e pernas finas, bem desproporcionais ao conjunto, 
tratava-se, inegavelmente, de Nero, o imperador. O dilogo 
encenado seguia-se, acompanhado com extremo interesse pela 
platia: 

-Quomodos potes, Paule, annos gallinarum cognoscere? 

-Ex dentibus, Antonii. 

-Insanis, Pauli!...Gallinaedentesnon habent! -At ego 

habeo!...2 

A platia explode em risadas e esfuziantes aplausos. Uma sucesso 
de pequenos esquetes  apresentada, arrancando, invariavelmente, 
frenticos aplausos e gargalhadas da platia que se divertia s 
pampas. O tempo escoou-se at que o espetculo mudou seu 
carter. Da comoedia, passou  dictione, apresentada pelo imperador. 
Nero surge a seguir, no palco, vestindo rica praetexta3 e 

2."-De que maneira podes. Paulo, saber quantos anos tem uma galinha? 
-Pelos dentes, Antnio 
-Es um bobo, Paulo!... As galinhas no tm dentes! 
-Mas eu tenho!...", em latim. 


3. Toga branca, franjada de prpura, que usavam, na antiga Roma, os jovens das 
famlias patrcias, os senadores e os altos magistrados. 
#
empunhando sua lira dourada. Uma exploso de aplausos e vivas 
efusivos faz sacudir as estruturas do edifcio do Theatrum. O 
imperador, inchado de orgulho e de vaidade, sorri e se delicia com 

o estrugir da estupenda ovao que lhe tributam os mais fiis 
bajuladores. Escancarando-se em desmedidos sorrisos de satisfao, 
Nero faz ligeira reverncia, e a platia cala-se de inopino. O artista 
limpa, ruidosamente, a garganta, encara seus ouvintes com olhos 
brilhantes e principia a dedilhar o instrumento com relativa 
maestria. Principia a cantar, e a voz soa-lhe em timbre baixo, grave, 
um bartono mal trabalhado, roufenho e quase desagradvel: 
"Unda impellitur unda, 

Urgenturque prior veniente, urgetque priorem: Tmpora sicfugiunt 

pariter, pariterque sequuntur; Et nova sunt semper; nam quodfuit ante, 

relictum est; Fitque quod haud fuerat; momentaque cuncta novantur... 

"4 

O espetculo encerra-se, aps uma srie de canes apresentadas 
pelo incansvel Nero. A noite j caa quando Iulius Maximus e 
Susanna deixaram o Theatrum. A praa do Frum encontrava-se 
iluminada por uma infinidade de archotes, e as pessoas que ora 
transitavam por ela eram os trabalhadores que retomavam cansados 
para seus lares, depois de longa e estafante jornada despendida nas 

4. "Uma onda pela outra  impelida, 
Cada uma  empurrada pela que lhe segue 
E empurra, por sua vez, a que lhe precedeu; 
E assim  o tempo: os momentos fogem da mesma forma, 
E, da mesma forma se seguem; e sempre  um tempo novo; 
Pois o que anteriormente foi, ficou abandonado; 
E vem a ser o que no havia sido; 
E todos os momentos sofrem transformao..." O trecho acima pertence  XV 
Metamorfosis, de Publius Ovidius Naso, (43 a.C -16 d.C), poeta latino, tambm 
autor de "Fastus". 
#
hortas e pomares situados nos campos adjacentes ou, ainda, nas 
olarias, marcenarias ou ferrarias e mesmo no ululante comrcio que 
fervilhava na capital do imprio. 
-Acompanho-te at a tua casa, Susanna -diz o rapaz, tomando, 
delicadamente, o brao da jovem. -Sei que despachaste tua liteira 
de volta. 
-Oh, sim! -exclama ela. -Tinha a certeza de que me levarias para 
casa!... -diz ela, piscando-lhe um olho, marotamente. -S assim tomars 
acena5 comigo! 

Acomodados na liteira, de volta para casa, o rapaz toma as mos da 
jovem entre as dele, beija-as ternamente e, olhando-a firme, nos 
olhos, diz: 
-Oh, Susanna, acho que j percebeste o quanto me encontro 
apaixonado por ti!... Peo-te, aproveitemos a ocasio!... Deixa-me 
pedir a tua mo a Cornelius!... 
-Ora, Iulius!... -exclama a jovenzinha, agastando-se e retirando, 
abruptamente, as mos que ele, apaixonadamente, segurava entre 
as suas. -L vens de novo com essa insistncia!... J te disse que 
ainda no sei se  de ti que realmente gosto, entendes?... J consultei 
os augures de vrios templos, mas ainda me encontro confusa!... As 
descries que me deram de meu futuro marido nem sempre so 
condizentes contigo, percebes? 
-Oh, e tu te deixas levar por tais coisas!... -diz ele, amuando-se. 
Mas, logo em seguida, recompe-se e, tomando-lhe, de novo, as 
mos e as beijando, com fervor, prossegue: -Por que no esqueces 
os us-pices e me aceita logo por teu esposo?... Imploro-te, deixa-me 
fazer o pedido a teu av!... 

5. Tratava-se da ltima e da principal refeio do dia, para os antigos romanos, e 
se realizava  noitinha, por volta das 18 horas 
#
-Ora, ests insistindo tanto, Iulius!... -diz ela, olhando-o, firme, no 
rosto. E prossegue, irritada: -Alm do mais, sabias que meu av no 
gosta de ti? 
-Sei muito bem que Cornlius no me suporta e que nem se preocupa 
em esconder isso! -diz o rapaz, altamente contrariado. E 
emenda, com um sorriso sardnico: -Mas, o que me importa o que 
pensa de mim aquele velho decrpito?... -No  com ele que me 
casarei!... E, alm do mais, sei que anda bem prximo de descer s 
profundas do Avernum,6 a render tributos aHecate...7 Ha!... Ha!... 
Ha!... Ha!... 
-Desse jeito tu o ofendes!... -diz ela, zangando-se com o deboche 
que ele lhe fizera do av e o belisca forte, no dorso da mo. 


-Ui!... -exclama o rapaz, retirando ligeiro a mo. -At pareces uma 
gata acossada!... -e prossegue, assoprando a mo: -Entretanto, 
sabes que assim !... Ento, por que te ofendes? 
-Ofendo-me, porque gosto dele! -diz ela, zangada. -E, por outro 
lado, nada fazes prate tomares agradvel aos seus olhos!... E, 
ainda, tu te esqueces de que ele  teu tio, que foi o teu tutor, at h 
bem pouco tempo, e que, alm de mim,  o nico parente que te 
restou neste mundo! 
-Ora, tal parente eu fao questo de esquecer!... -exclama o rapaz, 
cheio de desprezo. 
-Entretanto, vives na casa dele, no  mesmo? -observa Susanna, 
cheia de sarcasmo. 
-Corrijo-te, minha cara -diz o rapaz, com o dedo indicador em riste 
-, vivo na tua casa, no na dele!... 


-

6. Na mitologia latina, o local onde ficavam as almas depois da morte. 
7. A guardi do reino das sombras, nome que recebia a deusa Diana, em seu culto 
subterrneo, na mitologia latina. 
#
-Insanis, Iulii!... 8 -exclamada, acabando por rir-se do jeito dele e 
dando um tapinha no dedo que ele lhe apontava. -Sabes muito bem 
que no tenho casa!... Eu vivo s custas de meu av, esqueceste? 
-Vives, porque queres!... -diz ele em tom de galhofa. -Se desejares, 
hoje mesmo poders mudar-te para a minha casa!... Garanto-te que 
sers a dona dela!... 
A jovem limita-se a olh-lo com olhos brincalhes. No conseguia 
brigar com ele e no conseguia, tambm, lev-lo muito a srio. 
Nesse nterim, a liteira estaciona diante da manso de Cornlius 
Helvetius. A tarde, paulatinamente, dava lugar  noite que se 
instalava num cu manchado de matizes vermelho-chama e azul-
turquesa, tpico das noites primaveris. 
Joviais e saltitantes, ambos adentram a residncia, j iluminada para 
a noite, e procuram por Cornlius, acabando por encontr-lo que 
descansava, sentado num intercolnio da exedra9. 

-Oh, por onde andaste o dia inteiro, minha pombinha? -pergunta o 
velho senador, estendendo os braos  neta que se lanava sobre ele 
e o cobria de beijos. 
-Oh, estive em mil lugares!... -exclamaela, como sempre, vivaz. -
Iulius acompanhou-me o tempo todo!... 
-Ave, carssimo Cornelius!... -diz o rapaz, saudando-o com um 
aceno de mo. 
O velho responde-lhe ao cumprimento apenas com ligeiro sacudir 
de cabea. Era patente que a presena do rapaz ali o desagradava 
muito. 
-J jantaste, vov? -pergunta ela. -Espero que no, pois convidei 
Iulius Maximus para a cena!... Vamos, estou morta de fome!... -e 

8. "-s um bobo, lulius'....", em latim. 
9. Espcie de sala de estar de formato circular e rodeada de colunas, nas antigas 
residncias romanas. 
#
dispara para o triclinium, onde os aguardavam estupendos 
manjares, servidos por pequeno batalho de solcitos criados. 
-Precisavas ver o Theatrum, vov!... -exclama Susanna, chupando a 
ponta dos dedos lambuzados de molho. -Nem imaginas quem 
estava l, em pessoa! 
-Imagino, sim, minha cara -diz o velho, olhando-a, sem muita 
animao. -O imperador... Acertei?... 
-Oh, como sabias, vov?... -pergunta ela, levando um pedao de 
cordeiro assado  boca, com apetite voraz. 
-Porque todo mundo sabe que o imperador de Roma diverte-se no 
Theatrum, fazendo palhaadas, enquanto o povo esfalfa-se para 
pagar os pesadssimos tributos que lhe so impostos e que acabam 
sendo gastos por aquele inconseqente em frivolidades e luxos desmedidos 
! -diz o velho senador, cheio de sarcasamo, e olha firme 
para Iulius Maximus que se mantivera calado at ento. 
-Nero  um esteta nato, meu tio! -exclama o rapaz, percebendo que 
o outro o provocava. -Eu mesmo j o ouvi dizer, reiteradas vezes, 
que considera o dinheiro no pelo valor que representa em si, mas 
pelas coisas belas e deliciosas que pode proporcionar! 
-Gostaria de saber se o imperador pensaria assim, se tivesse que 
gastar do prprio dinheiro, ganhado honestamente, s prprias 
custas, com suor e muito sacrifcio, como faz o povo!... Ser que 
continuaria atirando os milhes de sestrcios aos esgotos, em festas 
exuberantes, em palcios, jias, roupas, cavalos, como faz 
atualmente, a torto e a direito, sem dar satisfaes a ningum?... O 
povo j se cansa!... Ser que ele no tem exemplos suficientes do 
passado?... Sinto muito, mas no consigo prever um bom final para 
esse doido!... 
-Apessoa do imperador  intocvel, meu tio! -exclama o rapaz. E 
prossegue enftico: -Aquilae habent nidos in altis arboribus!10 
-Mas, no te esqueas de que os homens sabem muito bem como 
cutuc-las com longas varas para desaloj-las dos ninhos, meu 

#
jovem! -diz o velho senador e prossegue, com um sorriso de 
deboche: Fortuna vtrea est: tum cum splendet, frangitur!n 
O rapaz cala-se, diante do fortssimo argumento do tio. Apenas, 
limita-se a olh-lo com olhos ferozes. No ntimo, reconhecia que no 
era preo para o arguto senador que lhe era infinitamente superior 
em inteligncia, em cultura e em experincia de vida. Esforando-se 
para controlar a raiva, estende a taa ao criado que a enche de 
vinho. Depois, mergulhando aponta dos dedos na taa d'gua que 
tinha diante de si, deixa escorrer algumas gotas dentro da taa de 
vinho, para a libao12. O tio segue-lhe o ritual com os olhos. "No 
me enganas, safado!...", penso velho, observando como o outro 
sorvia o vinho com avidez. "Tu s um beberro nato!... Certamente, 
tomaste o gosto pelo vinho puro nas bacanais de que participas no 
pao imperial!..." 
-Parece-nos que o mulsum13 j no te apetece mais, caro sobrinho!... 
-observa Cornlius com sarcasmo. -Vejo que bebes o vinho quase 
puro! 
-Ora, tio, no me viste adicionar gua ao vinho? -responde, 
irritado, o rapaz. -Ademais, no me agrada o gosto de teu mulsum!... 
Acho-o excessivamente aguado! 

"Aguados so teus miolos!", teve vontade de responder-lhe Cornlius 
Helvetius. Mas, conteve-se. No pretendia agastar-me mais 
com aquele doidivanas. Por outro lado, percebia o quanto a neta 
gostava daquele idiota e no desejava indispor-se, tambm, com ela. 

10. "-As guias tm ninhos nas rvores altas!", em latim. 
11. "A sorte  como o vidro: da mesma forma que brilha, quebra-se!", em latim. 
Citao do poeta Publius Sirus. 
12 Na antiga Roma, o vinho era tomado, misturando-o com mel ou gua -o 
mulso -, pois tom-lo puro era considerado indigno de um homem de bem. 
13. Mulso, em latim. Mistura de vinho com mel ou gua, o hidromel. 
#
Muda, ento, o rumo da conversa: 
-Dize-me, Iulius, no tomaste parte, desta vez, da campanha de teu 
regimento? Pelo que me consta, o general Galba encontra-se na 
Hispnia. J deste baixa, por acaso? 
-Oh, no, meu tio -diz o rapaz, com um sorriso amarelo -, pedi 
licena ao exrcito para tratar de um problema de sade. 
-Verdade? -exclama a mocinha que, at ento, nica e exclusivamente, 
houvera se ocupado em devorar uma boa parte do lombo do 
cordeiro assado, com po e ovos cozidos. -No sabia que estavas 
doente, Iulius! 
-Oh, sim, sinto tonteiras e zumbidos  cabea! -exclama o rapaz, de 
repente empertigando-se e fingindo debilidade que, de fato, nem de 
longe, possua. 
Cornlius Helvetius limita-se a olh-lo com desdm. "Poltro, 
mentiroso!...", pensa. "O que tens  medo de enfrentar as agruras 
das batalhas!... Se, de fato, sentes tonteiras e zumbidos, certamente, 
so motivados pelos excessos que vives cometendo nas esbrnias e 
nas carraspanas que tomas por a!" 
O jantar prosseguia e, atravs das colunas do perystilium,14 era 
possvel perceber-se que a noite avanava, iluminada pela lua cheia. 
-E no procuraste um mdico, Iulius? -pergunta Susanna, 
apreensiva. 
-Oh, claro -responde o rapaz -, agora fingindo maior debilidade 
ainda, ao perceber que a jovem condoa-se dele. -Procurei Flavianus 
Taeclus, um dos mdicos do imperador, que me recomendou 
banhos e ervas. 
-E tens sentido melhoras? -pergunta a moa. 

-Relativas melhoras -diz o rapaz, olhando-a com olhos supostamente 
cheios de abatimento. 

14. Peristilo, em latim. Varanda com colunas, que davam para um jardim interno, 
nas antigas residncias romanas. 
#
-E no te proibiu o mdico de beberes vinho puro? -pergunta, 
sarcstico, Cornlius Helvetius. E prossegue, direto: -Digo-te tal 
coisa, porque o meu me proibiu at o mui sumi... No te parece 
estranho isso? 
-Acho que so doenas totalmente diferentes a minha e a tua, meu 
carssimo tio! -exclama o rapaz, fulminando o outro com os olhos 
cheios de dio. -Ademais, existem doenas para as quais o vinho  
altamente recomendado! 
Cornlius limita-se a olh-lo com desdm. "Mas, no no teu caso, 
meu caro!", pensa ele. Entretanto nada diz. Levanta-se, dando a 
entender que o jantar encerrava-se e, para irritar ainda mais o outro, 
deselegantemente, despede-se dele, beija a neta  testa e deixa o 


triclinium. 
-Teu av manda-me embora, Susanna! -exclama o rapaz, furioso. 
-Oh, Iulius, mas tu tambm tens culpa nisso! Vives provocando-oL. 
-diz ela. E prossegue, tentando acalm-lo: -Agora quero que te 
vs!... Amanh prometeste levar-me  casa do sumo sacerdote de 
Jpiter Capitolinus, esqueceste? 
-Oh, no!... No me esqueci!... -exclamaele, iluminando os olhos e 
abrindo um sorriso. -Conseguir-te-ei uma audincia particular com 
Lucius Flamulus, conforme te prometi! 
-Oh, mal posso esperar!... -diz a jovem, altamente excitada. -Acho 
que nem conseguirei dormir direito! 
-Acalma-te, minha bela!... -diz ele, beijando-lhe, amorosamente, as 
mos. -Onde nos encontraremos? 
-Na praa, diante do Comitium!.. 15 -grita ela, enquanto desaparecia 
pelo corredor que dava ao atrium.16 Certamente, encaminhava-se ao 
seu cubiculum17, para dormir. 


15. Na antiga Roma, palanque em forma de proa de navio, construdo diante do Frum, e 
local onde os cidados eminentes -principalmente os polticos -falavam ao povo. 
16. O segundo vestbulo, nas residncias da antigas Roma. e que dava para os quartos de 
dormir. 
17. O quarto de dormir, nas antigas residncias romanas. 
#
Iulius Maximus permanece de p, ainda por alguns instantes, no 
triclinium, olhando a porta do corredor por onde ela desaparecera. 
Trazia o rosto inchado de excitao e o peito quase a explodir-lhe de 
paixo. Depois, com passos rpidos, deixa a manso de Cornlius 
Helvetius, j totalmente mergulhada em silncio. 
Na manh do dia subseqente, a praa do Frum fervilhava sob um 
radiante sol de primavera. Diante do Comitium, Iulius Maximus, 
demonstrando excessivo nervosismo, andava de um lado para o 
outro. Susanna, como sempre, atrasava-se, e isso o deixava maluco. 
De repente, v-a que saltava da liteira, a poucos passos dali, e corre 
at ela. 
-Ufa!... -exclama ele, cheio de afobao. -Pensei que no viesses 
mais! 
-Oh, desculpa-me, Iulius!... -diz ela, mirando-o com os olhos cor de 
mel que tanto o encantavam. E prossegue, bejando-o, delicadamente, 
na face: -Vov cismou de dar-me conselhos, logo de manhzinha, 
durante o ientaculum,18 e me foi tremendamente difcil escapar 
dele!... Perdoa-me, sim?... 
-No consigo zangar-me contigo, minha bela!... -exclama o rapaz, 
desarmando-se felicssimo, ao receber-lhe o beijo, pois o simples 
contato dos lbios de Susanna na pele de seu rosto tinha a 
capacidade de deix-lo maluco. 
Iulius Maximus ia puxar a mocinha pela mo, para conduzi-la ao 
Capitolium, quando, ao longe, ouvem-se os estrdulos clangores de 
trompas, e o rufar cadenciado de tambores e de caixas. Os olhos de 
ambos os jovens iluminam-se. 
-Um triumphus!...19 Alguma legio retorna a Roma!... -exclama, 
excitadssimo, o rapaz. 

18. Na antiga Roma, a primeira refeio do dia, normalmente consistindo em alimentos 
leves como po, frutas, leite e queijo. 
19. Entrada solene e aparatosa dos generais, em Roma, aps vencerem as batalhas. 
#
-Sim!... -concorda a jovem, no menos motivada. -Quem ser que 
retoma?... 
-S saberemos se aguardarmos o desfile!... -diz, alegre, o rapaz. E 
pergunta: -Mas, e tua entrevista com Lucius Flamulus? 


-Ora, no tenho tanta pressa, assim, em falar com o sumo sacerdote 
de Jpiter Capitolinus!... -responde ela, puxando-o pela mo. Vamos 
at as escadarias do Frum, pois  l que o imperador, em 
pessoa, recepcionar os generais vencedores! 
Quando chegam s escadarias do imponente edifcio, a aglomerao 
de curiosos j era imensa. Abrindo caminho s cotoveladas, juntam-
se  multido que se amontoava curiosa, diante das escadarias do 
Frum. O rudo do desfile militar aumentava, sinal de que se aproximava 
da grande praa. A populao acorria de todas as direes e, 
literalmente, em pouqussimo tempo, um mar de cabeas tomava 
todo o fabuloso espao da praa retangular, mais as mas e vielas 
que nela desembocavam. 
Uma hora depois, o imperador surge no alto das escadarias do 
Frum e  ovacionado pela plebe ululante. Nero estava sorridente e, 
abrindo os braos, pede silncio  multido, que se cala, de repente. 
-Caius Petronius Tarquinius!... O apaziguador da Glia!... -brada ele, 
tomando o general vencedor pela mo e o apresentando ao pblico 
que explode em aplausos e em estrondosa ovao. 
Em seguida, Nero apanha a coroa de louros, como era hbito fazer 
nas homenagens que se prestavam aos heris nacionais, e a coloca 
na cabea do general, que se postara de joelhos. 
-Eis o ilustre filho da ptria!... -brada, orgulhoso, o imperador. 
Depois, estendendo-lhe a mo, f-lo levantar-se e o apresenta, de 
novo, ao povo. 
Estrondoso rugir segue-se, numa onda intensa de aplausos, gritos e 
assobios. Caius Petronius olhava, sem muito nimo, a multido que o 
ovacionava. Estava desmedidamente plido e tinha o estmago em 
pandarecos. No ntimo, o que desejava mesmo era ir depressa para 


#
casa e se atirar nos braos de Drusilla Antnia. Como sentia a falta 
dela!... Entretanto, sabia, de antemo, que o dia seria longo: homenagens 
pblicas, homenagens no senado, onde ouviria 
extensssimos e enfadonhos discursos e, para coroar a chateao, o 
convivium20 no pao real!... De todas as homenagens, o convivium, 
certamente, era-lhe o mais insuportvel, que somente se abrandava, 
porque nele poderia ter a companhia de Drusilla. No o agradava 
nada o fato de obrigar-se a compartilhar a mesa com aquele 
bandido e, ainda, ter de assistir s indecencias que ele costumava 
proporcionar aos convidados,  guisa de atraes, sempre bizarras 
e, invariavelmente, de muito mau gosto!... Mas, que fazer?... Se 
declinasse do convite, o imperador poderia tomar como ofensa 
pessoal e, louco como era, seria bem capaz de botar alguma tolice  
cabea e achar que lhe estariam planejando algum ato de traio. 
Infelizmente, se no desejasse enfrentar terrveis dissabores, teria 
que se curvar diante das vontades daquele doido. Caius Petronius 
passeia os olhos pela multido ululante. Sente ligeira tontura e 
precisou esforar-se ao mximo para no cair desfalecido ali 
mesmo. Quase nem ouvia as palavras do discurso cheio de elogios, 
a soar-lhe to falso, nos lbios de Nero, que o pronunciava facundo e 
cheio de dramaticidade, ali, dois passos  sua frente. "Acho que nem 
ele mesmo cr no que diz!...", pensa, olhando para a nuca de Nero, 
esmeradamente penteada em cachos dourados, enquanto este 
discursava, encomisticamente, sobre os feitos do povo romano passados 
e presentes -, principalmente, os mais recentes, e 
evidenciando ser ele, Nero, o principal artfice das vitrias, que eram 
bem menores, em relao s fragorosas derrotas que Roma vinha 
sofrendo em todas as fronteiras, com as constantes revoltas dos 
povos dominados. 

20. Banquete, em latim. 
#
-Eos, quiboni sunt, remunerabor!...21 -exclama Afero, voltando-se para 

o general. E, retirando esplendoroso anel de fina lavra que trazia no 
indicador da mo direita, estende-o a Caius Petronius, dizendo: -Por 
ns e por Roma, aceitai esta ddiva, general! 
Caius Petronius estende a mo direita, e o imperador coloca-lhe a 
preciosa jia no dedo. Em seguida, Nero abraa-o, efusivamente, 
osculando-o em ambas as faces. A multido ulula, gritando o nome 
de Nero que, satisfeitssimo, faz ligeira reverncia e, abruptamente, 
desaparece no interior do Frum, seguido de seu pequeno, mas 
constante e fiel squito de bajuladores. Caius Petronius emite longo 
suspiro. A primeira de toda uma srie de chateaes encerrava-se. 
Entretanto, antes de rever sua rainha, teria de enfrentar as 
longussimas e maantes homenagens que lhe prestaria o Senatum. 
O estmago enjoava-se-lhe mais e mais. O povo principia a 
dispersar-se pela praa e pelas ruas, e o velho general, cansado das 
batalhas e das agruras da vida, encaminha-se, com passos rpidos, 
em direo das escadarias do vetusto edifcio do Senatum, onde 
outrora vicejara a impoluta Cohortem Mxima22 dos ureos tempos 
da Repblica, mas que ora, na vigncia do Imprio, no passava de 
um covil de velhos e insaciveis lobos sanguinrios, sempre 
dispostos a se locupletarem com o suor, as carnes e o sangue dos 
oprimidos e dos espoliados pelo cruel regime que representavam. 
A manh seguia radiosa, e Iulius Maximus e sua adorvel companheira 
ainda permaneciam na praa diante do Frum. 
-Acho que hoje no te posso levar ao Capitolium, minha cara -diz 
ele. -As entrevistas com o sumo sacerdote podem demorar-se e, 
sabes, com a chegada de uma legio to importante como a do 
general Tarquinius, certamente haver um convivium no pao 
imperial! 
21. "-Premiarei os que so bons!...", em latim. 
22. Corte Mxima, era latim. 
#
-J entendi! -exclama ela, tremendamente decepcionada. -Preferes 
ir ao banquete no palcio, no  mesmo? 
-Ora, espero que no vs te aborrecer comigo, s porque no te 
levo hoje ao templo de Jpiter!... -exclama ele, segurando-a forte 
pela mo. -Amanh, prometo-te, colocar-te-ei, sem falta, diante de 
Lucius Flamulus!... Palavra de honra!... 
-E, por que no me levas ao convivium?... -pergunta ela, de repente, 
com os olhos iluminados de expectativa. 
O rapaz coa, freneticamente, o alto da cabea com a ponta dos 
dedos. Pensava se lhe convinha levar a jovem ao banquete. Depois 
de alguns instantes de terrveis cogitaes, decide-se: 
-Estbem!... Levo-te ao convivium!... Mas, v l, hein?... Nada de 
atrasos! 


A jovem emite estrondoso grito e lhe salta ao pescoo, cobrindo-o 
de beijos. 
-Oh, Iulius!... -diz ela, extremamente feliz. -Sabia que no me 
negarias tal pedido!... S tu para me fazeres feliz assim!... 
-Percebes agora o quanto te amo?... -diz ele, olhando-a nos olhos e 
lhe acariciando ternamente a branqussima ctis do rosto, com a 
ponta dos dedos. -Quem sabe no te decides a aceitar-me como 
noivo ainda hoje? 
-Quem sabe, no , lulius!... -exclama ela, afastando-se. -Mas, 
agora corro, pois quero embelezar-me para a noite!... 
-Lembra-te, hein!... -grita ele com as mos em concha sobre os 
lbios.  Nada de atrasos, ou te deixarei para trs!... 
Susanna Procula limita-se a abanar-lhe a mo, de longe, correndo 
como uma doida em direo de sua liteira que a aguardava, numa 
das ruas que davam para a praa. 
O rapaz permanece por algum tempo de p no meio da praa, 
vendo-a afastar-se, felicssima. Tinha os olhos brilhantes de emoo. 
Depois, rindo-se de contentamento, dirige-se para a liteira que o 
levaria para casa. 


#
Captulo III 
O banquete de Nero 


A tarde j avanava bastante, quando Caius Petronius Tarquinius 
apeia de seu cavalo, diante de sua villa. Pequeno exrcito de criados 
e de escravos domsticos acorrera  sua chegada e se colocava de 
joelhos diante dele, com os rostos voltados para o cho. Apenas 
Iustus, o mordomo, ousa aproximar-se e, ajoelhando-se humilde, 
toma-lhe a mo e a beija, respeitosamente. 
-Sede bem-vindo, domine!... -exclama o mordomo. 
Caius Petronius mal responde ao criado, agradecendo-lhe. Seus olhos 
buscavam ansiosamente por ela, Drusilla Antnia, que o aguardava 
na soleira do prtico do atrium, com um largo sorriso de satisfao 
aos lbios e banhada pela luz dourada do sol que se coava pela 
abertura do compluvium1 . E ele, como um colegial, corre ao encontro 
dela que o recebe de braos abertos, culminando em efusivo e 
apaixonado abrao de reencontro. 
-Oh, meu amor!... -exclama ele, beijando-a repetidas vezes ao 
rosto,  boca e aos olhos. 
-Vem -diz ela, puxando-o amorosamente pela mo. -J te preparei 

o incenso para os Lares2. 
Como se sentia bem ao lado dela!... Com o canto dos olhos, no se 
cansava de olh-la, enquanto incensava os dolos que tanto lhe eram 

1. Nas antigas casas romanas, abertura circular ou quadrada que se abria no teto inclinado 
do triclinium, pela qual se canalizavam as chuvas, direcionando-as  cisterna -o 
impluvium -reservatrio subterrneo de gua potvel. 
2. Conjunto dos deuses domsticos, cultuados na antiga Roma, cujas esttuas se colocavam 
 entrada do triclinium, numa espcie de altar, juntamente com as imagens dos 
antepassados, normalmente esculpidas em cera e, tambm, local onde se faziam as oraes 
dirias e, ainda, ardia, continuamente, o fogo domstico. 
#
sagrados e as efgies dos pais, mortos h tanto tempo. Drusilla Antnia, 
altamente concentrada, movia os lbios em fervorosa prece. 
Certamente, agradecia aos imortais o retorno do amado esposo. 
Depois de aplacada a saudade que os consumia, conversavam, reclinados 
em confortveis canapei, no triclinium, onde tomavam leve 
refeio de leite, po e frutas secas. 
-No comas demais, minha cara!... -exclama ele, olhando-a com ar 
divertido. -Logo mais, teremos as delcias da estupenda mesa de 

Nero!... 

-Oh, bem que tu me podias deixar de lado dessa!... -exclamada, 
com leve ponta de sarcasmo. -Tu sabes o quanto abomino as festas 
no pao imperial! 
-Sei que te aborrecem tais banquetes, minha querida, mas ters a 
coragem de deixar-me ir sozinho a lugar to detestvel? -diz ele, 
srio. E prossegue, olhando-a, firme, nos olhos: -E, depois, o imperador 
poder tomar a tua ausncia como ofensa pessoal!... Sabes o 
quanto ele  louco!... 
-Oh, fao-o apenas por ti, meu amor!... -exclamada, levantando-se e 

o abraando com desvelado carinho. E prossegue, depois de beijlo, 
carinhosamente,  testa:-E, porque sei que te encontras, de fato, 
muito doente!... 
Caius Petronius fica srio. No lhe era fcil engan-la. 
-Oh, exageras!... -diz ele, disfarando. 
-Podes negar o quanto quiseres, Caius -observa ela, acariciando-
lhe, ternamente, os cabelos, com a mo -, mas no me enganas, pois 
h momentos em que empalideces grandemente!...  a dor insuportvel, 
no  mesmo? 
O velho general olha-a longamente. No adiantava mentir-lhe. 
- verdade, Drusilla -diz ele, baixando os olhos. -As dores tornam-
se-me insuportveis, e temo que o pior acontea, muito em breve. 
-Oh, no digas tal coisa!... -exclama ela, com os olhos cheios de 
lgrimas. -Amanh mesmo, depois que terminarem todas essas 
detestveis homenagens, eu mesma te levarei ao templo de Aescu
#
lapius!... Mas, por ora,  bom que nos aviemos a preparar-nos para o 
convivium!... Vem!... -diz ela, levantando-se e lhe estendendo, 
amorosamente, os braos. 
L fora, a tarde declinava, e a noite chegava de mansinho, temperada 
por amena brisa de primavera. 
Quando a noite caiu de vez, l no alto do Monte Palatino, os estupendos 
jardins do pao imperial encontravam-se literalmente 
tomados por alguns milhares de convivas de esplndido banquete 
que se oferecia em homenagens s extraordinrias vitrias sobre a 
Glia, obtidas pelas legies comandadas pelo general Caius 
Petronius Tarquinius. Por todos os recantos das magnficas alias de 
tlias e de rododendros floridos, pendiam fantsticas guirlandas de 
perfumadssimas flores, aliadas a uma enormidade de vasos de 
jasmins, oleandros, lavndulas e gernios, colocados em profuso, 
por todos os lados, a despejarem agradabilssimos odores em 
estonteantes ondas, carreadas por sutil e agradvel brisa primaveril 
a espalhar e a impregnar de deleitantes olores todos os recantos do 
extraordinrio jardim; nos corredores das alias, colocavam-se 
centenas e centenas de pequenas mesas com tampo de mrmore 
branco, repletas de finssimas iguarias: carnes assadas frias de 
vrias espcies, po de trigo, po de mel, doces variadssimos, 
frutas frescas, frutas secas, frutas em compotas e vinho, muito 
vinho, de excelente qualidade, tudo servido por uma legio de 
escravos domsticos, ricamente vestidos de peplos de linho 
alvinitente e presos aos ombros por fivelas de prata; aos ps, 
traziam sandlias de couro curtido -luxo para escravos que, 
usualmente, caminhavam descalos ou, no mximo, calavam 
sandlias de couro cm, que mais lhes martirizavam os ps que lhes 
davam algum conforto -, mas que ali, por tratar-se do pao imperial 
e, obviamente, para no contrastar e destoar com o desmedido luxo 
reinante, at esse fato escapava  regra. E eram criaturas 
formosssimas: no se admitiam criados velhos no palcio imperial; 
somente moas e rapazes portadores de espetacular beleza e que 

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demonstrassem graa e desenvoltura, pois o imperador era 

exigentssimo nesses critrios. 
Nero esbanjava luxo e requinte no vestir-se: trajava fina pretexta de 
seda branca, franjada de dourado e, aos ombros, preso por descomunal 
broche de ouro macio, pendia-lhe um manto de linho 
prpura; trazia, ainda, grossos braceletes de ouro puro enroscados 
aos braos, valiosssimos anis aos dedos e,  cabea, ostentava a 
coroa imperial e se fazia acompanhar de sua segunda esposa, a 
imperatriz Popeia Sabina3; felicssimo, passeava por entre seus 
convidados, sempre sorridente e inchado como um pavo, e 
recebendo deles uma srie de falsos elogios, como falso cheirava e, 
certamente, era tudo que ali se encontrava. 
Numa praa do jardim principal e sob alto dossel de seda levantina 
prpura, armava-se extensssima mesa, ricamente decorada e 
contendo impensados manjares, onde o imperador e seus 
convidados mais proeminentes reclinar-se-iam em canapei forrados 
de almofades de seda vermelho-escura com franjas douradas. Ao 
lado da mesa principal, colocava-se grande orquestra de cordas, 
sopro e percusso e cujos msicos arrancavam, magistralmente, 
sonoros acordes de agradvel melodia. Era muito grande a 
expectativa para saber quem seriam os convidados a terem o 
privilgio de sentar-se  mesa principal do convivium, ao lado de 
Nero e da imperatriz, alm do homenageado e de sua esposa. Os 
olhos faiscavam de ansiedade, e os cochichos ao p do ouvido 

3. Nero teve trs esposas: a primeira, Otavia, era filha de seu antecessor, o imperador 
Claudius, mas, repudiando-a por estril, Nero, a seguir, dela se divorciou, exilando-a de 
Roma e, finalmente, no satisfeito, forjou-lhe um pretenso adultrio e a mandou executar; a 
segunda foi Popeia Sabina, com quem teve uma filha, Claudia Augusta, falecida ainda 
pequena; entretanto, Nero matou Popeia com um pontap, chutando-lhe a barriga, quando 
grvida, ela o repreendia por ter chegado tarde de uma corrida de bigas, e a terceira esposa 
foi Estatilia Messalina, personagem que se tornou famosssima na Histria pela sua 
habilidade em armar intrigas e por saber manejar os venenos como ningum. 
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ocorriam por toda parte. O fogo que ardia nos fachos breados, 
presos a tocheiros de ferro, espalhados por toda parte, arrancava 
fascas s preciosidades que ornamentavam os cabelos, os pescoos, 
os braos, punhos e dedos do fino patriciado da Roma Imperial que 
ali acorria em peso, para festim daquela monta!... Apenas o 
principal homenageado e sua adorvel companheira no 
compartilhavam de toda aquela expectativa que arrancava risinhos 
nervosos e gritinhos que mal disfaravam o concorridssimo 
interesse de ganhar a preferncia e a ateno do imperador, nem 
que fosse por aquela noite, apenas. Nero caminhava por entre seus 
convidados, gozando-lhes da excessiva bajulao; beijava uma 
dama aqui, apertava a mo de um cavalheiro ali, distribua acenos e 
desfilava, acompanhado da esposa que o seguia, com o rosto 
coberto de maquiagem berrante e pesada a emoldurar-lhe uma 
fisionomia bela, mas em cujos traos predominavam o deboche, o 
cinismo e as viciaes morais mais detestveis que se possa 
imaginar. Popeia Sabina ia despejando seu riso fcil e falso, em todas 
as direes, sempre mantendo a cabea altiva e encimada pela coroa 
imperial de ouro e sobejamente cravejada de rubis e de diamantes 
fabulosos, a espalharem esplndidas fascas, petiscadas pelo 
danante fogo que brilhava nos archotes que iluminavam a noite. 
A um canto, Caius Petronius Tarquinius e Drusilla Antnia, com 
ligeiros acenos de mo e balanares de cabea, cumprimentavam os 
conhecidos que por ali passavam, no incansvel ir e vir pelas 
alamedas do jardim, vendo e sendo vistos; mostrando, inchados de 
orgulho e de vaidade, a exuberncia e o requinte das jias, das 
vestes e dos impecveis penteados, que costumavam levar horas 
interminveis para serem confeccionados por incansveis e 
pacientssimos criados e escravos, at serem aprovados pelos seus 
donos, no sem terem aquelas pobres criaturas, antes, levado uma 
carrada de xingos, belisces, pontaps, queimaduras com ties e 
violentas chicotadas e, com muita freqncia, acontecia que muitos 
deles acabavam freneticamente apunhalados at a morte por seus 

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temperamentais senhores, em terrveis e ttricos descargos de fria, 
quando estes, tomados de crises de furor extremo, exasperavam-se 
ao verem que seus trajes e penteados no lhes atendiam ao apuro 
desejado!... Triste era a condio dos servos e escravos dessa terrvel 
poca da Humanidade!... O valor de um excelente cavalo de raa 
superava muito o de um ser humano! 
A noite avanava e a angstia de Caius Petronius e de Drusilla 
Antnia aumentava. Sabiam que os banquetes no pao imperial costumavam 
virar a noite e at durar dias, se o imperador estivesse 
bem animado! Ambos torciam para que Nero se indispusesse bem 
depressa e se retirasse logo, coisa que, fatalmente, acabaria com a 
festa; entretanto, j haviam se entrevistado com o soberano e este 
demonstrara estar muitssimo bem disposto e de excelente humor. 
-Prepara-te, minha cara -cochicha ele  mulher -, pois este convivium 
durar, no mnimo, uns trs dias!... 
-Por Jupiter!... -exclama ela, fitando-o com olhos brilhantes. -No 
sabes o quanto sacrifiquei aos imortais para que tremenda tempestade 
desabe sobre Roma, ainda esta noite! 
-Oh, s de fato uma mulher sapientssima!... -exclama ele, bei-j 
ando-lhe, amorosamente, as mos. -Que Jpiter Capitolinus te oua e 
mande, de fato, terrvel tempestade, recheadssima de ventos fortes 
e de raios fulminantes, que ponham toda essa escria a correr como 
baratas afrontadas no ninho!... 
-Tu vers, meu adorado!... Tu vers!... -diz ela, piscando-lhe um 
olho maroto. -Mandei que sacrificassem cem pombas e trs 
bezerros!... 
-Oh, com tal presente, duvido que Nosso Pai no v atend-la, 
minha cara!... -exclama ele, divertidssimo. 
Neste comenos, o mestre de cerimnias aproxima-se de ambos e, 
gentilmente, condu-los  mesa principal, onde j os aguardavam 
Nero e a imperatriz. 
-Aproximai-vos, general! -grita Nero, cheio de agrados, ao v-los 
aproximarem-se. -Assentai-vos aqui, bem prximos de ns -e lhes 

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indica dois dos canaps que se postavam vazios ao lado dos que 
ocupavam ele e sua esposa. 
-Magnfica festa, Majestade!... -exclama Drusilla Antnia, fazendo 
longa reverncia diante de Nero. 
-Oh, Drusilla!... Drusilla!...  grita Nero, puxando-a, deselegantemente, 
para si e a beijando, efusivamente, s faces e depois,  
boca, dando largas mostras de que j se encontrava grandemente 
embriagado pelo vinho. E prossegue, quase a berrar: -Fina flor da 
sociedade romana!... 
Popeia Sabina limita-se a olhar para a outra com um sorriso falso. 

-Reservamos-vos espetculos interessantssimos para esta noite, 
carssimo general!... -exclama o imperador, dirigindo-se, em 
seguida, a Caius Petronius. 
"Tu prprio j s um grande espetculo!...", penso general, enquanto 
sorri, foradamente, para Nero. 
Diante da mesa principal, em extenso tablado recoberto de lona 
rubra, uma poro de bailarinos -rapazes e moas seminus -danavam 
frentico e lascivo bailado, embalados por msica ligeira e 
inebriante. O banquete comeara e, em toda a parte, a comilana era 
desbragada, chegando s raias da indecncia. O vinho capitoso era 
servido em profuso, coisa que vinha fugindo  tradio, pois, na 
Roma republicana de antanho, nos tempos ureos de glria e 
grandeza, pessoas distintas jamais bebiam vinho puro; entretanto, 
Nero fomentava a ingesto da jeropiga nos banquetes palacianos, 
fato que proporcionava estados de alta embriaguez, em 
pouqussimo tempo. 
As horas passavam, e a noite avanava agradvel e refrescada por 
brisa amena. No cu, a lua cheia caminhava lenta e ia derramando 
sua luminescncia opalescente sobre os mirficos jardins do palcio 
de Nero. Risadas, gargalhadas e gritos de euforia ouviam-se por 
todos os lados, entressachando-se ao som estrugidor da orquestra 
que tocava sem cessar, e o abuso do lcool provocava indecncias 
gritantes que se viam por todos os lados. A comilana, regada de 

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vinho em profuso, varava a noite.  toda hora, alguns criados, 
especialmente treinados em promoverem o vomitum4 corriam de um 
lado para outro, atendendo aos insistentes chamados que lhes 
dirigiam os glutes. Casais seminus abraavam-se, 
escandalosamente, em colquios libidinosos, enquanto que, no 
tablado, os bailarinos desenvolviam danas com movimentos 
altamente erticos e cheios de sensualidade. Nero vibrava com o 
andamento de sua festa. Aos berros, incitava os danarinos e no 
raras vezes tinha ele mesmo saltado para o palco e, juntamente com 
os bailadores, ensaiado uma srie de movimentos daquela dana 
sensual. Roma degradava-se, e aquilo trazia dor aos poucos que 
permaneciam fiis aos costumes e tradies ancestrais que tanto 
haviam engrandecido e diferenciado o povo latino dos demais 
povos existentes ento. O general Caius Petronius Tarquinius e sua 
esposa eram dos poucos que ainda permaneciam fiis  tradio e 
velavam pela manuteno da moral e dos bons costumes que tanto 
haviam elevado seu povo; entretanto, ambos viam, altamente 
entristecidos, que os tempos mudavam, que as pessoas, 
paulatinamente, iam ganhando novos e estranhos hbitos, que 
bebiam mais, que comiam mais, que valorizavam mais o excesso de 
requinte e de luxo, em detrimento dos valores morais que Roma to 
sabiamente soubera acalentar e cultivar entre seus filhos!... Roma 
ensinara ao mundo o senso de justia, atravs do Direito, que 

4. Vmito, em latim. Nos banquetes que se faziam na antiga Roma Imperial, comia-se 
muito, sem parar, e s vezes, por dias seguidos. Ento, era prtica comum, uma vez 
saciado o apetite, provocar-se o vmito e, a seguir, prosseguir-se comendo, repetindo essa 
ao. indefinidas vezes. Os criados especializados em provocar o vmito agiam assim: 
empregando longa e delgada varinha de marfim, faziam ccegas na garganta do 
comensal, provocando-lhc o vmito, que era recolhido em bacias. A seguir, para se tirar a 
acidez que permanecia na boca, enxaguavam-na, abundantemente, com gua, e, em 
seguida, mastigavam uni olho de lebre cru, embebido em mel de abelhas -a ao do 
humor aquoso contido no globo ocular neutralizava-lhes a acidez da boca provocada pelo 
vmito. 
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sempre se praticara no Frum, atravs dos Magistrati5. E a Poltica?... 
A Filosofia?... A Religio?... 
Caius Petronius e Drusilla Antonia mal tocavam nos alimentos. 
Amide se olhavam e encontravam, reciprocamente, na luz dos 
significativos olhares que trocavam, o desdm e o repdio que 
ambos sentiam por aquelas coisas. Nero espiava-os com o canto dos 
olhos. No ntimo -embora no o demonstrasse de jeito nenhum -, 
admirava o general e, no fundo, tinha inveja dele. Invejava-o por 
dois motivos: primeiro, pela inteligncia e capacidade incontestvel 
que o militar possua como estrategista imbatvel; segundo, porque 
amava e era amado por Drusilla Antonia!... E era amor de verdade!... 
Nero sabia disso e se roa de despeito, posto que jamais amara ou 
fora amado assim! Aintervalos, cochichava aos ouvidos de Popeia 
Sabina, e ambos riam, sarcastica-mente, enquanto olhavam para 
Caius e para Drusilla. Era uma maneira de vingar-se deles: 
humilhando-os, desdenhando-os. O general tinha vontade de se 
levantar e de esbofetear a ambos, repetidas vezes, at se cansar. 
Drusilla Antnia apaziguava-o com os olhos. Sabia que, se o marido 
cometesse tal afronta, acabaria morto ali mesmo, diante de todos. E 
talvez fosse isso mesmo o que Nero desejasse: um espetculo de alta 
monta!... No era o que sempre vivia proporcionando aos seus 
convidados? 

Nero continuava mordiscando a orelha de sua esposa e lhe cochichando 
indecncias ao ouvido. Notava-se que era grande seu estado 
de embriaguez. A imperatriz, no menos bbada que seu esposo, escancarava-
se, agora, em escandalosas gargalhadas. Olhando para 
Drusilla Antnia com acentuado desdm, cochichava ao ouvido de 
Nero que se espatifava de rir, enquanto olhava para o casal que se 
mantinha srio e sbrio o tempo todo. 

5. Magistrados, em latim. O conjunto dos juzes, promotores e ministros que atuavam nas 
cortes de justia. 
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-O general Tarquinius se enraivece, querida! -cochicha Nero ao 
ouvido de Popeia Sabina. -Queremos ver at onde vai, sem afrontar-
nos! 
-Que fareis, se ele saltar sobre vs?... -sussurra, divertida, a imperatriz, 
ao ouvido de Nero. -Acho que tereis de mat-lo! 
-Oh, no!... -responde Nero. -Conhecemos o general!... Ele no far 
isso!... E um cavalheiro!... Sabias que ns o admiramos muito?... 
A imperatriz no entendeu o real sentido das palavras de Nero. 
Achou que ainda zombava do outro e explodiu em estrondosa 
gargalhada. 
Caius Petronius lutou bravamente consigo mesmo para no cometer 

o regicdio. Vrias vezes acariciara o cabo do punhal que trazia 
guardado por dentro, junto ao peito, numa dobra de sua pesada 
praetexta de linho branco. Tivera mpetos de lanar-se sobre aquele 
porco imundo e apunhal-lo at se esfalfar, mas se contivera por ela, 
Drusilla Antnia, que, com os olhos splices, vigiara-o e o controlara 
todo o tempo. 
Entretanto, pouco depois, como no obtivesse resposta das provocaes 
e como se cansasse logo das coisas, Nero passou, deliberadamente, 
a ignorar o general e sua esposa, e principiou a dar 
ateno a outros que lhe estavam prximos. 
De repente, como se lembrasse de algo sumamente importante, o 
imperador de Roma levantou-se e, aos berros, pediu silncio. A orquestra 
estacou, e um burburinho geral percorreu a imensido de 
convidados que se acotovelava em derredor do imenso tablado 
coberto de lona vermelha. O mestre-de-cerimnias bateu palmas, e 
os bailarinos recolheram-se cleres. 

-A luta!... -a seguir grita Nero, estentreo. -Que entre Therupon!... 
Depois, truculento gladiador de tez amorenada salta lpido para o 
tablado e se exibe para a platia ululante. Nero salta tambm para a 
arena, que ali se improvisava, e passa a examinar, com 
minudncias, o fsico avantajado do lutador que, seminu e 
enrijecendo, forte e propositadamente, o corpo todo, fazia sobressair 

#
a desmedida musculatura dos braos, do peito, dos ombros e do 
dorso avantajado, como o de um gigantesco urso. 
-Therupon, o egipcio!... -grita Nero, apresentando orgulhoso o que 
seria a sua maior surpresa para a noite. -J o vi matar um cavalo e 
dois lees com as mos!... 
A platia emite sonora exclamao de admirao e de espanto e se 
enche de ansiedade e de expectativa para o que, certamente, seria o 
espetacular corolrio daquela noite. 
Acotovelando-se e se empurrando, para disputarem melhor lugar 
para apreciarem a luta, os convidados de Nero fechavam o crculo 
em torno do imenso tablado recoberto de lona vermelha. 
Grandemente espremidos, na primeira fila de expectadores, 
achavam-se Iulius Maximus e sua jovem companheira Susanna 
Procula. A mocinha deslumbrava-se com as maravilhas do 
convivium. Era o primeiro do qual participava e se sentia cheia de 
euforia, pois sabia que, a partir daquele, seu companheiro 
certamente lev-la-ia aos prximos que ali houvesse. 
-Oh, Iulius!... -exclama ela, apertando-lhe fortemente a mo. -No 
sabes o quanto me sinto feliz!... No imaginas como tinha curiosidade 
em saber como eram os banquetes no pao imperial!... 
Promete que me trars de novo!... Vamos!... Promete!... 
-Prometo-te, minha querida!... -diz ele, atraindo-a para si, num 
forte abrao. -Doravante, como minha noiva, tu irs aonde eu for!... 

-Que entre o primeiro adversrio!... -grita Nero. 
Faz-se silncio total, e entra outro gladiador, no to forte quanto o 
primeiro, mas tambm dono de avantajado fsico. 
-As apostas!... As apostas!... Senhores, fazei vossas apostas!... -grita 
Nero, excitadssimo como um doido, enquanto corria descalo e 
totalmente descomposto, em derredor da arena. 
Um burburinho de vozes inquietas e cheias de excitante expectativa 
perpassava pela multido, enquanto se coletava o dinheiro das 
apostas. Depois, Nero,  guisa de juiz, ordena que o combate se 
inicie. E os dois gladiadores, como duas feras sanhudas, a princpio 

#
estudam-se, meticulosamente, por instantes, e em seguida, lanam-
se em feroz combate de luta livre. O silncio faz-se e  quebrado 
apenas pelas exclamaes da platia que, atenta, no perdia 
nenhum dos golpes de ataque e de defesa que se aplicavam os 
hbeis lutadores, no combate feroz. Nero saltitava em volta dos 
contendores, incitando-os ao embate brutal, ora rindo, ora gritando 
como um desvairado e aplicando formidveis pontaps aos flancos 
dos dois gigantes, divertindo-se grandemente em provocar-lhes, 
assim, ainda mais dificuldades para a defesa ou para o ataque. 
Como ambos os contendores eram muito fortes e treinadssimos, a 
luta equilibrou-se por longo tempo, mas o egpcio, por ser um 
pouco mais avantajado que seu opositor, passou a dominar a 
contenda e, habilmente, desferiu golpe certeiro, aplicando terrvel 
gravata em seu adversrio e passou a sufoc-lo com seu possante 
brao. O outro envidou esforos hercleos para livrar-se da terrvel 
tenaz que lhe aplicava ao pescoo o gigantesco egpcio, mas foi em 
vo: era-lhe inferior em fora e em habilidade de combate e acabou 
por tombar sem vida, depois de algum tempo de intil resistncia. 
Um frmito de gozo intenso percorreu a multido que se deliciou 
com o brutal desfecho da contenda. Nero, tresloucado, saltitava 
sobre o ventre do gladiador morto, e seus convidados aplaudiam-
no, freneticamente, gritando-lhe o nome em coro. Mas, o que fez 
aquela platia deliciar-se e entrar em delrios de xtase foi quando o 
terrvel gladiador egpcio ajoelhou-se ao lado do cadver de seu 
oponente e, mordendo-lhe uma das orelhas, arrancou-a de uma s 
dentada. Em seguida, mastigou-a e a engoliu, ali, diante de todos, 
com o sangue do infeliz a escorrer-lhe pelos cantos da boca! 

Nero extasiava-se. Rindo-se, s gargalhadas, retirou finssimo anel 
que trazia ao dedo indicador da mo direita e o estendeu a 
Therupon, beijando-o, a seguir, s faces, repetidas vezes. 
-Quod vult perder, primus dementai Jpiter!...6 -exclama Caius 

6. Aqueles que Jpiter quer arruinar, primeiro os enlouquece! , em latim 
#
Petronius cheio de ironia. -Esse louco no demora a colher o que 
est semeando!... 
Drusilla Antonia limita-se a olhar horrorizada para o marido. 
Aquelas cenas terrveis eram demais para ela. 
-Vamo-nos daqui, minha cara! -exclama o general, levantndose, 
decidido. -Isso aqui no  lugar para ns!... Nero est to bbado 
que sequer sentir a nossa falta!... Vamo-nos, sem mais delongas!... 
A multido ululava de prazer pelo espetculo que lhes apresentara 


o imperador. Em seguida, fazem entrar na arena fogoso corcel 
negro, ainda semi-selvagem e conduzido por hbeis palafreneiros 
que o sustinham, firmemente, por uma corda a lhe prender o pescoo. 
O cavalo, grandemente assustado pelo vozerio da platia, 
empinava e negaceava, bufando e escoiceando, a torto e a direito, 
em todas as direes. 
O animal, depois de algum tempo e a muito custo, foi razoavelmente 
contido no centro do tablado de lona rubra, e Nero, pedindo 
silncio, bradou: 
-Patrcios, lanai vossas apostas!... Therupon ou o cavalo!... Feitas as 
apostas rapidamente, o egpcio saltou para o centro do 
tablado e fez um gesto para que os cavalarios soltassem a corda 
que continha o animal. O bicho, sentindo-se solto, quis fugir, mas o 
gladiador, ligeiro como uma fera, saltou-lhe sobre o dorso, 
abracndose fortemente ao pescoo do animal, que comea a 
empinar e a corcovear, tentando arrojar o intruso de sobre si. 
Entretanto, o gladiador grudara-se-lhe ao pescoo e nem se mexia, 
malgrado todas as tentativas que o cavalo fazia para livrar-se da 
indesejada carga. Por longos minutos, durou a luta que se igualava 
em fora e em sei vageria. Entretanto, o cavalo cansava-se, e 
Therupon, aplicando-lhe forte gravata ao pescoo, passou a sufoclo, 
minando-lhe as foras. Debalde o bicho lutou, feroz e 
valorosamente, para livrar-se daquele terrvel torniquete, saltando, 
negaceando, escoiceando e correndo em crculos pelo tablado, mas 
#
vencido, tombou pesadamente, j sem vida. O terrvel gladiador 
egpcio havia quebrado o pescoo do cavalo com as mos! 

Nero exultava tresloucado, correndo de um lado para outro, enquanto 
seus convidados ululavam de prazer e de excitao. 
-Oh, que coisa extraordinria!... -exclama Susanna Procula que a tudo 
assistira, cheia de excitao, diante daquelas chocantes apresentaes, 
at ento inusitadas para ela. -No supunha o quanto 
eram singulares as atraes que Nero propiciava a seus 
convidados!... 
-Nem no Circus Maximus jamais vers coisas assim com tamanha 
intensidade, minha cara!... -exclama Iulius, inchando-se de 
satisfao. Sabia que, com aquilo, ia ganhando as graas da 
mocinha. 
-O leo!... O leo!...-grita Afero, enlouquecido. 
A seguir, avantajada jaula, contendo um enorme leo,  colocada 
bem no centro do tablado. A fera, propositadamente mantida sem 
alimentao, estava furiosa ao mximo e se arrojava, altamente 
enfurecida, contra as grades de ferro que a sustinham. Com modos 
altamente grosseiros, Nero retira das mos de um dos tratadores 
uma garrocha de cabo longo e passa a espicaar, insistentemente, o 
bicho, deixando-o extremamente irritado a dar patadas violentas e a 
morder os ferros da jaula com as potentes e afiadssimas presas, que 
se mostravam como terrveis punhais. Tamanho era o rebulio que o 
imperador aprontava com o leo que a enorme jaula de madeira 
balanava, perigosamente, o que fazia os tratadores do bicho 
entreolharem-se, cheios de receio. Temiam que a jaula no tivesse a 
segurana necessria para tamanha desordem, mas no ousavam 
nada dizer. Quem  que tinha a coragem de enfrentar a fera que 
estava pelo lado de fora da jaula?... Certamente era bem pior do que 
a que estava por dentro... 
E, o que os tmidos tratadores temiam aconteceu. Como o leo era 
extremamente avantajado e, aliando-se a isso a fria que nele o inso


#
lente Nero despertava, o bicho, altamente enfurecido, acabou por 
lanar-se com tal impetuosidade sobre a gradaria que acabou por 
estourar as grossas traves de madeira que sustentavam as barras de 
ferro das grades da jaula, fazendo-a esboroar-se, desmanchando-se 
toda. 
Um terrvel frmito de desespero percorreu a platia que, at ento, 
divertia-se s pampas, com mais aquela paspalhice que lhes 
apresentava o imperador de Roma. Estarrecidos, sentiram o sangue 
enregelar-se-lhes nas veias, diante da iminncia da tragdia. 
Entretanto, Nero, com magistral presena de esprito, defendia-se, 
controlando e mantendo o leo a distncia, ameaando-o com a 
longa garrocha e conseguindo, por fim, correr e saltar sobre a mesa 
do banquete, pondo-se, assim, a salvo do ataque da fera. 
Entretanto, a turba desesperou-se ao ver o bicho solto que, 
recompondo-se, saltou sobre um dos tratadores, arrancando-lhe, de 
uma s patada, um ombro inteiro, com o brao junto. 
A correria tresloucada instaurou-se e Nero, de cima da mesa do 
banquete, gritava como um possesso, para que no matassem o 
bicho, pois se divertia s pampas, vendo o leo fartar-se das carnes 
do infeliz tratador que agora lhe servia de pasto. 
Com o leo solto, a balbrdia que se instalou foi total: pessoas aos 
gritos, correndo, desesperadamente, para todos os lados; outras, 
desmaiando estrondosamente, e outras, ainda, sendo derrubadas e 
pisoteadas, sem comiserao, pela turbamulta em debandada. 
Susanna e Iulius, fortemente empurrados e prensados pela onda 
humana que se abateu, de inopino, sobre eles, separaram-se, 
perdendo-se um do outro. A jovenzinha, terrivelmente assustada, 
juntou-se, tambm, quela avalanche que corria apavorada, 
buscando refgio entre as rvores do bosque que circundava o 
palcio. Pouco depois, tremia de medo, sozinha e perdida, no meio 
da imensido do arvoredo. A tnue luminescncia prateada da lua 
cheia coava-se por entre a ra-maria das rvores e formava uma 
penumbra opalesccnte, dando ao ambiente um tom ttrico e 

#
fantasmagrico. Ao longe, ainda se ouviam estridentes gritos de 

pavor. 
Susanna Procula, premida pelo medo intenso, ps-se a correr por 
entre os troncos retorcidos das rvores, soluando e chamando por 
Iulius Maximus, primeiro, em voz baixa, e depois, em altos brados. 
De repente, do alto de um galho de rvore, saltou-lhe um vulto  
frente, e antes que dele se pudesse esquivar, o estranho tomou-a e a 
reteve num forte abrao. 
-Iulius?... -pergunta ela, no lhe podendo reconhecer as feies na 
penumbra do bosque. 
-No... -diz ele e, tomando-a pela mo, puxa-a, delicadamente. Mas, 
acalma-te!... Vem que te guio para fora daqui! 
Susanna Procula hesita por instantes, mas aquela voz suave, porm, 
ao mesmo tempo, firme e resoluta, d-lhe confiana e ela o segue, 
sem opor resistncia. Por um bom tempo, ele a guiou para fora do 
bosque, e ela o seguia e lhe sentia a mo quente, forte, segura; 
entretanto, ainda no conseguia divisar nada dele, a no ser o porte 
avantajado, de ombros largos. Quando se acharam nas alamedas 
iluminadas do jardim principal, onde, pouco antes, acontecia a festa, 
respirou aliviada. Agora, poderia, finalmente, ver-lhe o rosto. Tudo 
em derredor estava mergulhado em silncio; no se via ningum 
por ali, e o convivium, certamente, j se haveria encerrado. 
Deliberadamente, ele a conduziu bem prximo de um tocheiro, pois 
tambm ele estava morrendo de vontade de ver o rosto dela. E, 
quando os olhares encontraram-se, algo de mgico aconteceu: 
Susanna tremeu de emoo ao fixar-lhe o rosto amorenado, bem delineado, 
iluminado por um par de tocantes olhos marrom-escuros. 
Suas pernas bambearam, e ela quase caiu, se ele, ligeiro, no a 
tivesse amparado com os braos fortes. E ela quase desapareceu, 
engolida pela imensido daqueles potentes braos. Nada se 
disseram, apenas, por longos instantes, ele a abraou, e ela se 
deixou abraar, sentindo-lhe a fortaleza dos msculos apertando-a 
forte, como jamais houvera sentido antes. 

#
-Est tudo bem, agora!... -exclama ele, apertando-a forte. 
E ela, ento, deixa as lgrimas correrem. Era a tenso que se desmanchava, 
aps terrveis momentos de aflitiva apreenso. 


Depois de extravasar a angstia que a sufocava desde o incio da 
tragdia, Susanna levanta a cabea, que at ento mantivera 
recostada ao peito dele, e o olha no rosto. E ele lhe sorri amigo, 
afagando-lhe, delicadamente, os cabelos cor de mel. A seguir, 
gentilmente, puxa-a pela mo, convidando-a a sentar-se em niveo 
banco de mrmore, sob o dossel das estrelas que, l no alto do cu, 
seguiam seu eterno pisca-piscar. A noite j avanara bastante, e a 
madrugada chegava, embalada por leve brisa refrescante. 
-Oh, sinto-me grata pela ajuda!... -diz ela, por fim. -Que horror!... 
Se no fosse por ti, ainda estaria correndo, perdida no meio daquele 
bosque! 
-Ora!... -diz ele, olhando-a no rosto, sempre, como se estivesse 
embriagado pela beleza da jovenzinha. -Nada fiz alm de minha 
obrigao !... Como conheo bem este palcio, no me foi difcil 
andar por a, tambm  noite! 
O rapaz continua a olh-la, como se estivesse magnetizado pela 
candura da jovem. Seus olhos passeavam dos cabelos para o rosto, 
para os braos, para as mos, de novo para o rosto; Encantava-se 
com a delicadeza e o jeitinho agradvel da mocinha. Susanna, percebendo-
lhe o intenso interesse, sente-se corar diante do insistente 
olhar dele. Era estranho aquilo!... Ela no costumava ruborizar-se 
diante de ningum!... Entretanto, ao lado daquele rapago que lhe 
era totalmente desconhecido, sentia-se frgil, totalmente vulnervel. 
-Oh, que indelicadeza a minha!... -diz ela, recobrando, depois de 
algum esforo, a loquacidade que lhe era peculiar: -Deixa que me 
apresente: Susanna Procula, neta de Cornlius Helvetius Pisanus! 
-No me digas que s neta do grande senador Cornlius Pisanus!... exclama 
ele, cheio de admirao. -Meu av foi grande amigo do 
teu!... Eu sou Flavius AntoninusRimaltus! 


#
-Acho que j  ouvi vov falar sobre os Rimalti! -diz ela, altamente 
interessada. -E tua famlia no  natural de Roma!... Acertei?... 
-Acertou!... -exclama ele, rindo-se e mostrando, pela primeira vez, 
os dentes incisivos, brancos e bem-feitos. -Somos de Neapolis!... 

- por isso, ento, que ainda no te vi pela cidade!... -exclamada. _ 
Pois vivo no Circus Maximus e no Theatrum, com meu noivo, e no 
me lembro de ter-te encontrado antes! 
Ao ouvi-la dizer que era noiva, o rapaz abaixa triste os olhos. A 
Susanna no passa despercebida a sbita mudana no brilho dos 
olhos dele. D-se conta ento de que Iulius desaparecera, deixando-a 
sozinha. 
-E onde est teu noivo agora? -pergunta ele, com uma pontinha de 
ironia. 
-Iulius apartou-se de mim, quando comeou a correria -diz ela, um 
pouco envergonhada. -J deve ter-se ido. 
-Deixando-te s?... -pergunta Flavius Antoninus, olhando-a, 
matreiramente, com o rabo dos olhos. 
-Deve se ter cansado de procurar-me... -diz ela, altamente desapontada. 
-Agora no sei como voltar para casa, pois vim 
acompanhando-o em sua liteira. 
-Posso resolver isso, se quiseres -diz ele, olhando-a nos olhos. Tenho 
meu carro estacionado na viela diante do palcio. Posso conduzir-
te a casa... 
Susanna levanta-se e se coloca diante dele. 
-Vamos, que j amanhece... -diz ela, estendendo-lhe a mo. No 
horizonte, a aurora chegava de mansinho, acendendo um lumaru 
rseo no lmpido cu azul-turquesa... 

#
Captulo IV 
Pela primeira vez, Jesus 


O carro corria clere pela viela calada de pedras e ladeada de 
exuberantes e altssimos ciprestes verde-escuros e, em suaves ziguezagues, 
ia descendo o Palatino, onde se localizava o palcio 
imperial. L do alto, avistava-se a cidade que, espreguiando-se, j 
se acordava, iluminada pelos fulgentes raios da manh radiosa. 
Susanna Procula deliciava-se com a fresca brisa matinal a fustigar-lhe 

o rosto e a revoltar-lhe os longos cabelos cor de mel, enquanto a 
biga corria, habilmente conduzida pelo rapaz, que manejava as 
rdeas com destreza mpar, ao mesmo tempo em que ia estalando 
no ar longo chicote, para incitar a belssima parelha de fogosos 
corcis negros que disparavam ligeiros, em desabalada carreira, 
batendo, ritmicamente, os cascos no calamento irregular de pedras 
do caminho. "Abraa-te a mim, firme, para no cares", dissera-lhe 
ele, antes, ao tomarem o carro. "Em pouco tempo, deixar-te-ei s e 
salva em tua casa!..." 
Fortemente abraada ao desconhecido, Susanna sentia-se estranhamente 
feliz. Amide, olhavam-se com o canto dos olhos e se 
riam contentssimos. Ele, por estar conduzindo preciosssima carga 
em seu carro; ela, por estar ali, fortemente jungida quele rapaz que, 
alm de forte e musculoso, era dono de admirvel beleza. E, com 
que naturalidade ela se agarrava a ele, enquanto o carro descia, 
cleremente, a viela cheia de curvas, em direo da cidade! 
Para Susanna, foi inevitvel a comparao de Flavius Antoninus com 
Iulius. "Engraado, nunca senti por Iulius o que sinto por este!...", 
pensa ela, reconhecendo que se sentia atrada pelo rapaz que a 
salvara de situao to difcil. "No fosse por ele, ainda estaria 
perdida no bosque do pao imperial!... Deste, gosto do olhar, da 
voz, do sorriso!... Gosto de tudo, gosto at do cheiro dele!..." e, 
aproximando mais o rosto do fortssimo dorso do rapaz, aspira-lhe 
#
o perfume. E ele, ento, percebendo que ela se lhe recostava mais s 
costas, volta a cabea e lhe sorri cheio de paixo. E Susanna 
permanece assim, mais colada, ainda, ao corpo do rapaz. "Que 
diferena de Iulius que, s vezes, irrita-me, com seu jeito mando e 
prepotente!...", pensa ela. "E, alm do mais, tem um cheiro que no 
me agrada muito!..." 
O carro agora j percorria as estreitas mas da periferia da cidade 
que, paulatinamente, iam enchendo-se de pessoas que caminhavam 
ligeiras, em direo das atividades que as aguardavam, na prpria 
cidade, ou nos campos e vilas adjacentes. 
Quando se est feliz, o tempo voa. Susanna nem percebeu a enormidade 
da distncia que haviam percorrido e foi com certa consternao 
que viu o carro estacionar diante da manso de seu av. Um 
tanto relutante, ela retirou os braos que, to deliciosamente, trazia 
envolvidos ao corpo do rapaz. Ele tambm emitiu fundo suspiro de 
desolao, e uma intensa sensao de frio, de vazio, tomou-lhe a 
alma. 
-Vem, que te apresento a meu av!... -diz ela, quando ele lhe deu a 
mo, para ajud-la a saltar do carro. -Ele ficar feliz em conhecer-
te!... 
-No sei se devo!... -diz ele, reticente. -Ainda  to cedo!.. 
Oh, vov  um madrugador nato!... -diz ela, com os olhos brilhantes 
de expectativa. -E, a esta hora, j deve se achar no triclinium, 
comendo o ientaculum!.. 1 
-Por onde andaste at a esta hora, menina?... -exclama Cornlius 
Helvetius, tentando ralhar com a neta que, como sempre, entrava 
intempestivamente no triclinium, onde ele, recostado num canapeum, 
principiava seu desjejum. 
-Adivinha quem eu trouxe para conhecer-te, vov!... -exclama ela, 
exibindo, orgulhosa, o desconhecido rapaz. 
1. Na antiga Roma, a primeira refeio do dia, que se tomava bem de manhzinha e que, 
normalmente, consistia de po, frutas, leite e queijo. 
#
Cornlius olha espantado para o jovem que, um tanto envergonhado, 
adentrava o triclinium. 
-Flavius Antoninus!... -exclama ela, tomando a mo do rapaz. Salvou-
me de ser devorada pelo leo de Nero, ontem  noite! 
-Que dizes?!... -espanta-se o velho senador, empalidecendo ainda 
mais do que j lhe era natural. -Onde  que foste te meter, 
menina?!... 
-Oh, explico-te, vov!... -exclamaela, rindo-se. E, arrastando o rapaz 
pela mo, diz-lhe: -Senta-te a e come conosco!... No ests faminto? 
Apanhando um grande pedao de po, Susanna untou-o de mel e o 
passou ao rapaz. Em seguida, preparou outro para si, no menor 
que o anterior, e enquanto comia com acentuado apetite, principiou 
a relatar ao av, com riqueza de detalhes, a terrfica experincia da 
noite anterior. 
Durante a esdrxula narrativa da neta, Cornlius emitia uma srie 
de exclamaes de espanto e, estarrecido, passeava o olhar, da 
jovem, para o desconhecido rapaz, que comia calado e cheio de 
apetite, e apenas se limitando a olhar para o velho, com um par de 
olhos marrons, repletos de bonomia. 
-O imperador enlouqueceu!... -exclama o senador, levantando-se e 
se pondo a caminhar, enquanto falava, gesticulando muito. Comeo 
a temer pelos destinos do Imprio!... Onde j se viu 
cometer tais barbries, indignas de um soberano de Roma?... Que 
ande a assassinar, desavergonhadamente, os seus inimigos polticos, 
suas esposas e at mesmo a me e os parentes, para manter-se no 
trono, v l, mas da a atiar feras sanhudas em gente indefesa j  
sinal de iminente loucura! 
-Vov, no imaginas a que extraordinrios combates assisti no pao 
imperial!... -exclama ajovem, dando pouca importncia ao que 
falava o av. -O prprio imperador conduziu o espetculo!... 
-Nero supera-se!... -exclama o velho, levantando ambas as mos, 
em patente demonstrao de escrnio. E prossegue, extravasando 
sua indignao: -E o que  pior: arrasta atrs de si a juventude, a 

#
fina flor romana, que lhe segue os desvarios!... Oh, Susanna, jamais 
poderia supor que andavas a freqentar o pao, indo s festas 
daquele doido!... 

-Iulius levou-me, vov!... -exclama a jovem. -Eu andava louca para 
participar de um convivium de Nero!... Oh, havia tanta gente bonita, 
tanto esplendor, que jamais poders imaginar!... 
-Posso, sim, minha cara!... -contesta o velho, em tom de censura. 
-Posso, sim, imaginar a carrada de descaramentos e de impudncia 
que presenciaste naquele lugar!... Oh, Susanna, desejei tanto que 
jamais viesses a pr os ps naquele antro!... Mas, o traste de teu 
primo, malgrado as minhas instncias e a minha resistncia, est a 
arrastar-te  lama onde ele costuma chafurdar!... 
Flavius Antoninus mantinha-se quieto no seu canto, a roer grossa 
fatia de queijo de cabra e a observar atento o desenrolar do colquio 
entre o av e a neta. A desenvoltura, a graa e a beleza da 
jovenzinha encantavam-no, e ele se sentia magnetizado, preso 
quele rosto de tez acentuadamente clara e ligeiramente afilado, de 
traos nobres, com os lbios bem delineados, sempre abertos num 
sorriso de satisfao e de jovialidade, em que exibia os dentinhos 
brancos e bem torneados; os olhos marrom-claros, sempre vivazes e 
brilhantes, passeavam alegres pelo ambiente e atentos a tudo que a 
cercava. O rapaz encantava-se e ficava boquiaberto, seguindo-a com 
os olhos, sem lhe perder um mnimo movimento. 
-E tu, meu rapaz, tambm l estavas?... -pergunta Cornlius, 
deixando-se sentar, pesada e desanimadamente, no canapeum, e 
emitindo fundo suspiro de desolao. S agora  que realmente 
reparava, com acentuada ateno, no rapago que a neta arrastara 
consigo, ao adentrar, intempestivamente, o triclinium. -A propsito, 
no me lembro de t-lo visto antes... 
-Oh, ele  Flavius Antoninus!... -apressa-se Susanna em responder 
ao av. -Como j te disse, salvou-me do leo de Nero! 

-Por Hecate Infernal!.... -exclamao velho, altamente agastado. 

#
-Como  que aquele doido lana lees sobre donzelas indefesas, 
assim, a torto e a direito?!... Ningum toma providncias acerca 
disso? 
-Deixai-me explicar-vos, senador Pisanus -diz, gentilmente, o 
rapaz. -Primeiro, que me apresente: Flavius Antoninus Rimaltus, 
atualmente, servindo no exrcito do Imprio e sob o comando do 
general Caius Petronius Tarquinius... 
-No me digas que s parente de Lucius Antoninus Rimaltus!... atalha 
o velho, agora altamente interessado no rapaz. 
-Sim, sou neto dele!... -diz, orgulhoso, Flavius Antoninus. -Oh, que 
imenso prazer em ter-te aqui, meu rapaz!... -exclama 
Cornlius, abraando, efusivamente, o jovem. -Que alegria ver 
algum da famlia de Lucius Rimaltus!... Dize-me, ainda morais em 
Neapolis! 
-Sim, moramos no mesmo lugar: a villa ao p do Vesuvium! 
-Que saudade de meu velho companheiro de lutas!... -exclama o 
velho, contentssimo por rememorar tempos que lhe foram muito 
bons, no passado. -Lucius e eu lutamos no exrcito, quando jovens, 
assim como tu, e depois, nomeados por Augustus2, servimos no 
senado, desde ento. Mas, dize-me: como est teu av? 
-Vov encontra-se razoavelmente bem -responde o rapaz, sempre 
gentil. -Porm, como a catarata cega-o, lentamente, quase no sai. 
Mame faz-lhe companhia, depois que papai morreu. 
-s, ento, filho de Caius Longinus -observa o velho senador. -Pelo 
que sei, teu av s tinha a teu pai. 
-Sim, sou filho nico de Caius Longinus, morto na guerra, logo que 
nasci -explica o rapaz, entristecendo-se de repente. E, depois de 
instantes, prossegue cheio de orgulho: -Na realidade, educou-me o 
meu av, a quem amo imensamente e devo tudo o que sou! 
-Tiveste, ento, excelente educao, meu rapaz!... -exclama, en 

2. Caius lulus Oclavianus Augustus (63 a.C. -14 d.C), 3a imperador de Roma. 
#
ftico, Cornlius. -Digo-te isto, porque teu av  uma das pessoas 
mais dignas que conheo! 
Depois de algum tempo, durante o qual relata mais notcias acerca 
de sua famlia, Flavius Antoninus levanta-se e se predispe a sair. 
Susanna, ento, lpida como uma raposa, toma-o pela mo. 
-Oh, no te vs ainda!...  to cedo!... -exclama ela, splice, 
olhando-o nos olhos. 
- cedo, mas te esqueces de que no dormimos nada?... -observa 
ele, mal sofreando um bocejo teimoso. 
-Oh, ento promete que virs visitar-nos logo mais!... -diz ela, 
segurando, insistentemente, a mo dele. 
-Sim, prezado Flavius, desejo que tu venhas visitar-nos, amide 
-diz Cornlius, satisfeitssimo, em ver que a neta se interessava pelo 
rapaz. -Tua presena aqui ser sempre uma honra para ns! 
Conduzindo o carro, de volta para casa, Flavius Antoninus ria-se de 
satisfao. Como ela era linda!... Encantara-se com ajovenzinhae 
tinha a certeza de que ela tambm se encantara com ele!... E era neta 
de um grande amigo de seu av!... Isso facilitaria as coisas, pois nenhuma 
das famlias opor-se-ia ao relacionamento deles. Felicssimo, 
fustigava os fogosos cavalos que disparavam, e o carro rodava veloz 
pelas estreitas mas dos arrabaldes cheios de bulcio: meninos 
descalos e queimados do sol corriam vivazes e, aos gritos, 
perseguiam-se em brincadeiras de pega-pega; mulheres 
desgrenhadas e sujas voltavam para casa, depois de venderem o 
corpo  soldadesca que, invariavelmente, infestava as tavernas pelo 
varar da noite, e vendedores ambulantes de leite, de frutas e de 
legumes, carregando pesadssimas cestas de vime  cabea, 
apregoavam suas mercadorias em altos brados. 
Uma hora depois, Flavius estacionava o carro diante da grandiosa 
manso que a famlia mantinha em Roma. O av havia morado ali 
por muitos anos, enquanto tivera foras para exercer o mandato de 
senador; depois, envelhecera, a sade debilitara-se-lhe e, como era 
natural do Sul da Pennsula, resolvera fixar residncia em Neapolis. 

#
Agora estava ele ali, morando sozinho, pelo menos enquanto 
durasse o servio militar; depois, possivelmente, retomaria para o 
Sul, para viver ao lado do av e da me. 
-Ave, domine!... -exclama um criado que, ao v-lo chegar, corre-lhe 
ao encontro e, pondo-se de joelhos, beija-lhe, respeitosamente, a 
mo e lhe pergunta: -Sirvo-vos o ientaculum? 
-Nada de comidas, Marcus -responde Flavius. E ordena ao servo 
que passa a segui-lo, enquanto adentra, rapidamente, o triclinium. 
-Prepara-me um banho. 

Pouco depois, no balneum,2 mergulhado em riqussima banheira de 
mrmore branco, o jovem deleitava-se com o tepor da gua que lhe 
propiciava um delicioso relaxamento dos msculos extenuados e 
doloridos pelo excesso de horas de viglia. Luta, ento, como um 
desesperado, contra uma atrevida modorra que tenta domin-lo. 
Mas, ele quer ficar lcido, quer ficar envolvido pelas doces 
lembranas dos momentos que passara ao lado dela. Susanna 
Procula... A imagem da mocinha no o deixava. O fiel servo 
permanecia em silncio, a seu lado, cuidando para que ele no 
dormisse e viesse a afogar-se na banheira. 
-Estais quase a dormir, dominei... -grita o criado, percebendo que o 
outro lutava, desesperadamente, para vencer a sonolncia que o 
dominava. -No seria melhor irdes para o cubiculum? 
-Oh, s um idiota, Marcus!... -exclama, irritado, Flavius. -Principiava 
a sonhar com uma deusa, e tu me acordaste!... Melhor 
mesmo ir, de vez, ao cubiculum; s assim tu me deixars em paz! 
A seguir, extremamente agastado, o rapaz levanta-se da banheira, e 

o criado, ento, enxuga-o, cuidadosa e meticulosamente, com alva 
toalha de linho. Depois, trajando leve pretexta de seda branca, toma 
a direo do cubiculum e se atira sobre o leito. Ia dormir e, quem 
sabe, no sonharia com ela, a adorvel mocinha de olhos cor de 
mel? 
2Nas antigas casas romanas, o quarto de banho. 

#
Diante das escadarias de mrmore branco do Capitolium, Drusilla 
Antnia detm, por instantes, seu apressado marido. 
-V bem o que vais fazer, Caius -cochicha ela ao ouvido dele -, no 
te vs deixar levar por mesquinharias, diante do sumo sacerdote de 
Jpiter Capitolinus, hein!... Jura-me aqui, antes, que fars tudo o que 
ele te mandar fazer! 
-Ora, Drusilla!... -diz ele, olhando-a com ar divertido. -Mesmo que 
me esfolem vivo, juro-te que nada regatearei!... Darei tudo o que 
nosso Pai Jpiter solicitar de mim!... 

O templo, quela hora da manh, fervilhava. Toda a imponente 
construo fora erigida em mrmore branco, ricamente embelezada 
com detalhes em granito rosa e em mrmore negro. As colunas que 
sustentavam a cpula do majestoso e colossal edifcio eram imponentes, 
prova da capacidade arquitetnica de seus idealizadores. O 
interior do santurio encontrava-se inundado por espessa nuvem de 
fumaa de incenso que queimava em espantosa quantidade aos ps 
da agigantada esttua do pai dos deuses, cujos olhos altamente 
penetrantes, encravados num rosto extremamente severo e 
emoldurado pela longa barba bifurcada, parecia olhar a todos com 
austeridade e ameaando fulminar os maus e os pecadores com o 
poderoso raio que trazia  mo direita. 
O sumo sacerdote do Capitolium aguardava-os e os recebe, solcito, 
conduzindo-os, a seguir, para o ptio dos sacrifcios que se situava 
nos fundos da imponente construo e se constitua, na verdade, 
mais de um horripilante matadouro de animais -desde 
pequenssimos pardais e outras aves, a carneiros, bodes, bezerros e 
gigantescos bois -que eram imolados ao deus que ali se cultuava. O 
fortssimo bodum, exalado pelos bichos que aguardavam o 
momento de serem mortos, empestava o lugar, causando nuseas 
aos menos acostumados quele tipo de coisas, aliando-se, ainda, ao 
forte odor do sangue fresco que jorrava aos borbotes das centenas 
e centenas de gargantas degoladas, incessante e ininterruptamente, 

#
pelos afiadssimos cutelos dos sacerdotes que oficiavam no 
majestoso templo de Jpiter Capitolinus... 
-Os arspices no vos predizem boas coisas, general -diz o sumo 
sacerdote. -De fato, vossa sade encontra-se terrivelmente abalada 
e s teremos aplacada a ira de nosso Pai com uma hecatombe.4 
Caius e Drusilla Antonia entreolham-se. Ele entendeu logo o que ela 
lhe queria dizer. 
-Fazei conforme o solicitado -diz Caius, resoluto, ao sumo sacerdote. 
-Se  isso o que nosso Pai deseja para libertar-me deste 
mal, no poupeis nenhum sacrifcio!... 

-S que imolaremos os bois de uma s vez, general -explica o sumo 
sacerdote. -E vs ambos devereis estar presentes no dia e hora 
aprazados. 
-Assim faremos -diz Drusilla Antnia. -Para que meu Caius se 
restabelea, qualquer coisa se justifica! 
-E, aconselho-vos, tambm, a sacrificarem a Aesculapius, para que 
no se ofenda e no vos mande mal pior! -diz o sumo sacerdote de 
Jpiter, despedindo-se deles,  porta do descomunal templo. 
A praa do Frum fervilhava de gente que se juntava num gigantesco 
burburinho, entre transeuntes que passavam apressados, e 
outros que ali permaneciam, vendendo bugigangas, gua, comida 
ou, ainda, conversando, animadamente, em duplas e em pequenos 
grupos. O sol brilhava forte, indicando que o dia avanava bastante. 
No palanque de proa de navio do Comitium, um orador inflamado 
discursava para reduzida, mas atenta platia. Caius e Drusilla 
Antnia atravessam todo aquele bulcio sem muita pressa e tomam a 
liteira que os aguardava numa das mas laterais. 
Uma hora depois, ambos repousavam no peristylium,5 recostados em 
largos e confortveis canapei de vime. 

4. Nos antigos cultos pagos, sacrifcio de 100 bois. 
5. Nas antigas casas romanas, extensa varanda sustentada por colunas e que dava para um 
jardim ou ptio interno. 
#
-Ests cada dia mais magro... -diz Drusilla Antnia, tomando a mo 
de Caius entre as suas e a acariciando ternamente. 
Ele se limita a olh-la e a lhe sorrir tristemente. 
-Oh, Caius -continua ela, cheia de preocupao -, h momentos em 
que noto que empalideces de repente!... Dize-me, so as dores, no 
? 
-Sim, minha cara -responde ele, baixando os olhos -, no adianta 
mentir-te!... As dores so-me insuportveis!... Penso que no 
suportarei! 
-Cus, meu amor!... -diz ela, levantando-se e se abraando a ele. As 
lgrimas brotam-lhe dos olhos em catadupas. -Que posso fazer 
para ajudar-te a aliviar tal sofrimento?... 
-Tu j tanto me auxilias, meu tesouro!... -diz ele, beijando-lhe os 
olhos molhados de lgrimas. -Sei que minhas dores so tambm 
tuas!... Sofres o tanto quanto eu! 

-Oh, Jpiter Capitolinus!... -exclama ela, levantando os braos, em 
splica. -Grandioso Pai, ouvi minhas preces!... Dar-vos-emos uma 
hecatombe em breve!... Sede misericordioso para com meu Caius!... 
De um canto e semi-acobertados pela colunata do perystilium, 
Dulcina e Iustus, o fiel casal de servidores da casa, ouviam 
condodos as splicas que sua senhora fazia pela sade de seu 
amado esposo. 
-Nosso senhor sofre muito, Iustus -cochicha Dulcina ao ouvido de 
seu esposo. -No achas que deveramos conversar com Rufus1?... 
-No sei, no -responde, preocupado, o majordomus. -Tu sabes 
como so nossos amos!... Crs que iro trocar Jpiter Capitolinus por 
Ele?... Conheces muito bem os patricii6... So cheios de orgulho at as 
orelhas!... Imagina se cultuaro um deus plebeius,7 um simples 
carpinteiro!... 

6. Patrcios, em latim. Entre os antigos romanos, a classe dos aristocratas. 
7. Plebeu, em latim. Na sociedade romana antiga, correspondia  classe mais humilde da 
populao. 
#
-Oh, mas a dor nivela-nos!... -exclama a criada. -Se concordares, 
falo hoje mesmo com nossa ama!...  pessoa bondosa e humana; 
penso que me ouvir!... 
-No sei, no, minha cara! -exclama, hesitante, o majordomus. -Tu 
sabes como eles so!... 
-Deixa-me tentar!... -diz ela, splice. -Di-me v-los assim, 
sofrendo!... Quem sabe Rufus no atender nosso amo, mesmo 
sendo ele um patrcio romano? 
-Que Rufus o atender, no tenho a menor dvida; o caso  se 
nosso amo ir at ele! 
-Mas, Rufus poder vir at aqui!... Se ns lhe pedirmos, tenho a 
certeza de que vir! 
No final da tarde, Drusilla Antnia encontrava-se no balneum, 
mergulhada em sua banheira, e Dulcina lavava-lhe os cabelos, esfregando-
os, delicadamente, com a ponta dos dedos. Sua senhora tinha 
os olhos semicerrados e estava mais triste que nunca. 
-Domina -arrisca-se a criada -, posso dizer-vos algo? 


-Vai l, dize-o!... -exclama Drusilla Antnia, sem muita animao. Que 
no sejam mexericos da culina8, pois hoje no estou para tais 
coisas! 


-Sei o quanto sofreis, vs e vosso augusto esposo, domina! -diz a 
criada, enchendo-se de coragem. -Mas, penso que podemos ter a 
soluo para isso! 
-Que dizes, tonta?... -exclama Drusilla Antnia, abrindo os olhos e 
encarando a criada. -Sabes o que ests falando?... J consultamos os 
melhores mdicos de Roma, j fizemos uma carrada de sacrifcios a 
Aesculapius, a Jpiter Capitolinus e acho que ao Panteo todo, sem 
nenhuma exceo!... E vens dizendo-me que tens a soluo?... Pelo 
visto, perdeste o juzo!... -e volta a cerrar os olhos, altamente contrariada 
com a ousadia da criada. 


8-Cozinha, em latim. 

#
-No, no, domina!.... -diz a criada, persistindo em seu intento.  
-Existem outros mtodos que, possivelmente, ainda no 
conheceis!.. . 
Drusilla Antnia limita-se a olh-la, abrindo apenas um dos olhos, 
tamanha era a desolao que a dominava. A outra, entretanto, 
continua, apesar do descaso que lhe mostrava a ama: 
-J ouvistes, por certo, falar em Jesus, o Carpinteiro Judeu!... 
-Ah, a nova seita, a dos Cristos, que encanta os pobres e os 
escravos!... No sabia que andavas a freqentar tais coisas!... Pelo 
que me consta, so cheios de supersties e de crendices absurdas, 
no  assim?... Prometem riquezas e glria num outro mundo!... E o 
tal carpinteiro, o fundador da seita, foi crucificado por subverter a 
ordem!... 
A criada abre um ligeiro sorriso. Tambm sua ama achava tudo 
aquilo uma bobagem... Mas, no se contm e prossegue: 
-Se me permitis, domina, digo-vos quem, na realidade,  Jesus, e 
qual  a mensagem que nos trouxe! 
Drusilla Antnia d de ombros. Sabia que, dificilmente, conseguiria 
calar as tagarelices de sua criada. 
-Ento crs que o tal Deus Judeu poderia curar meu Caius! pergunta 
a matrona, com um sorriso de deboche nos lbios. -Como 
faria isso?... Acaso seria maior e mais poderoso que Jpiter 
Capitolinus? 


-Rufus, um dos seguidores de Pedro, que foi apstolo de Jesus, tem o 
dom de curas. Poder curar vosso esposo, instantaneamente, apenas 
impondo-lhe as mos e orando sobre ele!... Se tiverdes f, domina, 
vosso esposo ser curado!... Jesus, em sua vida pblica, curou 
inmeras pessoas: cegos, coxos, paralticos, leprosos, endemoninhados!... 
At mortos ressuscitou!... 
-Sinto muito, Dulcina -diz Drusilla Antonia, com um sorriso de 
incredulidade. -Mas, fazer com que Caius v at um desses lugares 
onde se renem os cristos seria uma tarefa impossvel de realizar!... 


#
Conheo-o muito bem. Ele jamais trocaria Jpiter Capitolinus ou 
qualquer um dos deuses do Panteo por um deus carpinteiro!... E 
ainda mais judeu!... Acho que preferiria morrer!... 
-Mas, domina, eu mesma vi!... -exclama a criada, cheia de extremo 
entusiasmo que em nada era partilhado pela outra. -Ontem mesmo, 
quando nos reunimos na casa de Rufus, vrias pessoas foram 
curadas, instantaneamente, de males gravssimos!... At um velho 
leproso limpou-se, imediatamente, mal foi tocado pelas mos do seguidor 
de Pedro!... E algo extraordinrio!... Vede como Deus se manifesta 
todo-poderoso e mostrando Sua misericrdia infinita, 
atravs de Seus verdadeiros seguidores!... 
-Iustus tambm compartilha dessa tua f? -pergunta Drusilla 
Antonia, intrigando-se com o tom de espontaneidade que percebera 
nas palavras e na narrativa da criada. Nunca dera muito trato s 
conversas de suas criadas, mas sabia que ningum jamais 
conseguiria mentir com tal veemncia. Levanta-se resoluta da 
banheira e ordena: 
-Veste-me e depois chama Iustus, que o aguardo no viridarium9. 
Pouco depois, o majordomus apresenta-se a ela que passeava 
entre os perfumadssimos canteiros de lilases a exalarem seu 
pitoresco perfume, na tepidez da tarde primaveril. 
-Iustus, sei que s um homem correto e que no mentes, pois te 
conheo desde quando ainda eras um mooilo, comprado por 
meupai, no mercado de escravos -diz Drusilla Antnia, olhando 
firme n0S olhos do criado. 

-Sic est, domina! 10 -responde o majordomus, baixando, humildemente, 
os olhos. 

9. O jardim, que costumeiramente enfeitava as antigas residncias romanas, podendo ser 
interno ou externo. 
10   Assim , senhora!..., em latim 
#
-Ento, apelo para o teu carter que sempre me pareceu, assim, 
impoluto e me respondas, sem nada omitires ou encobrires com a 
ndoa da mentira: ests a par do que me disse Dulcina, esta tarde, 
acerca da seita do Deus Crucificado? 
-Sim, domina -responde o majordomus. -Estou a par de tudo. 
-Ento confirmas, sem reservas, o que me disse ela sobre as curas 
fantsticas que observastes em casa do mestre cristo? 
-Perfeitamente, domina -confirma ele, sem titubear. -Tudo o que 
vos relatou Dulcina  verdadeiro!... Tendes a minha palavra! 
Drusilla Antnia olha sria no rosto do majordomus como a lhe 
sondai" fundo no recesso da alma. Ele lhe sustenta, firmemente, o 
olhar, e ela se convence: o homem no estava mentindo. Conhecia-o 
como a palma de sua mo. 
-Dize-me, Iustus -observa ela, aproximando-se mais e quase a 
cochichar-lhe: -E verdade que o sacerdote cristo limpa leprosos, 
instantaneamente? 
-Sim, domina!... -exclama o criado, iluminando o rosto de sbita 
alegria. E prossegue, com os olhos tomados de brilho vivaz: -No 
s leprosos limpam-se, mas tambm paralticos voltam a caminhar 
com a maior desenvoltura, cegos vem, dementes retomam a 
razo!... Oh, senhora, o poder de Jesus  insupervel!... E a 
mensagem de f, de esperana e de consolo que nos legou?... 
Passamos horas, ouvindo-a, embevecidos!... 
Drusilla Antnia ainda hesita. No seria esse sacerdote cristo um 
poderoso feiticeiro a lanar estranhos encantamentos sobre essas 
criaturas ignorantes e crdulas?... Ouviam-se tantas coisas sobre os 
cristos... Estranhos e absurdos boatos corriam sobre a conduta dos 
seguidores do Judeu Crucificado: diziam que os adeptos daquela 
nova e estranha seita faziam rituais macabros, sacrificando crianas 
roubadas aos pais, bebendo-lhes o sangue e lhes devorando as 
carnes emas, em diablicos festins; outros, que eram perigosos 
revolucionrios e que pretendiam insurgir-se e libertar os escravos, 
causando, assim, a falncia do Imprio. 

#
Drusilla Antnia sentia-se confundir. Contudo, ardente curiosidade 
apoderava-se dela. 
-Dize-me, Iustus -pergunta ao majordomus -, quando  que ireis  
casa do sacerdote cristo? 
-Ainda esta noite, domina -reponde ele. -Quando tudo estiver 
quieto, e completarmos nossas tarefas, iremos Dulcina e eu. 
-Tambm eu irei, Iustus!... -diz ela, resoluta. -Entretanto, no 
desejo que Caius saiba. Propinarei forte dose de ladanum11 a ele e, 
assim que adormecer, juntar-me-ei a vs. 
A noite cara escura e sem luar. Trs vultos encapuzados caminhavam 
apressados, por sombria mela esburacada e cheia de poas 
de gua estagnada e malcheirosa, seguindo, cuidadosos, a frouxa 
claridade que derramava a pequena lanterna que Iustus carregava, 
dois passos adiante. O fedor de fezes e de urina humanas era 
insuportvel, e era preciso caminhar premendo as narinas para no 
se enjoar. Tugrios miserveis, feitos de adobes e de terra batida, 
permeavam a viela que, quela hora, silenciava pelo avanado das 
horas. Apenas se ouviam os latidos insistentes dos ces vadios e um 
ou outro grito que se perdiam no silncio da noite. 
Depois de caminharem por mais de hora e meia em marcha forada, 
atravs de uma interminvel sucesso de escuras e deplorveis 
melas, ftidas e esburacadas, o grupo pra diante da porta de pobre 
casa de tijolos de barro cm e coberta de grossa camada de colmo j 
bastante enegrecido pela intemprie. Iustus adianta-se e bate com a 
mo fechada, em toques pausados. Instantes depois, a porta abre-se 
com um chiado, surge uma cabea e alumia o rosto dos recm-
chegados com uma lanterna de azeite. Dita uma curta senha, a 
entrada -lhes franqueada, e os trs desaparecem pelo interior da 
choupana. 

11. ldano ou ludano, em latim. Sedativo derivado da esleva, planta da familia das 
cistceas. 
#
Drusilla Antnia espanta-se com a penria do ambiente. A pedido de 
Dulcina e de Iustus, declinara de seus ricos trajes costumeiros e se 
vestira com sobriedade para no chamar a ateno. Tiveram de 
sentar-se ao cho, sobre esteiras de palha, pois no havia qualquer 
mvel no ambiente, exceo de tosca mesa, sobre a qual havia 
alguns rolos de pergaminho e uma lamparina de azeite. A matrona, 
ento, cheia de apreenso, passeia os olhos pelo ambiente. As 
paredes, prendiam-se trs fumarentas e malcheirosas tochas de 
betume, a lanarem fraca luminosidade no ambiente, que no 
passava de uma sala de mdias propores, em cujo assoalho de 
tijolos crus acocoravam-se umas trs dezenas de pessoas que, em 
silncio, pareciam, ansiosamente, aguardar por algo. Deitados sobre 
as esteiras de palha e envoltos em trapos imundos, havia alguns 
enfermos, notadamente cegos, paralticos e portadores de 
enfermidades crnicas diversas e, mais afastadamente, ao fundo da 
sala, agrupavam-se quatro pessoas totalmente envoltas em panos, 
deixando  mostra, apenas os olhos, o que fez Drusilla Antnia, com 
um calafrio, constatar que se tratavam de leprosos. 
Alguns minutos mais e, de uma porta lateral, adentrou um homem 
de meia idade, portando barbas longas e j um tanto grisalhas. 
Postou-se ao lado da acanhada mesa e, encarando a pequena 
assemblia com olhos brilhantes, disse: 
-Que a paz de Nosso Senhor Jesus, o Cristo, esteja convosco! 
Depois, desenrolando um dos pergaminhos que se achavam sobre 
a mesa, aproximou-os da luz da lanterna e leu, com voz pausada: 

"Delendeabo essa templa et in treabus deabus ea reedificata... "12 

Em seguida, passeou demoradamente os olhos pela pequena assemblia 
e disse, com voz suave: 

12. "Destruirei esse templo e em trs dias eu o reconstruirei...", em latim. Evangelho de S. 
Joo 2-19. 
#
-Podem parecer estranhas essas palavras nos lbios dAquele que 
foi e  o Prncipe da Paz!... No   toa que se sentiram chocados os 
maiorais de Israel, quando souberam e disso tambm se utilizaram 
para forjarem as provas para O condenarem  morte!... Entretanto, 
carssimosirmos, no obstante queira ou no o grande sacerdcio 
organizado da terra, os dolos esto cansados!... No conseguem 
atender mais aos apelos e aos anseios dos que lhes freqentam os 
riqussimos templos, erigidos em mrmore e em granito. 
Permanecem mudos e impassveis, do alto de seus pedestais, e se 
acham ricamente adornados de ouro, prata e preciosidades sem par, 
enquanto o grosso da humanidade encontra-se relegado  misria!... 
Ah, a misria, esse terrvel monstro que campeia por todos os 
lados!... 

O pregador silencia por instantes e passeia os olhos pela pequena 
assemblia que o ouvia atenta. Sorri um sorriso triste e prossegue: 
-Que  pior, pergunto-vos: a misria fsica ou a misria moral?... 
Vs outros sofreis a sobejo a ambas, porque vos conheo, estou convosco 
todos os dias e, principalmente, porque sou um de vs!... 
Olhai em derredor, irmos!... O que vedes?... Misria, misriae mais 
misria!... O luxo e a luxria afrontam-nos todos os dias!... Os 
costumes barbarizam-se, fazendo as criaturas nivelarem-se s bestas 
mais rasteiras de que se tem notcia!... Que fazem os poderosos, 
trancados em seus ricos e admirveis palcios?... Festejam Baccus13 e 
se locupletam nas mais dissolutas orgias, como se tudo isso fosse 
natural!... E, quando se encontram esgotados, doentes do corpo ou 
do esprito, vo aos ps de Aesculapius ou de Jpiter Capitolinus, e os 
sacerdotes desses santurios perguntam-lhes: "Quanto podeis dar 
ao deus?... Um boi?... Dois?... Trinta?... Uma 
hecatombe?..."Negociam, irmos!... Vendem os favores da 
divindade que representam!... E, ns, que nada temos?... "No 

13. O deus do vinho na mitologia latina. 
#
possus nem um msero sestrcio para um pardal ou para uma 
pomba?...",  o que nos perguntam eles que, de graa, nada fazem!... 
Arrancam at dos que nada tm!... Como pode Deus cobrar pelo 
que faz?... Imaginai se, de repente, Nosso Pai resolvesse cobrar-nos 

o ar que respiramos, a gua que nos mata a sede ou a luz do sol que 
nos alumia?... Pobres de ns!... No, carssimos irmos!... O que vem 
de Deus no tem preo, porque o que Ele nos venderia  de to alto 
custo e de to fina procedncia que nem o maior dos tesouros deste 
mundo seria suficiente para pag-lo!... 
Rufus silencia, novamente, enquanto parece reorganizar as idias e, 
fazendo um largo gesto com as mos, prossegue: 
-"Destruirei esse templo...", disse-nos, simbologicamente, o Mestre 
Nazareno, mas se referindo, na realidade, a que j  chegado o momento 
de novas e grandes mudanas para todos ns, pois a 
mensagem que nos trouxe  mpar!... Esse templo a que se referiu 
Jesus  a F, que deve se fundamentar no amor a Deus, ao prximo e 
 prtica da caridade, coisas que, decididamente, minguam nos dias 
atuais!... Onde o respeito s coisas santas?... O homem se embrutece 
e se envilece como nunca!... A injustia, o egosmo e o desamor 
imperam em toda a parte!... Ahumanidade est podre, carcomida 
pelo vcio, pela incria e pela insensatez e  preciso, bem depressa, 
reabilitarem-se as virtudes;  necessrio, urgentemente, ressuscitar o 
amor nos coraes dos homens!... Mas, para que isso acontea,  
preciso que se deite abaixo o antigo templo dos dolos mudos e 
impassveis, cheio de viciaes, de supersties e de crenas 
absurdas, onde viceja a f fria e exterior, e se reconstma um novo, 
cujos alicerces fundamentem-se na rocha viva do Evangelho!... 
Drusilla Antnia ouvia a pregao do missionrio cristo e se 
espantava: jamais ouvira coisas ditas assim e relacionadas  prtica 
religiosa, com tamanho poder de inciso, e de forma a promover 
rupturas na estrutura da f de algum. Perturbara-se, e ligeiro mal-
estar acomete-a. Aflita, busca o rosto dos companheiros e nota que 
eles se mantinham presos s falas do pregador cristo, cheios de 

#
embevecimento. E agora?... Comea a sentir medo. E se, de fato, 
fossem realmente bruxos e a enfeitiassem?... Iustus e Dulcina pareciam 
magnetizados, com os olhos fixos no rosto do missionrio, 
sem dele perderem um mnimo gesto. s raias do desespero, Drusilla 
Antnia procura pela porta, com os olhos. "Se tentarem enfeitiar-
me, saio correndo!", pensa. 
-Agora, as bnos, para o encerramento -diz o pregador e sinaliza 
para dois auxiliares que se mantinham a postos, junto  porta de 
entrada. 

Os dois homens, com gestos comedidos e portando os semblantes 
serenos, organizam pequena fila que se forma diante de Rufus que 
se mantinha de p, com os olhos semicerrados e em profunda 
concentrao. Em seguida, o insigne pregador ergue os braos ao 
alto e diz, com voz splice: 
- Divino Mestre Jesus!... Seguimos as Vossas recomendaes e aqui 
estamos!... Diante de ns, acham-se os pequenos do mundo em 
busca do Vosso amor!... Derramai sobre eles a Vossa graa, Senhor, 
e fazei segundo o merecimento de cada um!... 
A seguir, atende ao primeiro da fila: tratava-se de uma mulher 
excessivamente magra e maltrapilha e que trazia uma criana ao 
colo. Ela estende os braos descamados, mais parecidos a dois 
galhos de rvore ressequidos que braos propriamente, e apresenta 

o seu beb -uma pequenina trouxa, envolta em imundos farrapos, 
que sequer tinha foras para chorar. O pregador cristo olha, 
demoradamente, para a mulher e para o beb que ela lhe estendia 
com os olhos splices, olhos de uma me que via a tnue vida de 
seu rebento esvair-se-lhe por entre os dedos. Rufus, ento, sente 
duas lgrimas descerem-lhe, teimosas, pelas faces, tambm 
largamente batidas pelas dores do tempo. A seguir, toma o beb nos 
prprios braos e o ergue, acima da cabea, e diz com a voz 
carregada de emoo: 
-Vede, Senhor, a quantas andam os Vossos filhos!... Apiedai-Vos 
desses pequenos!... Dai-lhes o consolo, conforme nos prometestes! 
#
O beb emite fraco vagido e se pe a mover as mozinhas e as 
perninhas. Contentssima, a me recebe de volta o seu filho e o 
aconchega forte ao peito. A seguir, num ato espontneo, ajoelha-se 
e, tomando a mo de Rufus, beija-a, agradecida. A um sinal do 
pregador cristo, um de seus auxiliares apanha uma das cestas de 
alimentos adrede preparadas e que se amontoavam num dos cantos 
da sala e a entrega  pobre mulher que se desmancha em 
agradecimentos. 
Drusilla Antnia, ainda sentada sobre o estrado de palhas, a tudo 
observava, cheia de espanto. No se haviam colocado em fila, juntamente 
com os demais, porque Iustus pretendia que ficassem para o 
final dos atendimentos e, assim, teriam privacidade e mais tempo 
para conversarem com Rufus. A matrona, s vezes, sentia-se sufocar 
pelo cheiro nauseabundo, exalado por aquelas criaturas 
maltrapilhas, sujas e, na grande maioria, enfermas, acometidas de 
cegueira, aleijes, lepra, mas, mesmo assim, esforava-se e seguia 
atenta ao desenrolar das atividades no singelo templo cristo e lhe 
era difcil entender aquelas coisas, pois no pertenciam a seu 
mundo. Sempre fora rica e vivera em estupendas manses, erigidas 
em finssimos mrmores e em granitos reluzentes, e gozara sempre 
de todo o conforto que lhe propiciavam os bons mveis e o requinte 
das obras de arte. dos bons vestidos e das jias de fina lavra. Jamais 
supusera quo difcil e rdua era a vida de seus conterrneos mais 
pobres. Por outro lado, como poderia aceitar um deus miservel 
como aquele que vivia entre gente to esfarrapada e to desprovida 
de tudo?... Que diferena entre o Capitolium e o Pantheonem14, onde a 
beleza e a exuberncia de luxo marcavam a verdadeira morada de 
um deus! 

14. Panteo, templo arredondado que, tanto na Roma quanto na Grcia antigas, era 
dedicado a todos os deuses. 
#
Depois de assistirem a uma dezena de curas e de manifestao de f 
extraordinria, a fila esgota-se, e Rufus, deitando os olhos sobre o 
pequeno grupo que restara acocorado sobre o estrado de palhas, 
faz-lhes um sinal com a mo, chamando-os a aproximarem-se. O 
corao de Drusilla Antnia principia a bater descompassado. Ela 
estava terrificada com as estranhas manifestaes que houvera 
presenciado ali. Iustus olha para ela, encorajando-a, e Dulcina 
aperta-lhe forte a mo. 
-Sede bem-vinda entre ns, domina! -exclama Rufus, sorrindo-lhe, 
gentil. -E no tenhais medo, pois Jesus  conhecido como o Cordeiro 
de Deus e, conforme sabeis, esses bichos so os mais mansos que 
existem! 
Drusilla Antnia limita-se a olh-lo com os olhos desmedidamente 
abertos. Era patente o terror que ora a invadia. 
-Se tiverdes f, senhora, Jesus curar vosso esposo!... 
-Co... co... mo sabeis que meu esposo est enfermo?!... -espanta-se 
ela. -Acaso contou-vos Iustus? 


-No, domina -diz Rufus sem se alterar -, nada me disseram vossos 
servos; porm, o Sublime Cordeiro tudo sabe!... -e, apontando o 
dedo para o peito de Drusilla Antnia, prossegue incisivo: -Mas, 
primeiro,  preciso que derribeis o antigo templo que ainda a se encontra 
erigido dentro de vosso corao, para que Jesus possa nele 
fazer sua morada... 
-Prometemos uma hecatombe a Jpiter Capitolinus... -diz ela, 
baixando os olhos. 
-Quando estiverdes pronta para a demolio, domina, retornai aqui, 
que Jesus reconstruir em vs um novo templo!... -exclama Rufus, 
fazendo-lhe ligeira reverncia e desaparecendo, a seguir, pela porta 
lateral, seguido de seus dois auxiliares. 
Drusilla Antnia, altamente consternada, olha para seus criados. 
-Vamos, domina -convida Iustus. 
E os trs deixam o singelo templo, agora totalmente vazio, e saem 
para a madrugada escura e fria, de volta para casa. Apoiando-se em 


#
Dulcina, enquanto caminhavam pelas ruas escuras e esburacadas, 
Drusilla Antnia soluava baixinho. A dor que lhe roa fundo a alma 
era a maior do mundo... 

Captulo V 
O novo Templo. 


Diante das escadarias do Capitolium, Drusilla Antonia pra. Seus 
olhos percorrem a imensido do frontispcio do magnificente 
templo, dedicado ao pai dos deuses. As altssimas colunas jnicas 
em mrmore negro; os capitis redondos, coroando os fustes, ricamente 
trabalhados em alto-relevo, com bordaduras 
milimtricamente perfeitas. A profuso de mrmore polido e de 
granito resplendente encantava os olhos. "A verdadeira morada de 
um deus!...", pensa. E, conseqentemente, sua mente busca a 
comparao com o tugrio onde celebravam o Deus Judeu. 
"Delendeabo essa templa... ", pareceu-lhe, ento, ouvir, claramente, as 
palavras do pregador cristo. Um calafrio percorre-lhe a espinha de 
alto a baixo e, com o canto dos olhos, ela espiona Caius que se 
postava a seu lado, rindo para ela. Ele parecia feliz e confiante. Iam 
imolar uma hecatombe a Jpiter Capitolinus, aplacando-lhe, assim, a 
fria e, quem sabe, o grande pai no restituiria a sade de seu 
amado esposo!... Tinha sido dessa forma que seus antepassados 
sempre haviam feito!... E ento, por que  que ela iria, agora, atrs 
de um deus estrangeiro, um carpinteiro sem eira nem beira?... Que 
poder teria, realmente, aquele deus, se nem da crucificao 
conseguira escapar?... Que bobagem!... Aperta, ternamente, a mo 
de seu amado Caius e lhe sorri cheia de esperana. 

#
-Vamos, que Nosso Pai espera por ns!... -diz Drusilla Antonia, 

puxando, amorosamente, o esposo pela mo. 
No immolatorium1, o cheiro de sangue fresco era insuportvel. Sob os 
certeiros golpes de afiadssimo cutelo, nas hbeis mos do sumo 
sacerdote, o sangue jorrava em catadupas, quente, fumegante grossos 
borbotes rbidos, que se lanavam em macabras e ininterruptas 
cascatas, inundando e tingindo de vermelho-rubro as pedras 
quadranguladas do granito cinza-claro do pavimento. Sob um 
dossel de seda alvinitente e franjado de ouro e de prata, e sentados 
em cadeires de madeira pesada e ricamente lavrada e marchetada 
em marfim e em bronze polido, Drusilla Antnia e Caius assistiam  
carnificina. O espetculo era deveras dantesco: os bois eram 
conduzidos um a um, diante do altar de Jpiter, e degolados pelo 
sumo sacerdote, com destreza mpar. Parte do sangue era, ento, 
colhido em grandes taas de ouro e, ainda a exalar vapores, era 
depositado, solenemente, diante do altar do deus. A cada animal 
que abatia, o sumo sacerdote repetia uma srie de oraes e, em 
altos brados, emitia splicas em favor da recuperao da sade do 
general Caius Petronius Tarquinius. A carnificina durou algumas 
horas, e foi com grande alvio que Drusilla Antnia, altamente 
enjoada com o forte cheiro do sangue que empestava o ambiente, 
pde, finalmente, respirar o ar puro da praa do Frum. O dia 
avanara bastante, e a tarde caa luminosa e agradvel. Caius 
Petronius caminhava a seu lado em silncio. Durante a cerimnia, 
mantivera-se calado, quase que o tempo todo, e Drusilla Antnia 
pensou que ele estivera assim, por ser muito devoto do deus, e que, 
certamente, suplicava pela graa que da divindade obteria, mediante 
a oferenda de sacrifcio daquela monta. Entretanto, na liteira, 
de volta para casa, ele se recosta ao colo dela, e ela lhe sente as 
contraes dos espasmos doloridos que ele tenta, inutilmente, dela 
esconder. 

1. Nos antigos templos pagos, lugar onde se imolavam os animais. 
#
-Sei que ests sofrendo muito, meu amor!... -exclama ela, beijando-
lhe o alto da cabea. -E sei, tambm, que tentas esconder de mim 
que tuas dores tomam-se, a cada dia que passa, mais constantes e 
insuportveis para ti! 

Como ele se encontrasse recostado ao colo dela, no se podiam 
olhar nos olhos. Ento, ela, delicadamente, levanta-lhe a cabea e o 
olha no rosto. Penalizada, constata que Caius tinha os olhos rasos de 
pranto. 
-Haveria um modo de eu esconder algo de ti, minha rainha? -diz 
ele, baixinho, quase num sopro, com as palavras molhadas pelas 
lgrimas. 
-Oh, meu amor!... Meu amor!... -exclama ela, desesperada, 
abraando-o forte. -Se pudesse trocar a minha vida pela tua!... Mas, 
tem f!... Acabamos de imolar uma hecatombe a Jpiter Capitolinus e 
tenho a certeza de que ouvir nossos apelos em favor de teu 
restabelecimento!... 
-Nem Jpiter Capitolinus nem ningum, minha querida!... -exclama 
ele, meneando a cabea, cheio de desespero. -Rendo-me  Hecate 
Infernal!... 
-Oh, no digas tal asneira! -diz ela, ralhando com ele. -Esqueceste a 
f que sempre depositaste em teus lares!... Teu pai dedicou-te a 
Jpiter, quando nasceste, e tu jamais abandonaste teu numen2 e 
fizeste dele o tutelar de tua casa!... Por que blasfemas, agora?... 
Sempre te considerei um homem de f!... s bom, Caius!... Ningum, 
mais do que tu, merece a ateno dos imortais!... Imploro-te, 
querido, tem um pouco mais de pacincia!... 
Mais tarde, descansavam na exedra, recostados em confortveis 
canapei, e Drusilla Antnia, estarrecida, percebia que seu esposo 
sofria muito: encontrava-se extremamente abatido, tinha o rosto 
tomado por profunda palidez, e os olhos, bastante encovados, 

2. Divindade mitolgica. 
#
estavam emoldurados por escuras olheiras. 
-Que desejas que te faa, meu amor? -pergunta ela, apertando-lhe 
forte a mo. 
Caius Petronius limita-se a olh-la, com um sorriso triste. 
-Olha, bebe mais ladanum!... -exclama ela, apresentando-lhe uma 
taa. 
-No, minha cara -diz ele, tristemente. -O ladanum j no me surte 
mais nenhum efeito, a no ser provocar-me mais nusea! 

-Oh, fazes-me desesperar, dizendo isso! -observaela, altamente 
preocupada. -Que te darei a beber para as dores, ento? 
-Manda chamar o mdico, minha querida -diz ele, contorcendo-se 
de dores. -No suporto mais! 
-Oh, Caius!... Caius!... -grita Drusilla Antnia, pondo-se de joelhos 
diante do marido e, tomando-lhe as mos, banha-as de lgrimas. 
Depois, em desespero, levanta as mos e brada: -Oh, Jpiter 
Capitolinus!... Uma hecatombe no foi suficiente para aplacar a vossa 
ira?... Que vos fez meu adorado Caius, para o perseguirdes dessa 
forma?... 
-Drusilla... -geme Caius baixinho e prossegue com a voz fraca: No 
te desesperes assim!... Apenas, manda que busquem Sempronius... 
Peo-te... 
Pouco tempo depois, o majordomus anunciava a chegada do facultativo 
que, sem delongas, ps-se a examinar Caius Petronius. 
-Agora, somente o opium,3 general -diz o mdico, aps longo e 
meticuloso exame. -O ladanum no produz mais efeito... 
-D-lhe o remdio, Sempronius!... -adianta-se Drusilla Antnia e 
prossegue, torcendo as mos, nervosa: -No suporto mais v-lo 
dessa forma, sofrendo tanto! 
-Entretanto, no  to simples assim -observa o mdico. -Melhor  
guardarmos o opium para... -e se cala receoso de continuar. 

3. pio, em latim -potente narctico, extrado dos frutos imaturos da papoula. 
#
-Para o fim?... -completa Caius Petronius, com um sorriso triste. 
-Oh, no!... -grita a matrona, desesperada. -Sempronius, por favor, 
nada omitas!... Queres dizer que meu Caius sofrer ainda mais? 
-Assim ser, cara Drusilla Antnia -diz o mdico, srio. -Caius ter 
espasmos dolorosssimos, at que lhe venha a derrocada final!... Se 
lhe propino o opium agora, nenhum efeito a ele far depois, quando 
as dores realmente se lhe tomarem insuportveis!... Essa substncia 
perde a eficcia mais rapidamente que o ladanum! 
-Que faremos por ora, ento? -pergunta ela, cheia de dor. 


Sempronius baixa a cabea, desanimado, e d de ombros. Depois, 
fixando-a, firme, nos olhos, diz, altamente consternado: 
-Rezar, cara Drusilla, rezar muito e esperar... Infelizmente, apenas 
isso nos resta fazer... 


***** 

Neste comenos, no triclinium da manso de Cornlius Helvetius, o 
jovem Iulius Maximus caminhava de um lado para outro, 
agitadssimo. O velho senador, recostado num canapeum, fingia ler 
um pergaminho e, disfaradamente, observava o rapaz que 
extravasava ansiedade por todos os poros. 
-Senta-te a e te aquieta, Iulius!... -brada, por fim, Cornlius, irritado 
com o vaivm do rapaz pela sua sala. 
-Susanna demora-se, titio!... -diz o rapaz. -Dessa forma, perderemos 
os espetculos no Circus Maximus!... 
-At parece que ainda no conheces Susanna!... -exclama o velho 
senador, cheio de ironia. -Melhor  te sentares a e sossegares que, 
antes de uma hora, garanto-te que ela no se apronta!... 
-Mas, ela no pode fazer isso comigo!... -exclama o rapaz, altamente 
agastado. -Combinamos tudo direitinho, ontem, e me jurou no se 
atrasar!... 
-E acreditaste nela?... -observa o velho, rindo-se. 


#
-A propsito, titio -diz o rapaz, como se de repente se lembrasse de 
algo muito importante -, Susanna j completou catorze anos, e acho 
que est em idade de arranjar um noivo! 
Cornlius olha-o, cheio de raiva. Ento aquele fedelho insuportvel 
estava a dar-lhe ordens, ? 
-Achas o qu, Iulius!... -pergunta, empertigando-se furibundo, no 
canapeum, e prossegue, espumando de raiva: -Fica sabendo que 
ainda no morri, e quem deve achar se Susanna est pronta para encontrar 
um noivo ou no, ainda sou eu!... 
O orgulhoso mancebo lana-lhe um olhar carregado de desdm e 
diz, cheio de empfia: 

-Pois  bom que saibas de uma vez, meu tio, que Susanna j me 
escolheu!... Considero-me seu noivo! 
-Caro lulius -diz o velho senador, de repente se lembrando de algo 
com que poderia, com facilidade, ferir mortalmente aquele imbecil -, 
no sei se o que me dizes  fato, mas outro dia aqui esteve o neto do 
senador Lucius Antoninas Rimaltus, antigo camarada meu, e me 
pareceu que o jovem impressionou deveras a minha neta!... Pressinto 
no sejas o nico da fila, querido sobrinho!... 
-Que dizes!?...-exclama o rapaz, levantando-se de um salto como 
se tivesse sido picado por uma vespa. -Quem  o tal?... 
-Flavius Antoninas Rimaltus, o mesmo que salvou Susanna de ser 
devorada pelo leo daquele doido, quando tu a abandonaste  
prpria sorte, nos jardins do pao imperial, lembras-te?-diz 
Cornlius, olhando-o firme nos olhos e saboreando, enormemente, as 
reaes de despeito e de quase desespero que se apoderavam do 
rapaz. 
-Mentes! -explode lulius, com as feies transtornadas num rictus 
de raiva suprema. -Tu me odeias e inventaste toda essa mentira 
suja! 
-Quando estiveres a ss com Susanna, tu mesmo lhe perguntars 
tudo, e ela lhe relatar com riqueza de detalhes!... Ento, vers se 

#
estou mentindo!... -diz Cornlius, levantando-se e deixando o 
triclinium, quase a explodir de tanta satisfao. 
Antes, porm, de abandonar o salo, na soleira da porta, volta-se e 
confere: lulius fuzilava de raiva e at parecia ter calafrios a 
percorrer-lhe o corpo. Cornlius meneia a cabea e se ri, 
satisfeitssimo, desaparecendo, a seguir, na semi-obscuridade do 
corredor. 
O Circus Maximus ululava na tarde quente de primavera. lulius 
puxava Susanna pela mo, com modos grosseiros, praticamente arrastava-
a atrs de si, enquanto que, com os olhos, sondava a platia, 
em busca de algum lugar que, eventualmente, sobrara no renque de 
assentos do anfiteatro. 
-Demoraste tanto a te aprontar que no resta mais um s lugar 
plausvel, minha cara!... -diz ele, espumando de raiva. -Teremos de 
nos contentar com os que sobraram l em cima e nada veremos dos 
espetculos! 

-Por que permaneces emburrado, Iulius? -pergunta Susanna ao se 
sentarem, aps verdadeira maratona para galgarem o topo do 
renque de assentos em forma de escadaria. -Sequer conversaste 
comigo, durante o trajeto!... Tudo isso somente porque me atrasei 
um pouco? 
O rapaz limita-se a fuzil-la com um par de olhos raivosos. 
Susanna d de ombros e passa a vibrar com o andamento dos espetculos. 
L embaixo, na arena, um grupo de excelentes malabaristas 
apresentava-se, arrojando-se para o ar em prodigiosos saltos, como 
se portassem asas. De repente, tonitruante som de trompas 
interrompe o espetculo: era o imperador que chegava ao Circus 
Maximus. Todas as cabeas voltam-se, tautocronamente, para o 
camarote imperial, e Nero surge, acompanhado da imperatriz Popeia 
Sabina. Um frmito ululante percorre a multido e, num crescendo, 
explode em gritos e em assovios de ovao ao imperador de Roma. 
Nero, satisfeitssimo com a grandiosa manifestao que lhe 
dedicava o povo, incha-se todo de orgulho e, levantando as mos, 

#
agradece os aplausos, abrindo-se em sorrisos e fazendo ligeiras 
reverncias em todas as direes. 
-Nosso povo nos ama!... -exclama ele para Popeia Sabina ao 
recostar-se, depois, em seu luxuosssimo canapeum forrado de seda 
prpura. 
-Vs o mereceis, Majestade -diz a imperatriz, cheia de inveja. E 
olha para Nero com olhos malevolentssimos, incrustados num rosto 
ridiculamente carregado de maquiagem berrante. 
A tarde transcorre-se cheia de excitantssimas apresentaes de 
artistas circenses, num variadssimo repertrio de nmeros 
altamente interessantes e bizarros. No final, o espetculo chega ao 
pice com a apresentao dos gladiadores mais famosos de Roma, 
em combates mortais, entre si, e com feras terrveis, trazendo ao 
povo sensaes inimaginveis. 
lulius Maximus permanecera o tempo todo calado, cheio de amuos. 
Baldadamente, Susanna intentara arrancar-lhe o motivo de tamanha 
mudana no humor, mas foram tentativas em vo. O rapaz negava-
se a dizer o porqu de tal atitude. O dia chega ao fim, e os 
espetculos no 

Circus Maximus tambm. De volta para casa, lulius conduzia o carro, 
nervosamente, aplicando sua fria nos cavalos que, altamente 
fustigados pelo inclemente chicote do rapaz, abriam-se em 
desabalada carreira, pelas melas estreitas e esburacadas dos 
arrabaldes de Roma. 
-Assim tu acabars por virar o carro! -grita Susanna que se 
mantinha agarrada firme ao dorso do rapaz. 
Ele se limita a olh-la com o canto dos olhos e fustiga ainda mais os 
cavalos. 
-lulius, peo-te!... Vai mais devagar!... -suplica ela, quase em 
lgrimas. 
O carro seguia correndo em altssima velocidade, sacolejando e 
saltando, amide, perigosamente, com ambas as rodas no ar, na iminncia 
de provocar gravssimo acidente. Transeuntes esbaforidos 

#
colavam-se s paredes das casas, para deixarem o trnsito livre ao 
carro que surgia de inopino em alta velocidade. Entretanto, em 
dado momento do percurso, aps dobrarem uma curva acentuada, 
deparam-se, de repente,  frente, no meio da estreita via, com um 
ancio trmulo e amedrontado que se atrapalha e no consegue 
furtar-se a tempo e  violentamente colhido e pisoteado pelas patas 
dos possantes corcis. As rodas do pesado carro arrematam a 
tragdia com violenta pancada, passando por cima do pobre velho, 
esmagando-lhe, cruelmente, o trax. 
Susanna emite um grito terrvel. 
-Atropelaste um homem, Iulius!... Pra!... 
O rapaz sequer se volta para trs. Ainda mais furioso, desfere uma 
srie de violentas chicotadas aos lombos dos animais que pareciam 
voar. Susanna principia a soluar, cheia de medo. 
-s um monstro, Iulius!... Pra o carro, por favor!... Peo-te, por 
Jpiter!... -grita ela e desfere, com uma das mos, uma srie de 
tapas  nuca do rapaz. 
O jovem, tresloucado, ignorava-lhe as splicas e continuava fustigando 
os cavalos. Ela, ento, s raias do desespero, aplica-lhe formidvel 
mordida ao ombro. 

A dor que ele sente  tremenda. Entretanto, no pra o carro, apenas 
diminui-lhe a velocidade. Furioso, aplica formidvel cotovelada ao 
estmago da moa, que se curva, premida pela dor do golpe 
recebido. 
-Monstro!... -geme ela, e principia a soluar. 
Pouco mais e o carro estaciona diante da manso de Cornlius 
Helvetius. Susanna salta sozinha da biga e corre para dentro, em 
pranto. O rapaz, carrancudo e com os olhos terrivelmente injetados 
pelo dio, vai atrs dela. Encontra-a em seu cubiculum. Estava 
arrojada sobre o leito e soluava. Violentamente, puxa-a pelos 
cabelos e a faz sentar-se na cama. 
-Dize-me, sua leviana,  verdade que andaste a flertar com outro? pergunta 
ele, segurando-a, forte, pelos pulsos. 

#
Susanna Procula olha para ele, com os olhos inchados pelo pranto, e 
nada consegue dizer. Apenas chora, e os soluos convulsionam-na, 
intensamente. 
-Vamos, conta-me, rameirinha!... -diz ele, quase aos gritos. - 
mesmo verdade o que me disse teu av?... Andas pendendo para o 
lado de algum vagabundo? 
Susanna d um safano e tenta libertar-se das mos do rapaz que, 
como se fossem duas tenazes de ferro, prendiam-lhe os braos. 
-Solta-me, Iulius!... -consegue ela, por fim, gritar. -No tens 
nenhum direito sobre mim!... 
-Ah, no tenho?!... -diz ele, irnico. -Ds-me todas as esperanas 
do mundo e dizes agora que no tenho nenhum direito sobre ti?!... 
Vamos, anda, quem  o traste que anda atrs de ti?... 
-No existe ningum atrs de mim, Iulius, juro-te!... -diz ela, na 
expectativa de que ele se acalmasse. 
-Verdade?... -exclama ele, cheio de sarcasmo. -Mentiu o teu av, 
ento?... No sabia que o senador Pisanus era um grandssimo 
mentiroso!... Vou atirar-lhe s fuas, ento, que no passa de um 
velho mexeriqueiro!... 
-Vov no  mentiroso e muito menos mexeriqueiro!... -exclama a 
jovenzinha, arrostando-o, furiosa. E, num rompante de raiva, diz: E, 
se queres mesmo saber, h, sim, um outro em minha vida!... E, 
muitssimo melhor, mais bonito, mais forte e mais rico que tu! 


IuliusMaximus sente-se zonzear. Era verdade, ento!... Tudo pareceu 
escurecer-se diante dele, e um calafrio percorreu-lhe a espinha de 
alto a baixo. A revelao desabara sobre ele como uma avalancha de 
pedras, esmagando-o. Sentiu o sangue martelando-lhe nas 
tmporas. No, no poderia ser verdade!... Estavam mentindo para 
ele. Sente as pernas fraquejarem-se-lhe, e se senta na cama, diante 
dela. Toma as mos da jovem entre as suas e, olhando-a, firme, nos 
olhos, diz: 
-Dize-me que ests mentindo, Susanna!... No h nenhum outro 
homem em teu corao! 


#
-H, sim, Iulius! -responde ela. -Conheci-o na festa de Nero. Ele me 
salvou do leo! 
O rapaz fita-a, com os olhos cheios de revolta e de dio. Em 
seguida, depe a mo dela sobre a cama, levanta-se e sai, sem olhla 
uma nica vez e sem dizer qualquer coisa. 
Susanna segue-o, com os olhos mareados de lgrimas. Por que Iulius 
tinha de ser to temperamental, to impulsivo?...  verdade que 
Flavius Anoninus encantara-a, enormemente, e, entre ambos os rapazes, 
seu coraozinho balanava. Mas, Iulius era seu primo e seu 
amigo, antes de tudo. Por que se enfurecera daquela forma?... Amla-
ia tanto assim, a ponto de maltrat-la daquele jeito e at de matar 
um pobre velho atropelado, sem sequer se voltar para trs ou 
esboar um mnimo gesto de arrependimento at ento? 
-Iulius  um monstro!... -murmura Susanna baixinho, entre lgrimas, 
e afunda o rosto na fofa almofada de penas de ganso. Uma 
sucesso de soluos sacode-a, violentamente. E prossegue, tomada 
de profunda desolao: -No posso amar um monstro que j 
comea a se voltar contra mim na menor das contrariedades!.. . 
O cubiculum, paulatinamente, vai mergulhando na mais absoluta 
escurido e Susanna, vencida pelo cansao e pelas fortes emoes 
daquela tarde, acaba por adormecer. 


-Susanna... Susanna... 
A voz doce e delicada do av f-la despertar. Cornlius afagava-lhe, 
docemente, os cabelos. 


-Esperei-te, tanto, para a cena e, como no aparecias, vim  tua 
procura! -diz ele, sorrindo-lhe, afvel. 
-Oh, vov!... Vov!... -exclama ela, abraando-se, firme, ao velho. 
-Quer tens, meu tesouro? -pergunta Cornlius, olhando-a  plida 
luz da lanterna que trouxera consigo e depositara sobre uma 
mesinha. -Tens os olhos desmedidamente inchados!... Acaso 
andaste chorando?... 
Susanna enterra o rosto no peito do av e retoma o choro, sem nada 
dizer. 


#
-Foi aquele traste miservel que judiou de ti? -pergunta o velho 
senador, j se enchendo de indignao. -S pode ter sido aquele 
pulha, porque eu estava no viridarium e vi quando ele saiu, 
intempestivamente, como um desvairado!... Que te fez ele? 
Susanna volta a olh-lo, com os olhos terrivelmente inchados pelo 
excesso de choro. No adiantava mentir para o av. 
-Iulius maltratou-me, vov, por causa de Flavius... 
-Ah, maltratou-te o miservel, ento?... -observa Cornlius, furioso. Mas, 
era a mim que o desgraado deveria maltratar, no a ti!... Fui 
eu que o espicacei, ainda antes de sairdes para o Circus Maximus! 
-Oh, vov!... Acalma-te!... -diz Susanna, abraando-o. -Ests to 
doente, e no quero que te enerves, assim, por causa de Iulius! 
-S me acalmarei, se tu me relatares tudo o que aquele maldito fez-
te hoje!... -diz o velho, levantando-se e se pondo a caminhar, 
altamente enraivecido, pelos aposentos da neta. 
A jovem, ento, obedientemente, reporta ao av os terrveis fatos 
daquela tarde. 
-Ah, desgraado!... Desgraado!... Eu sabia!... -brada Cornlius, 
espumando de raiva. -Como eu temia: ele  um monstro!... Um 
terrvel e frio assassino!... No, Susanna, no posso jamais permitir 
que esse demnio continue a rodear-te, fazendo-te a corte!... Para 
teu bem,  hora de eu proibir as visitas de Iulius a esta casa!... 
-s vezes, tenho medo de Iulius, vov!... -diz a jovem, encolhendo-
se no leito. 


-Nada temas, meu amor!... -diz Cornlius, abraando-a. -Estou 
velho, terrivelmente doente e enfraquecido, mas ainda no estou 
morto!... Esse canalha no se aproximar mais de ti!... Garanto-te!... 
Agora vem, vamos comer, que j  tarde! 


***** 

Naquele mesmo instante, na manso do general Tarquinius, Drusilla 
Antnia desesperava-se. Seu amado esposo contorcia-se no leito, 
premido pelos fortssimos espasmos da dor excruciante que lhe aco


#
metia o abdmen. No sabendo mais o que fazer para aliviar as terrveis 
dores que atacavam, impiedosamente, seu querido Caius, 
mandara buscar o mdico que, naquele momento, examinava, 
pacientemente, o doente. 
-E chegado o momento de propinar-lhe o opium, Drusilla -cochichalhe 
o facultativo, aps minucioso exame. -Doravante, ele no 
suportar mais as dores. Entretanto, advirto-te: o efeito anestsico 
durar pouco tempo e, em pouqussimos dias, nenhum alvio mais 
lhe trar. 
-Que faremos ento, Sempronius? -pergunta ela, com os olhos 
mareados de lgrimas. 
O mdico olha-a, srio, no fundo dos olhos, e pensa por instantes. 
Era cruel o que ia dizer-lhe. 
-Sei que amas Caius mais que a ti mesma, Drusilla, pois sois meus 
amigos, h muito tempo -diz o mdico, segurando, ternamente, as 
trmulas mos da matrona. -E sei tambm que, por am-lo tanto, 
no desejars v-lo extinguir-se entre sofrimentos inimaginveis, 
sem nada podermos fazer para minimizar-lhe as excruciantes dores. 
S nos restar uma sada, ento, quando o opium deixar de fazer 
efeito: dar-lhe um fim piedoso! 
-No!... -grita, aterrorizada, Drusilla Antnia, retirando, abruptamente, 
as mos que o mdico segurava entre as dele. -No, Sempronius!... 
Isso, no! 


-Mas, Drusilla, no h outra sada! -diz o mdico, tentando convenc-
la. - terrvel, mas  a nica coisa que poderemos fazer por 
ele!... Propinar-lhe-ei forte e fatal dose de digitalis4, e seu decesso 
dar-se- rpido e sem dores! 


4. Digitalis pupurea, planta herbcea eurasiana, cujas folhas fornecem a digitalina substncia 
cristalina empregada como tnico cardaco. 
#
Drusilla Antnia olha para o mdico, cheia de horror. Quis xing-lo, 
descarregar nele toda a sua frustrao, a sua raiva, o seu medo, mas 
calou-se. O velho amigo no tinha culpa de nada. Limita-se, ento, a 
abraar-se a ele, soluando. 
-Pensa nisso, minha cara... -diz-lhe o mdico, suavemente, ao 
ouvido. -Pensa nisso... 
Pouco depois, a ss com o esposo que, finalmente ressonava, descansando, 
Drusilla Antnia, sentada ao lado do leito, acariciava-lhe, 
docemente, os cabelos j quase totalmente encanecidos. O mdico 
propinara-lhe boa dose de opium, e o temporrio alvio das dores 
favorecia-lhe dormir. 
P ante p, ela deixa o cubiculum e sai. Vai at o triclinium e, no altar 
domstico, prostra-se de joelhos diante da esttua de Jpiter. 
-Oh, Pai amantssimo!... -suplica ela, com as lgrimas a rolarem-lhe 
face abaixo. -Demos-vos, ainda dias atrs, uma hecatombe e 
continuastes surdo a nossos apelos!... Que vos fizemos, Caius e eu, 
para que assim continueis, to impassvel a nossos rogos?... Olhai, 
grande Pai!... Dar-vos-emos outra hecatombe!... Creio que vossa 
sede de sangue aplacar-se- e devolvereis a sade a nosso Caius!... 
Amanh, mesmo, irei ter com vosso sacerdote no Capitolium e vos 
prometo, grandiosssimo Jupiter!... Tereis mais uma hecatombe! 
L do alto de seu pedestal, fina e esplendorosamente esculpida em 
mrmore alvinitente, a esttua permanecia na sua fria impassibilidade. 
E Drusilla Antnia, cheia de f, movia os lbios, murmurando 
sentida e fervorosa prece ao pai de todos os deuses... 

Cinco dias depois, ei-la a galgar, novamente, as escadarias do 
Capitolium. Dessa vez, ia s. Seu amado Caius encontrava-se to 
debilitado que sequer conseguia levantar-se do leito. Resoluta, 
transpe o imenso portal do templo, e a colossal esttua do deus 
dominava toda a nave com sua exuberante imponncia de mrmore 
alvinitente, incomensurvel gigante, que as mos de hbeis artesos 
haviam esculpido, e que ora reinava soberbo, acima de suas 

#
pretensas criaturas a fervilharem como formigas a seus poderosos 
ps, rendendo-lhe honras, queimando nuvens de incenso e, 
continuamente, tributando-lhe preces e sacrifcios. 
Antes de procurar a porta que dava para o immolatorium, Drusilla 
Antnia coloca-se diante da esttua de Jpiter e, ousadamente, 
arrosta-o, fixando-lhe, firmemente, os olhos no rosto severo. 
-Grande Pai!... -murmura ela, splice. -Por que vos fazeis surdo a 
meus rogos?... No vedes que nosso Caius apodrece em vida?... -e 
lgrimas brotam-lhe, aos borbotes, dos tristssimos olhos. E, cheia 
de dor, prossegue, encarando, fixamente, o rosto do dolo: -Mal lhe 
suporto o hlito ptrido!... Oh, grande e misericordioso Jupiter!... 
Que vos fez meu adorado amor?... Sentis tanta raiva assim dele?... 
Olhai bem, que hoje vos aplaco a sede com nova hecatombe!... E vos 
prometo, ainda, se restabelecerdes a sade a Caius, mandar imolar, 
em vossa honra, uma rs, diariamente, durante um ano todo!... 
Do alto de seu imenso pedestal de granito negro, o colosso de Jpiter 
permanecia frio, insensvel e imvel, envolto numa nuvem de 
aromai incenso de mirra. Segurava, ameaadoramente, o raio,  
mo, como se fosse arremess-lo, a qualquer instante, calcinando, 
inopinadamente, aquele mundu de fiis que se juntava a seus ps! 
Cheia de f, Drusilla Antnia acompanha, uma vez mais, a matana 
dos bois em honra de Jpiter Capitolinus. Novamente, sente-se 
enjoar, grandemente, pelo odor adocicado do sangue a jorrar quente 
e aos borbotes das gargantas, precisa e rapidamente degoladas 
pelo hbil cutelo do sumo sacerdote. Uma centena de libaes, 
oferecidas em gigantescas taas fundidas em ouro puro e cheias de 
sangue ainda fumegante, para aplacar a ira e a sede de Jpiter 
Capitolinus! 

A matrona acompanhava, com o corao carregado de f, cada taa 
transbordante de sangue que os aclitos da cerimnia depositavam 
aos ps da esttua do deus e se juntava s splicas que os sacerdotes 
faziam  divindade, em nome de Caius Petronius. Depois de quase 
trs horas, a matana chega ao fim, e o sumo sacerdote, embebendo 

#
um leno de seda alvinitente na derradeira taa de sangue deposta 
aos ps da esttua, entrega-a a Drusilla Antnia. 
-Colocai esse sangue consagrado sobre o ventre do general, domina 
-diz o sumo sacerdote. -Nele est toda a fora de nosso pai Jpiter, 
e constatareis com que furor v-lo-eis curar vosso esposo! 
Drusilla Antnia apanha, respeitosamente, o tecido manchado de 
sangue e sai. Atravessa a imensa nave do templo e, ao transpor o 
altssimo portal do santurio, volta-se, instintivamente, para trs. L 
no fundo, perdido no meio das abundantes bmmas do incenso de 
mirra, Jpiter olhava-a, cheio de raiva. "Delendeabo essa templa et in 
treabus deabus ea reedificata!...", uma voz potentssima explode dentro 
de sua cabea. A matrona sente-se zonzear, e um forte calafrio 
percorre-lhe o corpo de alto a baixo. "Oh, Jpiter, meu pai!...", 
exclama, cheia de temor. Terrvel idia perpassa-lhe a cabea: 
"Aqueles cristos enfeitiaram-me!...", murmura baixinho e se pe 
adescer as escadarias, ligeira, e atravessa a praa quase a correr, em 
direo da liteira que a aguardava numa das mas laterais. 
-Tem f, meu amor!... -exclama Drusilla Antnia, passando o leno 
manchado de sangue sobre o ventre de Caius. -Jurou-me o sumo 
sacerdote do Capitolium que este sangue consagrado a Jpiter curar-
te-, instantaneamente! 
-Oh, Drusilla!.... Drusilla!.... -murmura o general, com os lbios 
ressecados e partidos pela sede constante. -Ainda crs que nosso 
Pai Jpiter ir lembrar-se mim?... No, meu amor!... -prossegue ele, 
com os olhos brilhantes pela febre altssima. -Deixa-me morrer... 
-No!... No!... Enquanto houver luz em teus olhos, meu amor, 
lutarei por ti!... -grita ela, alando-o aos braos e o apertando forte 
de encontro ao peito. -Se te fores, vou-me em seguida!... 

E, segurando-o assim to perto, to fortemente jungido a si, percebe-
lhe, estarrecida, o hlito apodrecido, ftido, insuportvel. "Ele 
apodrece!...", pensa, com os olhos cheios de lgrimas, e os soluos a 
sacudirem-na, violentamente. Como estava magro!... Onde se 
escondia o homenzarro forte, bonito e to valentemente destemido 

#
que fazia tremer o inimigo s de ouvir falar-lhe o nome?... "Se te 
fores, mato-me, em seguida!...", pensa e estremece de tanta dor. 

"Vinde a mim, todos vs que estais aflitos e sobrecarregados, que eu vos 
aliviarei... "5 Estranha e potente voz grita-lhe, de inopino, dentro da 
cabea. Horrorizada, levanta-se e, apertando os ouvidos, exclama: 
-Afasta-te de mim, demnio!... 
-Que tens, meu amor?... -pergunta Caius, espantado com a atitude 
da mulher e se esfora ao mximo para erguer-se do leito. Mas, 
encontrava-se to fraco que a vista se lhe escurece e a respirao 
principia a tomar-se-lhe ofegante. Glidas gotas de suor brotam-lhe 
 testa. 
-Oh, assustei-te, meu amor? -acorre ela, solcita, a enxugar-lhe o 
suor que abundava, molhando-lhe as vestes. 
-Dize-me, Drusilla, por que gritaste?... -insiste ele, tomando-a pela 
mo. 
-Nofoi nada!... Assustei-me!... -menteela. 
-No ficas nada bem, mentindo-me, meu amor!... -diz ele, olhando-
a nos olhos. 
-Estbem!... -aquiesce ela, abrindo ligeiro sorriso. -Quando  que 
consegui mentir-te alguma vez? 
E passa a narrar a Caius a estranha aventura que vivera no templo 
cristo, e as estranhas vozes que passara a ouvir desde ento. Ele a 
escuta, sem interromper, demonstrando um interesse que Drusilla 
Antonia chegou at a estranhar. 
-Vejo que isso te perturbou, meu amor!... -exclama ela, abraando-

o. 
-No sabes o quanto me arrependo!... Mas, cr!... Fi-lo por ti!... 

-Eu o sei, meu amor!... -diz ele, conseguindo sorrir para ela, a 
despeito das dores intensas. -Entretanto, tenho tambm algo 

5. Evangelho de S. Mateus, 11.28. 
#
a dizer-te: faz trs dias que me aparece em sonho um homem de 
meia idade, de barbas e cabelos longos e se diz pescador. No sonho, 
presenteia-me com um cesto repleto de peixes prateados e ainda 
vivos, e me diz que me traz os peixes a mando de seu Mestre!... E 
eu, ento, como dos peixes e me curo, instantaneamente!... Esse 
sonho vem se repetindo exatamente igual, por trs dias, e na noite 
passada, intrigado, perguntei ao pescador: "Quem  teu Mestre?..." 
Ele, ento, olhou-me, fundo, nos olhos, e disse, com a voz cheia de 
ternura: "Meu Mestre  pescador de almas!..." 
Drusilla Antnia olha, espantada, para Caius. 
-O feitio alcanou-te, tambm!... -exclama, apavorada. -Oh, 
Jpiter Capitolinus!... Mais essa agora!... 
-Oh, no!... -diz Caius, sereno, segurando a mo dela. -No creio 
que os demnios intentem curar algum!... No lhes  do feitio, no 
concordas?... 
-Oh, no sei, no!... -responde ela, receosa. -Os senhores das 
sombras vivem a rondar-nos a todo instante, meu amor!... 
-Como disseste que era o pregador cristo? -pergunta Caius. -Ah, 
meu amor!... No  melhor esquecermos tudo isso? 
-No, Drusilla -diz ele, firme. -Pelo que me descreveste de Rufus,  
ele o pescador que me visita em sonhos... 
-Que dizes?!... -brada ela, aterrorizada, dando um salto e se 
levantando da cama. -Se for ele, poderemos mesmo ter certeza: os 
cristos so terrveis feiticeiros! 
-Insisto, Drusilla!... -diz Caius, resolutamente. -Desejo ver Rufus!... 
A matrona olha para o marido, cheia de dvidas. Sonda-lhe o rosto 
esqulido, quase cadavrico. Os olhos splices convencem-na. 
Como poderia deixar de atender a um pedido dele?... Determinada, 
levanta-se e sai. Ia em busca de Rufus. 

#
Captulo VI 
Conhecendo Jesus 


Rufus olha, demoradamente, para o homem que se achava prostrado 
diante dele, no leito. Estranhamente, pareceu-lhe j t-lo visto 
antes, mas no conseguia lembrar-se de onde. 
-General... -diz-lhe, timidamente, pois o outro achava-se 
adormecido. 
Caius Petronius abre os olhos e tem um sobressalto: era ele!... Tenta 
soerguer-se na cama, mas no tinha foras. 
-Permanecei deitado, domine!... -ordena-lhe, firme, o missionrio 
cristo. 
Em seguida, aproxima-se mais do leito, estende as mos sobre o 
doente e, elevando a voz, diz, splice: 
-Senhor Jesus!... Oh, amantssimo Mestre!... Olhai por nosso irmo 
que tanto sofre!... Derramai sobre ele o Vosso amor!... Restitu-lhe as 
foras, Senhor!... 
De um canto do amplo e luxuoso cubiculum, Drusilla Antnia, Iustus 
e Dulcina acompanhavam, em silencioso respeito, a fervorosa prece 
de Rufus. E, fato inusitado acontece: a matrona, que se mantinha 
altamente vigilante, pois ainda temia que os cristos pudessem 
conjurar algum terrvel sortilgio contra seu amado esposo, passa, 
estarrecida, a observar que as feies do doente iam, 
paulatinamente, adquirindo uma tonalidade rsea, substituindo a 
palidez cadavrica que ele possua at minutos antes; a respirao, 
outrora difcil e entrecortada por dolorosa apnia, regularizava-se, 
ganhando nveis de normalidade. 


Caius, ento, readquirindo sbita e instantnea fora, busca, afoitamente, 
com os olhos, pela esposa e, quando se acham, fixam o 
olhar um no outro, e uma exploso de alegria ilumina-os. 
-Caius!... -grita ela, correndo e se lanando aos braos que ele, 
amorosamente, estendia-lhe. 


#
-Estou bem, meu amor!... -grita o general, sentando-se no leito, 
muito bem disposto. -Rufus curou-me!... 
Drusilla Antnia ento se volta e, banhada em lgrimas, lana-se aos 
ps do tmido pregador cristo, que se sentia vexadssimo, com a 
atitude de espontnea humildade e gratido que revelava a 
finssima dama. 
-Oh, no!... No, domina!... -exclama ele e, amorosamente, segura a 
matrona pelas mos e a levanta do cho. 
Caius Petronius, tomado de intensa emoo, soluava. As terrveis 
dores haviam sumido por completo! 
-Oh, Rufus!... Rufus!... -dize-me o que queres que faa por ti e eu 
farei!... -exclama o general, entre lgrimas de alegria e de gratido. Sou 
um homem muito rico!... Dize-me o que desejas, e eu te darei!... 
-Nada desejo, senhor... -responde o pregador cristo, com sincera 
humildade. -Nada fiz para merecer pagamento algum, pois Quem 
vos curou foi Jesus!... Eu apenas Lhe servi de instrumento, nada 
mais!... 
-Oh, s por demais modesto, Rufus!... -exclama Drusilla Antnia, 
agora felicssima com o restabelecimento de seu Caius.-Entretanto, 
sei que s infinitamente pobre!... Vamos!... Aceita o que te d meu 
adorado esposo! 
-Cara domina, sou-vos imensamente grato pela oferta que me fazeis 
-diz Rufus, encarando firme a matrona nos olhos. E, sem perder a 
afabilidade em nenhum momento, prossegue: -Entretanto, Jesus, o 
Ser mais poderoso que este mundo j viu, nada tinha de Seu!... 
Pregou e viveu, Ele mesmo, na mais honrada pobreza, posto que era 
um simples carpinteiro, e nos deu o exemplo vivo de que as coisas 
transitrias da vida tm apenas o seu valor relativo!... Nada mais 
que isso!... Ensinou-nos que deveramos cuidar dos tesouros da 
alma -riquezas que a traa e a ferrugem no corroem e os ladres 
no roubam!1 

1. Evangelho de S. Mateus, 6.19 
#
Drusilla Antnia e Caius entreolham-se, admirados com a lgica e a 
sinceridade nas palavras do homem. At ento, tudo o que se 
referira  religio custara-lhes caro, muito caro... 
-Tenho fome, querida... -diz Caius Petronius, olhando para a esposa. 
Uma alegria intensa estampa-se no rosto da mulher. 
-Mandarei que te faam um convivium, como nunca tiveste!... E com 
mensae postremae2 que jamais provaste em lugar algum!... Agora, 
entretanto, a comissatiol...3 Por ora, permanece no leito um pouco 
mais!... No te quero por a, fazendo traquinagens!... -exclama ela, 
com os olhos brilhantes, e grita, feliz: -Iustus, apostos!... Ao trabalho, 
sem delongas, que temos muito a fazer! 
Drusilla Antnia deixa, apressada, o cubiculum, seguida pelo 
majordomus e pela criada. Caius permanece no leito, e Rufus senta-se 
a seu lado, em confortvel cadeira, fazendo-lhe companhia. 
-Omnia vincit amor!... 4 -diz Rufus, altamente comovido com as 
demonstraes de legtimo carinho e amorosa ateno que a 
matrona dispensava ao marido. 
-Es meu principal convidado para o convivium, Rufus -diz Caius 
Petronius, altamente comovido, ao pregador cristo. 
-No me leveis a mal, general, mas no posso aceitar esta homenagem 
que me fazeis -replica o homem, com sincera humildade. 
-Como, no?!... -estranha Caius. -Realizaste o maior prodgio que 
j presenciei em toda a minha vida!... Quero mostrar-me aos meus 
principais amigos e lhes dizer que tu s o principal responsvel por 
isso!... 

2. Na antiga Roma, o requintado cardpio de doces e de finas guloseimas que encerravam 
os banquetes festivos. 
3. Seqncia de vrios brindes e de abundantes libaes com vinho misturado com gua, 
guando se desejava festejar algo ou alguma pessoa. 
4 -O amor vence tudo!...", em latim. 
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-Sei que realizamos prodgios fantsticos, general! Mas, nada to 
grandioso perto do que realizou Jesus em sua curta vida terrestre!... diz, 
humilde, o missionrio. -Sei que vos encontrais altamente 
agradecido pelo que hoje recebestes. Entretanto, as honras e tributos 
do mundo no nos interessam. Ensinou-nos o amantssimo Mestre 
que os que buscam fazer o bem com ostentao j recebem seu 
galardo de antemo, aqui mesmo, na terra;5 mas, o mundo que ns, 
os cristos, almejamos no  este!... Ensinou-nos o Cristo que Seu 
reino no  deste mundo!6 

-Estranha moral essa, pregada por teu deus!... -observa, admiradssimo, 
o general. -De todas as criaturas que conheo, sei que nenhuma 
delas jamais declinaria de quaisquer riquezas e de glrias 
que se lhe oferecessem!... Entretanto, vs deixais escapar tudo isso, 
assim, sem mais nem menos?... Desculpa-me, Rufus, mas me  
extremamente difcil entender isso! 
-Parece-vos estranho, senhor, porque vossa vida se volta, exclusivamente, 
aos valores do mundo!... Porm, que vos deu o mundo?... 
Glrias transitrias e dores, nada mais que isso!... Onde  que estavam 
os vossos amigos leais, ainda h pouco, quando estveis 
mesmo  beira da morte?... Sequer vos vinham visitar, com medo da 
doena!... No  assim?... E o Imprio?... Quando veio o Imperador 
visitar-vos alguma vez?... E vs no trouxestes tantas glrias a 
Roma?... 
Caius Petronius Tarquinius ouvia, cabisbaixo, o missionrio cristo. 
Calava-se diante de argumentos to fortes. 
-Mesmo Jpiter Capitolinus... -prossegue Rufus, que agora ia tocar 
na ferida mais dolorosa do general: a f. -Mesmo Jpiter... No 
prometestes a ele uma hecatombe?... 
-Demos-lhe duas... -diz o general, em voz baixa, sem encarar o 
outro. 

5. Evangelho de S. Mateus, 6.1 
6. Evangelho de S. Joo, 18.36 
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-E, mesmo assim, ficou insensvel a vossos rogos... 
-E... -concorda Caius, ainda sem coragem de olhar para Rufus. 
Nesse nterim, Drusilla Antnia adentra o cubiculum. 
-Passemos ao triclinium, que a comissatio est pronta!... -observa, 
alegre, a matrona. 


-Acautelai-vos, general, das glrias do mundo, para que algo pior 
no vos acontea! -diz o missionrio cristo. E prossegue, levantando-
se, resoluto: -Agradeo, sinceramente, tudo o que desejastes 
fazer por mim, mas, em verdade, nada posso aceitar!... Nem mesmo 
a comissatio! 
Em seguida, olha, demoradamente, para Caius e, depois, para 
Drusilla Antnia. Faz longa reverncia diante de ambos e sai abruptamente. 
-Que lhe disseste, Caius!... -pergunta, preocupada, a matrona e sem 
nada entender sobre a atitude do homem. 
-Melhor perguntares o que me disse ele, minha cara... -diz Caius, 
entre pensativo e melanclico. 
Pelo resto daquele dia, o general permaneceu no leito. Sentia-se 
miraculosamente bem, as terrveis dores haviam desaparecido por 
completo e estava at sentindo fome!... Encontrava-se to bem 
disposto que tinha desejo de levantar-se, de caminhar pela casa e de 
ir at o viridarium e passear entre as alias floridas. Entretanto, 
Drusilla Antnia permaneceu vigilante e no admitiu que ele 
deixasse o cubiculum de jeito nenhum. Na manh do dia seguinte, 
porm, despertou bem mais disposto e conseguia caminhar, se bem 
que ainda com certa dificuldade, em virtude da extrema debilidade 
fsica em que se encontrara at ento. Contudo, misteriosamente, 
sentia-se mais e mais fortalecer  medida que as horas passavam. 
Havia tomado leve refeio, constituda de sopa de legumes e de 
pequeno pedao de po. Aesposa seguia-o, fazendo-lhe companhia, 
pois ele queria visitar cada canto da casa. A entrada do triclinium, 
onde se localizava o altar dos lares -as divindades domsticas -, 
Caius pra diante da esttua de Jpiter. O fogo sagrado bruxuleava 


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aos ps do nveo dolo, e Drusilla Antnia havia acendido longa 
vareta de incenso de mirra que queimava, lanando ao ar uma 
coluna de fumaa branca que subia em forma de espira. 
Caius Petronius olha, longamente, para o rosto da esttua do patrono 
de sua casa. Depois, passeia os olhos pela efgie do pai, gravada em 
cera e tambm colocada no altar, ali bem ao lado de Jpiter. Ao 
nascer, seu pai consagrara-o  tutela daquele numen e, desde ento, 
fora aprendendo a cultuar e a reverenciar o deus, com especial 
carinho e sempre cheio de deferncia. Volta a olhar, 
demoradamente, para o rosto frio e impassvel de Jpiter e meneia a 
cabea, em patente demonstrao de desagrado e de reprovao. 
"Traidor!...", pensa o general, mantendo firme os olhos no rosto do 
dolo de mrmore alvini-tente. "Fostes vencido por um deus 
estrangeiro, um judeu carpinteiro!... No vos envergonhais disso?..." 
E estranha clera foi assenho-reando-se de Caius Petronius. Num 
mpeto, lana-se sobre a esttua e, com todo o furor que lhe permitia 
as parcas foras, atira a esttua ao cho, espatifando-a em mil 
pedaos. 
-Oh, no, Caius!!!...-grita Drusilla Antnia, espantadssima com a 
atitude do esposo. -Que fizeste?!... Acabas de destruir a esttua de 
teu numen sagrado! 
-Que me vale um deus imprestvel e que se faz surdo e insensvel 
aos meus apelos?... -diz ele ainda ofegante pelo rompante. E, devagarinho, 
sentou-se no cho, posto que o esforo fizera-o perder a 
sustentabilidade das pernas. Passa a mo sobre a testa e sobre o 
rosto para enxugar o suor frio que lhe exsudava, abundante, em 
grossos bagos, e depois, prossegue cheio de mgoa: -Melhor matlo, 
de vez, em meu corao!... 
-Oh, meu Caius!... Meu querido Caius!... A dor suprema mutilou-te 
a alma a ponto de execrares o deus de teus antepassados!... -diz a 
matrona, tambm se sentando no cho ao lado dele e o abraando 
ternamente. 

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-No, minha cara!... -exclama o general, com os olhos cheios de 
lgrimas. -No estou matando o deus de meus antepassados!... 
Mato um deus que j estava morto e o troco por outro -o Deus vivo, 
que me tirou da gafa da morte! 
-No entendo o que dizes, Caius... -diz a matrona, olhando-o, 
confusa. 
-Simples, minha cara: doravante sou cristo! -declara ele, olhando-
a, firme, nos olhos. 


-Que dizes?!... -exclama ela, levantando-se, abruptamente, cheia de 
espanto. -Renegas a religio de teus antepassados?!... Oh, Caius, no 
 porque te salvaram da morte, coisa que ainda me suscita dvidas, 
pois no deves te esquecer de que, concomitantemente, demos duas 
hecatombes a Jpiter Capitolinus!... Como podes ter tanta certeza de 
que no foi nosso Pai Jpiter que te devolveu a sade e no o Deus 
Estrangeiro a quem nunca rendeste uma nica homenagem 
sequer?... No te parece estranho?... Como Ele poderia gostar de ti, 
se nem te conhecia? 
Caius olha, demoradamente, para o rosto nervoso da esposa. Os 
argumentos dela pareceram-lhe, de repente, to infantis, como 
infantil e vazia se lhe afigurava a crena que abraara pela vida 
inteira. "Os dolos principiam a morrer...", ouve ele, no recndito da 
mente. "Todos cairo, um aum, vencidos e derrotados, aos ps do 
Cordeiro...", prossegue a voz, e seus olhos enchem-se de lgrimas. 
Drusilla Antonia espanta-se. Como seu marido estava frgil!... Agora 
andava chorando a torto e a direito!... Onde que se escondia o 
valoroso, destemido e intrpido general de Roma?... Caius Petronius 
estava deveras irreconhecvel. 
-No achas melhor pensares um pouco mais, antes de te declarares 
cristo, assim, abertamente?... -observa ela, cheia de apreenso. 
-Primeiro, darei baixa no exrcito... -diz ele, com a voz tremendamente 
mudada, muito diferente do tom que sempre lhe fora 
habitual: forte, alto, decidido. Agora, ele falava mansamente, tinha o 
semblante tranqilo e pensava muito, antes de emitir uma frase. 


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Depois, dedi-car-me-ei a conhecer, profundamente, a seita dos 
cristos! 
-Oh, meu amor!... -diz Drusilla Antonia, abraando-se a ele. -Temo 
tanto que essa tua atitude venha trazer-nos muitos dissabores!... Tu 
sabes o quanto os cristos so malvistos e execrados!... Tenho a 
absoluta certeza de que todo o patriciado romano rir-se- de ns, ao 
saber-nos seguidores do Carpinteiro Judeu!... Dize-me, com toda a 
sinceridade: no temes o escrnio pblico? 

Caius Petronius olha-a, longamente, nos olhos. Amava-a muito e no 
gostava de indispor-se com ela. 
-Meu amor -diz ele, sem demonstrar o mnimo de impacincia, 
mesmo sabendo que ela tentava demov-lo daquelas idias -, pouco 
se me importa o que Roma ou o Imprio todo diga sobre minha 
vida!... Quando sentimos o bafejo ptrido da morte, que vem dar-
nos o seu beijo fatal, e quando perdemos de vez as esperanas, 
vendo frustradas e malogradas todas as tentativas de escaparmos 
da algidez da noite eterna do frio Averno, vemos quantos amigos 
temos de verdade!... Os meus, minha cara, foram to poucos a me 
visitar que, contando-os aos dedos de uma s mo, garanto-te que 
sobrou a metade dos dedos por contar!... Encontrava-me to 
desesperanado, to perdido no meio das trevas da aflio e, de 
repente, fez-se o Sol em meu viver!... Ingrato seria eu, se no 
reconhecesse de onde me veio a salvao!... No, Drusilla, no me 
engano!... Estou convencido sobre a veracidade da doutrina dos 
cristos!... E, digo-te mais: paradoxalmente, hoje, seria capaz de dar 
a minha vida por Jesus!... Ele ma salvou, e eu a dou por Ele! 
Drusilla Antnia olhava-o, sem entender muita coisa do que ele lhe 
falava. Mas, com profundo suspiro, principiava a resignar-se: tinha 
de voltao seu amor!... Que mais desejaria neste mundo?... Cristo ou 
no, o que importava  que ela o tinha de novo ali, fortalecendo-se a 
olhos vistos e, em pouqussimo tempo, agora tinha a absoluta 
certeza, estaria bonito e forte como antes!... E, como era de seu feitio, 

#
abraa-o, de inopino, e o cobre de beijos, at cans-lo. Ele no era o 
seu amor?... 

***** 

A notcia do rpido restabelecimento de Caius Petronius chegou at 
Cornlius Helvetius. Fortemente emocionado, ainda segurava s 
mos a tabula que Drusilla Antnia lhe mandara, havia pouco, por 
um mensageiro. "Ento ele se recuperou!...", pensa, alegre, o velho 
senador. Entretanto, intriga-se: "Como  que conseguiu, se andava 
mesmo  beira da morte?... Preciso v-lo!...", e se ri, contente. 

Cornlius andava to mal, to desgostoso com as confuses em que 
vivia se metendo a neta, mas, mesmo assim, arrebanharia foras 
para visitar o velho amigo. Custava-lhe crer que Caius conseguira 
restabelecer-se de doena to grave, pois segundo os relatos que 
obtivera de Drusilla Antonia, o esposo encontrava-se moribundo. 
"Ah, Caius, Caius...", pensa, cheio de pesar, o velho senador. "Es um 
dos ltimos baluartes do Imprio!... Se te vais, mais um passo 
damos para a derrocada final!..." Com o inesperado 
restabelecimento do amigo, Cornlius sentia-se deveras feliz e, 
tambm, aliviado, pois Caius seria a nica pessoa, em toda a Roma, 
a quem, de olhos fechados, confiaria a tutela de Susanna. E, alm 
disso, sua neta teria a constante presena de Drusilla Antonia a 
acompanhar-lhe os passos, orientando-a com sabedoria e amor, 
como se lhe fosse a verdadeira me. "Agora posso morrer feliz...", 
pensa o velho, com os olhos cheios de lgrimas. Resoluto, Cornlius 
bate palmas, do tablinum onde se sentara para ler a correspondncia, 
e ordena ao mordomo que assoma, solcito,  porta. 
-Aulus, prepara-me a liteira, que vou sair. 
O outro se espanta e, momentaneamente, fica sem ao. Fazia anos 
que o senador no deixava a villa. 
-Vamos, homem, mexe-te! -exclama Cornlius, agastando-se com a 
parvalhice de seu mordomo. 

#
Uma hora depois, amparado pelo majordomus que com ele viera, 
Cornlius galgava, dificultosamente, os degraus que davam ao 
atrium da casa de seus amigos. 
-Cornelius!... Que surpresa!... -exclama Drusilla Antonia, 
contentssima, recebendo o velho amigo aporta. -Vem, que Caius 
aguarda-nos no peristylium!... Far-lhe-s uma surpresa!... Nada lhe 
disse sobre a tua chegada!... 
O general abre-se em largo sorriso de contentamento ao ver o velho 
companheiro que assomava por um dos corredores. Levanta-se e 
corre a abra-lo, ajudando-o a sentar-se num canapeum, pois o 
outro caminhava com extrema dificuldade, amparado por Drusilla 
Antonia e pelo majordomus. 


-Oh, Cornelius!... Cornelius!... -exclama Caius, felicssimo. -Que bom 
que vieste! 
-Folgo em ver que te recuperas, Caius!... -diz o velho senador, com 
as palavras entrecortadas pela respirao ofegante, pois o esforo 
para caminhar judiava muito dele. 
Drusilla Antonia desculpa-se e se afasta para dar algumas ordens ao 
majordomus. Os dois amigos permanecem ss e se entreolham, 
emocionadssimos, por alguns instantes. 
-E como ests, meu bom amigo? -pergunta Caius, despendendo o 
mximo de ateno ao combalido amigo. 
-Mal, meu caro, muito mal... -diz Cornlius, olhando, triste, para o 
outro. -Acho que foi at uma temeridade vir at aqui, ter contigo!... 
Se Tacitus, meu mdico, disso tomar conhecimento, passarei por 
maus bocados!... Mas, tinha duas coisas a fazer, antes de morrer: 
ver-te novamente cheio de sade e... -cala-se, ento, por instantes, 
como a se preparar para o que iria dizer. E, depois de algum tempo, 
esforando-se ao mximo para conter a emoo que teimava em 
embargar-lhe a garganta, prossegue: -E, a segunda coisa,  um 
pedido que te fao, do fundo de minha alma, e espero que no mo 
recuses, Caius!... 
-Ora, Cornelius!...-diz o general. -Que te negaria eu? 


#
-Pois bem, meu amigo -continua o outro -, sei que meu fim se 
aproxima!... 
-Ora, Cornlius, deixa de dizer asneiras! 
-No, no me engano!... -sorri, tristemente, o velho senador ao 
outro que lhe cortara as palavras, reprovando-lhe a triste afirmao 
e continua: -Estou morrendo, meu caro, e, diferentemente, de ti, 
que no sei de onde tiraste de volta a tua sade, a minha esvai-se, 
cleremente!... Morro e temo deixar Susanna, minha dileta neta, 
sozinha, neste mundo terrvel em que vivemos!... Pensei cas-la, 
mas com quem?... Com o pulha de meu sobrinho, filho de minha 
irm Metella, que se mostra doido por ela, mas que  um monstro, 
um assassino e que, com toda a certeza, ir machucar e magoar 
muito a minha menina!... 


Cornlius cala-se, altamente comovido, e enxuga uma lgrima que 
lhe rolara pelas faces macilentas e grandemente enrugadas. 
-Que pensas fazer, ento, Cornlius? -pergunta Caius, tocado pela 
aflio do amigo. 
-Susanna  muito rica, pois  minha nica herdeira, Caius -continua 


o velho. -Se morro e a deixo por a, sozinha, chovero os interesseiros, 
os rapiadores, que tentaro, a todo custo, espoliar-lhe os 
bens! 
-Alm de teu sobrinho, nenhum outro pretendente srio dela se 
aproximou? -pergunta Caius. -Quantos anos tem Susanna? 
-J fez catorze anos -responde Cornlius. -Sei que est na hora de 
arranjar-lhe um casamento. 
-Sim -concorda Caius. -Mas, a quem dars a tua neta em 
casamento? 
-Outro dia, ela me trouxe algum que poderia, talvez, ser-lhe um 
bom marido. Lembras-te de Lucius Antoninus Rimaltus? -pergunta 
Cornlius. 
-Como no?... -responde Caius. -O senador Rimaltus  velho 
conhecido meu, mas ao que me consta, deixou Roma h muito 
tempo. Reencontraste-o, ento?... 
#
-O neto dele -diz Cornlius. -Susanna encontrou o rapaz num 
banquete de Nero, numa situao estranhssima, quando um dos 
lees escapou dajaula e atacou os convivas!... Ao que me consta, o 
jovem ajudou minha neta a voltar para casa. 
-E que te pareceu o rapaz? 
-De bero, meu caro!... De bero, como ns!... -exclama Cornlius, 
com os olhos brilhantes. -Alis, foi criado e educado por Lucius, o 
av, pois o pai, Caius Longinus, morreu ainda jovem, na guerra, 
deixando-o rfo. E um excelente rapaz, forte e educado, digno de 
esposar minha neta! 
-E, por que no acertas o noivado com ele? -pergunta Caius. -Tua 
neta no gostou dele? 
-Tenho a certeza de que gostou!... -exclama Cornlius, ani-mandose. 
-Entretanto, o demnio de Iulius, meu sobrinho, interpe-se 
entre eles como uma sombra srdida!... No desgruda de Susanna 
um s dia, levando-a, para baixo e para cima, ao Circus Maximus e 
ao Theatrum, e a enchendo de mimos e de agrados!... No podes 
aquilatar o desgosto que isso me traz! 
-Ento, alegra-te, caro Cornelius! -exclama o general, contente. 
-O jovem a que te referes encontra-se muito prximo de mim!... 
um de meus ordenanas! 
-Pequeno mundo esse, no? -observa o velho senador, abrindo-se 
em largo sorriso de satisfao. -Dizes ento que conheces e muito 
bem o jovem Rimaltus! 
-Como a palma de minha mo!... -diz Caim Petronius.-E no ser 
difcil traz-lo para junto de tua neta, no, meu amigo!... Fica 
tranqilo!... Se o rapaz, de fato, interessou-se por ela, daremos um 
jeito nisso! 
Cornlius emite longo e profundo suspiro de alvio. Finalmente as 
coisas davam mostras de acomodar-se! Se Caius empenhava-lhe a 
palavra, poderia confiar! Satisfeitssimo, pareceu ganhar inusitado 
vigor  face e muda o rumo da conversa. 
-Queres dizer, ento, que te livraste de vez da gafa de Hecate!... 

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-exclama Cornlius, iluminando o rosto com um sorriso. -Quem 
diria? 
-Sim, Cornlius -diz o general, baixando os olhos. -Encontrava-me 
j desesperanado e pronto para deixar este mundo! 
-Mas, conta-me, Caius, como tudo aconteceu? -pergunta Cornlius, 
altamente interessado. 
Caius Petronius Tarquinius fita longamente o vazio, sem nada dizer, 
enquanto duas lgrimas brotam-lhe dos olhos. Depois, ele as 
enxuga com a ponta dos dedos e diz: 
-O Deus dos cristos curou-me, Comelius! 
-Que dizes?!... -espanta-se o velho senador, empertigando-se no 
canapeum.-Ouvi direito?... Disseste que os cristos curaram-te?! 
-Sim, meu amigo -responde o outro, ftando-o, firme, nos olhos. 
-Sei que isso pode parecer-te esdrxulo e inusitado, logo em mim, 
que sempre fui fiel ao meu numen de nascimento!... Entretanto, estranhos 
fatos aconteceram... 
E, minuciosamente, Caius relata ao espantado senador seus misteriosos 
sonhos com o pregador cristo, e a conseqente cura 
milagrosa que recebera das mos deste, em nome de Jesus. Aps o 
trmino do relato, Cornlius meneia, longamente, a cabea e diz: 
-Caius, sei que s um dos maiores generais que o Imprio j 
possuiu! Louco seria eu, se duvidasse de tuas palavras; entretanto, o 
que me relataste  por demais estranho!... No te precipitas em declarar-
te cristo, assim, abertamente?... Sabes muito bem qual  a 
fama que acompanha os seguidores dessa seita! 
-Sei, perfeitamente, Cornlius -rebate o general -, que o conceito 
que fazem dos seguidores do Carpinteiro Judeu no  nada agradvel; 
entretanto, posso afianar-te de que nada disso  
verdadeiro!.. . Tudo no passa de calnia e de difamao!... De que 
maneira poderiam criaturas to abjetas -como largamente se 
propala serem os cristos -fazerem o bem dessa maneira to 
extraordinria como nunca se viu antes?... E sem nenhuma 
ostentao ou remunerao?... E, olha, Cornlius, que lhe ofereci 

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dinheiro e fama, e ele nada aceitou; pelo contrrio, sentiu-se at 
ofender! 
-Oh, Caius, Caius!... -exclama o velho senador, apertando forte a 
mo do amigo. -Acautela-te das coisas que no conheces!... No 
estarias enfeitiado?... Ouvem-se tantas coisas acerca dessa gente... 
-Juro-te, Cornlius -diz Caius, inflamando-se por estranha e potente 
fora que o dominava, sempre que se referia  seita que abraara -, 
que tudo o que te disse  verdade e que no me senti, em nenhum 
momento, coagido ou vtima de algum sortilgio desconhecido!... 
Nada disso: apenas coisas feitas s claras e dentro da mais rgida 
razo!... Muito mais racional, alis, do que pregam os ilustres 
sacerdotes do Capitolium cuja nica preocupao tem sido o quanto 
de ouro ofertamos ao gazofilcio do templo... 
Cornlius limita-se a olhar para o outro e assentir, afirmativamente, 
com a cabea. 

-Demos duas hecatombes a Jpiter Capitolinus e abarrotamos o 
escrnio do sumo sacerdote de ouro, meu caro -continua Caius -, 
entretanto nada recebemos dos frios e mudos dolos! 
-Oh, Caius -diz o velho senador, com bonomia aos olhos. -Quem 
sou eu para julgar-te, afinal!... -Se dizes que assim foi, eu creio em 
ti!... Entretanto, falta-me a f, o elemento indispensvel para obter o 
que tu recebeste do Deus Cristo!... Desculpa-me, se no fao como 
tu, mas encontro-me excessivamente velho para tal empreitada!... -e 
se cala por instantes, como se um gastalho lhe apertasse forte a garganta. 
Mas, logo, como se precisasse, urgentemente, livrar-se 
daquele incmodo embargo, meneia, tristemente, a cabea e 
prossegue: -Velho, desgostoso e desesperanado com o mundo!... 
Percebes para onde est caminhando o Imprio?... Para a mina, meu 
caro!... Para a mina, e no h nada que eu e tu possamos fazer!... 
Que dizes do Senado?... No passa de um covil de bandidos e de 
assassinos que, ao invs de legislar, agir com justia e fiscalizar o 
imperador, ajudam-no a corromper e a espoliar o errio pblico!... 
E, quem se acha sentado sobre o trono de Rmulo?... Um doido, um 

#
dspota assassino, parricida, matricida, uxoricida e tu podes 
imaginar o que mais, pois tenho vergonha de dizer-te!... E os 
generais, os grandes generais, como tu, esto acabando, esto em 
franco desaparecimento!... Vs sois os verdadeiros veladores pela 
sanidade do Imprio!... Sempre defendestes Roma de seus inimigos 
externos, mantendo firmes e coesas as nossas fronteiras, mas, 
principalmente, salvaguardastes, sempre, a integridade interna, 
livrando-nos de nossos piores inimigos: nossos governantes!... No, 
meu amigo, falta-me, principalmente, coragem, para continuar 
vivendo num mundo assim! 
Caius limita-se a olhar para o outro, cheio de pena. Entendia-o e 
sabia que ele tinha razo. Neste comenos, Drusilla Antnia aparece. 
-Servirei o prandium no triclinium, meus queridos -diz ela, contente. 
-Vinde ambos, sem delongas, que tudo se esfria rapidamente! 
-Imenso prazer em ter-te  nossa mesa, Cornlius, depois de tanto 
tempo!... -exclama Caius, auxiliando o velho amigo a levantar-se do 
canapeum. 

L fora, o sol, j no meio do cu, indicava que dia avanara bastante, 
e os trs amigos, felizes pelo reencontro, caminhavam abraados, 
para o interior da residncia. 

***** 
Flavius Antoninus Rimaltus, depois que conhecera a jovem Susanna 
Procula, no era mais o mesmo. Muito pouco saa, para divertir-se 
com os amigos, e passava os dias vagando como uma sombra pelos 
imensos cmodos da manso que pertencia  famlia, nos arredores 
de Roma. No tinha mais sossego: havia momentos em que era 
incapaz de permanecer sentado por mais de cinco minutos no 
mesmo lugar, e j uma estranha inquietude apoderava-se dele. 
Invariavelmente, era a figura alegre e linda da jovem patrcia que o 
perseguia, tirando-lhe a paz. Outras vezes, quedava-se 
meditabundo, sentado num banco, sob o dossel de frondosas 
rvores do imenso parque que circundava a suntuosa manso, 

#
edificada em rutilantes granitos multicores e em mrmores brancos 
e travertinos, e passava horas, com o olhar perdido no vazio. 
Amide, soltava profundos suspiros, e seu rosto demonstrava 
profundo pesar, como se nada no mundo mais lhe interessasse, a 
no ser um par de olhos marrons, bem clarinhos, enfeitando um 
magnificente rosto branco, ligeiramente mosqueado de quase 
imperceptveis sardas, como se fossem respingos de mel a bordarem-
lhe, graciosamente, o alto das bochechas coradas e em derredor 
do colo, bem acima dos seios. "Oh, Susanna, Susanna!... Afvel 
Naiad7 que me enfeitiou a alma!..." 
Naquela clida tarde de fim de primavera, Flavius Antoninus encontrava-
se recostado num canapeum sob o peristylium. Andara 
lendo alguns trechos de Ovidius, 8 entretanto no conseguia manter-
se atento ao assunto. Acabara por desistir da leitura e, 
invariavelmente, seu pensamento convergia-se para ela, Susanna 
Procula. Fazia j algum tempo que dvida atroz roa-lhe a alma: 
procurar ou no a jovem que o encantara grandemente. Deveria 
voltar  casa de Cornlius Helvetius Pisanus!... O velho senador no 
era amigo ntimo de seu av?... No o havia convidado a retomar, 
assim que desejasse?... Cornlius at se encantara com ele!... Tinha a 
certeza absoluta de que o amigo do av gostara dele!... E, Susanna!... 
Oh, ela lhe dera mostras de carinho to patentes!... Abraara-se to 
forte e to espontaneamente a ele no carro. Aquelas lembranas to 
tocantes, Flavius Antoninus ri-se, emocionado. E, quando ele fingira 
no ter percebido os momentos em que ela lhe aproximava aquele 
narizinho to delicado e formoso ao dorso, para cheir-lo repetidas 
vezes?... Susanna encostava o rosto s costas dele e aspirava to 
profundamente!... Depois, emitia longos e profundos suspiros e, 
novamente, aspirava-lhe o cheiro e suspirava, enquanto o carro 
corria clere, descendo o Palatino... Divertindo-se com tais 

7. Niade, em latim. Divindade mitolgica inferior que presidia aos rios e s fontes; ninfa 
das guas. 
8. Publius Ovidius Naso (43 a.C -16 d.C), poeta latino. 
#
recordaes, o rapaz ri-se sozinho. "Ah, meu amor!... Meu amor!...", 
repete baixinho, e seus olhos brilham de saudade. Entretanto, 
terrvel lembrana gela-lhe o sangue: Susanna estava noiva!... E se 
gostasse do outro?... No, decididamente, no poderia interpor-se 
entre o casal, separando-o. No era de seu feitio!... Por isso  que 
sofria terrivelmente e se negava a retornar  casa de Cornlius 
Helvetius. 

A meio desse intenso sofrimento, avista dois cavaleiros a aproximarem-
se pela viela que dava acesso  sua casa. Levanta-se e firma 
os olhos. Alegra-se e sai, quase a correr, pois reconhecia os que chegavam: 
eram seus mais leais camaradas de armas que vinham 
visit-lo. 
-Ah, a te encontras entocado! -exclama um dos rapazes, apeando 
do cavalo. 
-Salve, Valerius!... -diz Flavius, abraando o amigo, efusivamente. 
-Pensvamos que tinhas morrido de peste!... -brinca o outro 
companheiro. 
-No morri de peste, mas quase morro de outra coisa, caro 
Silverius! -exclama o jovem anfitrio, agora abraando-se ao outro 
companheiro. -Que alegria t-los aqui, meus amigos! 

-Como no foste mais ao Circus Maximus nem ao Theatrum, 
pensamos que algo te tivesse acontecido! -explica Valerias, enquanto 
se encaminhavam os trs para a sombra do peristylium. 
-Alm do mais, h outra terrvel epidemia de peste grassando por 
toda a cidade, e sabes como : ningum est livre de tais coisas!... 
H pouco, passamos por pilhas e pilhas de cadveres que 
apodrecem ao sol!... O mau cheiro ali  insuportvel!... -diz 

Silverius. 

-Nem os urubus esto dando conta de dar cabo de tanta comida!... observa 
Valerius, rindo-se. -Esto to gordos que mal conseguem 
voar! 
-Se no morro de peste, certamente morrerei de outro mal que me 
aflige a alma, companheiros!... -exclama Flavius, entristecido. 

#
-De que se trata? -pergunta Silverius. -Vejo que te encontras um 
tanto abatido! 
-Conto-vos, meus amigos, conto-vos o que me acontece!... -diz o 
rapaz e passa a narrar o que lhe ia  alma. 
Os outros dois, entre altamente interessados e divertidos com os 
fatos que lhes expunha Flavius, interrompiam-no, amide, com 
observaes de galhofas e de zombarias, posto que adoravam 
pregar-se peas e brincadeiras. Ao final da narrativa, os dois 
visitantes entreo-lham-se, trocando-se significativo olhar, e Valerius 
diz: 
-Se no tiveres coragem de ir at a casa do senador Pisanus, iremos 
em teu lugar! 
-Sim -emenda Silverius -, e quem sabe a jovem Susanna Procula no 
se decide, tendo mais dois belssimos pretendentes a seus ps!... Ha! 
Ha! Ha! Ha!... 
-Sois uns cretinos!... -brinca Flavius, acabando por rir-se da pilhria 
que lhe faziam os companheiros. 
-Brincamos, contigo, Flavius -diz Valerius, pondo-se srio. -Mas, se 
eu fosse tu, lutaria por meu amor!... 
-Sim -concorda Silverius -, tu vais deixar o campo de batalha assim, 
sem lutares?... No, meu amigo, no amor e no furor dos entreveros e 
dos recontros, tudo  vlido! 

Flavius Antoninus olha para os amigos, cheio de gratido. Em 
seguida, levanta-se de seu canapeum e os abraa, comovidamente. 
-Viestes a bom tempo, meus companheiros!... -diz ele, comovido. Vs 
me convencestes!... Amanh, mesmo, irei visitar o senador 

Pisanus! 
-O senador Pisanus ou a neta dele? -pergunta Valerius, malicioso. Os 
trs rapazes explodem numa ruidosa gargalhada e passam a 
conversar, animadamente, sobre as novidades que aconteciam na cidade. 
A tarde caa, mansamente, sossegada, fortemente iluminada 
pelo brilhante sol que j dava mostras da jactncia com que se 
vestiria no vero que se aproximava. 

#
Captulo VII 
Na Seara do Mestre 


Depois que se decidira pelo Cristianismo, Caius Petronius passara a 
freqentar, assiduamente, o singelo templo onde se reuniam os 
seguidores de Jesus. Passados alguns dias, desde quando recebera a 
miraculosa cura das mos de Rufus, o general encontrava-se to 
forte e to recuperado em suas foras que, dificilmente, algum 
acreditaria que ele, pouqussimos dias atrs, tivera a vida suspensa 
por um fio. Drusilla Antnia seguia-o em sua nova crena e se sentia 
feliz; tinha o seu amado esposo de volta, posto que j o considerava 
morto, terrivelmente carcomido pelo tumor carcinomatoso que lhe 
devorava, sem piedade, o estmago, provocando-lhe acerbas e 
terrveis dores. Ela sabia que Caius havia recebido um milagre e 
agradecia aos cus por isso. S no conseguia atinar quem, de fato, 
houvera-lhe curado o marido: Jpiter Capitolinus ou Jesus... Mas, isso 
pouco se lhe importava; o que realmente contava  que agora via o 
seu Caius tomado de novos e reconfortantes vigores e 
apaixonadssimo pelos ensinamentos que trouxera o Carpinteiro 
Judeu, tanto que no perdia uma s pregao que Rufus fazia todas 
as semanas, s noites de sextas-feiras. 
O vero j avanava forte, trazendo o insuportvel calor e, acocorados 
sobre as pobrssimas esteiras de junco, achavam-se agora os 
quatro -Caius, Drusilla Antnia, Iustus e Dulcina -, juntamente com a 
reduzida congregao, a ouvirem, atentamente, as pregaes do 
Evangelho de Jesus. 
O missionrio cristo, como sempre, apanha o rolo de pergaminho 
onde se achavam copiados  mo os trechos evanglicos, aproxima-
os da lmpada de azeite e l, com a voz cheia de emoo: 

-"Homo qudam habuit duos filios. Et dixit adulescentior patri: Pater, da 
mihi portionem substantiae quae me contingit. Et pater divisit Mi 
substantiam... "l 

#
Terminada a leitura da parbola, Rufus depe o surrado velino 
sobre a tosca mesa e passeia os olhos pela pequena assemblia que 
se sentava ao cho do pobre templo. Intensa luminescncia 
aureolava seu semblante, quando ele se pe a explicar, em palavras 
simples, o contedo da mensagem evanglica. E, com magistral 
competncia, desvenda, nas entrelinhas da clebre parbola, os 
ocultos ensinamentos nela contidos, para gudio e maravilha dos 
que a ouviam, cheios de ateno e interesse!... Como havia sede de 
luz e de conhecimento naquelas criaturas pejadas de dor e de 
sofrimentos acerbos!... Eram as verdades consoladoras da inefvel 
mensagem do Cristo que se espalhava, a consolar os pequeninos e 
simples de corao!... A Grande Revoluo, que mudaria e dividiria 

o mundo em duas pocas distintas, antes e depois dEle, principiava, 
exatamente do modo como Ele previra: no para os grandes e 
soberbos do mundo, mas para os simples e humildes... "Graas te 
rendo, meu Pai, Senhor do cu e da Terra, por haveres ocultado estas coisas 
aos doutos e aos prudentes e por as teres revelado aos simples e aos 
pequenos... "2 Dessa forma, principiava a grande mudana; nos 
pequeninos e humildes templos, nos misrrimos arrabaldes de 
Roma, e, concomitantemente, em outras cidades do mundo, levado 
pelas corajosas e incansveis mos dos primeiros missionrios 
cristos, como ali fazia Rufus, o Evangelho espalhava-se, 
promovendo alvio aos que estavam aflitos e sobrecarregados.. .3 
Terminada a pregao e a sesso de curas, com a imposio das 
mos, Rufus aproxima-se dos quatro que permaneciam esperando 
por ele. 
I. "-Certo homem tinha dois filhos; o mais moo deles disse ao pai: Pai, d-me a parte que 
me cabe dos bens. E ele lhe repartiu os haveres...", em latim. Evangelho de S. Lucas, 15.1112. 
2 Evangelho de S. Mateus, 11.25 
3. Evangelho de S. Mateus, 11.28 
#
-Salve, amigos!... -exclama o pregador, abraando, fraternalmente, 
a todos, um por vez. -Que o Senhor Jesus vos abenoe e vos 
dapaz!... 
-Rufus -diz-lhe o general -, acho que j percebeste que me dedico, 
agora, ao culto cristo. 
-Sim, domine -diz o pregador, baixando a cabea, humilde. -Sei que 
vs j entregastes vosso corao a Jesus, e isto muito nos alegra! 
-Entretanto, Rufus, sinto faltar-me algo, alm do conhecimento que, 
pouco a pouco, venho recebendo, atravs das leituras dos Santos 
Ensinos de Jesus e das tuas pregaes -diz o general. 
-Sei o que vos falta, general... -fala Rufus, tocando de leve com a 
mo no ombro de Caius. -Falta-vos a ao!... A f sem obras  
morta! 
Caius Petronius limita-se a olhar para o outro, sem entender muita 
coisa. 
-Explico-vos melhor, meu irmo -diz Rufus. -No basta apenas 
crer em Jesus e Lhe conhecer os ensinamentos;  preciso p-los em 
prtica! 
-Mas, como?... -pergunta o general. 
-Vinde, amanh, ao nascer do sol, e vos mostrarei, senhor!... responde 
Rufus, dando-lhe amvel tapa ao ombro. 
Em seguida, o missionrio despede-se e desaparece por uma das 
portas laterais. Caius fica parado por alguns instantes, refletindo nas 
palavras que o outro lhe dissera. 
-Vamos, meu amor!... -chama-o Drusilla Antonia, tocando-lhe, 
amorosamente, no brao. -J  bem tarde... 
Na manh subseqente, mal surge o sol, Caius e Drusilla Antonia, 
acompanhados de seus dois fiis servidores, Iustus e Dulcina, j se 
encontravam diante do simplssimo templo cristo. Era a primeira 
vez que se expunham s claras em lugar to srdido. A penria ali 
era pungente: casas pauprrimas, erigidas de adobes e cobertas de 
enegrecidas palhas de centeio, abrigavam criaturas sujas e 


#
esqulidas que assomavam, curiosas, s porta e janelas, a verem os 

patrcios que, inusitadamente, vinham at ali. 
-Da prxima vez, ser melhor virmos em trajes mais simples e a p, 
minha cara -observa Caius  esposa. -Chamamos a ateno, 
ostentando poder e luxo, vestidos com nossas chlamydae4 patrcias e 
viajando numa quadriga deste porte! 
-Tens plena razo, meu amor! -diz a matrona. -Percebeste quo 
ementa  a misria em que vivem nossos patrcios plebeu? 
-Sim, minha cara!... -concorda Caius Petronius, olhando, consternado, 
o magote de mulheres, crianas, velhos e rapazolas que, 
paulatinamente, fora juntando-se em derredor deles, no momento 
em que deixavam a riqussima quadriga, tirada por duas parelhas 
de reluzentes e bem tratados corcis negros, em que haviam feito o 
percurso at ali. 
Um tanto intimidado pelos olhares curiosos e alguns onde at era 
possvel encontrarem-se traos de rancor gratuito e de inveja pelo 
luxo ostentado pelos odientos patricii, o pequeno grupo abriu 
passagem entre as pessoas e adentrou o singelo templo. L dentro, 
Rufus aguardava-os, juntamente com mais trs companheiros. Ao 
v-los adentrarem o recinto, abre-se em largo sorriso de 
contentamento. 
-Salve, amigos!... -exclama o pregador, abraando-os, um a um. Que 
bom que viestes!... H muito servio a fazer!... Estais dispostos? 
-Podes contar conosco, Rufus!... -apressa-se em responder o 
general Tarquinius. -Estamos  cata de servio! 
-Muito bem!... -diz o outro e prossegue, encaminhando-se para 
uma porta que dava para os fundos do salo: -Segui-me! 
Ao transporem a porta, mal contm uma exclamao de espanto 
com o que se deparam: nos fundos do pequeno templo, sob uma 

4. Clmide, em latim. Manto que se prendia por um broche ao pescoo ou ao ombro 
direito. 
#
frgil e improvisada cobertura de enegrecidas e mofadas palhas de 
centeio, abrigavam-se algumas dezenas de leitos onde jaziam 
enfermos de todas as idades e vitimados pelas mais variadas formas 
de doenas, desde a terrvel lepra at os portadores da mais plena 
desnutrio, cujos corpos exangues deixavam  mostra os 
esqueletos, com riqueza de detalhes!... A grande maioria era de 
crianas, de velhos e de mulheres, embora houvesse, tambm, 
alguns homens, mormente soldados feridos em batalha e que eram 
relegados  prpria sorte, posto que agora se encontravam 
imprestveis e se tomavam um peso ao Imprio. 

-Eis a seara do Cristo!... -exclama Rufus e, com um largo gesto dos 
braos, apresenta aos novos amigos o dantesco quadro que se lhes 
descortinava. 
Caius e Drusilla Antnia entreolham-se, cheios de consternao. 
Nunca haviam suposto haver tanta misria e tanta aflio, ali 
mesmo, em derredor de sua luxuosssima villa, erigida em rutilantes 
mrmores e em finssimos granitos. Os altos muros com os quais 
haviam se cercado isolara-os de toda aquela misria! "Maior  o 
muro do orgulho!...", pensa Caius, de repente, envergonhando-se do 
egosmo absurdo em que vivera mergulhado at ento. "Sabia, sim, 
da extrema misria em que vivia o povo; apenas, nunca desejei 
enxerg-la!... At que Vs, Senhor, atravs da Vossa Excelsa 
Sabedoria, lanastes mo de Vosso instrumento mais eficaz -a dor, 
a Suprema Dor -e com ela me fustigastes a alma at desfiar-me, 
fibra a fibra, o corao, e me mostrastes, assim, o real significado da 
vida!...", e lgrimas pungentes invadem-lhe os olhos. Desesperado, 
busca os olhos da mulher amada. Os olhos dela tambm 
lacrimejavam. Abraam-se e, comovidamente, passam a percorrer o 
pequeno sanatrio improvisado. A cada leito, deparavam-se com 
um drama comovente. Rufus acompanhava-os, explicando a 
situao de cada um daqueles desvalidos da vida e que os olhavam 
agradecidos pela ateno que se lhes dispensavam. Que terrveis 

#
dramas se podiam ler naqueles olhos cheios de desesperana, de 
misria extrema e de descaso! 
-Damos-lhes mais ateno que outra coisa, domine! -diz o pregador 
cristo, cheio de ternura  voz. -Somos to pobres quanto eles, e 
quase nada podemos dar-lhes, a no ser carinho, remdios de ervas 
que coletamos nos campos e oraes!... Mas, temos a certeza de que 
Jesus est conosco, pois Lhe sentimos a inefvel presena sempre!... 
-exclama o valoroso seguidor de Cristo e prossegue, felicssimo, 
com os olhos brilhantes, como se estivesse a exibir o maior de seus 
tesouros: 
-Agora vinde a essa outra sala!... 

E, a seguir, passam a um outro compartimento que se erguia no 
fundo do terreno, logo aps a enfermaria improvisada. Ao 
adentrarem a pequena sala, Drusilla Antnia e Caius entreolham-se, 
estarrecidos, mas ao mesmo tempo maravilhados. Na pequena e 
pobrssima sala, deitados sobre catres de varas e recobertos por 
trapos, achava-se uma poro de bebs!... Algumas das criaturinhas 
emitiam leves vagidos e eram prontamente atendidas por quatro 
mulheres que, amorosamente, aprestavam-se a socorr-las; outros 
bebs dormiam um sono tranqilo e pareciam todos felizes. 
-De onde vm? -pergunta Caius. -Onde se acham seus pais? 
-De onde vm, general? -responde Rufus, com um sorriso triste. Das 
ruas, dos esgotos, das latrinae35 e do depsito de lixo!... Roma 
abandona apropria sorte suas crianas indesejveis, domine!... 
Quando as encontramos, trazemo-las para c, antes que os ces 
vadios ou os urubus venham devor-las ainda vivas! 
Drusilla Antnia sente-se zonzear ao ouvir as terrveis palavras de 
Rufus e se apoia em Caius. 
-Cus!... -exclama a matrona, recompondo-se. -Como podem esses 
pais desnaturados fazerem isso?! 

5 Latrinas, em latim. Roma foi a primeira cidade no mundo a construir um sistema de latrinas pblicas, com coleta de 
esgoto em dutos, alguns dos quais em funcionamento at os dias de hoje. 

#
-Normalmente, esses bebs so filhos de prostitutas que os parem, 
s vezes, na ma mesmo, deitando-os fora, em seguida, por no 
terem como cri-los!... Mal conseguem suprir-se a si mesmas, com a 
insignificncia que ganham, mercadejando o corpo, quanto mais, 
ainda, terem crianas a alimentar!... Oh, no sabeis, domina, o que  a 
misria extrema!... 
Drusilla Antnia e Caius passeiam os olhos pelo berrio. Havia uma 
profuso de bracinhos e de perninhas mo vendo-se no ar. Estranha 
ternura parece apoderar-se, concomitantemente, de ambos e se entreolham, 
como se adivinhassem, reciprocamente, os pensamentos: 
"Tereis muitos filhos!...", recordam-se, ento, do orculo de Vnus 
Genitrix6, muito tempo atrs, quando eles, ainda jovens, percorriam 
todos os templos, a consultar os augures, diante da impossibilidade 
que tinham de gerar filhos. Ali estava a resposta. 
Sem mais titubear, Drusilla Antnia toma uma daquelas criaturinhas 
e a chega, carinhosamente, ao colo. O beb, sentindo-lhe o calor do 
seio, abre-se num meigo sorriso, pejado de inocncia pura, numa 
boquinha desdentada. 
-V, Caius -exclama a matrona, altamente comovida com a reao 
do beb. Ele sorri para mim!... 
-Sim, meu amor -diz o general, tambm comovido. -Pressente-te o 
carinho que lhe ds! 
Drusilla Antnia aproxima seu rosto da pequenina face do beb e lhe 
sussurra doces palavras de enlevo. A criaturinha, tomada de sbito 
contentamento, pe-se a rir, como se lhe murmurassem as coisas 
mais engraadas deste mundo, contagiando a Caius e a Rufus que se 
pem, tambm, a rir. 
-Amor!... Amor, carssimo general!... -exclama o missionrio 
cristo. -S o amor para suprir tamanhas deficincias que trazem 
tais criaturas!... E o que nos recomendou o Cristo: 

6. Na mitologia latina, deusa que acompanhava a gravidez das mulheres 
#
"...assim como eu vos amei, que tambm vos ameis uns aos outros. "7 
Aqui temos pouqussimo po a lhes dar, mas o Divino Mestre 
supre-nos a falta do alimento material, com sua inesgotvel e 
abundante fonte de amor! 
Caius Petronius reflete, por alguns momentos, sobre as palavras do 
novo companheiro. Que coragem e que estranha fora aquela que 
fazia daqueles homens, aparentemente rudes e incultos, verdadeiros 
gigantes, diante da imensa tarefa que tinham sob sua responsabilidade!... 
Como  que conseguiam alimentar quase uma centena de 
pessoas ali internadas?... Intrigava-se com aquela questo. 
-Dize-me, Rufus -pergunta por fim -, como  que consegues 
alimentar e manter tanta gente assim?... De quem recebes ajuda? 
-DEle, general -diz o missionrio cristo, apontando para o alto e 
com um sorriso confiante nos lbios. -Recebemos a ajuda de Jesus 
que, conforme a promessa que nos fez, no nos deixaria rfos!... 

-Rufus... -insiste, incrdulo, o general -, no vais dizer-me que Ele 
faz chover po do cu!... 
-No da forma como imaginais, domine!... -diz o outro, rindo-se de 
como o outro se expressara. -No em forma de chuva!... -e, 
aproximando-se, toca-lhe, respeitosamente, no peito, com aponta do 
dedo indicador. -Manda-nos os pes dentro de coraes assim 
grandes e misericordiosos como o vosso, general! 
-Dizes, ento, que viveis da caridade?!... -espanta-se Caius Petronius. 
-Apenas disso?! 
-H muita gente do patriciado, como vs, domine, que tambm 
aceita Jesus como o salvador do mundo! -explica o outro. -No vos 
esqueais de que a dor visita a todos, sem exceo!... No fostes o 
nico a ter o privilgio de receber das mos do Mestre a 
misericrdia da cura!... Onde quer que campeiem a dor e o 
sofrimento ali estar Jesus!... Ou credes que aBondade Infinita teria 

8. Evangelho de S. Joo, 13.34 
#
preconceitos para com Seus filhos, selecionando-lhes a raa, a cor ou 
a crena?... No, general, Deus impera em todos os coraes; estes  
que muitas vezes no Lhe ouvem a amantssima voz, chamando-os, 
posto que se encontram obnubilados pelo orgulho ou pela frieza da 
descrena! 
Caius limita-se apenas a abaixar a cabea, comovido. A mensagem 
crist era deveras diferente de tudo o que ouvira antes. Rufus, percebendo 
quo fortemente suas palavras haviam tocado a alma do general, 
ape-lhe, amigavelmente, a mo ao ombro, sorri-lhe, cheio de 
doura, e prossegue: 
-Cristo veio, na verdade, para sacudir os coraes, general!... Disse-
nos que no nos trouxera a paz, mas a espada!8 
Num arroubo, Caius abraa-se ao novo amigo. Tinha o peito carregado 
de fortes emoes. E, tudo o que fizesse por aquele homem 
seria pouco. Ele no lhe salvara a vida, o bem mais precioso que 
algum pode possuir? 
O missionrio cristo retribui, longamente, o abrao sincero do novo 
amigo e, depois, encarando-o, firme, nos olhos, como se lhe adivinhasse 
os pensamentos, diz: 

-O dinheiro, meu amigo, s tem valor pelo bem que ele possa 
proporcionar!... Nada vale, alm disso!... Dizei-me, em s 
conscincia, general, que proveito tiraramos de uma montanha de 
ouro ou de prata, se a mantivssemos intocada, apenas para gudio 
e prazer de nossos olhos?... Nenhum, pois no passaria de um 
monte de metal inerte e nada mais nos proporcionaria, a no ser o 
nfimo prazer de ter o ouro, simplesmente, e s serviria para 
alimentar a nossa cupidez e o nosso orgulho, tornando-nos 
ridculos!... "Fortuna in onmi re dominatur; ea res cunctas celebrat 
obscuratque!... "9 Entretanto,  o que a maioria dos ricos faz, e vs 

9 "A fortuna domina em tudo; ela eleva e envilece todas as coisas!...", em latim. 

#
-mesmos sois a prova viva disso. reis feliz, com todo o vosso 
ouro, e fechado dentro de vosso palcio?... No, no tnheis o 
principal elemento para gozardes de vossa riqueza: a sade!... E vos 
pergunto: o que  mais importante em nossa vida? O dinheiro ou a 
sade?... 
-Rufus, sou um homem rico -diz Caius Petronius, olhando, fixamente, 
o rosto do amigo. E, com a alma repleta de emoo pelas 
palavras cheias de sabedoria que o outro lhe dissera, prossegue, 
com a voz embargada pela emoo: -Deixa-me ajudar-te nesta 
tarefa de minorar as dores destes desgraados! 
-Jesus j vos fez esse convite, general, no momento em que 
expulsou de vs o mal que vos corroa as entranhas! -diz o outro. Agora, 
s depende de vs!... A seara a est e, como vedes, h muito 

o que fazer!... E vossa esposa, pelo visto, j ps as mos  obra! 
Satisfeito, Caius observa que Drusilla Antonia ] se devotava a cuidar 
dos pequermchos, auxiliando aquelas incansveis e dedicadas 
obreiras no af de alimentar, limpar e ninar a pequenina multido 
de bebs que, como se podia, facilmente, perceber, no era de dar 
trguas s suas mes postias. 
Rindo e meneando a cabea, ao constatarem quo complicado para 
eles era o mister a que se devotavam aquelas cinco mulheres, Rufus 
e Caius saem, pois doravante competiria a ambos a tarefa de 
arranjar comida, remdios e roupas para, diariamente, suprirem 
aquela pequena multido de desvalidos, e a exigncia tornava-se 
cada vez mais crescente, uma vez que a misria e o abandono 
enxameavam por todo o lado... 
***** 
Susanna Procula aprontava-se em seu cubiculum. Velha aia auxiliava-
a a pentear-se, e a mocinha, vaidosa como sempre, no conseguia 
chegar ao apuro desejado. 
-Oh, Tilla -queixa-se a jovenzinha, altamente agastada com a 
criada -, hoje, particularmente, ests mais lerda do que nunca!... 

#
-Perdo, domina! -geme a velha aia. -Minhas mos no esto mais 
boas como antes! 
-Precisaria ter treinado outra para pentear-me!... -explode a 
mocinha, agastando-se. -Tu j no te agentas nem contigo 
mesma!... E, logo mais, Flavius Antoninas j dever estar aporta!... 
Vov convidou-o para a cena, e no desejo atrasar-me!... O que ele 
pensar de mim?... Oh, Tilla, ele  to lindo!... Forte!... 
-Mesmo, domina!... -exclama a velhota, abrindo um sorriso desdentado. 
-Quem sabe o senador Cornlius no o convidou para a 
cena, com o propsito de acertar o vosso noivado? 
-Que Vnus10 te oua, minha cara!... -exclama a jovenzinha, 
excitadssima. -Flavius  o homem dos sonhos de qualquer mocinha 
nbil! 
-Vosso av, o serenssimo senador Cornlius Helvetius clama por 
vs, domina!... -exclama uma escrava  porta do cubiculum. 
-Eleja chegou?... Eleja chegou?... -pergunta, afoita, Susanna para a 
escrava que se mantinha de joelhos  porta do quarto, em atitude 
servil. 
-Sim, domina, o convidado e vosso augusto av j se acham no 
tablinum -responde a escrava. 

-Oh, Tilla, que azar!... -exclama Susanna, mirando-se no espelho de 
prata polida. -Eleja chegou e eu estou um monstro!... Vs essa 
mecha que se desprende aqui?... Prende-a, depressa, vamos!... -e se 
voltando para a escrava que se mantinha de joelhos  porta, ordena: 
-E tu, Dalla, corre at l e espia se meu av se enfada com a minha 
demora! 
A escrava sai, e Susanna prossegue no af de pentear-se at a 
perfeio. 
-No sei por que no te do ao Circus Maximus, para alimento das 
feras de Nero!... -exclama a mocinha, altamente zangada e tomando 

10. Na mitologia latina, Vnus era a deusa da formosura, do amor e dos prazeres. 
#
a escova das trmulas mos da aia. -Deixa que eu mesma termino 
aqui!... Agora, d-me a Chlamyde, depressa, e o broche grande de 
marfim e de ouro, o que me deu vov!... Quero fazer-lhe uma surpresa, 
usando-o hoje! 
-Vosso av impacienta-se, domina! -diz, j de volta, a escrava, da 
porta do cubiculum. 
-E o jovem convidado, como est ele? -pergunta Susanna, enquanto 
a velha aia, afoitamente, abotoa-lhe, com dedos trmulos, o broche, 
prendendo-lhe, graciosamente, o rico manto de linho alvini-tente ao 
ombro direito. 
-Oh,  um homem lindssimo, domina!... -diz a escrava com um 
sorriso maroto aos lbios. -E est ricamente vestido com uma praetexta 
de linho branco e uma capa prpura aos ombros! 
-Peste!... -exclama Susanna, cheia de cime. -Se o olhares de novo, 
mando arrancar-te os olhos!... Agora, some-te daqui!... -e lhe atira a 
escova de cabelos. 
Uma ltima e meticulosa olhada no espelho de prata polida que a 
velhota, pacientemente, segurava-lhe, Susanna confere o resultado: 
estava bem; j poderia apresentar-se ao convidado. 
-Ests linda, domina!... -exclama a velha aia, sorrindo-lhe com as 
gengivas murchas. 
Susanna sequer escuta o que a aia lhe diz e sai em disparada. 
Quando assoma  porta do tablinum, o jovem Flavius tem um 
sobressalto e quase deixa cair a taa de mulsum que segurava  mo. 
A mocinha estava lindssima, e seu corao principia a bater 
descompassadamente. 


-Rivalizas com Vnus, minha cara!... -diz o rapaz, fazendo-lhe longa 
reverncia. 
-Oh, exageras, Flavius! -exclama ela, rindo-se e pondo  mostra os 
dentinhos redondos e brancos como porcelana. 
-Passemos ao triclinium -convida Cornlius, gentil, e com largo 
sorriso de satisfao a iluminar-lhe o vetusto rosto. 


#
"Como so lindos!...", pensa o velho senador, vendo-os caminharem 
de braos dados,  sua frente, pelo corredor que dava ao triclinium. 
"Juro, por Jpiter Capitolinus, uni-los em matrimnio, meus amores, 
antes de me ir!...", e sorri, satisfeitssimo. 
Depois de bem instalados em confortveis canapei, Cornlius ordena 
que sirvam a cena. A seguir, servos especialmente treinados para 
essa funo ajoelham-se ao lado de grandiosa mesa de pernas 
curtas, posta no centro do vasto triclinium e repleta de iguarias 
finssimas e, pacientemente, comeam a servir os trs comensais, 
passando-lhes s mos os alimentos prontos para deglutir, 
espetando-os  ponta de facas de prata ou, ainda, em pequenos 
pratos de ouro polido e lhes enchendo, amide, as taas com 

mulsum. 
-Tiveste notcias de teu av, Flavius! -pergunta Cornlius, procurando 
deixar o rapaz plenamente  vontade. 
-Escrevi-lhe uma missiva dias atrs, porm ainda no me deu resposta 
-diz o rapaz, sempre tranqilo, atencioso e cheio de bons 
modos. 
"Que diferena de Iulius Maximus!...", pensa Susanna, enquanto 
estudava, minuciosamente, o rapago, que comia um pedao de 
cordeiro assado, espetado na ponta de reluzente faca de prata. Com 
os olhos cheios de apaixonada curiosidade, percorre-lhe o 
avantajado corpo, recostado, elegantemente, no canapeum, que se 
colocava entre ela e o av. "Iulius est sempre irrequieto, mexendo-
se e  tremendamente grosseiro e mal-educado!..." 
-Quanto tempo ainda permanecers no exrcito? -pergunta 

Cornlius. 

-Como s tenho dezoito anos, deverei permanecer ainda por mais 
dois anos, senador -responde o rapaz, sempre com esmerada educao 
e bonomia no olhar. 

-Isso quer dizer que ainda ters de lutar nas guerras? -pergunta 
Susanna, cheia de preocupao. 

#
-Sim -reponde ele, encarando-a com os olhos melados de paixo e 
felicssimo porque ela lhe dirigia a palavra. E prossegue, cheio de 
animao: -Perteno s tropas comandadas pelo general Caius 
Petronius Tarquinius e, como regressamos de recente incurso s 
Glias, nosso regimento encontra-se em descanso. Entretanto, se 
houver necessidade de alguma interveno em qualquer ponto de 
nossas fronteiras, para l iremos, sempre com o intuito de 
restabelecer a paz. 
-A propsito, sabias que teu general encontrava-se muito doente? pergunta 
Cornlius. 
-Sim, sabia que meu comandante encontrava-se doente, posto que 
sou um de seus ordenanas e lhe fao companhia constante -explica 

o rapaz. -Sei que ele sofria bastante, mas nunca deixou transparecer 
fraqueza ou se queixou de qualquer coisa. Apenas, que lhe 
chamssemos o mdico, vez ou outra, e que vivia tomando 
remdios. Nada mais que isso. 
-Nunca foste visit-lo?... -pergunta Susanna. -O general e sua 
esposa, Drusilla Antonia, so fiis amigos de vov e sabamos que ele 
se encontrava gravemente enfermo. 
-Sim, fui visit-lo algumas vezes -diz o rapaz. -Mas, na ltima vez 
em que l estive, a esposa do general no permitiu que eu o visse. 
Alegou estar o esposo descansando, porm achei-a extremamente 
abatida e desconsolada. 
-Caius quase foi avistar-se com Hecate, meu caro!... -explica o 
senador. -Porm, no sei, precisamente, atravs de quais sortilgios 
conseguiu safar-se desta e se recupera a olhos vistos!... E me fez 
uma revelao perturbadora: tomou-se cristo! 
-Cristo?!... -exclamam, concomitantemente e espantadssimos, 
ambos os jovens. 
-Sim -continua Cornlius-, e Caius jurou-me que foi o Judeu 
Crucificado que o livrou da morte!... 
-Como se deu isso, senador? -pergunta o rapaz, ainda bastante 
espantado com a notcia. -E muito difcil para mim crer que o 
#
general tornou-se cristo, pois em sua tenda sempre havia uma ara 
em honra de Jupiter!... E o vi inmeras vezes sacrificar, 
devotadamente, a seu numen, antes e depois das batalhas!... 
-Drusilla Antnia disse-me, reservadamente, ainda ter dvidas 
sobre quem realmente curou Caius, pois, ao mesmo tempo em que 
tiveram contato com o sacerdote cristo, sacrificaram duas 
hecatombes a Jpiter Capitolinus... 
-Foi Jpiter Capitolinus, claro!... -exclama Susana. E, em sua 
ingenuidade juvenil, prossegue opinando, cheia de espanto: -Imaginem 
s!... Nosso Pai estava com tanta sede que bebeu o sangue de 
duzentos bois! 
-No sei, no, meus amores -diz Cornlius, pensativo. -Existem 
tantas coisas abaixo do cu... 
-E tu, Flavius, o que pensas sobre isso? -pergunta a mocinha, doida 
para ouvir a opinio do rapaz. 
-No sei, minha cara -responde ele, entre pensativo e ainda chocado 
pela notcia. -Conheo muito bem o general Petronius e me  
difcil acredit-lo cristo... 
-No no teriam enfeitiado, vov? -pergunta Susanna, encolhendo-
se no canapeum, de repente se lembrando das tantas coisas absurdas 
que diziam sobre os cristos. 
-Ora, Susanna! -exclama Cornlius, rindo-se da ingenuidade da 
neta. -Nada sei de concreto acerca da seita crist, entretanto algo 
posso asseverar-te: metade do que dizem sobre eles no passa de 
fantasia do imaginrio dessa gente!... Alm do mais, para algum 
que estivesse enfeitiado, Caius pareceu-me, surpreendentemente, 
muito bem! 
-E tu o que pensas, Flavius! -pergunta a mocinha, dirigindo-se ao 
jovem convidado. 
-Penso ser muito lgico tudo o que disse o senador Pisanus responde 
o rapaz. -A razo indica-nos que os sortilgios devam 
trazer malefcios e no benefcios como esse que recebeu o general 

#
Tarquinius... Se ele realmente se encontra curado de terrvel doena, 

isso lhe foi extremamente benfico! 
-Mas, isso por si s justificaria o abandono da crena em nossos 
imortais? -pergunta Susanna. 
-No nos compete julgar a atitude do general Tarquinius, Susanna observa, 
com gravidade, o velho senador. -Grandes provaes, 
como essa pela qual passou nosso querido Caius, so capazes de 
promover transformaes radicais em nosso carter e at mesmo em 
nossa personalidade!... No o culpo por isso, no!... Ele lutou, 
bravamente, contra Hecate e a venceu!... E se sente imensamente 
grato ao Ser que o salvou das gafas da morte, a ponto de se sujeitar 
a Ele de corpo e alma! 
-Mas, vov, e Drusilla Antnia?... -pergunta a jovem, sem capacidade 
ainda de entender quo complexas eram as intricadas tramas nas 
quais o corao das pessoas costumava envolver-se. -Custa-me 
aceitar que nossa amiga, to devota de Jpiter Capitolinus, esteja a 
bandear-se para a seita dos cristos!... Cansei-me de encontr-la, 
quase que diariamente, diante do Capitolium, quando ia sacrificar ao 
Grande Pai! 
-Coisas do amor, minha cara!... -exclama Cornlius. -Coisas do 
amor!... Tu sabes o quanto Drusilla Antnia  eternamente apaixonada 
pelo esposo!... Tenho a certeza de que ela o seguiria at s 
profundas do Avernum!... 
-Espero que no venham a desfazer-se da fortuna que possuem, 
como fazem os patricii que se convertem a essa estranha seita que 
prega a misria absoluta a seus adeptos!... -observa Flavius, rindo-
se. -Que o general se tenha convertido  f crist, posso at aceitar, 
mas, se doar tudo o que possui aos pobres e estropiados, passarei a 
duvidar de sua sanidade mental!... Quem  que poder ser feliz na 
extrema misria? 
-No me digam que fazem isso?!... -pergunta Susanna, espantadssima. 
-Que seita mais absurda!... 

#
-Sim, minha cara, eles fazem isso! -observa Cornlius. -Nesse ponto 
at posso concordar de que se utilizem de algum esconso sortilgio 
para ludibriarem os detentores de riquezas a ponto de faz-los 
doarem tudo o que possuem em favor das comunidades onde 
passam a residir! 

-Que horror, vov!... -exclama a jovenzinha. -Espero nunca me 
deparar com cristos!... E se me lanam um feitio? 
-No h nenhum perigo de que isso acontea, minha cara! -diz o 
rapaz, sorrindo para ela. -Primeiro, porque estarei sempre por 
perto, para proteg-la desses espertalhes e, depois, ser preciso 
que tu desejes estar entre eles! 
-Mesmo, Flavius?... -diz ela, enviando-lhe um olhar cheio de 
paixo. 
E ento, os dois jovens, esquecidos do resto do mundo, prenderam-
se os olhos uns nos outros, como se magnetizassem mutuamente. 
Cornlius, embevecido com o que presenciava, sentiu-se alegrar. 
Agora, tinha a absoluta certeza de que a neta apaixonava-se pelo 
garboso rapaz. Aliviado, emite fundo suspiro. "Acho que eu acabo 
de te expulsar de vez desta casa e de nossas vidas, calhorda!...", 
pensa ele, referindo-se ao odiado sobrinho Iulius Maximus, o terrvel 
pesadelo de sua sofrida existncia. "Quero ver se deitars tuas 
imundas patas em minha Susanninha!...". O velho senador encerra 
tal pensamento com um pleno sorriso de satisfao nos lbios e, 
levantando-se, sai muito discretamente, deixando os dois 
enamorados que, de to mergulhados no enlevo que fortemente os 
arrebatava, nem perceberam que ficavam sozinhos... 
-Vov deixou-nos a ss... -murmura Susanna, de repente quebrando 
o arrebatamento em que se encontravam. 
-E mesmo?... -pergunta ele, relutando em despregar os olhos 
daquele par de olhos cor de mel que tanto o encantavam. -Que 
tristeza!... Ento, a boa educao insiste em dizer-me que tambm 
me devo ir... 

#
-No desejas ser mal-educado nem uma s vez?... -diz ela, 
levantando-se de seu canapeum e lhe tomando, apaixonadamente, as 
mos. -Vem, levo-te ao viridarium, que a lua cheia deve estar 
linda!... 
-No sei se devo... -diz ele, retraindo-se. -Teu av confiou em 
mim... 


-Insanis, Flvie!...11 -observa ela, rindo-se. -No percebeste que meu 
av adora-te?... 
O plenilnio derramava uma luminescncia leitosa e opalescente 
sobre o viridarium que, sob a amena temperatura do alto vero, emanava 
um forte e olente bouquet de gernios e sempre-lustrosas, 
pejadas de florinhas multicores, mais as cataratas de hidranjas 
floridas que se derramavam das copas dos velhos rododendros. Os 
jovens, altamente envolvidos pelo ambiente de profusas luzes, 
formas e perfumes inebriantes, deixam-se levar pela paixo que j 
nascia avassaladora. 
-Acho que te amo, Susanna!... -diz o rapaz, altamente emocionado e, 
tomando a jovem aos braos fortes, aproxima-a de si. 
-Oh, Flavius, beija-me!... -diz ela, oferecendo-lhe a boca aflante. 
E, segue-se, ento, o primeiro e apaixonado beijo, que se emoldurava 
de to deslumbrante panorama!... Nascia, assim, o grande 
amor entre eles... Ou, quem sabe, no acabava de renascer ali, o 
potente fogo da paixo de duas almas que se reencontravam pelos 


esconsos e quase imperscrutveis meandros da reencarnao?... 

11. "-s um bobo, Flvio!...", em lalim 
#
Captulo VIII 
Terrvel tragdia 


Flavius Antoninus Rimaltus, com a efusiva permisso de Cornlius, 
passa a freqentar-lhe a casa, j na condio de noivo de sua neta. 
Susanna Procula no cabia em si de contentamento, pois, finalmente, 
aquietara-se o seu to conturbado corao. Agora, tinha a certeza 
absoluta de que era aquele homem a quem ela buscava, incessantemente, 
para compartilhar o resto de sua vida -o rapago 
amore-nado de Neapolis1 -e que, alm do mais, era neto de velho 
companheiro de seu av. Aqueles doces olhos marrom-profundos 
encantavam-na!... E no lhe saa da lembrana a imagem do rapaz, 
fitando-a, com tanto interesse, como se ela fosse algo muito raro ou 
por demais precioso. 
Perdida em to deleitosas reminiscncias, a jovem no se cansava de 
recordar o primeiro beijo apaixonado que haviam trocado sob o 
luar, no jardim. E um frmito de emoo e de prazer percorria-lhe o 
corpo, ao repassar na memria cada momento que antecedera o primeiro 
longo contato dos possantes braos, que a envolveram, to 
louca e apaixonadamente, como se fossem, de repente, esmag-la, 
entre aqueles fortes e proeminentes msculos, semelhantes s 
grossas razes de vetusto carvalho!... Oh, cus, parecia at que ia 
arrebentar de tanta emoo, enquanto ele lhe sussurrava juras de 
amor ao ouvido e lhe mordiscava, suavemente, o lbulo da orelha... 
-Tendes visita, domina! -diz-lhe a velha serva, tirando-a de mais de 
um de seus idlicos devaneios com seu amado. 

-Ahn!. De quem se trata, Tilla?-pergunta Susanna, altamente 
aborrecida pela interrupo da criada, que viera tir-la das fantasias 
amorosas com seu amado. 

1. Atual Npoles, ao Sul da Itlia. 
#
-Encontra-se  vossa espera, na exedra, o jovem Iulius Maximus, 
vosso augusto primo -responde a velha aia. 
Susanna tem um sobressalto e, sentindo-se perturbar pela inesperada 
visita que lhe fazia o primo, pergunta para a aia: 
-Disseste-lhe que eu estava? 
-Sic, domina -responde a velha. E prossegue, engolindo em seco: Fiz 
mal?... 
-Muito mal, sua galinha velha!... -responde Susanna, enfurecendo-
se. -Ainda te doarei ao Circus Maximus para gudio das feras, 
mesmo que sejas s ossos e pelancas!... 
-Oh, perdo, domina!... -diz a velha, arrojando-se aos ps da ama. 
-Pra de fazer dramas, sua doida! -exclama a jovem, agastando-se 
ainda mais com a atitude extrema da velha serva. -E vov, onde 
est? 
-O serenssimo senador Cornlius l, enquanto passeia pelo 
viridarium, domina. -diz a aia. 
-Anda, corre at vov e lhe dize que o idiota de meu primo est 
aqui e que no desejo avistar-me com ele a ss!... -ordena Susanna, 
com voz firme. 
A velha sai, arrastando os ps, cansada e arqueada pelo peso dos 
anos, e Susanna aguarda um pouco mais em seu cubiculum. No 
desejava, de modo algum, estar a ss com Iulius e ter de dar-lhe 
novas explicaes acerca de seu noivado com Flavius Antoninus. 
Havia algum tempo, o av dera uma festa aos amigos mais 
chegados, para anunciar-lhes, oficialmente, seu desejo de casar a 
neta e fizera questo de no convidar Iulius que, ao tomar 
conhecimento de que a eleita de seu corao pretendia casar-se com 
outro, enfurecera-se tanto que acabou por apanhar tremendo pifo 
numa taverna da Via Trentina e, quando retornou para casa naquela 
noite, descarregou toda a sua fria, apunhalando, impiedosa e 
repetidamente e at a morte, o pobre escravo que viera abrir-lhe a 
porta e reduzindo o corpo do pobre infeliz a uma massa 
sanguinolenta e disforme! 

#
Iulius no se conformava em perder as atenes de Susanna para 
outro pretendente e vivia correndo atrs da jovem e exigindo, 
insistentemente, que lhe desse explicaes e tentando reconquist-la 
com presentes e atravs de infrutferas tentativas de carreg-la para 
os passeios e divertimentos pblicos de que ela tanto gostava. 
Entretanto, Susanna negava-se, peremptoriamente, a sair com ele e 
at mesmo rejeitava os presentes cada vez mais caros e mais 
valiosos que ele lhe ofertava, fato que o tornava ainda mais 
exasperado e mais violento que o usual. Invariavelmente, deixava a 
casa de Cornlius, furiosssimo, a gritar improprios contra ambos av 
e neta-, e jurando vingana! Entretanto, acabava voltando, 
dando mostras de arrependimento e, uma vez mais rejeitado, 
repetia as odiosas e violentas cenas de cime. Tal procedimento se 
repetira por vrias vezes, e tanto Susanna quanto Cornlius j se 
encontravam cansados desses rompantes ridculos que Iulius vivia 
aprontando ali. 
Contudo, o rapaz era por demais persistente e, naquela manh, l 
estava ele de volta, segurando pequeno ba de marfim s mos. 
Como Susanna demorasse em receb-lo, enfurecia-se, grandemente, 
e caminhava, nervosamente, de um lado para outro. 
-Iulius... -diz Susanna da soleira da porta da exedra. -Ufa!... At que 
enfim vieste!... -exclamaele, bufando de enfado. 
-Onde  que estavas que me fizeste esperar tanto?... -pergunta ele, 
aproximando-se e a beijando  testa. 
-Ablua-me, como fao todas as manhs... -diz ela, sem alterar a 
voz, porm sem deixar de olh-lo, firme, nos olhos. 
O rapaz ia dizer-lhe que ela no o respeitava mais, que agora vivia 
humilhando-o; entretanto, percebendo-lhe o tom rgido do olhar, 
con-teve-se. Em seguida, estende-lhe o bauzinho de marfim e diz: 

-Aceita-o!... Trago-te de corao!... 
Susanna olha para o mimo que ele lhe apresentava com tanta insistncia. 
Iulius estava visivelmente alterado e tinha as mos trmulas. 
Por instantes, a mocinha sentiu pena dele: tinham sido to amigos; 

#
ele sempre lhe fizera companhia e a tratara com certo respeito at. 
Porm, agora descobria que no o amava; no pelo modo como ele a 
desejava. Gostava de Iulius, mas no queria t-lo por esposo. No, 
decididamente, no poderia aceitar aquele presente!... Se o aceitasse, 

o rapaz, certamente, iria pressupor que lhe estivesse dando alguma 
esperana, e isso era o que Susanna, decididamente, no desejava. 
-No devo, Iulius... -diz ela, mortificando-se por ter de fazer aquilo 
com o primo. Entretanto, era necessrio: no poderia dar-lhe a 
mnima esperana. E prossegue, olhando-o nos olhos: -Tu sabes 
que no posso... 
O rapaz no desiste e continua com as mos estendidas, oferecendo-
lhe, insistentemente, o pequeno ba de marfim. Arfava muito e 
tinha os olhos injetados de sangue pelo excesso de ansiedade que o 
consumia. 
-Sinto muito, Iulius... -diz Susanna, baixando os olhos. 
O jovem morde o canto dos lbios, cheio de raiva pela contrariedade 
que no estava habituado a receber, pois sempre lhe haviam 
feito as mnimas vontades e, num timo, explode, arremessando o 
bau-zinho ao cho. A rica pea de lavor delicadssimo despedaa-se 
em mil fragmentos e revela seu contedo: finssimo bracelete em 
forma de uma serpente, confeccionada em ouro macio, tauxiado de 
coral e bano, a imitar as cores de uma vbora. Com o impacto, a 
pequena vpera saltou do meio dos estilhaos e exibiu seu brilho 
ofuscante sobre o ladrilho de granito negro; seus dois faiscantes 
olhinhos vermelhos de rubis cintilaram, vividamente, abaixo das 
carenas -verdadeira obra de arte que enganaria qualquer um, to 
semelhante era a uma serpente viva! 
-Queres dizer ento que teu negcio com o sujeitinho  real?... -grita 
ele, estentreo, dando evaso  fria que mal contivera at ento. 
Susanna pe-se a soluar baixinho e tenta fugir para seu cubiculum. 
Iulius, entretanto, ligeiro como um felino, salta sobre elae a segura, 
fortemente, por um dos punhos. 
#
-Deixa-me ir, Iulius!... -suplica a jovem, tentando livrar-se da 

possante mo que a segurava forte. -Tu me machucas!... 
-No, sem antes me dizeres por que  que te bandeaste para os 
braos daquele imbecil!... -grita o rapaz, s raias da fria extrema. Que 
 que ele tem mais que eu?... Vamos, dize-me!... 
-Apenas que no te amo, Iulius!... -exclama a mocinha entre 
lgrimas. -Como poderia casar-me contigo, se no te amo?... 
-E queres dizer ento que amas aquele miservel?... -pergunta o 
rapaz, aos gritos. 
-Sim, amo-o!... -diz Susanna. E se enchendo de fora e coragem, 
arrosta-o, firme, e lhe brada a plenos pulmes: -Amo-o como  
minha prpria vida, e a ti, da forma como me tratas, Iulius, passo, 
doravante, a odiar-te!... 
Aquilo fora demais para o rapaz. Encara-a, com um par de olhos 
horrveis, transtornados pelo dio e, sem piedade, desfere violento 
soco ao rosto de Susanna, que tomba sem sentidos. Os criados, alertados 
pelos gritos de ambos, acorrem, afoitos, a socorrerem a 
donzela que jazia desmaiada sobre o piso da exedra. Cornlius, 
avisado por Tilla, tambm chegava  porta e, deparando-se com a 
cena, e vendo o sobrinho ali, logo percebeu o que se passava. 
-Que fizeste a ela, desgraado? -grita o velho senador, adentrando 
a sala e, brandindo, ameaadoramente, a bengala de que se utilizava 
para caminhar, arroja-se sobre Iulius, tentando dar-lhe violenta bastonada 
ao rosto. 
O rapaz, ligeiro como uma cobra, apanha o punhal que trazia preso 
 cintura e, com hbil e certeiro golpe, acerta Cornlius ao peito. O 
velho senador sente como se um ferro em brasa lhe rasgasse o 
corao e leva, instintivamente, a mo ao ferimento. Imensa mancha 
brota-lhe do peito, tingindo-lhe de rubro a l alvinitente da toga. 
Sente a vista escurecer, zonzeia e ainda consegue balbuciar, antes de 
tombar, pesadamente, sobre o granito polido: 
-Maldito demnio !... 

#
-Maldito s tu!... -grita Iulius, fora de si e ainda segurando  mo o 
punhal ensangentado. -No fosses tu, e Susanna ter-se-ia casado 
comigo!... Mas, vingo-me!... Morre, desgraado, j que a doena 
demora a matar-te!... 

Susanna no assistira  terrvel cena. Encontrava-se ainda sem sentidos, 
e os escravos tentavam reanim-la a qualquer custo. Nem 
nada puderam fazer para evitar o assassinato de seu amo, posto que 
tudo ocorrera to rpido, e o pobre mordomo, ao correr para prestar 
auxlio a seu senhor, que se encontrava cado e se esvaindo em 
sangue, recebera de Iulius,  cabea, tremendo pontap que perdera 
os sentidos instantaneamente. Os demais escravos e servos que se 
achavam espalhados pela propriedade acorreram, ao ouvirem os 
gritos de socorro que vinham de dentro da casa, mas eram 
covardemente assassinados pelo rapaz que, abrindo caminho aos 
trancos, pontaps e violentas punhaladas, conseguiu chegar ao seu 
carro e fugir em disparada. 
O desespero toma conta dos servidores da manso de Cornlius 
Helvetius Pisanus. No sabiam o que fazer, pois seu amo estava 
morto, no meio de uma poa de sangue; a jovem senhora, sem 
sentidos, com imenso hematoma ao rosto, j grandemente inchado, 
e o mordomo, tambm desacordado. Depois de algum tempo, a 
velha Tilla e outras criadas fizeram com que o mordomo recobrasse 
os sentidos, dando-lhe a cheirar uma pedra de resina alcanforada. O 
homem sentiu-se desesperar ao abrir os olhos: mais por medo de 
que o assassino ainda se encontrasse por ali. Tranqilizado sobre a 
fuga do rapaz, ordena as idias: 
-Rpido, levem a domina para seu cubiculum e tentem reanim-la, 
enquanto tu, Cassius, vai a cavalo at a residncia do mdico e o 
traze aqui, sem delongas! 
Depois, olhando para o corpo do velho senador com os olhos mareados 
de pranto, diz, cheio de tristeza: 
-Recolhamos o corpo de nosso amado senhor!... Por ele, nada mais 
h a fazer!... 

#
As criadas e escravas rodeiam o corpo de Cornlius e, apanhando 
um lenol de linho, alam-no e. em pequena procisso e cantando 
pungente nnia, carregam-no a seu antigo cubiculum. Iam lav-lo e 
prepar-lo para as exquias. 

Debalde as servas tentaram reanimar a jovem Susanna. A moa 
recebera, covardemente, ao rosto, tremendo soco, desferido pelo 
possante brao de Iulius, e perdera, completamente, os sentidos. Sua 
linda face encontrava-se grandemente desfigurada: o lado direito 
estava totalmente inchado, incluindo o olho e os lbios que se 
mantinham intumescidos e roxo-enegrecidos. 
Quando o mdico chegou, espantou-se com a tragdia, pois era 
muito amigo de Cornlius. Constatou que o velho senador fora, de 
fato, cruelmente assassinado, e que a sua neta encontrava-se em estado 
delicadssimo, pois a pancada recebida, possivelmente, 
houvera lhe afetado tambm o crebro, da a demora de a moa 
recobrar os sentidos. Utilizando-se dos parcos conhecimentos da 
incipiente medicina da poca, propinou-lhe uma tisana e 
compressas sobre os ferimentos da face, mas, de antemo, j 
sabendo que pouco poderia proporcionar  pobre mocinha. 
-Enviaste mensageiros aos parentes e amigos? -pergunta o mdico 
ao mordomo. 
-Sim, sbio Tacitus -responde, humildemente, o velho servial -, j 
despachei mensageiros a avisarem os amigos mais chegados e 
tambm ao jovem Flavius Antoninus, o noivo de nossa querida 
domina... 

Depois de duas horas, chega o rapaz, trmulo e plido, ao constatar 
a real gravidade dos fatos. 
-Meu amor!... Que fizeram contigo?... -grita ele ao adentrar o 
cubiculum e se deparando com o estado lastimvel em que encontrava 
a mulher amada. 
Sentindo como se o mundo casse sobre ele, ajoelha-se ao lado do 
leito e toma, suave e delicadamente, as plidas mos de Susanna 
Procula e, levando-as aos lbios, beija-as repetidas vezes. O pranto 

#
descia-lhe, abundante, dos olhos, ensopando as nveas mozinhas 
da moa que permanecia completamente alheia a tudo que a 
rodeava. 
-Oh, pelos imortais!.... Susanna, desperta, meu amor!... -sussurralhe 
ele aos ouvidos, com as palavras molhadas pelo pranto. -Que te 
fez aquele miservel?... Por Hecate Infernal, juro-te, minha amada, 
que te vingarei!... Oh, que dor!... 

Por longo tempo, Flavius permanece ao lado de sua amada, tentando 
reanim-la, massageando-lhe as mos e lhe sussurrando palavras 
encorajadoras ao ouvido. Tacitus, o mdico, sentado a um 
lado, apenas observava a triste cena. Por fim, decide-se a interferir. 
-Nobre Flavius -diz o facultativo -, tudo o que fazes  vlido, 
entretanto nossa querida Susanna no pode ouvir-te. Melhor agora  
deix-la repousar. J lhe estamos ministrando os medicamentos e 
lhe apondo compressas de hamamlis virginiana ao rosto e cremos 
que, em pouco tempo, o inchao desaparecer. Tem pacincia e 
confia! 
Relutantemente, o rapaz levanta-se e olha, demoradamente, para a 
figura pattica de sua amada que jazia inerte sobre a algidez dos 
lenis. O pranto aumenta, e ele  violentamente sacudido pelos 
soluos. Depois, sua mo crispa-se sobre o cabo do punhal que 
trazia preso  cintura. 
-Corro atrs do verme que ousou ferir-te, meu amor!... -diz ele, 
como se soprasse as palavras que lhe saam ensopadas de pranto. E, 
com as feies contradas em violento rictus de dor, prossegue: Corro 
at o covil onde, certamente, entocou-se o covarde e te juro, 
meu amor: dar-te-ei de presente as orelhas daquele maldito! -e sai, 
abruptamente, porta afora. 
A noite cara morna e pejada de estrelas, num cu azul-cobalto. No 
imenso salo do triclinium, velhos e fiis amigos velavam, pesarosamente, 
o corpo de Cornlius Helvetius Pisanus, covardemente 
assassinado pelo sobrinho. Sentados a um canto e tremendamente 

#
tristes pelo infausto acontecimento que vitimara o to querido 
amigo, Caius e Drusilla Antnia conversavam baixinho. 
-Triste fim teve nosso querido Cornelius!... -exclama a matrona, 
entre lgrimas de tristeza. -Tive-o sempre  conta de um irmo!... 
Dava-me conselhos e proteo, quando tu te ausentavas pelas 
longas campanhas, meu querido!... E agora?... Que ser de mim?... 
-Cornlius sempre menosprezou o bandido do sobrinho!... -exclama 
Caius, cheio de indignao. -Eu sabia que, cedo ou tarde, aquele 
demnio iria aprontar algo assim to grave!... No aceitou o fato de 
ser preterido por Susanna e procurou vingar-se da forma mais vil e 
abjeta!... 

-E em que estado lastimvel deixou a pobrezinha!... -observa 
Drusilla Antnia. -Se o que nos disse Tacitus realmente se efetivar, 
melhor seria que ela tambm se juntasse ao av!... 
-Drusilla!... -exclama Caius, admoestando-a pelas duras palavras. Que 
dizes?!... No tendes f?... 
-Oh, desculpa-me, meu amor!... -diz a matrona, abraando-se ao 
marido. -Mas,  que, pelo estado em que a jovenzinha encontra-se, 
dificilmente creio que recobrar a normalidade. A pancada que 
aquele monstro deu-lhe  cabea foi forte demais para ela. Deve ter-
lhe afetado seriamente os miolos! 
-Sabes que, a partir de agora, somos os responsveis por ela, no? diz 
o general. -Compete-nos cuidar para que recobre a sade o 
mais depressa possvel. 
-Sim -concorda Drusilla Antnia. -E como faremos? -Aps os 
funerais de Cornlius, transport-la-emos para nossa 
casa e, sob os cuidados de Rufus, garanto-te que, em pouqussimo 
tempo, t-la-emos, novamente, s e salva!... -diz o general, com os 
olhos brilhantes. 
-Crs, realmente, nisso? -pergunta a matrona. 
-Se Jesus curou-me, certamente curar, tambm, a que, doravante, 
passa a ser a nossa filha! -exclama ele, cheio de esperanas. 

#
A noite avanava lentamente, sacudida pelos lancinantes gritos e 
pungentes lamentaes das carpideiras que se arrebentavam em lamrias, 
diante do defunto que fora colocado sobre uma essa coberta 
com panos de linho branco. Cornlius guardara, s cerceas feies, 
as ltimas impresses que tivera neste mundo, amalgamadas num 
esgar de horror e dio -sentimentos estranhamente colocados 
juntos, numa mesma expresso, que lhe deixavam transparecer a 
sensao altamente confrangedora pela qual passara em seus 
terrveis e derradeiros momentos de vida. Roma acabava de perder 
um de seus grandes baluartes pelas vis mos de um infame 
assassino... 

Assim que cometera seu tresloucado gesto, assassinando fria e barbaramente 
o tio, de ter atacado, gravemente, Susanna e, por fim, 
apunhalado e ferido mortalmente uma poro de escravos e criados 
que tentavam interpor-se  sua passagem, impedindo-lhe a fuga, 
Iulius Maximus deixara a manso de Cornlius e, conduzindo seu 
carro como um possesso pelas esburacadas mas dos miserveis 
subrbios da cidade e pondo os pobres transeuntes em fuga 
desesperada para dar-lhe passagem, chegara  sua manso e se 
arrojara sobre um canapeum no triclinium. Aos gritos, chamara pelo 
mordomo e pedira vinho. Somente depois de engolir, sofregamente, 
algumas taas do reconfortante lquido,  que as idias principiaram 
a voltar-lhe ao normal e se dera conta, ento, da enormidade da 
tragdia que provocara. Ainda bastante trmulo pela forte descarga 
emocional que sofrera, o rapaz, de repente, sente medo. E se 
viessem ca-lo ali?... Caius Petronius Tarquinius era amicssimo do 
tio, e o miservel -o noivo de Susanna -servia como ordenana do 
general, fato que poderia uni-los numarevanche!... Estarrecido, 
Iulius constatou que, se permanecesse em sua casa, correria risco de 
vida. Precisava fugir!... Mas, fugir para onde?... No possua 
nenhuma propriedade em outro lugar. Apesar da imensa fortuna de 
que era detentor, estava ela totalmente aplicada em Roma e, se 
sasse s pressas, teria de deixar tudo para trs. No, 

#
decididamente, no poderia ir para muito longe da cidade. De 
repente, sbita idia clareia-lhe a mente: Nero!... E, satisfeito, d com 
aponta dos dedos  testa. Um sorriso de satisfao enche-lhe, 
plenamente, os lbios. Sim!... O imperador no era seu amigo 
pessoal?... Dar-lhe-ia proteo, com certeza!... E quem se atreveria a 
desafiar Nero!... S se fosse doido!... Ligeiro, ordena ao mordomo 
que lhe amimasse algumas peas de roupas e sai, sem dar a mnima 
explicao sobre o que faria, pois sempre agira assim. A tarde j 
principiava a cair, quando ele toma o carro e sai em disparada ramo 
ao Palatino, onde se localizava o palcio imperial. 

-Dizeis, ento, nobilssimo Iulius Maximus, que destes cabo daquele 
velho infame? -pergunta Nero, altamente interessado e com o brao 
em tomo do pescoo do jovem, enquanto passeavam a ss por 
exuberante alia de um dos jardins do pao imperial. -Oh, que adorvel 
notcia trazeis-nos esta tarde, carssimo amigo!... Que mais um 
prncipe como ns poderia desejar no dia de hoje?... 
-Sim, Majestade -diz o rapaz, inchado de orgulho pela particular 
deferncia que lhe despendia o soberano de Roma-, tive de mat-lo, 
pois opunha-se ao meu relacionamento com minha prima! 
-Oh, sois por demais corajoso!... -exclamaNero, efusivamente. E, 
como era dado a mexericos, prossegue, procurando inteirar-se mais 
do assunto: -Dizei-nos, nobre Iulius, matastes tambm a moa? 
-No, Majestade -responde o rapaz -, apenas dei-lhe uma bem 
dada surra, para lembrar-lhe a quem  que deveria amar!... 
-Ha! Ha! Ha! Ha!...-explode o imperador, numa gargalhada.-Sois 
deveras excelente companhia, carssimo jovem!... E, considerai-vos 
nosso hspede e nosso protegido e ai daquele que ousar tocar em 
um nico fio de vossos cabelos!... Aqui tereis a proteo da fiel 
guarda pretoriana, escolhida a dedo por ns, e duvidamos de que 
algum se atreva a desafi-la! 
-Sou-vos imensamente grato, Majestade -diz o rapaz, ajoe-lhandose 
e beijando a fmbria da toga do imperador. 

#
-Oh, fizestes-nos um grande favor, nobilssimo Iulius Maximus!... exclama 
Nero, tomando-o pela mo e o fazendo levantar-se. -Ns, 
simplesmente, odivamos o senador Cornlius Helvetius Pisanus, e 
vs o matastes para ns!... -Que felicidade!... Pena que destes cabo 
de um deles, apenas, pois nosso real desejo era liquidar o senado 
todo!... No desejais fazer isso por ns, no?... -e explode numa 
gargalhada: -Ha! Ha! Ha! Ha!... 
-Certamente, brincais, Majestade!... 
-No!... No!... -exclama Nero, agora fazendo-se srio. E prossegue, 
em tom rancoroso: -Ns e o senado no temos andado muito bem, 
ultimamente!... Se dependesse de nossa vontade, exclusivamente, 
mat-los-amos todos, livrando o Imprio dessa casta de miserveis 
corruptos!... E doaramos as provncias todas, sem exceo, juntamente 
com os exrcitos e seus odientos generais, aos nobres cavaleiros 
romanos que fossem leais ao trono, como vs!... -e abraa o 
jovem, efusivamente. 
-Oh, obrigado, domine!... -diz o rapaz, altamente emocionado. E 
emite profundo suspiro. Agora sabia que estava a salvo sob a 
proteo de Nero. Quem teria a mo suficientemente longa para 
alcan-lo ali? 

***** 

Fremindo de dio, o jovem Flavius Antoninus estaciona sua biga 
diante da manso de Iulius Mximas. O mordomo, solcito, corre at 
ele. 
-Sede bem-vindo, domine!... -exclama o homem, pondo-se de 
joelhos e lhe beijando, respeitosamente, a mo. 
-Depressa, conduze-me at o teu amo!... -diz Flavius, rispidamente. 
-Nosso senhor no se encontra em casa, domine!... -responde o 
mordomo. -Saiu h poucas horas, muito apressado e carregando 
uma bagagem... 

#
-Ah, fugiu, ento, o maldito!... -explode o rapaz, crispando a palma 
da mo sobre o punho da espada que trazia  cinta. -Dize-me, 
homem, sabes para onde ele foi? 
-No, domine!... -responde o mordomo. -Nosso amo nunca nos diz 
aonde vai! 
Miservel!... -exclama o rapaz, rilhando os dentes. -Mas, eu te 
encontrarei, mesmo que seja no Avernum!.. 2 
Ligeiro, o rapaz salta sobre o carro e, aos berros, incita a fogosa 
parelha de garbosos corcis brancos, que dispara de imediato. Enquanto 
conduzia, cleremente, o carro, pelas esburacadas vielas dos 
pobres arrabaldes de Roma, Flavius cogitava sobre o paradeiro de 
seu desafeto. No seria difcil descobrir onde  que se entocara o 
miservel. De sbito, freia, bruscamente, a biga. Um pensamento 
desalentador perpassara-lhe a cabea: e se o maldito j tivesse se 
escondido sob as asas do imperador?... Escondido no pao imperial, 
seria quase impossvel atingi-lo!... Sente-se desolar. Ia retomar a 
marcha de volta para casa, porm se lembra de um conhecido, 
antigo camarada do exrcito, que ora servia na guarda pretoriana de 
Nero -a guarda de elite do imperador -, escolhida a dedo por ele 
mesmo. Lucius Nigrus, o tal rapaz, era filho de distinta famlia de 
patricii, e ele, Flavius, sabia onde moravam. Resoluto, faz meia volta 
e se dirige para a residncia do amigo. Tinha a certeza de que, se 
ainda estivesse servindo na guarda, certamente teria acesso a todos 
os recantos do palcio imperial. 

Hora e meia depois, estacionava o carro diante de formosa villa ao 
sop do Aventino e teve sorte: Lucius encontrava-se ali e o recebe de 
braos abertos: 
-Quanta honra receber-te em minha casa, nobre Flavius!... -exclama 

o rapaz, abraando, efusivamente, o amigo a quem no via fazia j 
algum tempo. 
2. Inferno, em latim. 
#
-A honra  minha, meu caro Lucius! -exclama o recm-chegado, 
correspondendo ao abrao do amigo. 
-Quanto tempo!... -diz Lucius, conduzindo o outro para o interior 
da casa. 
-Sim, faz j quase um ano que no nos vemos!... -concorda Flavius. 
Refestelados em confortveis canapei, no peristylium, principiam 
a conversar: 
-Mas, dize-me a que viestes!... -pergunta Lucius. -Sei que no foi 
somente para ver-me!... Noto que ests um tanto nervoso e abatido! 
-Agora vejo como o exrcito fez-nos bem, pois alm de transformar-
nos em excelentes guerreiros, aguou-nos o esprito, 
tornando-nos bastante perspicazes!... -diz Flavius, apertando forte o 
brao do amigo. -Acertaste!... Encontro-me deveras atormentado 
pela ocorrncia de gravssimos fatos em minha vida... -e passa a 
narrar, minuciosamente, ao antigo companheiro de armas a tragdia 
ocorrida no dia anterior. 


-O que me dizes  terrvel, meu amigo!...  observa Lucius, muito 
entristecido. E prossegue, cheio de amargura: -No sabes o quanto 
me di servir na tropa de elite daquele doido!... E quero que saibas 
que fao isso s instncias de papai, que  grande fornecedor de 
provises para o exrcito e depende da benevolncia do imperador 
para continuar nesse negcio que, como deves imaginar,  muito 
lucrativo!... No fora isso, eu no ficaria nem mais um s dia a ter de 
ver as fuas daquele depravado ridculo!... Mas, fica sossegado, que 
tenho acesso a todas as dependncias do pao imperial e, se o 
miservel que assassinou, covardemente, o senador Pisanus e te 
feriu, gravemente, a noiva l se encontrar entocado, eu descobrirei! 
De volta para casa, Flavius remoa-se de dio contra seu desafeto. Se 
Lucius Nigrus realmente o encontrasse, no pao imperial, sob a 
custdia de Nero, no lhes seria difcil idearem um plano e atrarem 


o miservel para uma armadilha e o fazerem pagar pelos crimes. 
Seria perda de tempo denunci-lo aos magistrados, pois estes no 
passavam de uma scia de bandidos, nomeados pelo prprio 
#
imperador!... Que justia poderia esperar daquele covil de lobos, 
sempre sanhudos,  espera de uma presa?... Onde  que andava o 
mnus pblico, que tanto engrandecera a Roma de antanho, 
proporcionando a Justia e o Direito a todos os cidados, 
independentemente da classe social a que pertenciam?... Outros 
tempos eram aqueles... Agora, quem realmente desejasse justia, era 
preciso faz-la com as prprias mos! 
Em casa, Flavius lembra a situao em que se encontrava sua amada 
Susanna, e as lgrimas vm-lhe aos olhos. Que tragdia!... Ela sequer 
sabia da morte do av!... Nem tivera condio de assistir-lhe aos 
funerais!... Quando acordasse do coma -se  que acordaria! -, 
sofreria, imensamente, a perda do av aqum tanto amava!... "Ah, 
Iulius Maximus, miservel covarde!...", pensa o rapaz, esmurrando, 
violentamente, a parede de seu cubiculum. "Tu sentirs o peso de 
minha mo!...", e os soluos sacodem-no, insistentemente. 

Terminadas as exquias de Cornlius, e aps lhe haverem sepultado 

o corpo no magnfico jardim de sua manso, Caius e Drusilla Antnia 
encarregaram-se de transportar Susanna -que ainda permanecia 
inconsciente -para a casa deles, pois, assim, teriam condio de 
prestar assistncia intensa  pobre enferma. Drusilla Antnia, qual 
me desvelada, no deixava a cabeceira da jovenzinha que, apesar 
dos intensos cuidados que lhe dispensava o mdico Sempronius, nenhum 
resultado positivo demonstrava. 
Fazia j uma semana que a tragdia acontecera e Susanna no dava 
nenhuma mostra de retornar  razo. Caius e Drusilla Antnia, ento, 
resolveram apelar aos prstimos do bom Rufus e, como haviam se 
afastado, temporariamente, das atividades que desenvolviam ao 
lado do missionrio cristo, na assistncia aos doentes e aos rfos, 
surpreendidos que foram pela terrvel tragdia que vitimara os 
amigos Cornlius e Susanna, ora retomavam contato com os amigos 
do templo cristo e solicitavam auxlio para a doente. 
Pouco tempo depois, Rufus assomava  porta do luxuoso aposento 
onde a jovem patrcia jazia quase sem vida, com as feies 
#
totalmente desfiguradas pela inclemente pancada que lhe desferira 

o tresloucado primo. O missionrio cristo olha, demoradamente, 
para a jovenzinha e, condoidamente, levanta as mos ao alto e 
brada, com a voz carregada de forte emoo: 
-Oh, sublime Mestre Jesus!... Dignai-vos a olhar para as misrias 
deste mundo cruel!... Vede, Senhor, o que a maldade dos homens 
fez a esta criana!... Derramai sobre ela a Vossa Luz!... Devolvei-lhe 
a sade, restitu-lhe a razo! -e estende as mos sobre o rosto de 
Susanna que, ao leve toque da ponta dos dedos de Rufus, emite leve 
gemido e se agita no leito. 
Drusilla Antnia e Caius entreolham-se, maravilhados. Era a Fora 
do Amor Crstico manifestando-se ali, em seu lar, pela segunda vez. 
O missionrio cristo continua a estender as mos sobre a jovem 
que, paulatinamente, foi readquirindo as cores habituais e, ao longo 
de pouqussimos minutos, abre os olhos e os corre, muito 
espantada, em derredor. 
-Drusilla!... Caius!... -exclama ela, j retomando a completa lucidez. 
-Que fao aqui em vossa casa?... Quem so essas pessoas?... 
-Oh, meu bem!...-diz Drusilla Antonia, abraando-a carinhosamente. 
-E uma longa histria que te contarei em seguida!... -e, beijando-a, 
ternamente,  testa, prossegue: -Por ora,  bom que descanses um 
pouco mais!... 
Sentindo muito sono, Susanna no reluta e se deixa levar pela doce 
tranqilidade que dela se apodera. Em pouqussimo tempo, 
ressonava em paz como se jamais houvesse sofrido a terrvel 
agresso. 
-Deixem-na dormir, por ora -observa Rufus, serenamente, em voz 
baixa. -E, quando despertar, dem-lhe de comer. Sobre os infaustos 
acontecimentos, contem-lhe aos poucos. A pobrezinha j sofreu 
demais... -e sai depressa, sem esperar pelos agradecimentos efusivos 
que, certamente, adviriam. 
E, enquanto Susanna dormia, Caius e Drusilla Antonia observavam, 
estarrecidos, que o terrvel hematoma que tomava todo o lado 


#
direito do rosto da pobrezinha desfazia-se como por encanto, dando 
lugar  delicada pele que o rostinho possua antes da agresso. 
-Ainda tens alguma dvida se foi Jpiter Capitolinus ou Jesus que 
me devolveu a vida, minha cara?... -pergunta Caius, olhando nos 
olhos de sua mulher, em tom de brincadeira. 
-Nenhuma dvida, meu amor!... -responde ela, tomando as mos 
do marido. E, abrindo um terno sorriso, repete: -Nenhuma 
dvida... 
Agora, s restava darem  pobrezinha a triste notcia da tragdia 
que vitimaro adorado av!... Mas, s o fariam, assim que ela 
estivesse mais fortalecida. Ela era jovem e, certamente, suportaria 
mais aquele terrvel golpe que lhe dava a vida, to precocemente. 
Porm, eles estariam ali, ao lado dela, cobrindo-a de carinho e de 
ateno. O amor no era capaz de suprir todas as deficincias?... 
O dia avanava, e ambos saem, p ante p, felicssimos. Na soleira 
da porta, voltam-se e olham para a jovenzinha que dormia 
tranqilamente. Como haviam sonhado ter uma filha!... Agora 
tinham uma!... Que mais lhes faltaria para coroar a felicidade? 

Captulo IX 
Roma em chamas 


Depois que deixara a casa de Lucius Nigrus, Flavius sentia-se um 
pouco mais aliviado do terrvel incndio que lhe devastava o peito, 
pois, com a ajuda do amigo, vislumbrava alguma possibilidade de 
deitar as mos no miservel que lhe destrura os sonhos de casar-se 
e de ter uma vida feliz e aprazvel, ao lado da eleita de seu corao. 
Agora, conduzia seu carro com menos violncia pelas melas dos 
miserveis arrabaldes, em direo da villa do general Tarquinius. 

#
Sabia que haviam transportado Susanna para l, a fim de lhe 
dispensarem melhor tratamento. Caius e Drusilla Antnia eram 
pessoas altamente confiveis e, doravante, seriam os pais adotivos 
de sua noiva. A lembrana da mulher amada, seu peito freme de 
emoo. Como era tocante v-la com o rosto todo desfigurado, 
vtima da brutalidade daquele desgraado !... Ah, maldito co 
infernal!... No quisera aceitar a derrota e se vingara da forma mais 
vil e abjeta, assassinando, covardemente, um velho indefeso e 
descarregando sua fria bestial sobre uma donzela frgil como era 
Susanna!... Somente um monstro como Iulius para executar tais 
barbaridades!... "Desgraado!...", murmura Flavius, entre dentes, 
enquanto fustiga os fogosos cavalos, estalando o chicote no ar. "No 
sossegarei, enquanto no te sentir tremer, dando o ltimo suspiro, 
na ponta de minha espada!..." 
Ao saltar do carro, pouco tempo depois, diante da esplndida 
manso do general Caius Petronius Tarquinius, Drusilla Antnia vem 
receb-lo  soleira do vestibulum. 
-Oh, que bom que vieste, querido Flavius!... -diz a matrona, 
abraando o rapaz e o beijando, respeitosamente,  face. -Mandei 
que te avisassem em tua casa, mas no te encontraram! 

-No vais me dizer que Susanninha piorou!... -exclama o rapaz, de 
repente, empalidecendo. 
-Oh, no, bobinho!... -diz Drusilla Antnia, puxando-o, cortesmente, 
pela mo. -Pelo contrrio!... Vem tu mesmo conferir!... 
Ao deparar-se com a jovem que, recostada sobre confortvel 
canapeum, banhava-se, langorosamente, nos esplendorosos raios do 
sol que penetravam pelo compluvium4 do centro do atrium onde descansava, 
recobrando as foras, depois do terrvel incidente com 
Iulius, Flavius mal cr no que seus olhos vem. 
-Susanna!... Meu amor!... -grita ele, correndo a abra-la. 

4Abertura quadrada, feita no centro do telhado do trio das casas romanas, pela qual se captava a gua da chuva, para 
ser recolhida no impluvium. espcie de cisterna subterrnea. 

#
-Tu?!... -exclama a jovenzinha, cheia de felicidade. -Ah, onde  que 
te encontravas, maroto, que no te achavam? 
-Oh, Susanna!... -diz ele, abraando-se a ela e a beijando, afoitamente, 
aos olhos,  boca, ao rosto, aos cabelos, como se fosse, de 
repente, devor-la, de tanta paixo. 
-Doido!... -diz ela, rindo-se, espantada com a tremenda manifestao 
de alegria que ele lhe demonstrava. -Desse jeito, fars comigo 

o que aquele peste no conseguiu!... -brinca ela. 
-Oh, meu amor, meu amor!... -repete ele, olhando-a e a beijando 
sem cessar. -Tu ests bem!... Tu voltaste para mim!... 
Caius, que para ali acorrera, ao ouvir a efuso da alegria do reencontro 
dos jovens, abraara-se a Drusilla Antnia e, divertidamente, 
olhavam ambos para o casal de namorados e se riam com a manifestao 
de jbilo de Flavius. 
-Cuida para no estrag-la de novo, meu rapaz!... -brinca o general, 
diante da veemente demonstrao de amor que o jovem dedicava  
sua eleita. -Nem imaginas o que nos custou p-la de p! 
Somente aps ter o fogo da saudade abrandado  que Flavius d-se 
conta da extraordinria e rpida recuperao de Susanna. 
-Dizei-me, general Tarquinius -pergunta ele, intrigando-se -, a que 
se deveram a rapidez e a perfeio da recuperao de 
Susanninha?...


Ainda ontem ela se encontrava sem sentidos e com o rosto em lastimvel 
estado, inchado e cheio das marcas da violncia daquele desgraado!... 
Como se explica isso? 
Caius e Drusilla Antnia entreolham-se. Ser que o rapaz teria 
condio de entender a grandeza daquilo? 
-Flavius, meu filho -diz, paternalmente, o general. -Deixa Drusilla 
Antnia tomando conta de tua Susanna e vem comigo at a exedra. L 
te explicarei tudo. 
Sentados em confortveis cadeires, na sala particular do general, a 
conversa prossegue: 

#
-Sei que percebeste que a cura de Susanna no se deu pelos processos 
normais -diz Caius, encarando o jovem que o ouvia srio, 
acostumado que era a proceder assim, posto que servia ao general 
como ordenana e o amava e respeitava como a um pai. E, firme e 
objetivamente, como era de seu costume, o velho militar prossegue: 
-Ocorreu um fato aqui, ontem, e tu, como noivo de Susanna, tens o 
direito de saber!... -e, momentaneamente, cala-se, para recobrar-se 
da emoo que j principiava a embargar-lhe a voz. E, depois de 
respirar fundo algumas vezes, prossegue: -Pois bem, meu caro, 
Jesus curou-a!... 
O rapaz olha para o general com os olhos arregalados de espanto. 
Com a tragdia, esquecera-se de que seu comandante tornara-se 
cristo e que, doravante, Susanna, sendo sua tutelada, estaria tambm 
sujeita quele tipo de influncia. 
-Mas, general, tendes certeza de que assim ocorreu?... -pergunta o 
rapaz, receoso de ferir a suscetibilidade de seu superior. -No poderia 
ter sido outra coisa?... A fama dos cristos no  nada boa e... 
-O que dizem sobre os cristos  tudo mentira!... -atalha o general 
de forma enrgica. -Espalharam uma srie de boatos infundados, 
com a nica finalidade de injuriar e suscitar perseguies gratuitas a 
essa gente que s tem feito o bem!... Ora, Flavius!... -prossegue o general, 
inflamando-se.-Tu me conheces h quanto tempo?... No tens 
convivido comigo, na dureza dos campos de batalha?... Ter-me-ias, 
acaso,  conta de mentiroso? 
-Por vs, empenho minha honra e minha vida, senhor!... -diz o 
rapaz, baixando a cabea, envergonhado. 

-Ento, se te digo que Susanna foi merecedora de um milagre, 
diretamente recebido das mos de Jesus, digo-te que assim foi!... O 
Deus dos Cristos curou-a!... E isso no te basta para crer?... E no 
me viste, tambm,  beira da morte, dias atrs?... Como explicas a 
minha recuperao to rpida?... 
-So coisas que no entendo, senhor!... -diz o rapaz, com os olhos 
rasos de lgrimas. -Entretanto, no gostaria de ver minha Susanna 

#
ligada a essa seita!... Amo-a por demais e vos pediria que deixsseis 
a ela escolher! 
-Susanna veio para esta casa porque estava muito enferma e porque 
seu av, meu insigne companheiro de tanto tempo, foi covardemente 
assassinado por um infame tresloucado!... Entretanto, ela  
livre e livre ser para ficar ou se ir, se esse for o seu desejo!... 
Apenas, que a derradeira vontade de Cornlius foi -se  que tu 
ainda no sabes! -que sua neta ficasse sob a nossa tutela at o seu 
casamento! 
-Oh, desculpai-me, senhor!... -diz o rapaz, altamente arrependido 
do que dissera. 
-E outra coisa: ela ainda no sabe sobre a tragdia que vitimou o 
av!... -diz o general, levantando-se. -Espervamos contar-lhe mais 
tarde, assim que se fortalecesse um pouco mais; entretanto, se fazes 
tanta questo de lev-la contigo, ters tambm essa terrvel incumbncia!... 
S que, se ela, eventualmente, piorar, no me venhas 
devolv-la para que Jesus a conserte para ti outra vez!... Seria bom 
tentares Jpiter Capitolinus... -e arremata, saindo da exedra: -Esse, 
garanto-te que no te envergonhar diante de Roma!... 
Pouco depois, o rapaz retorna para junto de Susanna, um tanto 
desenxabido. A mocinha encontrava-se a ss, ainda no atrium. 
-Voltaste meio sem-graa do colquio que tiveste com o general... diz 
ela, notando-lhe o desencanto que lhe ia ao semblante, 
momentos antes, to cheio de alegria. 
-No  nada, meu amor!... -diz ele, tomando-lhe a mozinha e a 
beijando, apaixonadamente. -Apenas, que refleti mais seriamente 
sobre o quo te encontravas doente e como te recuperaste to 
depressa!... 


-Mas, isso no  motivo para ficares assim triste!... -diz ela. -Acho 
que existe algo mais srio por trs disso... 
-No, no h nada!... -apressa-se ele em dizer. -Garanto-te que no 
h nada de errado comigo!... Fica tranqila!... 


#
-Insisto: h algo que me intriga, meu querido! -diz ela, olhando 
firme nos olhos dele. -Por que me encontro aqui e no em minha 
casa?... E vov, porque no vem me visitar?... Minha cabea encontra-
se ainda um pouco confusa... Lembro-me, vagamente, de 
como tudo aconteceu; recordo-me de Iulius Maximus, extremamente 
colrico, a gritar-me improprios e depois, segurando-me, 
fortemente, pelo brao, d-me forte soco ao rosto e... 
-Ora, meu amor! -atalha ele. -No  bom ficares relembrando tais 
coisas!... Procura descansar... -e, atraindo-a, docemente, ao peito, 
passa a acariciar-lhe os revoltos cabelos cor de mel. -J sofreste 
tanto por causa daquele pulha... 
-Estou to confusa, meu amor... -murmura Susanna, quase inaudivelmente, 
e ele sente que grossas lgrimas brotavam dos olhos 
dela. 
-Oh, ests chorando!... -exclama o jovem, afastando a cabea dela 
do peito e a fixando no rosto. -Por que ests chorando, minha 
linda?... 
Ela nada lhe responde. Apenas uma sucesso de soluos acomete-a, 
sacudindo-a, violentamente. 
-Oh, Susanna!... Susanninha!... -exclama ele, abraando-a mais 
fortemente. -No h mais nada!... Tu j te encontras fora de 
perigo!... Como me afirmou Drusilla Antonia, Sempronius j te 
examinou, detalhadamente, e nada mais encontrou de anormal em 
ti e que pudesse trazer-te al gum mal!... Tu ests curada!... 
A jovem continuava sem nada responder. Preocupado, Flavius 
constatou que ela agia de modo diferente do que costumava ser 
antes do incidente com Iulius. A vivacidade e a loquacidade que lhe 
eram to peculiares davam lugar a um estranho mutismo 
melanclico, sensvel, e ganhara, s feies, um ar de resplendente 
bonomia e os gestos, antes nervosos e agitados, agora os trazia 
cheios de comedimento e de suavidade. 

-Flavius... -diz ela baixinho. -Posso perguntar-te algo, e juras que 
me dirs a verdade? 

#
-Sim, meu amor... -responde ele, cheio de ternura. -Pergunta o que 
quiseres... 
-Vov est morto, no est? 
Ele no responde de imediato. Apenas, aperta-a, mais fortemente, 
ao peito, e lhe beija o alto da cabea, repetidas vezes. Como ela 
reagiria  verdade?... Mas, prometera dizer-lhe a verdade e, depois 
de engolir em seco por diversas vezes, d-lhe a triste notcia: 
-Sim, meu amor!... Teu av j se foi... 
Susanna afasta a cabea do peito de seu amado, para poder olh-lo 
nos olhos. 
-Dize-me, querido, como foi?... 
Flavius titubeia. Como iria dizer-lhe que Iulius houvera assassinado 
Cornelius"?... Ela continuava olhando-o, com os grandes olhos 
marrom-amendoados, inchados pelo choro, na expectativa da 
resposta. 
-Iulius matou-o... -diz Flavius, de uma s vez, e a abraa forte, como 
se quisesse absorver para si todo o ardor daquela terrvel 
punhalada. 
-Oh, no!... -exclamaela, desmanchando-se em lgrimas.-Por que 
ele teve de fazer isso? 
Por longo tempo, Susanna e Flavius choraram abraados. A perda de 
Cornelius para eles era insupervel. Amavam o bom velhinho, de 
corao, e contavam t-lo, ainda por muito tempo, apesar da terrvel 
doena que o carcomia, inclemente. Quando perceberam, a noite j 
havia cado, e Drusilla Antonia vinha cham-los para a cena. 
-Poupvamos-te sobre a morte de Cornelius, minha querida, para 
que no sofresses ainda mais!... -diz Drusilla Antonia a Susanna, 
enquanto a ajeitava num canapeum ao lado de Flavius, j no 
triclinium, prontos para a cena. 
-Sim, querida -completa Caius -, vamos-te ainda to debilitada e 
no te queramos dar mais esse terrvel golpe! 
-E eu me precipitei a dar-te tal notcia!... -desculpa-se o rapaz. 

#
-Eu j desconfiava de que algo de errado havia acontecido com 
vov e, cedo ou tarde, acabaria sabendo, meu querido -diz ela, demonstrando 
uma tranqilidade que impressionava a todos. -No te 
mortifiques por isso!... Hoje creio, sem sombra de dvida, que meu 
adorado av encontra-se feliz, ao lado de seus parentes e amigos, do 
outro lado da vida!... 
Drusilla Antnia e Caius entreolham-se, espantados com as palavras 
da mocinha. J haviam notado que ela sara diferente do terrvel 
acidente pelo qual passara, mas surpreendia-os cada vez mais com 
as novas idias que apresentava. 
-General Tarquinius -diz ela -, sei que vos tornastes cristo, 
convencido pelo milagre que recebestes das mos de Rufus, o 
homem que trouxestes aqui para curar-me tambm! 
-Mas, como sabes que te trouxemos Rufus?. -pergunta, espantada. 
Drusilla Antnia. -Nada te dissemos sobre isso! 
-Sim -concorda o general, admiradssimo com o fato. -Pouqussimas 
pessoas aproximaram-se de ti, alm de mim, de Drusilla, de 
Sempronius, o mdico que de ti cuidou, e de uma escrava que  
muda!... Ningum mais!... Impossvel que soubesses tal coisa!... 
Alm disso, passaste todo o tempo sem sentidos! 
-Mas, algum me revelou, sim, general -diz a moa, com um 
sorriso de satisfao aos lbios. -Algum muito especial revelou-
mo!... 
-E quem te contou que foste curada pelos cristos, se ningum mais 
falou contigo, seno ns, os da casa, e proibimos os servos de 
tocarem no assunto? -observa Drusilla Antnia, estranhando o fato. 
A jovem permaneceu calada por instantes, tomada de forte emoo, 
e depois, com lgrimas aos olhos, prosseguiu: 
-Um enviado de Jesus contou-me!... 
Drusilla Antnia e Caius olham-se, espantados e cheios de emoo. 
-Conta-nos, minha filha -apressa-se em dizer o militar. -Consegues 
lembrar-te de como foi? 

#
-Sim, general -responde ela, e prossegue com segurana: -At 
ento, de nada eu tivera conscincia; havia apenas escurido e o 
vazio, em minha alma. De repente, senti algum me tocar, com 
extrema leveza,  testa, com a ponta dos dedos, e chamar pelo meu 
nome. Ao abrir os olhos, deparei-me com um rosto 
magnificentemente nimbado de luz que me sorriu, bondosamente, e 
depois me disse: "Susanna, desejo que voltes, imediatamente, para a 
tua casa!..." Eu, ento, perguntei-lhe: "Quem sois, senhor?" Ele me 
olhou, com um par de olhos inesquecivelmente azuis, e me 
respondeu: "Meu nome no importa!... Importa que Jesus mandou 
que eu te curasse!... Agora, vai e d testemunho do poder que tem o 
Deus vivo!..." 
Susanna cala-se, extremamente emocionada. As lgrimas descem-
lhe, abundantes, dos olhos. O rapaz, altamente comovido pelo 
estado em que encontrava a amada, levanta-se a enlaa, amorosamente, 
aos braos. 
-Oh, Susanna!... -exclama ele. -Tens certeza de que no sonhaste 
tudo isso?... No te deixes levar por fantasias!... 
-No so fantasias, meu caro!  exclama ela, olhando-o, firme, nos 
olhos. -Depois que me encontrei com o enviado de Jesus, disso no 
consigo mais me esquecer!... Sua voz magnfica, seus olhos fantsticos 
e suas palavras seguem-me, insistentemente, desde ento! 
-Oh, esses malditos cristos enfeitiaram-te, meu amor!... -exclama 

o rapaz, desesperando-se. 
-No digas tal absurdo, Flavius!... -brada ela. arrostando-o, cheia 
de indignao. -Se repetires essa barbaridade, deixo-te, imediatamente! 
-Far-me-ias tal despropsito?!... -diz ele, altamente melindrado 
pelas palavras da noiva. -Trocar-me-ias por esse Carpinteiro 
Judeu?!... 
-Sem titubear um s instante! -diz ela, resoluta. Desesperado, o 
rapaz olha para Caius e para Drusilla Antnia 
#
que se mantinham calados, apenas observando o desenrolar dos 
fatos. -E vs, o que dizeis sobre isso?... -pergunta ele, altamente 
confuso. 
-J conheces o nosso ponto de vista, meu rapaz -observa o general. 
-Susanna  livre para escolher seu caminho... 


-Olha, meu amor -diz ele, nervosamente, ajoelhando-se ao lado do 
canapeum da amada. -Ainda outro dia, disseste no acreditar nesses 
fanticos cristos e que achavas mesmo que quem havia curado o 
general Tarquinius era Jpiter Capitolinus, no esse... esse... 
-Jesus!... -atalha ela, sria. -E me lembro, perfeitamente, do que eu 
disse. Mas, isso foi antes, Flavius!... Agora, mudei de idia!... 
-Ests mesmo enfeitiada!... -exclama o rapaz, consternado, e, 
meneando a cabea, deixa-se sentar, pesadamente, em seu canapeum. 
-Que farei para tirar essas idias malucas da tua cabea? 
-Benditos feiticeiros, ento, esses que nos devolvem a sade, instantaneamente, 
e nos abrem os olhos, fazendo-nos ver o quanto 
caminhvamos por sendas tortuosas e cheias de escolhos!... exclama 
a jovem, de forma decidida. 
Flavius olha-a, ainda mais espantado. Susanna jamais fora dada 
quele tipo de conversa. 
-Oh, meu bem!... -diz ele, tentando demov-la daquelas idias. Acho 
que aquele maldito bateu com demasiada fora  tua cabea!... 
S pode ser essa a explicao!... Esses cristos ignorantes no poderiam 
ter posto essas coisas em teu corao, assim to depressa!... Tu 
ainda tens o crebro afetado! 
-No, meu amor! -diz ela, com segurana. -Se ainda me amas, 
deves acreditarem mim!... Ningum me meteu nada  cabea!... 
Nem precisou!... Jesus curou-me, eu tenho certeza disso, como curou 
tambm o general Tarquinius!... S tu no consegues enxergar a realidade 
dos fatos!... 
Flavius levanta-se e se pe a caminhar pela sala. Era patente que se 
encontrava grandemente preocupado com a mudana que a noiva 
apresentava. Se teimasse em lev-la dali, certamente ela resistiria, 


#
desejando permanecer com seus tutores e amigos. E, alm do mais, 

o general j havia demonstrado grande contrariedade pelo fato de 
ele, Flavius, no aceitar os cristos!... Agora, Susanna perdia-se 
tambm nessas esquisitices!... Se a noiva permanecesse ali, seus 
tutores, agora fanticos cristos, iriam meter-lhe mais doidices  
cabea!... Que faria?... A dvida invadia-o, atrozmente. Precisava 
pensar rpido. Era bem capaz de perder Susanna, se persistisse num 
ponto de vista assim to radical. S havia uma soluo: casar-se com 
ela, o mais rapidamente possvel. Uma vez casados, mant-la-ia 
longe, quem sabe em Neapolis, junto da me e do av, e sua amada, 
ento, bem depressa, esquecer-se-ia do tal Judeu Carpinteiro. Sim, 
essa era a melhor soluo. Rapidamente, ento, muda de atitude e 
se volta para a noiva: 
-Ora, como sou estpido, meu amor! -exclama ele, ajoelhando-se 
ao lado dela e, tomando-lhe a mo, beija-a, repetidas vezes. -Tu te 
encontras ainda to frgil, e eu te colocando num impasse assim to 
difcil, exigindo-te coisas!... Perdoa-me, meu bem!... Sou um 
imbecil!... 
-Ficaste preocupado, meu querido!... -diz ela, sorrindo-lhe, meigamente. 
-Apenas isso!... Tu te preocupaste em demasia comigo!... 
Mas, tranqiliza-te!... Estou bem!... 
Entretanto, a ligeira mudana de comportamento que o rapaz 
principia a apresentar no passa despercebida de Caius, to 
experiente era ele nas lides com as pessoas. O esperto general troca 
longo e significativo olhar com a sua esposa que tambm percebera 
tudo. Sabiam que o jovem, no ntimo, no aceitara nada; apenas, 
fingia conformar-se. Porm, Susanna, dada  sua inexperincia com 
as pessoas ou porque amasse, perdidamente, o rapaz, nada 
percebeu e emite sentido e fundo suspiro de alvio, quando ele a 
abraou, fortemente, e a beijou repetidas e apaixonadas vezes aos 
lbios. Em seguida, Flavius despede-se e sai, prometendo vir v-la 
na manh do dia subseqente. 
#
Alguns dias passaram-se, aps os tristes acontecimentos que mudaram, 
radicalmente, a vida de Susanna. Seu noivo vinha v-la 
todos os dias e, aparentemente, aceitava o fato de ela pretender 
tornar-se crist, seguindo o que faziam seus tutores -Caius e Drusilla 
Antnia -, e ela, Susanna, at j havia manifestado, abertamente, o 
desejo de conhecer o templo onde cultuavam Jesus. S no tivera 
ainda realizado esse desejo, porque no queriam que ela se 
indispusesse com o noivo. 

Entretanto, a mocinha era pertinaz em sua vontade e vivia 
insistindo com os amigos que a levassem, tambm, quando estes 
saam para desenvolver suas atividades de assistncia aos rfos e 
doentes que se asilavam sob a proteo e o amparo da singela 
comunidade crist que Rufus fundara e, incansvel e amorosamente, 
dirigia. 
quela tarde de final de vero, Flavius viera visit-la, e Susanna 
estava s, pois seus tutores encontravam-se no templo cristo, em 
auxlio aos necessitados. O rapaz trazia-lhe novidades. 
-Encontramos Iulius, minha cara!... -diz ele, com a voz tremendo de 
raiva. -Meu antigo companheiro de armas, Lucius Nigrus, e que hoje 
serve na guarda pretoriana, achou-o entocado no pao imperial!... E 

o desgraado encontra-se sob as asas de Nero, exatamente, como eu 
supunha!... 
-Oh, meu amor!... -exclama a mocinha, tomando-lhe as mos e as 
beijando, fervorosamente. -Suplico-te: nada tentes contra a vida de 
Iulius!... 
-Como?!... -espanta-se o rapaz. -Percebes o que me pedes?... Iulius 
assassinou, brbara e friamente, teu av, e tu o perdoas?!... E a ti, 
deixou-te em estado to lastimvel que at hoje no consigo 
entender como conseguiste voltar ao normal! 
-Sei de tudo isso, meu adorado!... -exclama Susanna, com os olhos 
cheios de lgrimas. -Mas, imploro-te: no manches as tuas mos 
#
com o sangue daquele infeliz!... Apropria vidaencarregar-se- de 
dar-lhe cobro aos malefcios que ele vive fazendo aos outros!... 
-Susanna!... -diz o rapaz, olhando-a nos olhos. -Desconheo-te, 
completamente!... O que me pedes  impossvel!... Eu devo lavar a 
tua honra com sangue!... Esqueces de que esse  o costume?... 
-No, meu amor!... -diz ela, pondo-se de joelhos diante dele. -Penso 
diferente, agora!... Olha,  preciso perdoar aos nossos inimigos e 
queles que nos perseguem!... 
-De onde tiraste tais idias, minha cara?... -pergunta ele, olhando-a 
de modo estranho. -No vais dizer-me que isso so idias do... 
daquele... 
-Sim, meu querido! -diz ela, segurando as mos dele e as cobrindo 
de beijos e de lgrimas. -So ensinamentos de Jesus!... 


-Ah, Susanna!... Susanna!... -exclama Flavius, retirando as mos que 
ela tanto beijava. -Por certo, enlouqueceste!... Como posso perdoar 
tais afrontas?... De onde esse Judeu Carpinteiro tirou essas idias 
absurdas?... Onde iremos parar, se sairmos por a, perdoando a 
todos que nos fazem mal?... No percebes o absurdo dessa 
atitude?... Os maus e delinqentes ganharo fora sobre os puros de 
corao e, ento, adviro caos!... 
-No!... -exclama ela. -Errados esto os conceitos da vingana!... 
No percebes que sangue derramado atrai mais sangue?... Quantos 
casos de vingana tu no conheces que no acabam nunca?... 
Matam-se, indefinidamente, com a desculpa de se estarem 
vingando, mutuamente!... Ou tu achas que, matando Iulius 
Maximus, no atrairs a ira do imperador sobre ti e sobre nossa 
casa?... Tu mesmo acabas de me dizer que Iulius esconde-se sob a 
proteo de Nero!... Sabemos que so amigos!... Queres, acaso, atrair 
mais desgraas sobre ns?... E isso que realmente desejas, meu 
amor? 
Flavius cala-se. Os argumentos que ela acabava de apresentar-lhe 
eram fortes demais. Se atrasse Iulius para uma emboscada e conseguisse 
matar o infame, seria bem possvel que Nero ligasse uma 


#
coisa a outra e resolvesse desferir uma perseguio contra ele! E, 
depois de ponderar bastante sobre as palavras da noiva, o rapaz 
abraa-a, comovido, e diz: 
-Acho que tens mais juzo que eu, meu amor!... Se mato Iulius,  
bem capaz que o doido do Nero declare-me o assassino daquele desgraado 
e ento... 
-Ento, estars perdido, meu amor! -atalha Susanna, abra-ando-o 
forte. -Melhor  esquecermos o que passou!... A Divina Justia 
encarregar-se- de punir os crimes de Iulius!... E que no seja por 
nossas mos, meu amor!... 
-Tens razo, meu tesouro! -exclama ele. -Amo-te por demais, para 
perder-te assim, to cedo!... -e lhe sela os lbios com ardente beijo. 

Nesse exato momento em que ocorria o dilogo entre Flavius e Susanna, 
no outro lado da cidade, no pao imperial, Nero e Iulius 
Maximus almoavam a ss. 
-Dizeis ento, Majestade, que a remodelao da cidade j se encontra 
delineada por vossos arquitetos? -pergunta o rapaz ao imperador 
que lhe acabara de confidenciar secreto plano, diante de 
riqussima e variadssima mesa de estupendos quitutes e de 
finssimos pratos. Pequeno batalho de jovens escravos e escravas 
seminus serviam a ambos que se achavam refestelados em 
confortabilssimos canapei, sob amplo dossel de lona prpura, 
sustentado por colunas de bano, trabalhadas em alto-relevo, e que 
se armava em formoso ptio, cercado de arbustos densamente 
floridos, a exalarem fortes e exticos aromas. 
-Sim, querido Iulius!... -responde Nero, com os olhos faiscantes de 
tanta excitao. -Arrasaremos esta cidade desgraciosa, pejada de 
edifcios horrorosos e imundos, erigidos de tijolos carcomidos pelo 
desfilar dos sculos, e faremos renascer outra, magnificente, a 
ostentar garboso brilho de mrmore e de granito!... Tu vers!... E 
contamos com tua prestimosa ajuda para pormos abaixo esse lixo 
que a est!... -e faz largo gesto de desprezo com as mos, indicando 
a cidade que, mais abaixo, brilhava,  luminescncia do meio do dia. 

#
A distncia, as guas do Tibre reluziam qual imensa serpente de 
prata qe se arrastasse, coleando sobre o vale que se abria pleno, a 
perder-se no esfumado azul-esverdeado do horizonte distante. E, 
depois de fitar, longamente, a cidade, prossegue Nero, cheio de 
animao: -As legies que se encontram sob o comando de Severus 
Iustus j esto de sobreaviso; as demais legies encontram-se longe 
de Roma, e os eventuais generais que se encontrarem na cidade, no 
tero como se organizar!.... -Tudo ser feito de assalto, e no haver 
tempo para qualquer tipo de reao!... J pensamos em tudo! 
-E podeis dizer-me que espcie de ao pretendeis realizar, Majestade? 
-pergunta o rapaz, altamente interessado. 
-Oh, no!... No por ora, meu caro!... -diz o imperador. -Sabemos 
que te mataremos de curiosidade, querido, mas s ficars sabendo 
amanh, pouco antes da hora aprazada!... -e se ri, satisfeitssimo. 

-Se assim desejais... -diz Iulius, abaixando a cabea, fingindo 
resignao, mas, no fundo, sentiu mesmo foi um dio terrvel 
daquele homem que, s vezes, causava-lhe repugnncia, pelos 
trejeitos afetados e pela melifluidade no falar. 
-Oh, no fiques assim!... -exclama Nero, tomando-o pelo queixo, 
com a ponta dos dedos, fazendo-o levantar o rosto que baixara para 
tentar esconder a grande contrariedade que sentia. Fora-lhe terrvel 
constatar que o imperador no confiava nele. E, mirando-o, firme, 
nos olhos, o soberano de Roma prossegue, cheio de orgulho: -Ters 

o privilgio de te sentares  nossa mesa, amanh, para assistires ao 
estupendo espetculo que prometemos aos nossos mais eminentes 
convidados, logo ao cair da tarde!... Nada perdeis por esperar, 
dulcssimo Iulius!... -diz, elevando a taa,  guisa de brinde, e, em 
seguida, sorvendo dela longo trago. Depois, piscando um olho, 
maliciosamente, prossegue: -Prometemos-te um espetculo que 
jamais viste em toda atua vida!... Um esplendor digno de surgir 
apenas da excelncia da mente de um prncipe como ns!... E temos 
a absoluta certeza de que nenhum outro que venha a reinar sobre 
#
Roma, depois de ns, ir superar-nos em grandeza e em 
originalidade!... 
Iulius olha-o, desconfiado. Coisa boa no deveria ser. Era amigo de 
Nero, no porque gostasse dele: era amigo do imperador de Roma, 
porque isso lhe trazia uma infinidade de privilgios e de vantagens. 
Nero, por sua vez, divertia-se, s pampas, com o grande desapontamento 
do rapaz que, embora tentasse fingir que superava aquela 
decepo, ao constatar que o imperador no confiava nele, mal 
sofreava o ardente desejo de dar-lhe o troco  altura. "Um dia, 
pagar-me-s por isso, safado!...", pensa Iulius Maximus, olhando a 
furto para Nero que se deliciava, sugando, ruidosamente, o recheio 
de uma ostra. 

***** 

O dia subseqente surgia sem as claridades marcantes do vero, 
que se mostrava j um pouco desbotado pelas brumas secas do 
outono; a temperatura tomava-se mais amena, distintamente da 
cancula terrvel que caracterizara o vero que se ia. Susanna Procula 
despertou muitssimo bem, quela manh, e lhe deu imensa 
vontade de sair. Sabia que se encontrava a ss, na manso. Caius e 
Drusilla Antnia, como de costume, haviam sado, bem cedinho, 
para suas atividades junto de Rufus, na comunidade crist. Ainda 
em seu quarto, enquanto se preparava para abluir-se, Susanna 
pensava. Quanto tempo fazia que estava confinada em casa?... Pelas 
suas contas, havia mais de quarenta dias que no deixava o lar. E se 
ri. divertida. Jamais houvera acontecido aquilo at ento!... Sequer 
ficara um dia, sem sair, sem ir ao Theatrum, ou ao Circus Maximus, 
ou, simplesmente, passear pela praa do Frum, de mos dadas com 
Iulius!... Ah, Iulius... A lembrana do primo assassino f-la 
entristecer-se, e discreta lgrima rola-lhe pela face. Onde estaria o 
tresloucado Iulius?... Ser que sentiria remorso por ter feito aquelas 
coisas to horrveis?... A voz trmula de sua velha escrava tira-a dos 
tristes pensamentos: 

#
-Lavars tambm os cabelos, domina? 
-Sic, Filial... -diz Susanna. -Pretendo sair, logo mais  tarde. 
-Quo vadis, domina ?!.. 2 -pergunta a criada, espantando-se. -No 
acho que devereis sair a ss, por a!... Ainda se fsseis com a nobre 


Drusilla Antnia... 
-Oh, sua velha tola!... -diz Susanna, rindo-se. -Fica tranqila!... No 
vs o quanto estou bem?... Drusilla Antnia e Caius no precisam 
ficar sabendo!... E j sabes, hein!... Se contares a eles que sa, 
mandarei que te cortem a lngua!... Acho que ficars melhor, sendo 
uma escrava muda!... 
A velha engole em seco e se atm a pentear os delicados cachos de 
cabelos cor de mel de Susanna que, no ntimo, segurava-se para no 
rir da cara que fazia a escrava, extremamente amedrontada pela 
ameaa que lhe fizera sua jovem senhora. 
Era j bem no meio da tarde, quando Susanna, ricamente vestida, 
saa em sua liteira, carregada por doze possantes escravos nbios. 
Agora, j poderia ostentar a fabulosa riqueza de que era dona, 
depois da fatdica morte do av. Passaria pelo centro da cidade, 
percorreria algumas lojas, para inteirar-se das novidades e, depois, 
de surpresa, quando fosse bem de tardezinha, pretendia visitar o 
noivo em sua manso. A ento, jantariam juntos, e ele, certamente, 
conduzi-la-ia de volta para casa, quando a noite casse. 
Estranhamente, o bulcio das mas do centro de Roma no a atraam 
mais da mesma forma que antes.3 Os artigos de luxo e as novidades, 
trazidos dos quatro cantos do mundo e exibidos, em profuso, na 
infinidade de lojas do centro comercial que pululava de mercadores 
a apregoarem suas mercadorias, em altos brados, para a multido 
que passava pelas ruas, no deixaram, totalmente, de atrair a 


2. Aonde vais, senhora?!...", em latim 
3. Por essa poca, sculo 1 da era crist, por volta do ano 65, Roma, a capital do Imprio 
Romano, contava com, aproximadamente, um milho de habitantes. 
#
ateno de Susanna; entretanto, no mais se atirava s coisas 
materiais com a ansiedade de antes; tudo aquilo, de repente, 
parecia-lhe ter o significado e o valor relativo que realmente 
deveriam ter. Nada mais. Agora, enxergava o verdadeiro valor que 
tudo deveria ter na escala das coisas: para que ter tanto?... Alguns 
at nada tinham e, no entanto, sempre lhe pareceram mais felizes 
que outros que tanto possuam!... Isso era a prova cabal da 
incongruncia dos valores que se atribuem aos bens da vida!... Se, 
de fato, ter tudo fosse a condio sine qua non para obter-se a 
felicidade, por que  que havia tantos ricos infelizes?... 
Mesmo sem demonstrar o irrefrevel desejo de comprar tudo o que 
fosse novidade, Susanna continuou percorrendo as ruas do comrcio 
e se entreteve em procurar algo com que pudesse presentear o seu 
amor: uma jia, talvez. Sabia que ele iria gostar e se acalmar, depois 
da espinafrao que, sem dvida, ele lhe daria, ao v-la aparecer ali, 
sozinha, sem nenhuma proteo, a no ser a dos escravos que, 
certamente, fugiriam tresloucados e espavoridos, deixando sua ama 
 prpria sorte, se, de repente, algum facnora resolvesse atacar e 
roubar a ocupante da rica liteira. Susanna sabia de todas essas 
coisas; tinha plena conscincia do quanto a cidade era perigosa, 
cheia de ladres e de armadilhas de toda espcie, mas ela era assim, 
gostava de aventurar-se. 

Depois de muito andar pelos vrios joalheiros, encontra, afinal, o 
que buscava e o que considerou ser digno de seu adorado: um 
bracelete de ouro macio, um aro grosso que lhe abarcaria os 
volumosos bceps braquiais e que tinha incrustada a efgie de um 
urso, arreganhando furiosas fauces. "Um urso para enfeitar o meu 
adorado urso!...", pensa ela, ao escolher a jia. 
Deixando a loja do joalheiro e saindo para a ma, Susanna depara-se 
com inusitado corre-corre. Pessoas corriam, gritando, espavoridas e 
desencontradas; um inesperado bulcio tomava conta das mas 
centrais de Roma. Susanna sente medo. Havia deixado a liteira longe 

#
dali, pelo menos a uns trezentos metros, numa das mas laterais da 
praa do Frum. "Cus!...", diz ela baixinho, sendo, barbaramente, 
atropelada pela multido em fuga desenfreada. "Que ser que est 
acontecendo?..." Tenta parar algum para perguntar, mas ningum 
lhe d ateno. Apenas se nota o terror estampado no rosto da 
turbamulta que corre, desenfreadamente, para todas as direes. 
Susanna encosta-se, ento, rente  parede de uma loja e tenta 
proteger-se dos desesperados encontres que recebe da turba em 
fuga. De repente, sente um forte cheiro de fumaa e, levantando os 
olhos, percebe grossos tufos de fumaa negra que tomavam, 
apressadamente, o cu. "Um incndio!...", pensa, apavorada. Era 
preciso, ento, fugir, e tentar escapar dali, a qualquer custo. 
Deixando-se contaminar pelo desespero, junta-se ao populacho e se 
pe a correr para o fim da rua em que se encontrava. Porm, ao 
aproximar-se do final da ma, constata, estarrecida, que os soldados, 
protegidos por imensos escudos de lato, apontavam, ameaadoramente, 
suas reluzentes lanas, fechando, completamente, a ma e 
impedindo a passagem da multido em fuga! 
Susanna sente as pernas bambearem. Estariam, irremediavelmente, 
perdidos?... Extremamente desesperados, uma multido de homens, 
de mulheres e de crianas, amontoavam-se e, aos gritos, suplicavam 
aos soldados que baixassem suas lanas, liberando-lhes a passagem. 
A soldadesca, entretanto, mantinha-se impassvel, diante das 
splicas do povo. Os que, ousadamente, tentavam forar a 
passagem eram fria e terrivelmente trespassados, sem piedade, 
pelas pontiagudas lanas. Ento, Susanna tenta voltar para o lado 
oposto e o que v, deixa-a mais estarrecida ainda: o fogo, 
multiplicando-se, velozmente, em infinitas lnguas rubras e vorazes, 
j devorava, inclementemente, os telhados e os toldos que 
sombreavam as fachadas das lojas daquela ma, lanando ao ar 
negras nuvens de fumaa! 
Desesperada, Susanna pe-se a gritar. Sua voz junta-se ao ttrico 
coro dos que, de forma to terrvel, estavam condenados  morte!... 

#
Mas, por qu?... Qual o crime que haviam cometido para merecerem 
tal suplcio?... Era o que, no ntimo, a aterrada multido 
perguntava-se. Susanna chorava e gritava. Os olhos ardiam-lhe, 
enormemente, e o calor era insuportvel, pois o incndio alastrava-
se, devorando o velho casario, com voracidade espetacular. Era 
como se, de repente, algum tivesse arremessado aqueles pobres 
infelizes dentro de uma fornalha!... Quase sem foras para resistir, 
Susanna deixa-se cair de joelhos, premida pelo desespero. De 
repente, lembra-se de Jesus e ora. "Senhor!...", grita ela, em sua 
aflio. "Sei que estou para morrer!... Acolhei-me, Divino Jesus, em 
vossos braos amorosos!..." 
Quando ia mesmo desfalecer, ouve a inconfundvel voz a gritar-lhe. 
-Susanna!... No!... 
Abre os olhos e apura os ouvidos. Parecera-lhe ouvir a voz dele! ... 
Como era possvel?!... Mas, distinguira, perfeitamente, avozdele, no 
meio de tantos gritos!... 
-No, meu amor, no!... -ela o ouve, bem prximo. 
Abre os olhos, antes de perder os sentidos, de vez. Sim, no se 
enganara!... Era ele, Flavius, que a levanta, e a carrega nos braos, 
correndo como um doido, tirando-a daquele inferno. Ao chegar 
diante da barreira de lanas, os soldados baixam a guarda e o 
deixam passar. Alguns deles eram seus amigos de antigas batalhas... 

Captulo X 
O terrvel holocausto 


Aquela noite caa com inominado terror para os habitantes de 
Roma. Dez, dos catorze bairros que compunham a Cidade dos 


#
Csares, ardiam em chamas. As labaredas vermelhas, quais 
ciclpicas lnguas incandescentes, elevavam-se para as alturas, 
iluminando o horizonte at onde a vista alcanava. A populao, 
tomada de extremo pavor, tentava fugir, entupindo as vias que 
davam acesso  cidade; o rumor que aquelas criaturas desesperadas 
faziam era ensurdecedor -um misto de gritos, choros, improprios e 
altercaes, deveras estarrecedor!... Homens e mulheres, 
desgrenhados e enlouquecidos pelo medo, gritavam e corriam, 
deixando para trs as crianas que, perdidas dos pais, choravam e 
eram violentamente pisoteadas pelos adultos em fuga; velhos e 
enfermos eram abandonados, relegados  terrvel sorte que os 
aguardava -serem mortos pelo incndio -, se, antes, no perecessem 
massacrados pelo populacho ou pelas cavalgaduras dos soldados e 
dos mais ricos que, afoitamente, debandavam para os campos adjacentes, 
em busca de lugares seguros, longe daquele inferno. Jamais 
se vira tamanha balbrdia em Roma!... 
Do alto do Palatino, em seu palcio e em total segurana, Nero 
festejava aquele espetculo!... Ordenara que se preparasse um extraordinrio 
banquete e convidara os amigos mais chegados, para 
apresentar-lhes os projetos da nova cidade que idealizara, 
juntamente com seus arquitetos. Sobre imensa mesa, num grande 
salo do pao imperial, a maquete da nova Roma arrancou 
exclamaes de admirao e de espanto da scia, especialmente 
convidada para a ocasio. 

-Eis a nova cidade!... -exclama o imperador, estourando de 
orgulho. 
Curiosos, os convivas de Nero rodeiam a planificao do que seria a 
nova capital do imprio. Mesmo em miniaturas, as edificaes que 
deveriam constituir a nova Roma eram fabulosas! 
-Destmmos uma Roma de tijolos -uma cidade carcomida pelos 
sculos, suja e feia! -, e vos damos uma nova, feita em mrmores 
rutilantes e em esplendentes granitos! -grita Nero, satisfeitssimo, 
com o brilho de assombro que via nos olhos de seus amigos. -Assim 

#
que terminarmos a limpeza dessa imundcie, poremos nossas mos 
 obra!... 
-e, com acentuada expresso de repulsa ao semblante, prossegue: 
-Ufa!... Encontrvamo-nos enfarado de tanta sujidade!... J haveis 
percebido o quanto Roma fedia?... Uma afronta  nossa integridade, 
no concordais? 
-Sois deveras um gnio, Majestade!... -diz um bajulador, aproximando-
se de Nero e, ajoelhando-se, beija-lhe a fmbria da clmide. 
-Oh, que amveis palavras, nobre Suetonius!... -diz o monarca, 
altamente lisonjeado. E, a seguir, num rompante dos que lhe eram 
peculiares, abraa e beija o outro, s faces. Depois, grita, batendo 
palmas e chamando a ateno de todos: -Vinde ver como ser nossa 
nova casa!... -e corre at a maquete da Domusurea,1 o novo palcio 
que projetara para si. 


Novas exclamaes de admirao e de assombro, diante do que 
seria a esplendorosa construo. E, como uma criana, diante de 
extraordinrio brinquedo, Nero descreve, com riqueza de detalhes, 
a deslumbrante edificao que pretendia erigir. Entretanto, logo se 
cansou daquilo. E, grandemente agitado, lembrou-se de que, l fora, 


o dantesco espetculo continuava: Roma ardia em chamas, e era 
preciso mostrar aquela colossal faanha a seus convidados! 
-Vinde agora mesmo ao peristylium! -brada, extremamente eufrico, 
o imperador!... Nossa Graa reserva-vos mais uma surpresa! 
L embaixo, o descomunal incndio continuava! Apenas os locais 
onde se situavam as luxuosas villae dos patricii -a nobreza romana haviam 
sido poupados. Os demais bairros, entretanto, onde viviam 
os plebeu, o povo miservel, pereciam sob a inclemncia do fogo!... 
As imensas quantidades de telhados, cobertos de negro e 
ressequido colmo, nos populosos e misrrimos arrabaldes, pejados 
de choupanas e de casebres feitos de tijolos crus, eram o excelente 
combustvel a alimentar a sanha das chamas que a tudo devoravam, 
descontroladamente!... Quantas criaturas no perdiam o 
pouqussimo que tinham, adquirido a durssimas penas!... 
#
1. "A Casa de Ouro", em latim. Antigamente conhecido como "A Casa da Passagem", o 
palcio imperial localizava-se no Monte Palatino; primeiramente, Nero remodelou-o, 
aumentando-lhe o tamanho, do Palatino at o Esquilino; depois, como o fogo acabou por 
destruir-lhe uma parte, o imperador reconstruiu-o, dando-lhe o nome de Domus urea descomunal 
construo que, s no vestbulo, havia uma esttua do prprio Nero, com 
cento e vinte ps de altura; a fachada do palcio era to larga que possua dois prticos, 
com trs filas de colunas, medindo mil passos de comprimento. O tanque, semelhante a 
um pequeno mar, era rodeado de edifcios, como se fosse pequena cidade Os demais 
cmodos do palcio eram recobertos de ouro, incrustado de pedras preciosas e de 
madreprola; os refeitrios possuam as paredes recobertas de lminas de marfim mveis, 
que possibilitavam espargir ptalas de flores, perfumes e leos aromticos sobre os 
convivas. O salo principal era circular e girava continuamente, noite e dia, de acordo com 
o movimento da Terra, e os banheiros recebiam a gua por canalizaes, diretamente do 
mar. 
E quantos no perdiam a vida de forma to horrvel!... 
s vezes, -nos difcil entender a que ponto desce o homem em sua 
insanidade!... 
 o nico ser, em toda a Criao, capaz de pensar, de fazer uso da 
razo, mas , tambm, o nico a promover tamanhas loucuras que a 
prpria razo nega-se a explicar! 
-Nossa Graa cantar para vs, carssimos!... -brada Vero, 
esfuziante, e altamente estimulado, quase s raias da loucura, pelo 
gigantismo da descomunal fogueira que fizera de Roma!... E ordena, 
aos gritos: -Nossa lira!... Trazei-nos nossa lira, depressa!... 
E, para uma platia de sarcsticos bajuladores, Nero Claudius Caesar, 


o stimo imperador de Roma, passou a dedilhar sua lira e a recitar 
um poema em louvor  deusa Hecate. Ironicamente, ele mesmo 
houvera composto aquela elegia, para que a guardi das sombras 
recebesse aqueles que ele, de forma to cruel, a ela enviava, aos milhares, 
naquela terrvel tarde! 
O vermelho da imensa fogueira reflete-se no rosto gordo, redondo e 
macilento do imperador, deixando-o com uma aparncia quase 
sobrenatural . Sua voz engasgada e roufenha soa como um chiado, 
acompanhada pelo dedilhar de uma lira mal-executada. E ele segue, 


#
eternamente embevecido, pela noite de horrores que sua mente 
satnica houvera criado... 
-Preciso tirar-te daqui!... -repetia baixinho, Flavius Antoninus, 
enquanto corria, desesperado, pelas mas, carregando sua amada nos 
braos. -Oh, meu amor!... Coragem!... -sussurrava-lhe ao ouvido, 
enquanto saltava sobre a infinidade de corpos que jaziam sem vida, 
a meio de escombros das edificaes que, com terrveis estrondos, 
iam desmoronando e entupindo as estreitas mas de entulho e 
dificultando, ainda mais, a fuga dos desesperados cidados 
romanos, pegos de surpresa por aquela terrvel tragdia! 
O rapaz, embora fosse forte e estivesse acostumado aos rigores dos 
campos de batalha, sentia a boca seca e os olhos lacrimejarem pela 
fumaa que, insistentemente, invadia todos os recantos. Como 
estavam no outono, no havia vento, o que dificultava ainda mais a 
disperso da terrvel fumaa que lhe queimava os lbios, a boca e a 
garganta. Entretanto, sabia que no poderia fraquejar. Ou ambos, 
ele e sua adorada Susanna, pereceriam carbonizados, ali, naquela 
fornalha infernal em que se havia transformado o centro comercial 
de Roma! 
E, depois de muito sacrifcio, foi com certo alvio, que viu surgir,  
sua frente, a grande praa do Frum; ali, local mais aberto, poderia 
descobrir alguma eventual rota de fuga, para escapar daquela 
pavorosa armadilha em que haviam cado! Porm, estarrecido, 
constata que a praa no era nenhum lugar seguro!... Pelo contrrio, 
para ali havia confludo imensa multido que se espremia, 
comprimindo-se, violentamente, e pisoteando, de forma cruel, at a 
morte, os infelizes que no conseguissem manter-se de p!... E ele, o 
que faria com sua adorada menina que ainda se mantinha sem 
sentidos?... Certamente, a turba, em seu desespero extremado, 
arranc-la-ia de seus braos e, fatalmente, ele a perderia para 
sempre, no meio daquela balbrdia infernal. 

De repente, como bendita luz que surgisse a meio de terrvel escurido, 
vem-lhe,  lembrana, o treinamento que recebera no exr


#
cito: "Em caso de incndio, deve-se procurar gua!...", lembra-se das 
palavras do instrutor. "O nico inimigo que o fogo realmente 
respeita  a gua!..." 
gua!... Mas, onde encontrar gua, ali?... "O balnear ium!...", lembra-
se, ento. Ficava perto dali. Era s descer a ladeira, que se iniciava 
na praa, indo em direo do Tibre. Ento, ligeiro, abrindo caminho 
entre a populaa, com os possantes ombros, e aconchegando 
Susanna ao peito, como se fosse um beb, pe-se a correr. Em 
pouqussimo tempo, estava diante dos prticos que davam acesso 
ao balnerio pblico. Estranhamente, o recinto estava quase vazio,  
exceo de alguns estrangeiros que, sabiamente, molhavam-se para 
escapar do fogo. O povo, altamente enlouquecido com a perspectiva 
da fuga, esquecera-se de buscar abrigo nas inmeras piscinas 
subterrneas dos banhos pblicos de Roma! 
Flavius, ento, mergulha-se nas guas frias e se sente refrigerar do 
calor escaldante das ruas. No largara sua amada um s instante. A 
jovem, ao contato da gua, emite fraco gemido, o que faz o rapaz 
animar-se e se encher de expectativa. 
-Susanna!... Susanna!... -chama-a, beijando-lhe, delicadamente, as 
faces descoradas. 
Novo gemido, e a jovem abre os olhos. 
-Oh, meu amor!... -exclama o rapaz, cheio de alegria. -Tu 
voltaste!... Susanna olha em derredor, cheia de espanto, ainda meio 
zonza, e 
sem atinar direito onde  que se encontrava. Depois de alguns 
instantes, pergunta baixinho: 
-Que aconteceu, Flavius!... No consigo me lembrar de muita coisa... 
-Terrvel tragdia, meu amor!... -exclamao rapaz, abraando-se a ela. 
-Roma inteira arde em terrvel incndio!... 
-Ah, ento foi isso!... -diz a jovem, estremecendo. -Agora me 
lembro!... O fogo!... Apanhou-me de surpresa!... 

#
-No fosse o homem que me avisou onde te encontravas, estarias 
morta, meu amor!... -diz ele, beijando-a s faces, ainda 
grandemente descoradas. 
-Que homem avisou-te, meu amor?... -No havia ningum conhecido 
!... -estranha ela. -Eu estava sozinha, a comprar-te um 
mimo!... 
-Entretanto, simptico senhor, de longas barbas e olhos penetrantemente 
azuis, indicou-me o caminho a seguir em teu socorro -diz o 
rapaz, tambm se intrigando com a histria. -E olha que eu estava 
bem longe do local onde te encontravas!... Para ser mais exato, j 
estava em meu carro, pronto a regressar para casa, pois havia percebido 
estranha movimentao das legies pelas ruas da cidade e te 
garanto que, em seguida, constatei, estarrecido, que, acendendo 
tochas, os soldados passaram a atear fogo aos edifcios e s casas, 
nada poupando!... 
-Que horror!... -exclama a mocinha. -Mas, qual ser o intuito?... 
Pelo que dizes, no so soldados inimigos de Roma! 
-No te esqueas jamais de que o pior inimigo de Roma mora no 
Palatino, minha cara!... -diz o rapaz. 

-Crs, ento, que... 
-Sim -atalha o rapaz, baixinho. -O maldito desgraado promoveu 
mais esta terrvel monstruosidade!... 
-Meu Deus!... -exclama Susanna, enchendo-se de preocupao. -E o 
que ter acontecido a Caius e a Drusilla Antnia!... Ser que foram 
surpreendidos, tambm, pelo incndio? 
-Como saberemos, minha querida? -observa ele. -E s poderemos 
sair daqui, quando o fogo extinguir-se. 
Dali do subterrneo do balnearium, podia-se, perfeitamente, ouvir a 
balbrdia que se seguia acima, pelas mas. Gritos lancinantes de desespero 
misfuravam-se a tropis de cavalos, e a terrveis exploses 
motivadas pelo desabar das paredes das seculares construes de 
Roma. Mesmo protegidos pelo subterrneo e pela abundncia de 
gua corrente que alimentava as imensas piscinas do balnerio 

#
pblico, o calor ali era muito grande; entretanto, suportvel. E a 

noite caiu e avanou. 
paulatinamente, os gritos e lamentaes das pessoas foram diminuindo, 
 medida que as horas passavam. Apenas o ttrico crepitar 
das chamas, em sua insacivel voracidade, permanecia ainda. 
Flavius e Susanna continuaram abraados e mergulhados, numa das 
grandes piscinas subterrneas, e esperavam, pacientemente, que 
aquele inferno passasse. 
Aninhada aos aconchegantes braos de seu amor, Susanna sentia-se 
protegida. Premida pelo cansao extremo daquelas terrveis horas 
em que ambos lutaram para sobreviver quele inferno, a jovem 
sente incontrolvel sonolncia apoderar-se dela. Luta, 
desesperadamente, para vencer o sono, mas lhe sente o abrao 
irresistvel, no mais lhe oferece resistncia e acaba por entregar-se. 
O rapaz, percebendo que ela adormecera, beija-lhe, suavemente, o 
alto da cabea. "Dorme, meu tesouro!...", murmura baixinho. 
"Dorme tranqila, que te velarei o sono!..." Parecendo ouvir-lhe as 
ternas palavras, Susanna aconchega-se mais quele peito forte e 
emite fundo suspiro. Depois, sorri, e Flavius teve a certeza de que 
sua amada sonhava com ele... 
Quando amanhece, ambos deixam o subterrneo do balnearium e, 
estarrecidos, constatam a triste realidade existente onde outrora vicejava 
a exuberante Cidade Eterna!... Por todos os lados, s a desolao!... 
Montes e montes de entulhos enegrecidos e fumarentos, 
guardando, ainda, resqucios da inclemncia do fogo da vspera! 
Com extremo pesar, os dois jovens observam os montes de cadveres 
que se espalhavam s ruas, aos milhares -toscos pedaos de 
carvo! -, que muito pouco lembravam criaturas humanas!... 
Susanna, apavoradssima pelo quadro dantesco em que se 
transformaram as mas, pe-se a tremer e a chorar, tomada de 
grande desespero. 
-Tranqiliza-te, meu bem!... -diz o rapaz, abraando-a forte. -Vem, 
tentemos sair daqui!... -e a toma, docemente, pela mo. 

#
Ele se encontrava um pouco menos chocado pela terrvel tragdia, 
porque se acostumara s no menos horrorosas condies que se 
achavam nos campos de batalha. Porm, como era pessoa de boa 
ndole e sensvel, era natural que aquela terrvel desolao em que 
se reduzira a esplndida metrpole dos Csares, tambm o deixasse 
altamente abatido. Quanta gente havia morrido? Pelo menos, um 
tero da populao da cidade, certamente, houvera morrido na 
colossal tragdia! 
-Vamos, Susanna -diz, tomando-a pela mo -, saiamos daqui!... Aonde 
me levas, Flavius!... -pergunta ela, com a voz trmula, 
deixando-se dominar pelo medo, pois tinham que caminhar com 
cuidado, saltando por sobre uma infinita profuso de cadveres, 
terrivelmente deformados pelo impacto da tragdia, e que se 
espalhavam por todos os lados. 
-Vamos at  casa de Caius e Drusilla Antnia -diz ele. -Como a 
villa de teus tutores se localiza fora da cidade, o incndio, 
certamente, no a atingiu. Apenas que teremos de caminhar at l, 
pois meu carro e meus cavalos a essa hora... 
-E minha liteira e meus escravos nbios? -pergunta a jovem. -Ser 
que conseguiram fugir? 
-Onde  que os deixaste? 
-Bem prximo  praa do Frum -diz Susanna. 
-Certamente conseguiram safar-se a tempo -observa o rapaz. Os 
africanos so fortes e esto acostumados a uma vida difcil em 
sua 
terra natal! 
-Pobres coitados!... -diz Susanna. -Se pudesse imaginar! 
-Tu no os mantiveste acorrentados, enquanto te aguardavam, no 
? -pergunta o rapaz. 
-Oh, no!... -responde ela. -Vov nunca manteve nenhum escravo 
sob cadeias!... -Ele, simplesmente, abominava esse tipo de coisa!... 
At era a favor da libertao dos escravos! 


#
-Teu av foi um grande homem!... -exclama o rapaz. -Quo 
diferente era ele desse verme que hoje se senta no trono do palcio 
do Palatino!... 
Com extrema dificuldade e, tendo, s vezes, de carregar Susanna aos 
braos, finalmente, deixam o que antes fora o centro da cidade e 
passam a percorrer os bairros perifricos. Ali, a balbrdia no fora 
menor. Apenas que, pelo motivo de as construes serem menores, 
os entraves  passagem eram tambm, menores, diferentemente dos 
bairros mais prximos ao centro onde as construes eram de tijolos 
queimados e possuam at trs pavimentos e que, ao desabarem, 
haviam, literalmente, entupido as mas e vielas, tomando a 
passagem impossvel. 
Depois de quase quatro horas de caminhada, quando o sol j havia 
avanado bastante no alto do cu, finalmente, ambos adentram o 
vestibulum da manso dos amigos Caius e Drusilla Antonia. A 
matrona foi quem primeiro os viu, que chegavam extremamente 
exaustos, descalos, sujos de lama e de fuligem at os olhos e com as 
roupas em frangalhos. 
-Oh, graas a Deus!... -exclama ela, correndo-lhes ao encontro. Jesus 
ouviu-nos as preces!... Como esto, filhinhos meus?... -pergunta 
ela, agora abraando-se a eles e os beijando efusivamente. 
-Oh, Drusilla!... Drusilla!...  exclama Susanna, em lgrimas. -Que 
horror, querida me!... 
-Deus seja louvado, minha adorada!... -brada a matrona, abraando 
a mocinha. -Tremia de tanto desespero, imaginando-te morta 
no fogo!... Como pudeste sair sozinha?!... 
-Perdoa-me, querida! -exclama Susanna, em lgrimas. -No podia 
imaginar que tal tragdia ocorreria hoje!... 
-E onde se encontra o general? -pergunta Flavius. 
-Caius auxilia Rufus e os outros, na comunidade -responde Drusilla 
Antonia. -O fogo destruiu tudo e  preciso reconstruir, sem 
delongas! 
-E as pessoas? -pergunta Flavius. -Houve muitas mortes? 

#
-Infelizmente, muitos morreram, querido!... -exclama Drusilla 
Antonia, com os olhos mareados de lgrimas. -Eu e Caius encontrvamo-
nos l quando tudo comeou e, como loucos desesperados, 
conseguimos conduzir os que podiam caminhar at um campo 
aberto prximo dali; entretanto, muitos bebs e enfermos que no 
podiam locomover-se foram terrivelmente tragados pelas chamas 
inclementes!... No houve como salv-los!... 


-Miservel monstro!... -diz Flavius entre dentes. -Quem imaginaria 
que suas monstruosidades chegariam a esse ponto?... 
-Por que dizes isso, meu filho?... -pergunta a matrona, sem 
entender o significado das palavras do rapaz. 
-Flavius viu os soldados atearem fogo  cidade, cara Drusilla!... 
-diz Susanna, com os olhos cheios de lgrimas. -E no fosse a 
interveno miraculosa de meu amor, tambm eu no teria 
escapado, pois me encontrava bem no centro da cidade, quando 
tudo comeou!... E os soldados de Nero impediam-nos de fugir, 
bloqueando as ruas com suas lanas em riste!... 
-Que horror!... -exclama Drusilla Antnia, terrifiada. -Ento foi 
ele?!... 
-Podes ter a absoluta certeza de que tudo partiu dele, minha cara!... 
-exclama o rapaz, cheio de indignao. 
-Mas, a troco de qu?!... -exclama a dama patrcia, inconformada. 
-Mas, o imperador  um monstro!... Ser que tem conscincia de 
que mandou assassinar metade de Roma, de forma to covarde? 
-Se considerares que os doidos possam, eventualmente, ter conscincia. 
.. -observa, ironicamente, o rapaz. -Entretanto, logo 
saberemos qual  o real motivo que se oculta por trs dessa 
monstruosidade!... 
-Agora, entretanto, faz-se mister que vos banheis, tomeis alimento e 
repouseis, meus queridos!... -diz Drusilla Antnia. -Devemos render 
graas a Deus por permitir que retomassem sos e salvos! 
A seguir, os jovens abluram-se, trocaram as vestes, tomaram substanciosos 
alimentos e repousaram por vrias horas. Mais tarde, 


#
quando a noite j caa, enfeitando o cu de mirades de faiscantes 
estrelinhas de brilhante puro, totalmente refeitos do terrvel 
impasse sofrido, Flavius e Susanna, fortemente abraados um ao 
outro, conversavam, recostados numa pilastra do peristylium. O 
jardim exalava odores variados, e uma diversificadssima orquestra 
de insetos executava desafinada, mas vivaz sinfonia. 
-Ainda me custa crer que consegui tirar-te daquele inferno, meu 
amor!... -diz ele, beijando, ternamente, as mos dela. 


_ Fizeste isso, porque s forte como um urso!... -exclama ela, 
beijando-lhe as faces, repetidas vezes. 
-Entretanto, algo intriga-me, Susanna!... -diz ele, olhando-a nos 
olhos. -Aquele homem que me indicou o caminho at onde tu 
estavas!... E me disse que me chamavas!... 
-Estranho isso, porque a ningum pedi para chamar-te!... -observa 
ela. -Sequer imaginava que te encontravas por ali!... 
-Sim -prossegue ele, altamente intrigado -, e o homem guiou-me, 
com perfeita segurana, at onde te achavas; entretanto, depois de 
ver-te, virei-me para ele, a fim de lhe solicitar ajuda para sairmos 
dali, mas o sujeito, simplesmente, havia desaparecido!... 
-Como era esse homem? -pergunta Susanna. 
-De meia idade, alto, com longas barbas... Porm, o que me chamou 
a ateno nele foram os olhos!... Profundos olhos azuis, to 
brilhantes como o cu!... 
Susanna Procula riu-se. J conhecia aquele homem... 
-Se te disser algo, no te zangars comigo?...  pergunta ela, 
olhando-o, firme, nos olhos. 
-E por que haveria de zangar-me contigo?...  diz ele, estranhando-
lhe a pergunta. 
-Eu, na realidade, j conhecia esse homem!... Foi ele que, a mando 
de Jesus, salvou-me da morte!... 
Flavius Antoninus nada responde. Limita-se a olh-la, srio, nos 
olhos. Agora, j tinha algumas dvidas a roerem-lhe o crebro, 
acerca daquelas estranhas coisas que vinham acontecendo por ali. E 


#
se Susanna e os outros tivessem razo?... Coisas realmente estranhas 
estavam acontecendo a eles, ultimamente... Coisas que comeavam 
a faz-lo pensar, seriamente, sobre a veracidade dos fatos. Tinha de 
investigar tudo aquilo e investigar minuciosamente... 

***** 
Rodeado de bajuladores, Nero encontrava-se inconsolvel quela 
manh. J houvera gritado, feito uma srie de escndalos, 

esmurrando, violentamente e at cansar-se, as faces de um escravo, 
quebrando-lhe o nariz e, ainda, apunhalara, ferozmente, um outro 
que lhe houvera respingado vinho  clmide de imaculado linho 
branco. Decididamente, o cido mau humor que o acometia tinha 
um motivo. E era um motivo bem srio! 
-Calhordas!... Malditos miserveis!... -gritao imperador, possesso e 
espumando de raiva. 
-Dizeis, ento, Majestade, que vos culpam pela tragdia?!... ~ 
exclama um bajulador, fingindo alta indignao. 
-Sim!... Sim!... Querido Crispinus -exclama Nero, desman-chando-se 
em lgrimas. -O senado inteiro acusa-nos de termos planejado 
tudo!... E conspiram!... 
-E nada fareis contra tal calnia, Majestade?... -observa um outro 
conviva de Nero. 
-Que faremos, Rufinus!... -brada o imperador. -Acaso devemos 
ordenar aos pretorianos que invadam o senado e passem aquela 
scia de bandidos todos, a fio de espada?... 
-No achamos que devais chegar a tanto, Majestade!... -exclama 
um dos bajuladores. -No vos deveis esquecer de que o senado 
ainda representa o povo!... Se acabardes com os senadores, certamente 
tereis todo o povo contra vs!... E, infelizmente, j se 
espalham boatos de que tudo partiu, realmente, de vs... 
-So eles, os senadores!... -grita, estentreo, Nero. -Os canalhas que 
espalham essas mentiras!... Querem a minha cabea, porque lhes 
cortamos o quinto sobre todo o comrcio do azeite e do vinho!... 
Mas, no perdem por esperar!... Mat-los-emos, um a um!... 

#
-Majestade!... -diz Iulius Maximus que, at ento, mantivera-se 
calado, apenas observando o desenrolar dos fatos. -Acho que tenho 
uma soluo para esse impasse que vos atormenta! 
-Oh, dizei, ento!... Dizei logo, nobilssimo Iulius Maximus!... exclama 
o imperador, correndo at onde o jovem patrcio se sentava 
e, tomando-o nos braos, beija-o, efusivamente, s faces. 
-Os cristos, Majestade!... -diz o rapaz, piscando um olho para o 
imperador. -Esquecei-vos, acaso, de que foram os execrandos 
cristos que atearam fogo  nossa amada cidade, provocando to 
terrvel desgraa? 

-Oh, que cabea, a nossa!... -exclama o imperador, dando um fundo 
suspiro de alvio. -Esquecamo-nos, totalmente, de que sabamos, 
antemo, que os demnios cristos planejavam destruir-nos a 
todos!..-Oh,  por isso que vos amamos tanto, nobilssimo Iulius 
Maximus!... -exclama o imperador, abraando e beijando o rapaz, 
repetidas vezes, s faces. E prossegue, em altos brados: -Escribas, 
anotai!...''Nossa Graa, Nero Claudius Caesar, fazemos decretar, a 
partir da presente data, proscrito o Cristianismo, em todo o Imprio, 
e todos os cidados que se declararem, publicamente, sectrios 
dessa seita sero passveis de encarceramento, julgamento e 
condenao  morte!..." 
Iulius Maximus remexe-se em sua cadeira. Inchava-se de satisfao. 
Um sorriso malvolo brota-lhe, ento, nos lbios. Pronto!... Sua vingana 
iria, finalmente, consumar-se por completo!... Os malditos 
no perderiam por esperar!... 
-E vs, nobilssimo Iulius Maximus -prossegue o imperador, 
solenemente -, tereis, doravante, por acrscimo de vossa renda 
pessoal, novecentos milhes de sestrcios, anualmente pagos pelo 
governo, como tributo a vossa genial participao como conselheiro 
permanente do Imprio!... Agora, ao convivium!... 
E o grupo de bajuladores segue o imperador at um dos inmeros 
sales de festa do palcio, pois o fantstico banquete, que alija os 
aguardava, prometia durar vrios dias... 

#
***** 


O decreto do imperador Nero caiu como uma bomba sobre as 
comunidades crists, no s nas igrejas da capital, Roma, mas 
tambm em todas as das provncias, onde a guia Conquistadora 
mantinha cravadas as suas possantes garras!... Fazia, j, sessenta e 
cinco anos, desde a morte de Jesus, e a nascente doutrina angariava 
proslitos em todos os cantos do mundo, com sua sublime e renovadora 
Mensagem de F e de Esperana!... E ali, em Roma, por ser a 
capital do mundo da poca, e para onde confluam pessoas de todas 
as partes, o Cristianismo firmava-se, uma vez que as perseguies, 
iniciadas pelo imperador Claudius,2 algumas dcadas antes, foram 
motivadas apenas pelo preconceito contra certa casta de judeus, 
tidos como fanticos seguidores de uma seita perigosa que 
disseminava "supersties malficas", por todo o Imprio. Os 
romanos haviam promovido, a princpio, cruel perseguio aos 
seguidores de Cristo, com o intuito de promoverem uma "limpeza 
tnica", como costumavam fazer, para impedirem que grupos afins 
se juntassem e, eventualmente, revoltando-se, colocassem em risco a 
segurana do Imprio. Havia leis rigorosssimas que impediam 
qualquer tipo de agremiaes, associaes ou de reunies de 
indivduos pertencentes ao mesmo gmpo trabalhista ou racial, como 
os sapateiros, os padeiros, os aguadeiros, os gauleses ou os judeus... 
Se teimassem em se juntar, para promoverem qualquer tipo de 
manifestao ou de reivindicao, eram imediatamente sufocados, e 
a punio era severa: nada menos que a crucificao!... Entretanto, o 
prprio imperador Claudius declarara, publicamente, no ver, 
pessoalmente, nenhum risco na nova seita e ordenara a suspenso 
da perseguio e da matana dos cristos. Fora assim que as 
comunidades crists, livres da ameaa que as rondava, floresciam e 
se multiplicavam, at aquela fatdica data em que, novamente, para 
livrar-se das acusaes que lhe faziam o senado e o povo, Nero 
resolvera culpar os cristos da infmia que cometera, ao incendiar 

#
Roma e, conseqentemente, assassinando milhares de patrcios 
seus, de forma to brutal! 
A notcia espalhou-se como rastilho de plvora!... Imediatamente, 
ordens de priso foram dadas, e recompensas para denncias e delaes 
de comunidades crists foram fixadas. 
No singelo grupo de cristos a que Drusilla Antnia e Caius pertenciam, 
o trabalho de reconstruo do templo, da enfermaria e do 

2. Tiberius Claudius Caesar Augustus Drusus Germanicus (10 a.C -54 d.C), imperador de 
Roma e antecessor de Nero. 
berrio recomeara de forma lenta e dificultosa. No fora a ajuda 
material que o general e a esposa dispensavam, dificilmente conseguiriam 
voltar s atividades normais, em no menos de um ano de 
lutas e de sacrifcios inominveis!... Entretanto, sob a diligente e 
firme orientao de Rufus, aliada  expressiva contribuio 
pecuniria que o casal de patrcios, amorosamente, colocava  
disposio da comunidade, as antigas atividades de culto e oraes 
e de assistncia aos necessitados -agora mais miserveis e mais 
numerosos que antes! -recomeava. Apenas que, mais um casal 
passava a freqentar, assiduamente, aquela comunidade: Flavius e 
Susanna que, completamente refeita dos dois terrveis incidentes 
pelos quais recentemente passara, resolvera, de vez, declarar-se 
crist e se juntara aos seus tutores, devotando-se a estudar e a 
praticar os ensinamentos de Jesus 

. J o rapaz, seu noivo, seguia-a, porque gostava muitssimo dela e 
queria v-la feliz. No que duvidasse ou que ainda no aceitasse as 
verdades crists, que surgiam como verdadeiro refrigrio, trazendo 
luz e esperana para uma poca em que as criaturas invariavelmente, 
tanto os pobres quanto os ricos -viviam 
mergulhadas num mar de dissoluo e de libertinagem!... Uma 
interminvel avalancha de corrupo, nos poderes constitudos, 

#
sangrava, descaradamente, o errio pblico; a cnica inverso dos 
valores sociais favorecia o apadrinhamento e o nepotismo; o 
banditismo alastrava-se de forma incontrolvel, gerado pelo 
descaso das autoridades quanto  misria extrema que grassava por 
todos os lados e cercava uma minoria de patrcios parasitas, 
escandalosamente ricos e esbanjadores, e que humilhava, 
constantemente, a indecente pobreza que a rodeava qual imensa e 
terrvel coroa de espinhos, amontoada em bairros misrrimos e 
desprovida de tudo!,.. O mundo de ento estava cansado de tanta 
injustia!... E a inefvel mensagem do Evangelho de Jesus vinha, 
exatamente, ao encontro dos que andavam aflitos e 
sobrecarregados, em busca de alvio!...3 Muitos j se cansavam de 
serem enganados pela astcia dos espertalhes que governavam as 
riquezas que deveriam pertencer a todos!... "Panem et circenses "4 era 
a ordem dada pelos poderosos para acalmarem os nimos da 
turbamulta que, perigosamente e em nmero infinitamentemaior 
que eles, rodeava-lhes as mirficas manses e as villae luxuosas! 
Quando percebiam que as multides no iriam mais suportar, e que 
estourariam qual manada incontrolvel, e que eles, os rapiadores 
do dinheiro pblico, seriam os primeiros a pagarem o preo pela 
misria a elas imputada, pousavam, ento, de magnnimos, e se 
punham a distribuir alimentos e a promover exuberantes 
espetculos pblicos, engambelando, assim, indefinidamente, a f 
das massas ignaras!... Era a doao das migalhas que lhes 
sobejavam das mesas fartas! 

Jesus viera no tempo certo. Sua Mensagem trazia paz aos coraes 
esbraseados pela revolta; promovia esperana aos desesperanados 
e consolo aos aflitos!... E ia mais alm: ousadamente, recomendava, 
ainda, o perdo s ofensas5 e o amor aos inimigos!6... Tais ensina


5 Evangelho de S Mateus, 5. 44 
6 Evangelho de S Lucas, 6. 35 

#
mentos eram, de fato, grande inovao, num mundo totalmente 
materializado e onde a lei de talio vigia com plena intensidade! 
O jovem Flavius Antoninus, embora fosse de famlia patrcia e, 
conseqentemente, nunca houvesse tido problemas com dinheiro, 
sempre sentira um vazio dentro de si, em questo de f. Fora 
educado pelo av, na religio tradicional de sua ptria, devotando-
se ao culto dos deuses do Panteo, entretanto sentia que algo lhe 
faltava. Acompanhando Susanna aos cultos no templo cristo, 
passara a ouvir, com ateno, as pregaes de Rufus e encontrara 
nelas lgica irrefutvel, infinitamente maior que aquela pertinente 

3. Evangelho de S. Mateus, 11.28 
4-"Po e circo", em latim. 
ao frio e exterior culto devotado s divindades que tanto orgulho 
traziam ao povo romano. Luxo e ostentao eram as nicas 
manifestaes que realmente se encontravam nos muitos templos 
espalhados por toda a Roma. Flavius no conseguira encontrar 
explicao plausvel para o estranho fato que lhe ocorrera no dia do 
fatdico incndio, mas, ali, no templo cristo, embora o ambiente 
fosse de humildade mpar, sentia-se bem. Solicitara a Rufus 
explicao para o estranho fenmeno, entretanto o pregador cristo 
limitara-se a responder-lhe: "Jesus dar-te- a resposta. No te 
aflijas!" 
Naquela tarde, todos se encontravam reunidos, trabalhando, arduamente, 
na reconstruo das edificaes destrudas pelo incndio, 
quando um dos membros da fraternidade aproxima-se, esbaforido, 
quase a estourar-se pelo esforo que fizera, ao vir correndo do que 
fora, outrora, a praa do Frum. 
-Irmos!... Acorrei, depressa!... -exclama ele, esforando-se para 
respirar. -Tenho pssimas notcias a dar-vos! 
-Dizei, irmo Silvinus!.. -exclama Rufus, aproximando-se, juntamente 
com os demais irmos da fraternidade. -De que se trata? 

#
-Estava na praa do Frum, quando ouvi os pregoeiros imperiais 
anunciando por todos os lados!... -exclama o homem, com a voz 
entrecortada pela apnia do esforo. -E tambm pregavam cartazes 
nas runas das paredes, dizendo o mesmo!... Irmos, o imperador 
decretou nova perseguio aos cristos!... Culpa-nos pelo incndio 
da cidade!... 
-Oh, amantssimo Jesus!... -exclama Rufus, caindo de joelhos. E, 
extremamente emocionado, levanta os braos aos cus e, com voz 
splice, continua: -Senhor nosso, sabemos que se avizinha a hora 
de Vos darmos o nosso testemunho!... Fortalecei a nossa f e no nos 
deixeis fraquejar, nestas horas difceis que se aproximam!... 
Os demais, premidos pela emoo do pregador, tambm se deixam 
cair de joelhos e, dando-se as mos, seguem-lhe as palavras, 
altamente comovidos. 
Caius e Drusilla Antnia entreolham-se, preocupados; Flavius e 
Susanna abraam-se fortemente. Ser que at eles pagariam pelo 
preo de serem cristos?... Caius Petronius Tarquinius tinha a certeza 
de que, se delatados, no seriam poupados; conhecia de sobra o 
monstro que assinara aquele decreto, culpando os inocentes 
cristos. Nero, espertamente, eximia-se, assim, de to nefasto crime 
que ele mesmo houvera cometido... 

Captulo XI 
O incio das dores 


Apesar da encarniada perseguio que Nero promovera aos 
cristos, Caius, Drusilla Antnia, Susanna e Flavius no deixaram de 

#
participar das reunies que Rufus promovia, para pregao do 
Evangelho de Jesus e a realizao de curas fantsticas, que deixavam 
todos extasiados, diante da ostensiva manifestao do Poder Maior 
que se fazia, sem cessar, conforme as orientaes que dera o Mestre 
Nazareno a seus fiis seguidores: "Restitua sade aos doentes, 
ressuscitai os mortos, curai os leprosos, expulsai os demnios... "l 
Enquanto Nero perseguia, encarcerava, torturava e matava, Jesus 
curava... 
Alguns dos apstolos de Jesus, que ainda se encontravam vivos  
poca, solidarizavam-se com a dor de seus companheiros 
perseguidos e, amide, enviavam cartas ao grande nmero de 
igrejas j existentes, com o intuito de reforar-lhes a f!... Passando 

I. Evangelho de S. Mateus, 10.8 
por Roma, nessa terrvel poca, Paulo, o insigne Apstolo dos 
Gentios, visitara todos os ncleos cristos, um a um, sem exceo, e, 
com sua grande sabedoria, aliada s inflamadas pregaes que lhe 
inspiravam o prprio Cristo, trouxera-lhes oportunssimas 
orientaes, sendo ele mesmo, Paulo, o exemplo verdadeiro e 
sustentculo vivo da f, diante da extrema provao e testemunho 
que aguardavam os proslitos do Cristianismo nascente!... E, foi sob 
a orientao do prprio Jesus, que as reunies passaram a realizar-
se, s escondidas, principalmente, ao longo dos interminveis e 
abafados tneis, nas temidas catacumbas -ttricas escavaes, nos 
subterrneos de Roma, onde se sepultavam os mortos!... 
Por algum tempo, aqueles seriam lugares relativamente seguros 
para a realizao dos cultos cristos, uma vez que a maioria dos 
cidados comuns -cheios de superstio, em relao s coisas da 
morte -procuravam evitar essas localidades, mormente  noite. 
Entretanto, muitos j haviam sido presos por professarem a seita 
proscrita; as prises encontravam-se abarrotadas e, uma semana 
apenas, aps a promulgao do decreto de Nero, numa tarde de 

#
final de outono, o Circus Maximus encontrava-se superlotado de 
ululantes expectadores. Extraordinrio espetculo anunciava-se: o 
imperador havia condenado algumas centenas de cristos  morte! 
Caius, Drusilla Antnia, Susanna e Flavius encontravam-se entre os 
expectadores da terrvel carnificina que aconteceria naquela tarde. 
Nervosos e preocupados, sabiam que o testemunho dos primeiros 
condenados ao suplcio mximo, naquela segunda tentativa de 
exterminar o Cristianismo, no seria nada fcil!... Aproximadamente 
cem pessoas encontravam-se, j, colocadas na grande arena. 
Ajoelhados e em silenciosa e ardorosa prece, homens, mulheres, 
velhos e crianas angariavam foras para suportarem o terrvel fim 
que os aguardava!... E os haviam deixado ali, demoradamente, de 
propsito, para escrnio da multido que, entre divertida e 
enfurecida, gritava-lhes insultos e improprios terrveis, 
convencidos serem eles, os cristos, os responsveis pelo nefando 
incndio que lhes destrura as casas e lhes matara parentes e 
amigos!... 
Ansiosa, a turba aguardava por vingana!... Apenas o camarote 
imperial encontrava-se vazio!... Nero demorava-se de propsito. 
Aconselhado pelos fiis bajuladores a deixar o povo inflar-se ao 
extremo e se fartar de execrar os pretensos culpados, a ele, Nero, 
caberia, depois, receber os aplausos e as ovaes pelo extraordinrio 
espetculo!... Que excelente sada encontrara para safar-se das 
acusaes de incendirio de Roma!... E, ainda por cima, passava-se 
por heri nacional!... 
Por fim, as trompas soam fortes, anunciando a chegada do imperador. 
A multido cala-se e, como se conduzida por invisvel 
regente, volta-se em unssono para o camarote imperial. A figura 
redonda de Nero surge, extravasando orgulho e satisfao; vinha 
acompanhado da imperatriz Popeia Sabina e de mais meia dzia de 
seus mais fiis bajuladores. 
-Vede!... -exclama Susanna. -Iulius Maximus acompanha o squito 
imperial! 

#
-Verme infame!... -murmura Flavius Antoninus, entre dentes. 
-Encontra-se escondido sob a proteo de Nero!... -exclama Caius. 
L no alto, Nero continuava acenando para a multido que explodira 
em aplausos e ovaes, assim que ele chegara. Depois de 
haurir, inchado de orgulho, as homenagens que lhe prestava o 
povo, Nero recosta-se num rico canapeum ao lado da imperatriz e, 
com um significativo gesto de cabea, ordena ao mestre-decerimnias 
que se iniciassem os espetculos. E, ento, como se 
fortssimos troves ribombassem, estrondeiam as trompas e rufam 
os tambores. A multido delira, apupando, furiosamente, os 
condenados que, de joelhos e tomados de ardorosa e inexplicvel 
coragem, pem-se a cantar um hino a Jesus. Os portes gradeados 
que guardavam as jaulas das feras so abertos, e os animais, 
enfurecidos pelo rudo ensurdecedor e premidos pelo jejum forado 
de vrios dias, atiram-se, inclementes, sobre aquelas pobres 
criaturas, despedaando-as, bestialmente, e lhes devorando as 
carnes ainda trmulas, de forma terrificante!... Que espetculo dantesco 
aquele!... A que ponto pode chegar o homem, quando mal 
direcionado no curso de sua vida e quando desconhece, ainda, o 
real significado de sua existncia sobre o mundo!... Quanto mal a 
ignorncia pode fazer s criaturas!... E, com que famigerado prazer, 
as pessoas ainda se locupletam com as bestialidades e com os 
vcios!... E por isso que a iluminao do Esprito  to custosa!... 
Alicera-se sobre as experincias, sobre os erros e os acertos!... 
Assim age a Divina Pedagogia que, a duras e cruis penas, 
promovidas pela presena constante da dor, vai aparando as 
praganas do ser; vai, incansavelmente, burilando, limando a alma, 
atravs do interminvel tempo, na seqncia das reencarnaes que 
se sucedem at que, l no termo de sua jornada, o Esprito, 
finalmente despojado de toda a animalidade, apresenta-se 
realmente humanizado, sbio e rutilante de Luz!... 

-Vamos-nos daqui!... -exclama Drusilla Antonia, em pranto e 
altamente chocada. -No suporto mais ver tanta monstruosidade! 

#
-Sim, vamos-nos!... -concorda Susanna. - terrvel demais tudo 
isso!... 
Levantam-se e saem os quatro. L embaixo, na arena, a carnificina 
continuava. Nova leva de condenados haviam sido atados a postes 
e, tendo os corpos untados com betume, atearam-se-lhes fogo e, 
agora, ardiam como tochas vivas, iluminando a noite que caa!... 
Entretanto, no se ouviam deles nenhum gemido, nenhum 
xingamento ou imprecao; ningum fugira  morte horrenda; 
nenhum dos condenados acovardara-se ou suplicara misericrdia 
ou apostatara, quando, num ato de pretensa magnanimidade do 
imperador, propuseram-lhes a oportunidade de abjurarem a crena 
que professavam!... Em vez disso, todos os condenados, 
unanimemente, apresentavam serenidade mpar e cantavam hinos, 
cheios de jbilo, fato que os algozes no conseguiam entender!... E 
que seus olhos no podiam ver do outro lado, no mundo dos 
Espritos, onde magnificente espetculo de esplendorosas luzes 
acontecia, em honra daqueles mrtires: Jesus, em pessoa, estava ali, 
acompanhado de toda a Sua magnificente corte celestial, recebendo 
os Seus amigos supliciados e os acolhendo, amorosamente, um a 
um, em Seus amantssimos braos! 
-Essa sucesso de horrores prolongar-se- noite adentro!... exclama 
Caius. -O demnio no se cansar to facilmente!... Isso  
apenas o comeo!... Temo que nossa vez ainda chegar!... 
-Oh, meu querido!... -diz Drusilla Antonia, abraando-se ao esposo. 
-No sei se terei fora suficiente para dar tamanho testemunho!... 
-Quando chegar a tua vez, Jesus d-la- a ti, minha cara!... -diz o 
general, beijando a esposa, ternamente,  face. -Tem f!... Notaste 
que ningum abjurou?... No te estranhou esse fato?... Pois eu sei:  

o poder da f, a certeza de que o Divino Mestre a ningum 
abandonar! ... Ele no nos prometeu que quem permanecesse fiel 
at o fim seria salvo?... A tens a constatao! 
Durou, porm, pouco tempo, a segurana das catacumbas para os 
cristos!... Delatados, foram tambm l perseguidos e presos pelos 

#
soldados que passaram a fazer incurses noturnas por aqueles 
ttricos lugares e, uma vez surpreendidos em reunio, os seguidores 
do Mestre Nazareno eram, impiedosamente, presos e condenados  
morte por suplcio. Os mais abastados, quando aprisionados, 
conseguiam, s vezes, subornar os comandantes das milcias e eram, 
dessa forma, libertados; para os mais humildes, entretanto, no 
existia nenhum apelo. Restava-lhes a terrfica morte na arena do 
Circus Maximus ou a horrenda crucificao!... Os caminhos que 
conduziam a Roma estavam ladeados de cruzes, por quilmetros 
incontveis, tamanho era o nmero dos sentenciados!... A morte por 
crucificao era terrvel e extremamente dolorosa, promovendo ao 
condenado uma agonia que durava vrias horas e, at mesmo, dias 
de sofrimento inominvel e de dores excruciantes, alm da sede 
inclemente!... Os supliciados no podiam receber qualquer espcie 
de ajuda dos parentes, dos amigos ou dos transeuntes, sob pena de 
serem eles, os auxiliadores, tambm presos e condenados  mesma 
pena! 
Porm, mesmo sob severa perseguio, o nmero dos seguidores de 
Jesus aumentava. O ncleo de Rufus abandonara o singelo templo, 
que fora violentamente destrudo por populares enfurecidos, 
envenenados pela calnia que sobre os cristos o imperador Nero 
lanara, culpando-os pelo nefasto incndio que destrura a quase 
totalidade da cidade. Mas, no haviam desistido. Agora, e sempre 
sobre a amorosa proteo de Rufus, que outrora fora seguidor de 
Pedro, o apstolo de Jesus, o grupo reunia-se em lugares variados, 
mormente nas casas dos proslitos, evitando, assim, serem 
surpreendidos pela milcia que, incansavelmente, caava os que 
professavam a seita proscrita. A f de Drusilla Antnia e de Caius 
crescia mais e mais,  medida que o tempo passava, pois 
testemunhavam, diuturnamente, a ostensiva manifestao do poder 
de Jesus, por meio de seus incansveis missionrios. Quanto mais o 
furor de Nero abatia-se sobre os perseguidos cristos, mais Jesus se 
mostrava, atravs de extraordinrios milagres de curas at ento 

#
inconcebveis quelas mentes embotadas e endurecidas pela crua 
descrena que lhes propiciara o materialismo e a degradao d 
moral e dos costumes que as tinha dominado at a vinda do Mestre 
Nazareno!... Nunca, antes, houvera acontecido tais coisas sobre a 
Terra!...  que o mundo andava to atolado na lama da imoralidade 
e da viciao que muita luz houve de ser derramada para fazer 
frente a tanta misria moral!... E somente sob a responsabilidade de 
um Ser do porte de Jesus  que se encontrava o poder para resgatar 
as criaturas do infame abismo em que se haviam arrojado!... 
Susanna e Flavius, passado o medo inicial da perseguio, pois o 
homem acaba acostumando-se at as situaes mais terrveis, reso 
veram casar-se. E levaram a pblico seu desejo de unirem-se em 
matrimnio, despachando mensageiros a convidarem grande parte 
do patriciado para a festa de casamento que aconteceria na villa de 
Caius e Drusilla Antnia. 
-Ela vai casar-se com aquele maldito, Majestade!... -exclama, 
furioso, Iulius Maximus a Nero que acabava de receber um convite e 

o vinha mostrar, agitadssimo, ao rapaz, que agora se tornara seu 
companheiro favorito. 
-Infelizmente, vai. carssimo!... -diz o imperador, divertindo-se s 
pampas, com a exasperao do outro. -E ns iremos  festa! 
-Vs ireis, Majestade!... -exclama o rapaz, furibundo. -Eu no 
suportaria v-la nos braos daquele miservel!... 
-Oh, caro Iulius!... -diz o imperador, pegando-o pelo brao. No 
nos agrada ver-te assim desesperado!... Deixa por nossa conta!... 
Que se casem!... H inmeras maneiras de se acabar com um casamento!... 
Toma o nosso exemplo!... Viste como nos livramos, facilmente, 
de 0tav/a?...Ns no a amvamos!... Apaixonamo-nos por 
Popeia Sabina, embora fosse casada!... Que fizemos, ento?... 
Tornamo-la viva!... Ha!... Ha!... Ha!... Ha!... 
-Mas no posso matar o marido de Susanna!... -exclama o rapaz, 
altamente contrariado. 
#
Que te impede de mat-lo? -pergunta Nero, enlaando-o pelo scoo. 
-Acaso tens medo dele?...  mais forte do que tu?... ^ L No, 
Majestade -responde Iulius, agastando-se com as palavras do 
imperador-, no temo aquele miservel!... Apenas que, se o mato, 
Susanna no me querer, nem banhado em ouro!... Conheo-a de 
sobra! 
-Ha!... Ha!... Ha!... Ha!... -explode Atero numa gargalhada.-Ests 
deveras apaixonado, prestimosssimo amigo!... E um homem 
apaixonado torna-se frgil, no consegue pensar direito!... Mas, 
deixa, que pensaremos por ti!... Sobre tais coisas, temos bastante 
experincia!... -diz o monarca de Roma, piscando, marotamente, 
um olho. -Repetimos-te: h mais de uma maneira de se acabar com 
um casamento!... 
-Como faremos, Majestade? -pergunta o rapaz, altamente interessado 
nos planos de Nero. 
-Se temes que ela te rejeite, caso venhas a matar-lhe o noivo, 
faamos com que briguem!... -diz o imperador a Iulius. -Deixemos 
at que se casem, pois ser ainda melhor!... Vir, ento, o divrcio e, 
como sabes, as separaes litigiosas costumam suscitar mais brigas 
ainda e, ento, no corrers o risco de v-los reatarem o relacionamento!... 
Os divrcios costumam gerar dios eternos!... 
-Esplndido, Majestade!... -concorda o rapaz, com intenso brilho 
nos olhos. -Mas, como os faremos brigar?... De antemo, advirto-
vos de que so apaixonadssimos um pelo outro! 
-Isso veremos, carssimo Iulius!... -diz Nero, cheio de si. -No h 
paixo que resista ao cime!... Vamos espicaar o cime do marido!... 
 s introduzirmos a desconfiana no corao do esposo de 
tua eleita, e o resto surgir por si s!... No existe um s homem 
apaixonado que no se consuma de cime pela mulher amada!... 
Queres apostar conosco? 
-Ainda no entendi bem como fareis para separar a ambos observa, 
intrigado, Iulius. 

#
-Simplssimo, carssimo Iulius! -exclama o imperador, altamente 
excitado com a trama que urdia. -Ns fomos convidados para o casamento, 
no fomos?... Pois bem, como retribuio, enviaremos espetacular 
presente  noiva!... Mandar-lhe-emos rica cesta, recheada 
de formosas prolas e sabes quem ser o portador de tal presente?... 
O mais belo e o mais viril de nossos escravos pessoais!... E com as 
nossas especiais recomendaes de que o mensageiro tambm faz 
parte de nosso presente  noiva!... Ha!... Ha!... Ha!... Ha!... 
-Esplndido!...  exclama Iulius, felicssimo. -Quero ver se declinaro 
um presente pessoal do imperador de Roma!... 
-Ah, se ousarem fazer-nos tal afronta!... -observa Nero, divertido. Agora, 
vem e nos ajuda a escolher o rapaz mais propcio!... H de 
ser o mais formoso de todos!... Que dizes dos gregos?... Os escravos 
gregos so os mais especiais, no concordas?... Haver gente mais 
bonita que os helnicos?... E convm instru-lo a que se insinue  sua 
nova dona, ou nosso plano no vingar! 
-Sim -concorda Iulius -, dever ser um escravo que, alm de belo e 
viril, seja tambm inteligente, seno o nosso propsito de provocar 
cime quele miservel fracassar! 

***** 
Susanna olha, altamente desolada, para a esplndida cesta que 
recebia das mos de to formoso e garboso jovem amorenado que a 
olhava, fixamente, com um par de olhos negros e profundos. 
Qualquer mulher encantar-se-ia com a profuso de magnficas 
prolas que lhe enviava o imperador, como presente de 
casamento!... Mas, no ela!... Ainda mais que o presente no se 
resumia to somente s prolas: vinha acompanhado de um outro, 
deveras inoportuno!... Um escravo pessoal!... E que estonteante 
beleza tinha aquele rapaz seminu, de pele moreno-acobreada que, 
postado de joelhos, ali diante dela, parecia querer, ousadamente, 
devor-la, com aqueles imensos e profundos olhos negros como 
azeviche!... 

#
_ Como  o teu nome? -pergunta Susanna ao jovem escravo que 
teria dois ou trs anos mais que ela, apenas. 
_ Heracles, domina!...-responde o rapaz, abrindo um sorriso que lhe 
deixou aparecer os dentes grandes, brancos, bem feitos, enquanto 
fixava, penetrantemente, sua nova e belssima dona, com os olhos 
pejados de lascvia. 
-Tu no s romano -diz Susanna, observando que ele articulava as 
palavras com ligeira aspereza. 
-No, domina -responde ele, encarando-a, ousadamente, com o par 
de olhos negros brilhantes. -Eu sou grego... 
-Mas s to jovem ainda!... -exclama Susanna. -Como te tornaste 
escravo to cedo? 
-Fui aprisionado, aos doze anos de idade, juntamente com meus 
pais, depois que nossa aldeia foi queimada pelos soldados romanos 
-explica ele. 
-E onde esto teus pais? -pergunta Susanna. 
-No sei -responde o escravo. -Fomos separados, logo aps a 
nossa captura. 
Susanna olha para aquele homem que se postava diante dela. Doravante, 
ela era a dona de seu destino. Que coisa!... Nunca tivera 
escravos pessoais homens, s mulheres!... Embaraava-se, pois no 
sabia, de imediato, o que fazer com aquele. Encontrava-se sozinha 
em casa; Drusilla Antonia e Caius haviam ido ao encontro de Rufus, 
para discutirem assuntos concernentes  comunidade crist, e 
Flavius cuidava de seus negcios. Susanna teve mpetos de devolver 
aquele estranho presente a Nero, mas acabou refletindo. Seria 
melhor pedir a opinio de seus tutores e de seu noivo. No desejava 
precipitar-se e se mostrar indelicada logo com ele, o imperador, que 
poderia tomar como alta ofensa  sua pessoa e, ento, quem  que 
saberia o que poderia acontecer?... Ela era ainda to inexperiente 
nessas coisas!... 
-Heracles, tu ficars l fora, junto dos demais escravos -ordena ela, 
com a voz firme. -Nada tenho para fazeres agora!... 

#
O rapaz, num mpeto, lana-se de joelhos e, tomando-lhe a mo, 
beija-a, repetidas vezes, enquanto, ousadamente, encara-a com um 
olhar penetrante, carregado de encantamento. 
-No  preciso que manifestes, assim, a tua gratido -observa 
Susanna, retirando, abruptamente, a mo. -Agora vai!... -volta a 
ordenar, com mais energia  voz. 
Observando o porte garboso do escravo que deixava o triclinium, a 
jovem comeava a perceber que acabava de receber um grande problema. 
O rapaz mostrava-se impertinente, quase s raias da 
insolncia. Teria de mandar castig-lo, se aquelas efusivas 
demonstraes de carinho se repetissem. Que diria Flavius, ao 
deparar-se com escravo de tal aparncia e agindo daquela 
maneira?... O rapaz era realmente possuidor de estonteante beleza, 

o que certamente iria piorar as coisas... 
A tardezinha, chegam Drusilla Antnia e Caius, e Susanna narra-lhes 
o acontecimento daquele dia. 
-Nero prepara-nos alguma das suas! -exclama, preocupado, o 
general. 
-Oh, querido -diz Drusilla Antnia -, no creio que o imperador 
tenha feito isso de caso pensado!... Acho que quis apenas ser gentil! 
-No sei no!... -observa o general. -No te esqueas de que Iulius 
Maximus  hspede de Nero!... No achas que preparam alguma 
armadilha para Susanna e Flavius! 
-Acho, simplesmente, que o imperador demonstra deferncia pela 
neta de Cornlius, apenas isso!... -diz a matrona. 
-Queira Deus que tu tenhas razo, minha querida!... -completa o 
general. -De minha parte, ficarei de sobreaviso: tudo o que vem de 
Nero no  boa coisa!... 
Naquela noite, quando Flavius chega para visitar sua noiva, depara-
se com a intrigante novidade. Enfurece-se ao ver o escravo. Nero 
tinha razo: o cime picava-o! 
#
-Tu no ficars com esse escravo! -brada o rapaz, cheio de indignao 
pela afronta que lhe fazia o imperador. -E, por trs disso, 
podes estar certa de que se encontra aquele miservel do Iulius! 

-Acho que ests certo, meu amor! -diz Susanna, tentando acalmar 
seu noivo. -E eu no desejo, de forma alguma, ficar com esse 
escravo!... 
-Amanh, mesmo, iremos, pessoalmente, eu e tu, devolv-lo a Nero 
-brada, furioso, Flavius.-Quero ver a cara daquele miservel!..Tenho 
a certeza de que atendeu ao pedido de seu protegido!... 
-Tende calma os dois! -observa o general. -Conheo o imperador 
muito bem e acho que  exatamente isso o que ele deseja!... Achar 
um motivo para acabar com tua vida, Flavius! 
-Por outro lado -observa Drusilla Antnia, altamente preocupada -, 
se Susanna se desfizer do escravo, isso ser considerado como alta 
afronta ao imperador!... 
-Calma, calma!... -observa Caius. -Acharemos uma sada para esse 
impasse. -Por ora,  recomendvel que nada se faa ao escravo, pois 

o imperador estar de olho no destino que dermos a ele. 
Entretanto, mal surgia o dia seguinte, inusitada surpresa acontece 
ao casal Caius e Drusilla Antnia. Enquanto, despreocupadamente, 
tomavam o ientaculum, no triclinium, ainda bem de manhzinha, discutindo 
as atividades que logo mais desenvolveriam junto de Rufus 
e dos demais companheiros, so interrompidos por Iustus, o 
mordomo, que entra espavorido. 
-Domine, no imaginais quem se aproxima!... 
-Se no disseres, como vamos saber? -observa Drusilla Antnia. 
-Os batedores e, logo atrs, o squito imperial!... -diz o mordomo, 
com os olhos desmedidamente arregalados. 
-Nero, aqui?!... -espanta-se o general, levantando-se. -No veio 
visitar-me, nem mesmo quando eu estava  beira da morte!... 
-Hum!... -exclama Drusilla Antnia. - melhor nos prepararmos !... 
A vem confuso!... 
#
Neste nterim, o capito dos batedores adentra, intempestivamente, 
a sala e diz em altos brados: 
-General Caius Petronius Tarquinius, o serenssimo e majestoso 
prncipe de Roma, Sua Alteza Imperial Nero Claudius Caesar, manda 
informar-vos de que se encontra a caminho de vossa casa, com a 
finalidade de prestar-vos o favor de sua augusta visita! 


-Dizei a Sua Majestade que nosso humilde lar encontra-se  sua 
dignssima disposio! -observa Caius, com a voz firme. 
O soldado d meia volta e sai ligeiro. O general oferece o brao a 
Drusilla Antnia, e ambos encaminham-se at a entrada do vestibulum, 
para darem as boas-vindas ao indesejado visitante. 
-Que ser que esse bandido quer em nossa casa?... -cochicha a 
matrona ao ouvido do esposo. 
-Adivinho desgraas, minha cara!... -sussurra-lhe ele. 
-Salve, general Tarquinius!... -exclamao imperador, saltando, 
efusivamente, da esplndida quadriga que ele mesmo viera 
conduzindo. E prossegue, abraando o general e o beijando s faces: 
-Ficamos sabendo que vos encontrveis ligeiramente adoecido e 
nos dignamos a vir trazer-vos nossos excelentes eflvios para que 
vos restabeleais prontamente!... 
-Vosso gesto  deveras digno de um prncipe como vs, Alteza!... exclama 
o general. -E vos somos profundamente gratos, sinceramente, 
do fundo de nosso corao!... 
-Oh, Drusilla Antnia, querida!... -exclama Nero, agora vol-tando-se 
para a venervel matrona e a beijando efusivamente  face. E 
prossegue, segurando-lhe as mos: -Afina flor de nossa 
sociedade!... 
-Oh, sois por demais lisonjeiro, Majestade!... -exclama Drusilla 
Antnia, fazendo-lhe ligeira reverncia. 
-Entrai, Majestade!... -convida Caius. -Dai-nos a honra de sentar-
vos  nossa mesa!... Tomvamos aindao ientaculum!... 
-Provarei de vossa adega, general!... -diz Nero, adentrando o 
vestibulum. 


#
Um pequeno squito de bajuladores seguia o imperador que, 
curioso, olhava, minuciosamente, por todos os lados. Parecia que 
buscava algo. No grande e luxuoso vestibulum, Nero pra e pergunta, 
intrigado: 
-Curioso isso, general!... No mantendes a galeria de vossos 
ancestrais?... E vossos lares?... No cultuais nenhum deus?... 


Caius esperava por aquilo. Preparara-se para as respostas que o 
desgraado, certamente, far-lhe-ia, ao notar que sua casa no 
possua mais nenhum dolo. 
-Guardamos tudo, Majestade -responde, com tranqilidade. Como 
amanh comearemos a reforma da casa, achamos melhor 
guardar os preciosos dolos para que no se quebrassem! 
-Boa medida, general!... -responde Nero, de repente inflando-se de 
jbilo. Sabia que o outro estava mentindo. Tinha quase a certeza de 
que o general se convertera ao Cristianismo!... Que sorte!... Viera at 
ali para roubar uma ma e acabava de ganhar um pomar 
inteirinho!.. . Faltava-lhe, agora, ter a certeza absoluta. E prossegue, 
continuando a fingir que acreditara na deslavada mentira que lhe 
pregara o outro: -Dizei-nos, general Tarquinius, no vimos, at 
agora, nenhuma esttua nossa!... -e arremata, com um sorriso de 
triunfo nos lbios: -Ser que nos considerais persona non grata em 
vossa casa? 
-No jardim, Majestade!... -apressa-se Caius em responder. Ainda 
bem que no fizera a besteira de mandar destruir tambm a esttua 
daquele doido. E prossegue, com um fundo suspiro de alvio: Temos 
uma enorme, digna de vossa grandeza!... Se desejardes vla... 
-Depois!... -exclama, rispidamente, o monarca de Roma, e muda, 
inopinadamente, de humor. 
Caius e a esposa trocam um rpido olhar. Daquela haviam escapado 
por um triz!... Nero irritava-se. Contava descobrir, j, se o general 
era mesmo cristo!... Mas, que fazer, se o espertalho mantinha uma 


#
esttua dele, Nero, no jardim?... Pacincia!... Teria de investigar e 
confirmar suas suspeitas mais tarde. 
-Dizei-nos, querida Drusilla Antonia -prossegue Nero -, onde se 
encontra vossa tutelada, a noiva?... Desejaramos, imensamente, 
conhec-la! 
Drusilla Antonia troca um ligeiro e desesperado olhar com seu 
esposo. 
-Ordena que chamem nossa querida filha! -diz Caius para a esposa, 
tranqilizando-a, assim. 


Pouco depois, a jovem adentra o triclinium, atendendo ao chamado 
de seus tutores. Havia percebido a estranha movimentao na casa, 
quela manh, e informada pelos escravos da inusitada visita que 
recebiam, resolvera permanecer em seu cubiculum para no ter de 
avistar-se com Nero. Entretanto, se o imperador fazia questo de vla, 
tinha de obedecer. 
-Majestade!... -exclama Susanna, fazendo longa mesura diante do 
imperador. 
-Oh, s linda!... -exclama Nero, encantando-se com a graa 
dajovem. 
-Desejo agradecer-vos o excelente presente que vos dignastes 
enviar-nos, Majestade!... -diz Susanna. 
-Ora vemos o quanto fomos mesquinho em presentear-te, minha 
cara!... -diz New. -Se, ao menos, imaginssemos o quanto eras 
graciosa e bela, nosso presente teria sido bem outro!... -e, lembrando-
se da real finalidade de sua visita ali, pergunta: -E, a 
propsito, apreciaste, tambm, o escravo com que te 
presenteamos?... Mas, queridinha, no o vemos a teu lado!... Acaso 


o desdenhaste?... No gostaste dele?... -pergunta New, fingindo 
estar altamente indignado. 
-Oh, no, Majestade!... -exclama Susanna, percebendo que deveria 
haver algo por trs daquilo tudo. - que nunca tive escravos 
pessoais; s escravas! 
#
-Entretanto, agora que sers uma senhora casada, devers ter um 
ou dois!... -exclamaNew, rindo-se. E prossegue: -E, a propsito, 
posso ver o escravo?... Amenos que j te desfizeste dele!... 
-Oh, no!... -responde Susanna. -V-lo-eis, por certo! -e ordena que 
trouxessem Hracles. 
Pouco depois, o escravo adentra o recinto e se arroja ao solo, diante 
de Nero que se sentava em luxuoso cadeiro marchetado em ouro e 
marfim, e lhe enlaando, arrebatadamente, as pernas, com os braos 
possantes, passa a beijar-lhe, devotadamente, os ps. O imperador 
de Roma cutuca-lhe, ento, o forte dorso com o longo e fino bordo 
de ouro que trazia  mo; o escravo levanta a cabea e fixa o rosto 
do monarcae ambos trocam-se no mais que ligeirssimo e 
significativo olhar. 

-Espero que faas bom proveito dele, minha cara! -exclama o 
imperador, empurrando, grosseiramente, o escravo, com a ponta 
dos ps, e, levantando-se, sai, quase a correr, e sem se despedir de 
ningum. 
L fora, salta sobre o carro e, fustigando, violentamente, os fogosos 
corcis negros de sua quadriga, pe-se a correr feito um doido, aos 
gritos, incitando os animais, e lhes chicoteando, impetuosamente, os 
luzidios lombos escuros como azeviche. 
-Ser bom que fiquemos de sobreaviso, minha cara!... -diz Caius, 
com o brao sobre o ombro de sua amada esposa, enquanto, da 
soleira do vestibulum, observavam o esbaforido squito de Nero que 
se esfalfava para acompanh-lo em sua louca corrida pelo caminho 
de volta para Roma. 
-Desse louco, tudo se pode esperar, meu caro!...  exclama Drusilla 
Antnia, com tristeza aos olhos. -E s espero ter foras e f 
suficientes para suportar o suplcio, quando ele chegar!... 
-Disseste-o muito bem, minha querida!... -concorda o general, 
beijando a face da esposa. -Podemos ter a absoluta certeza de que a 
nossa vez de darmos o testemunho de nossa f chegar, cedo ou 
tarde!... 

#
-Acho que mais cedo do que imaginamos, meu caro!... -diz Drusilla 
Antnia. -Essa visita do imperador pode ser o incio de nosso fim... 
-Oh, meu amor!... -diz ele, beijando as mos dela. -S peo a Jesus 
que nos d a graa de partirmos juntos, eu e tu!... Imagina o 
desespero que no seria a nossa vida, se tivssemos que nos 
separar!... 
-Nem pense nisso, meu amor!... -exclamaela. -Nem pense nisso!... 
Pouco depois, quando se predispunham a sair de casa, recebem a 
inesperada visita de Rufus. 
-Tenho excelentes notcias, meus caros!... -exclama o missionrio 
cristo, abraando-os. -Nem tive pacincia de esper-los; vim 
correndo! 
-De que se trata, querido irmo? -pergunta Drusilla Antnia, 
curiosa. 


-A notcia das terrveis perseguies que est sofrendo a Igreja de 
Nosso Senhor chegou at Jerusalm, e o discpulo do Mestre, Pedro, 
de quem eu fui seguidor, encontra-se em Roma, para encorajar e dar 
apoio a todos os que aceitam a Jesus!... -diz o pregador cristo, 
radiante de felicidade. 
-Verdade?... -observa Caius, altamente emocionado. -Ento Pedro, 


o pescador e companheiro de Jesus, est entre ns!... 
-Sim -prossegue Rufus -, e far pregaes nas catacumbas, a partir 
desta noite!... 
-Somente esta excelente notcia para dar-nos nimo, Rufus!... -diz o 
general. -Tu nem podes imaginar quem esteve aqui, em nossa casa, 
hoje, logo de manhzinha! 
E, minuciosamente, passa a narrar ao pregador cristo os acontecimentos 
daquela manh. 
-Pressinto desgraas, general!... -diz Rufus.-Nero fecha o cerco... 
-Tens razo, meu amigo -concorda o general. -E sabemos que no 
ser fcil, no  mesmo?... 
-Sim -concorda o outro -, teremos que lutar muito, principalmente, 
contra as nossa prprias fraquezas e as nossas prprias 
#
imperfeies, pois o Reino de Deus ser tomado pela espada, 
conforme nos disse Jesus!... E precioso combater, insistentemente, o 
mal que se enraza dentro de ns!... 
-Sem dar-lhe trguas!... -concorda Drusilla Antnia. -Ou seremos, 
fatalmente, compelidos  fraqueza da apostasia, diante da esttua 
de Diana!... 
-Isso seria a mais cruel a mais covarde das traies para com Jesus! observa 
Rufus. 
-Sim -concorda Caius -, principalmente, para algum como eu que 
me encontrava morto, e ora ressuscito para a vida eterna!... Hoje 
entendo porque Deus enviou-me aquela doena terrvel!... Foi 
preciso que a dor suprema mostrasse a mim o caminho a seguir!... 
-Jesus faz-nos caminhar por estranhas veredas, general... -diz 
Rufus, encarando-o nos olhos. 


O outro concorda, balanando, afirmativamente, a cabea. Como se 
lhe afigurava paradoxal aquilo: Jesus salvara-o de uma morte horrvel, 
extremamente cheia de dores inominveis; entretanto, agora, 
ele, Caius, era capaz de devolv-la ao Mestre Nazareno, da forma 
mais destemida e digna que jamais pensara fazer um dia... 
-Estranhas veredas, meu irmo... -repete Caius, meditativo. Estranhas 
veredas... 
L fora, o dia avanava, pintado com as cores desbotadas do 
outono. Os trs amigos permanecem em silncio, pensativos. O que 
lhes reservaria a vida dali para frente? 


Captulo XII 
Pedro, o apstolo 


#
Algumas tochas acesas expulsavam a negra escurido do tnel que 
dava acesso s catacumbas dos subterrneos do Aventino. E, pouco 
a pouco, pequena multido ia espremendo-se silenciosa, em exguo 
espao, entre escavaes de sepulcros, feitos na rocha viva das 
paredes dos corredores, a exibirem, ttricamente, os restos mortais 
dos que ali haviam sido inumados. Aquelas pessoas que chegavam 
em pequenos grupos, cheias de cuidados e temerosas de serem 
vistas, eram cristos de Roma que para ali vinham, com a finalidade 
de ouvirem a pregao que Pedro, o apstolo de Jesus, faria naquela 
noite!... E, dentre os presentes quele culto especialssimo, achavam-
se Caius, Drusilla Antonia, Susanna, Flavius e demais irmos 
pertencentes ao ncleo cristo fundado por Rufus. Este, por ter sido 
amigo e seguidor de Pedro, encontrava-se sentado mais prximo do 
pequeno e improvisado plpito que se arranjara para o ilustre 
pregador da noite. 
Pouco depois, o apstolo de Jesus surge de um dos escuros corredores, 
caminhando no meio de pequeno gmpo que, cheio de 
cuidados, condu-lo at o estrado, diante da pequena multido que o 
aguardava ansiosa. O velhinho, que outrora fora pescador no Mar 
da Galileia, passeia um par de olhos azuis brilhantes pela 
assistncia que se mantinha em silncio absoluto e sorri, 
meigamente. As longas barbas brancas emolduravam-lhe um rosto 
sereno e cheio de bonomia. 
-Amados!... -brada ele, com a voz firme. -Tempos difceis abatem-
se sobre todos ns!...  hora, irmos, de darmos o nosso teste-

Se a nossa f ainda se achar contaminada por impurezas, o medo e a 
pusilanimidade tomaro conta de ns, e ento, acovardados, 
fugiremos de nossos perseguidores e, conseqentemente, ns nos 
apartaremos de Jesus!... Se, entretanto, puro estiver o nosso corao, 
nada temeremos diante do inimigo que vir saciar a sua fria, 
devorando-nos as nossas carnes, como faz o lobo esfaimado s 
indefesas ovelhas!... 

#
O insigne seguidor de Cristo cala-se, por alguns instantes, e corre os 
olhos pela profuso de rostos que, atentamente, seguia-lhe as palavras. 
A luz das tochas refletia-se em sua calva brilhante, dando-
lhe um ar de beatitude. Pedro abre os braos, como se desejasse 
abraar toda a comunidade ali presente, e sorri. 
-Por trs anos convivi com Ele!... -prossegue o apstolo de Jesus. Estes 
meus olhos cansados viram nosso amado Rabi fazer coisas 
que somente Aquele que estivesse, de fato, representando Deus 
entre ns poderia fazer!... Tantos foram os milagres presenciados, 
tantas foram as almas consoladas que passaria anos relatando-vos 
tais maravilhas!... "Meu reino no  deste mundo... "1, ensinou-nos o 
Mestre. Logo, devemos entender que o reino de que Ele nos falou 

1. Evangelho de S. Joo, 18.36 
situa-se alm desta vida!... Por que, ento, temermos a morte?... 
No nos deu Ele a prova maior de que no existe a morte?... No 
esteve entre ns, depois da crucificao?... Eu mesmo estive com Ele 
que, por quarenta dias, apareceu-nos, reconfortando-nos e nos 
trazendo mais e mais ensinamentos, alm dos que houvera dado 
quando vivo!... Oh, carssimos, sei que vivemos momentos de muita 
dor e  exatamente por isso que vim a Roma!... Porque os gritos de 
dor e os clamores dos supliciados no Circus Maximus abalam as 
estruturas deste velho mundo!... Por todos os lados, campeia o 
desespero e grassa o sofrimento!... Nossos algozes pensam aniquilar 
a nossa f, arrancando Jesus de nossos coraes!... Mas, digo-vos: 
esto a pelejar contra Deus!... Que so as legies romanas diante das 
potestades divinas?... Nada!... Quando O prenderam no Getsmani, 
encontrava-me com Ele e tentei defend-Lo dos soldados do templo, 
sacando de minha espada e com ela decepei a orelha do servo do 
sumo sacerdote. Jesus, entretanto, censurou-me, veementemente, 
para que eu no revidasse, dizendo-me: "Embainha a tua espada; pois 
todos os que lanam mo da espada,  espada perecero!... Acaso pensas que 
no posso rogar a meu Pai, e Ele me mandaria neste momento mais de doze 
#
legies de anjos?... "2 Vede, irmos!... A grandeza de nosso Mestre!... 
Se Ele o desejasse, poderia pulverizar aqueles que O perseguiam!... 
Entretanto, no o fez!... Deixou-Se imolar, qual cordeiro no meio de 
lobos sanhudos, aexemplificar-nos o amor!... Sim, carssimos, eis a 
mensagem maior: o amor!... 
Amide, os partcipes da assemblia entreolhavam-se, comovidos e 
contagiados pela expressiva f que demonstrava o Apstolo de 

Jesus. 
Caius e Drusilla Antonia, de mos dadas, bebiam as palavras de 
Pedro; Flavius e Susanna, tambm altamente comovidos, seguiam 
com ateno as palavras do insigne pregador que continuava, 
grandemente inflamado: 
-"Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem... "3, ensinou-
nos o Mestre. Onde encontraremos ensinamento que traga mais 
sabedoria que esse, em relao  vivncia da paz?... Nele dever 
resumir-se a prtica dos cristos que anseiem pela paz!... Que no se 
busquem contendas!... Que no se revidem s ofensas!... Nero pensa 
destruir a nossa f, matando-nos o corpo?... V tentativa!... A cada 
cristo que tombar na arena, cem outros surgiro, cantando 
louvores ao Senhor da Vida!... E cresceremos tanto que, em pouco 
tempo, seremos como as estrelas do cu!... 
Pedro encerra sua pregao, deixando a assistncia completamente 
comovida e reinflamada em sua f. A seguir, todos entoam singelo 
hino, carregado de fortes expresses de louvor a Jesus. Depois, 
reforados na esperana de que o Mestre no os abandonaria jamais, 
vo saindo, um a um, aos poucos, para no chamarem a ateno dos 
soldados que patrulhavam as entradas das catacumbas, com a 
finalidade de aprisionar os seguidores de Cristo. Sabiam que 
ningum os livraria da perseguio e, conseqentemente, da morte; 

2. Evangelho de S. Mateus, 26.51-53 
3. Evangelho de S. Mateus, 5.44 
#
entretanto, tinham mais e mais conscincia de que o reino de Deus, 

o qual buscavam para refrigrio de suas almas aflitas e cansadas, 
efetivamente, no se localizava neste mundo... 
***** 
O casamento de Flavius e Susanna ocorreu da a alguns dias, na villa 
de Caius e Drusilla Antnia, que fizeram questo de dar uma festa 
que contou com a presena de expressivo nmero de convidados, 
mormente de patricii, antigos amigos e conhecidos de ambas as 
famlias. Os parentes de Flavius haviam vindo de Neapolis, e at o 
av insistira em comparecer s bodas do neto, apesar da idade e de 
se encontrar um pouco enfermo. 
Aps a realizao das bodas, Susanna e Flavius passaram a viver, 
ento, o doce idlio dos que muito se amam, gozando da lua-de-mel, 
na esplendorosa manso que a famlia do rapaz possua na cidade. 
O av e a me haviam resolvido permanecer alguns dias em Roma, 
mesmo porque o velho senador Rimaltus no conseguiria retornar 
ao Sul, logo de imediato, em conseqncia de sua debilidade fsica. 
Haviam acolhido Susanna com grande alegria, posto que a 
jovenzinha conquistara-lhes o corao com sua graa, educao e 
beleza, alm de ser neta de grande amigo da famlia. 
-Por que no ficam de vez em Roma? -pergunta Flavius  me e ao 
av, enquanto tomavam o ientaculum, sentados no peristylium. O sol 
inundava de luz o bem cuidado viridarium, naquela amena manh 
de outono. 
-Oh, meu querido! -responde-lhe a me. -Bem que gostaramos de 
permanecer junto de ti e de Susanna, gozando as delcias do convvio 
familiar!... Entretanto, teu av no suportaria o clima romano 
por muito tempo!... 
_O reumatismo, meu querido!... -exclamao velho senador. -O 
reumatismo mata-me devagar!... Os ares do Vesvio fazem-me muitssimo 
bem!... E, alm do mais, h os banhos nas termas!... No 
imaginas o quanto me reconfortam!... 

#
-E por que no ides vs viver conosco em Neapolis? -pergunta a 
me. 
-Poderemos pensar, no  mesmo, Susanna! -responde o rapaz, 
fazendo a pergunta  jovem esposa que at ento se mantivera 
calada. 
-Sabes que contigo viverei em qualquer lugar, meu amor! -responde 
ela, beijando a mo de Flavius a qual segurava, 
amorosamente, entre as suas. 
-Tudo resolvido, ento!... -exclama o velho senador, abrindo largo 
sorriso. -Poderemos at colocar  venda esta propriedade!... Roma 
toma-se muito perigosa a cada ano que passa!... 
-No creio que devamos vender a villa, vov -observa o rapaz. Nossa 
famlia possui esta propriedade h geraes!... Gosto daqui, e 
no sabemos se um dia teremos de voltar... 
-Bem, isso  o de menos!... -observa Lucius Antoninus Rimaltus, sem 
perder o bom humor. -O importante  que, pelo menos por ora, 
permaneceremos todos juntos! 
-Mas no to j! -diz o rapaz. -No te esqueas de que ainda no 
dei baixa no exrcito!... Encontro-me sob o comando do general 

Tarquinius! 

-Se quiseres, ainda hoje falarei como cnsul geral!... Conheo-o, de 
longa data, e sabes que ele  o magistrado supremo e tem o poder 
de dar-te a carta de baixa! Tenho a absoluta certeza de que atender 
ao meu pedido! 
-No, vov!... -responde o rapaz. -Tu te encontras doente e 
cansado! E, alm do mais, Susanna e eu pretendemos nos demorar 
um pouco mais por aqui. Deixa que me avistarei com o cnsul geral, 
usando o teu nome!... J servi ao exrcito por dois anos e tenho o 
direito abaixa! 
-Faze como quiseres, meu querido!... -diz o velho senador. Sabendo 
que ireis ter conosco  o que importa! 

Da a quinze dias, o velho senador e sua nora, Cneia Otaviana, a me 
de Flavius, deixam Roma e retornam para o Sul. O casal de recm


#
casados segui-los-ia depois. Por ora, o que mais desejavam era 
ficarem a ss e darem evaso ao amor que sentiam, perdidamente, 
um pelo outro. Entretanto, o destino, que nem sempre  condizente 
com o desejo das criaturas, conspirava contra eles... 
Naquela mesma noite, Flavius e Susanna, que no haviam deixado 
de participar das reunies crists, nas catacumbas, ao lado de 
Drusilla Antnia e de Caius, encontravam-se em lugar adrede 
combinado e juntos caminhavam todos encapuzados e cobertos por 
longos mantos escuros, para melhor se camuflarem  escurido da 
noite e, cheios de cuidados, dirigiam-se para a entrada de um dos 
tneis que davam para o interior das ttricas catacumbas. 
Entretanto, por mais cuidado que houvessem tomado para 
disfararem sua entrada em lugar to suspeito, uma sombra seguia-
os, acobertada por longo capuz e pela escurido. 
-Ah, Nero tinha razo!... -murmura Iulius Maximus, felicssimo, 
abrindo-se num riso de plena satisfao. -So todos cristos!... Prend-
los, agora, ser apenas uma questo de querer!... E como eu 
quero!... Mas, no todos!... Apenas trs deles!... Ela, no!... -e puxa o 
capuz, cobrindo, completamente, o rosto. 
Sem demonstrar a mnima hesitao, Iulius adentra o escuro tnel e 
segue o pequeno grupo,  relativa distncia. Queria v-los, pois 
tinha curiosidade de saber que tipo de coisas faziam os cristos em 
to estranho lugar. 
Coincidentemente, naquela noite, Pedro, o apstolo, faria ali uma 
pregao. Por esse motivo, a afluncia de cristos era muito grande, 
e Iulius, acobertado pela escurido e pelo capuz que lhe cobria 
quase que totalmente o rosto, passava-se incgnito entre a pequena 
multido que se comprimia por entre as paredes escavadas na 
rocha. 
Em pouco, o insigne seguidor de Jesus surge e se dirige para pequeno 
plpito, erguido sobre uma rocha, ficando assim, um pouco 
mais elevado que a profuso de cabeas que, em absoluto silncio, 
olhavam ansiosas para o velhinho de calva brilhante e de longas 

#
barbas alvas como a neve e que j se preparava para falar. Pedro 
abre um singelo e amvel sorriso, cheio de bondade e, correndo um 
par de olhos vivazes pela assemblia, inicia sua pregao: 
-Carssimos, ontem, nosso amado Mestre mostrou-me, uma vez 
mais, o quanto infinitamente grande Ele !... -exclama o apstolo de 
Jesus, agora, com os olhos inundados de lgrimas. -Eu fugia de 
Roma, meus queridos!... Eu, novamente, abandonava o campo de 
lutas!... Digo-vos, agora, sem nenhuma vergonha, que, novamente, 
eu abandonava a batalha, porque eu j O renegara, antes!... -e se 
cala, com a voz embargada por fortssima emoo. 
A platia permanecia muda, atnita, diante da profuso das 
sinceras lgrimas de Pedro, a descerem-lhe, abundantemente, pelas 
faces marcadas pelos duros embates da vida. E, por longo tempo, o 
velho apstolo de Jesus chorou, amarga e sinceramente, at s raias 
da exausto. Depois, arrebanhando foras, equilibra-se e prossegue: 
-Pouco antes de O prenderem, comamos a Pscoa juntos, Ele e ns, 
os dozes que O seguamos, e o Mestre disse que entre ns havia um 
que O iria trair. Todos ns nos indignamos com aquela afirmao e 
eu, meus carssimos, eu Lhe jurei fidelidade at a morte!...7 Jesus, 
ento, sorriu-me com bonomia e me disse: "Em verdade te digo que, 
nesta mesma noite, antes que o galo cante, tu me negars trs vezes... "s 

Apesar de eu, naquele momento, ter-me arrojado a Seus ps, reiterando-
Lhe minha fidelidade, o que Ele predissera, realmente, aconteceu: 
eu O neguei, acovardado, por trs vezes, quando O 
prenderam e O levaram perante o Sindrio, que se achava reunido 
na casa do sumo sacerdote Caifs e, reconhecido por uma das servas 
da casa, como seguidor de Cristo, eu O neguei, meus carssimos!...8 
Pedro silencia, por instantes, premido pela forte emoo que lhe 
embargava a voz, enquanto as lgrimas banhavam-lhe o venervel 
rosto. E, depois de enorme esforo, consegue retomar o equilbrio e 
prossegue: 

7 Evangelho de S. Mateus, 26.35 
8 Evangelho de S. Mateus, 27.69-75 

#
-E, agora, novamente, eu me acovardava diante do testemunho, 
meus carssimos!... Como a perseguio de-Nero acirrava-se, 
tornando perigosa demais a minha permanncia entre vs, 
aconselharam-me a retornar a Jerusalm!... L mantemos a Casa do 
Caminho, a requerer-nos a presena constante. Ento, decidi-me a 
regressar e, quando deixava Roma, ontem de manh, vi que o sol 
parecia vir ao meu encontro. Estarrecido, parei e, fixando a minha 
vista, no centro daquele intenso foco de luz, constatei que estava 
Ele, meus carssimos!... E vinha caminhando apressado, passando 
por mim, sem se deter. Intrigado, chamei-O e Lhe perguntei: 
"Quovadis, Domine?..."9 "A Roma...", respondeu-me Ele. "Para ser 
crucificado outra vez... " 
A voz de Pedro embarga-se, tomada de fortssima emoo, impedindo-
o de continuar a narrativa. As lgrimas desciam-lhe 
abundantes pelas vetustas faces, e a congregao, altamente 
comovida pelas palavras do insigne apstolo de Jesus, mantinha-se 
em pesado e respeitoso silncio pela dor que manifestava o velho 
pregador do Evangelho. Aps intenso esforo para equilibrar-se, 
Pedro consegue prosseguir: 
-Carssimos, diante daquelas palavras que me disse o Mestre, 
entendi ento que a hora de meu testemunho  chegada!... Caindo 
de joelhos diante de Jesus, uma vez mais, pedi-Lhe perdo pelas 
minhas fraquezas e retornei a Roma!... Que venham Nero e seus 
soldados!... -brada Pedro, inflamado, e prossegue: -No mais fugirei 
ou renegarei o meu amado Mestre Jesus!... Estarei convosco todas as 
horas do resto de meus dias!... No mais retornarei a Jerusalm, 
enquanto no cessarem as perseguies aos seguidores de Cristo!... 
A seguir, a assemblia pe-se de joelhos e, exaltados na f, que mais 
ainda lhes era reforada pela amorvel presena de Pedro, passam a 
entoar preces de agradecimento a Jesus, com expressiva 
manifestao do xtase que lhes proporcionava a nova crena, 

9"-Aonde vais, Senhor?...", em latim. 

#
fundamentada no Amor, na F e na Esperana!... E, a reunio da 
noite prossegue, com ostensiva manifestao do Poder Maior, 
atravs de uma profuso de curas fantsticas, realizadas pelas mos 
de Pedro, em que criaturas barbaramente martirizadas por 
enfermidades brutais eram instantaneamente purificadas de seus 
males: leprosos limpavam-se, paralticos caminhavam, cegos 
enxergavam, mudos falavam, surdos ouviam... E todos se 
maravilhavam com o imenso poder que Jesus lhes outorgara... 
Quando houvera, antes, tamanho poder se manifestado sobre a 
terra?... Nem mesmo os horrores promovidos pelos perseguidores 
eram capazes de frear ou diminuir a intensidade da f dos primeiros 
seguidores de Cristo!... Tinham as carnes dilaceradas pelas garras 
das feras sanhudas no Circus Maximus, em mirabolantes espetculos 
vespertinos, para gudio da plebe sempre sequiosa de novidades e 
de fortes emoes!... Os primeiros cristos, entretanto, deixavam-se 
imolar, cantando!... E to esdrxulo comportamento chamava a 
ateno de muitos, o que favorecia a propagao da f crist!... O 
feitio voltava-se contra os feiticeiros, pois, quanto mais se 
perseguia e se matava, mais se buscava conhecer a estranha seita 
que oferecia espetculos muito mais extraordinrios que aqueles 
apresentados no Circus Maximus!... Quem  que era capaz de limpar 
leprosos, instantaneamente, e de ressuscitar mortos?... Quem  que 
trazia o consolo supremo s dores mais aflitivas e libertava as 
mentes escravizadas pelos vcios torpes de uma era suja e 
degradada, mostrando que os homens foram criados para fins mais 
nobres que aqueles at ento propalados?... No, seriam necessrios 
argumentos muito mais fortes que aqueles, para desejar abafar uma 
f assim!... Nem a apelao para meios extremos, mesmo os mais 
cruis at ento j concebidos pelas mentes calcadas na maldade 
absoluta, como o de tentar afog-la, covardemente, num inesgotvel 
mar de sangue!... Nem assim!.. . 
Enquanto a assemblia encerrava as atividades da noite, entoando 
uma srie de hinos pejados de gratido e de amor a Jesus, um vulto 

#
que se mantivera o tempo todo incgnito, acobertado pela escurido 
num vo de um dos corredores, deixa apressado o local. Era Iulius 
Maximus que, nem mesmo tendo sido testemunha daquela 
infinidade de extraordinrios prodgios que ali se realizaram, 
deixara-se comover pela conduta dos cristos. 

-Bando de idiotas!... -exclama baixinho, enquanto caminha apres 
sado pelos tneis escuros, em busca de uma sada. -Preciso 
localizar, rapidamente, uma patrulha para denunciar esse covil de 
raposas!... 
Pouco depois, Iulius encontrava-se fora, a cu aberto. A madru gada 
j se anunciava, clareando o horizonte de uma tonalidade rosa. 
Ligeiro, procura por sua montaria que deixara amarrada ao tronco 
de um teixo. Encontrando-a, sem muita dificuldade, pe-se a cavalgar 
em busca de uma das inmeras rondas montadas que sabia 
existir por ali. No demorou muito, e divisou uma guarnio que 
vinha em sua direo. 
-Ave, capito! -sada o rapaz ao comandante da tropa. 
-Salve, tribuno!... -devolve-lhe a saudao o militar. -Podemos servos 
til? 
-Sim, comandante -diz Iulius -, indico-vos local onde se rene 
expressiva quantidade de cristos!... 
Em pouco, os soldados cercavam a sada do tnel que dava acesso  
parte das catacumbas onde se reuniam, at momentos antes, Pedro e 

o grande grupo de cristos. A priso de todos foi precisa. Ningum 
conseguiu escapar. Iulius, acobertado por um tufo de vegetao, a 
tudo assistiu, cheio de satisfao. 
-Agora quero ver, malditos!... -exclama ele, com um pleno 
sorriso de contentamento aos lbios, ao ver os seus desafetos Caius, 
Drusilla Antonia, Flavius e Susanna serem manietados, grosseiramente, 
pelos soldados. -Pagar-me-eis tudo o que me fizestes!... 
E, sempre  certa distncia e protegido pela vegetao do campo o 
covarde delator foi acompanhando o grupo, enquanto eram todos 
brutalmente conduzidos s prises do Circus Maximus. 
#
Depois de duas horas de penosa marcha, chegam  praa do Circus 
Maximus. J havia amanhecido, e uma multido apupava os 
prisioneiros, curiosa para descobrir a identidade dos que ali eram 
conduzidos pelos soldados. E, explodindo em risadas de escrnio e 
de zombaria, ao se certificar da identidade de alguns patricii bem 
conhecidos, caso do general Tarquinius e de sua famlia, a turba 
divertia-se grandemente. Alija se iniciava o grande suplcio, o 
grande testemunho que aquelas pobres criaturas deveriam dar a. 
Jesus!... O populacho, inflamado contra os cristos, gritava-lhes 
xingamentos terrveis e improprios infamantes, pensando serem 
eles os culpados do grande incndio que devastara quase a 
totalidade da cidade; alguns populares, os mais exaltados pela 
clera, armavam-se de pedras e de paus, atirando-os, 
desalmadamente, contra os prisioneiros, fazendo com que muitos 
deles, atingidos  cabea e ao rosto, tombassem grandemente 
feridos, sobre as pedras de granito do calamento da praa do 


Circus Maximus. 
Naquele fatdico dia, as prises do Circus Maximus ficaram abarrotadas 
de cristos. Colocados juntos, numa mesma cela, Caius, 
Drusilla Antonia, Flavius e Susanna encontravam-se desconsolados. 
-E agora, meu querido, que ser de ns? -pergunta a matrona ao 
esposo. 
-Resta-nos a coragem que nos dar a nossa f, minha querida! exclama 
o general, abraando forte a esposa. -Acho que tinhas conscincia 
de que este dia chegaria, no  mesmo? 
-Oh, Caius, Caius!...-exclama Drusilla Antonia, em lgrimas. -Tenho 
tanto medo de fraquejar!... 
-Oh, minha cara!... -diz ele, abraando-a forte. -Tem confiana!... 
Jesus no nos abandonar!... 
-Mas, e nossos queridos meninos? -observa Drusilla Antonia, 
olhando para o casal Flavius e Susanna que, fortemente abraados, 
trocavam lnguidas carcias, um tanto alheios ao que os rodeava. 


#
V como se encontram!... No podemos deix-los morrer, assim, na 
flor dos anos!... 
-Di-me a mim tanto quanto a ti v-los aprisionados e saber que 
iro perder a vida to cedo, minha cara!... -exclama o general, altamente 
entristecido. -Mas que poderemos fazer por eles? 
-Tu podes fazer, sim, Caius! -cochicha Drusilla Antonia ao ouvido do 
esposo. 
-Que posso fazer, estando preso?... -pergunta ele. 


-s rico e podes corromper os guardas!... -responde a matrona 
olhando firme nos olhos do esposo. 
Sbito claro perpassa pelos olhos do general. Sim, no lhe seria 
difcil comprar aquela scia de corruptos!... Bastaria identificar-se 
centurio e tudo se resolveria!... Entretanto, uma nuvem de tristeza 
tolda-lhe o olhar. E Jesus?... No estaria, como Pedro fizera um dia, 
negando Jesus?... O velho general emociona-se, e lgrimas 
pungentes inundam-lhe os olhos. Fixa, demoradamente, a esposa 
Como a amava!... Por ela daria a sua vida!... Depois olha Flavius e 
Susanna que permaneciam abraados, tocando-se, sentindo-se, 
trocando ternas carcias. Amavam-se muito, tambm. E quo pouco 
tempo viveriam juntos!... Caius dividia-se. Estava em suas mos o 
destino de todos eles. Deveria salv-los ou no?... A dvida 
martirizava-o. Se corrompesse os guardas, como ficaria perante os 
irmos cristos?... Que Rufus pensaria dele?... Era falsa, ento, a sua 
f?... Oh, somente Deus para inspir-lo, diante de terrvel impasse!... 
Com a garganta a fechar-lhe, num terrvel n, Caius deixa-se cair de 
joelhos e ora, cheio de f. Drusilla Antnia tambm tomada pelo 
impulso da f, ajoelha-se ao lado do marido e s pe a rezar. E, 
longamente, ambos suplicaram a Jesus que os iluminas diante da 
deciso a tomar. E, ao final de longa e fervorosa prece dirigida ao 
Divino Mestre, Caius levanta-se e, resoluto, apela para a sentinela 
que se postava de guarda diante das grades da cela. 
-Soldado!... -exclama ele, com a voz forte. 
-Que desejais? -pergunta o guarda de forma grosseira. 


#
-Sou o general Caius Petronius Tarquinius e desejo falar ao co 
mandante da guarnio! -e atira uma moeda de ouro de mil 
sestrcios aos ps da sentinela. 
O guarda, ligeiro como um alo, estira o p e cobre a moeda com a 
pesada coliga. Depois, disfaradamente, abaixa-se e, num timo, recolhe 
a moeda e a guarda sob o cinto de couro. Em seguida, dirige-
se  base da guarnio e, em pouco tempo, retoma, seguido do 
centurio. 
-General Tarquinius!... -exclama o centurio, entre espantado e 
cnico. -Jamais imaginamos ter-vos sob a nossa proteo!... 

-Proponho-vos um negcio, centurio -diz Caius, baixinho, quase a 
cochichar ao homem. E oferece ao cpido militar gorda propina, 
para que propiciasse a liberdade de Flavius e de Susanna. 
-Quando a noite cair, general -diz o centurio, com um sorriso de 
satisfao aos lbios -, o casalzinho estar fora daqui!... 
Um fundo suspiro de alvio brota do peito de Drusilla Antnia. Ao 
menos Susanna e Flavius estariam a salvo!... Poderiam fugir para o 
Sul, irem ao encontro do av e, distantes de Roma, talvez 
escapassem da fria dos perseguidores. Ela e Caius, entretanto, no 
fugiriam, no abjurariam!... No trairiam Jesus, jamais!... Seguir-Lheiam 
as pegadas at o fim!... Tremendamente emocionada, abraa-se 
ao marido e o beija, repetidas vezes,  face. 
-Uma vez mais demonstraste o gigante que sempre foste, meu 
amor!... -exclama ela, orgulhosa. 
-Fi-lo por ti, meu amor! -exclama ele, comovido. -Fi-lo por ti, e 
tudo que eu fizer, sempre pouco ser, diante da imensido de 
bondade que sempre foste para mim!... 
Quando a noite cai, o mesmo soldado que Caius corrompera vem 
buscar Flavius e Susanna. A despedida foi tocante. 
-Foge para Neapolis, sem delongas!... -exclama Caius, abraando 
Flavius. E prossegue, aconselhando-o: -Se possvel, faze-o ainda 
hoje!... Aproveita a escurido, para te alongares o mais que puderes 

#
de Roma!... E protege nossa Susanna que doravante estar somente 
sob os teus cuidados!... 
-E vs general? -pergunta o rapaz, preocupadssimo. -No desejais 
que eu interceda junto ao imperador? 
-Se fores at Nero,  bem possvel que amanh mesmo estejas de 
volta a esta priso, meu caro!... -observa Caius, cheio de cuidados. E 
prossegue, aconselhando o rapaz: -Abstm-te de qualquer ato impensado 
a nosso favor, pois presumo que Iulius Maximus esteja por 
trs de nossas prises!... E no te esqueas de que  a ti que ele, 
preferencialmente, deseja enviar ao Circus Maximus!... Portanto, se 
desejas escapar desta, permanece longe de Roma!... 

Envoltos em longos mantos escuros e cobertos por capuzes Flavius e 
Susanna deixam a cela, secundados pelo guarda. Drusilla Antonia 
chora um choro convulso, pois a despedida de seus meninos, a 
quem tanto se afeioara, arrancara-lhe as fibras do corao. Caius 
abraa-se a ela e a consola. Tambm ele tivera o corao esfacelado 
ao v-los partirem. Entretanto, doravante pertencia a Jesus e, pelo 
Divino Mestre, daria a sua vida, sem titubear um s instante!... 
Quando o dia amanhece, um burburinho de excitao acontece nos 
corredores que davam acesso s celas das prises. 
-O imperador!... -ouvem-se as vozes dos soldados, extremamente 
nervosas, enquanto correm agitados pelos corredores. 
-Sim, o imperador visita as prises!... -Avia-te, imbecil!... Queres ser 
decapitado?... -escuta-se a voz 
nervosa do comandante, dando as ordens apressadas. 
Acompanhado de pequeno grupo de fiis e cnicos bajuladores, 
Nero passeava pelos escuros e abafados corredores das celas das 
prises do Circus Maximus. E, enquanto alguns escravos, munidos 
de possantes archotes, iluminavam o interior dos infectos cubculos, 

o monarca romano perscrutava, minuciosamente e com elevado 
interesse, o interior das abafadas celas, a buscar os rostos cansados e 
sofridos dos prisioneiros que se amontoavam naquela imundcie! 
Quando se deparava com algum conhecido, notadamente 
#
pertencente ao patriciado, Nero apontava-o, com um dedo escarnecedor, 
e se ria a pregas soltas, acompanhado pelo coro do gargalhar 
sarcstico e ruidoso da scia que o acompanhava. E foi nessa 
andana pelas celas que o imperador de Roma depara-se com os 
que, presumidamente, dir-se-ia que j buscava: Caius e Drusilla 
Antonia! 
-General Tarquinius!... Drusilla Antonia!... -exclama Nero, fingindo 
espanto. -Que fazeis, a, metidos no meio de tantos cristos? 
-Poupai-nos do escrnio, Majestade!... -exclama Caius, ar-rostandoo, 
sem se intimidar. 

-Oh, por Jpiter Capitolinus!... -explode Nero, num grito teatral. -At 

o nosso prestimosssimo general bandeia-se para o infame judeu!... 
Oh, pesar!... Oh, a desgraa abate-se sobre Roma!... -e continua, na 
grotesca pndega, montada para divertir os amigos, coisa em que 
era mestre: -E tu, Drusilla Antnia, a flor de nossa sociedade, presa 
como crist!... Oh, terrvel dia de nossa esplndida vida!... Que no 
tem de passar um nobilssimo prncipe como ns!... Como nos di o 
valoroso corao!... -e se desmancha em espetaculosas lgrimas, 
cheias de falsidade. 
A pequena platia de aduladores que o seguia ria-se, desbragadamente, 
da atuao do imperador. Caius, entretanto, fremia de raiva. 
Tinha ganas de atirar-se sobre aquele monstro e de apunhal-lo at 
cansar-se. 
-Acalma-te, meu bem -diz Drusilla Antnia, baixinho. -Agora nada 
podes contra ele. Esqueces-te das lies de humildade que nos 
ensinou Jesus, quando O prenderam e O supliciaram? 
As palavras de sua mulher caem-lhe como refrigrio  alma. No 
poderia jamais se esquecer de Jesus\... Era chegado o seu momento 
de dar testemunho ao Divino Mestre e deveria seguir-Lhe os passos 
mais do que nunca! 
-Tens razo, querida!... -diz o general, olhando envergonhado para 
a esposa. 
#
Depois, volta os olhos para o alto e principia a murmurar, quase 
que inaudivelmente, sentida prece a Jesus e, como se no mais estivesse 
ali, pareceu no ouvir as tolices e a profuso de insultos que 
lhe dirigia o imperador e seus amigos. Quando, afinal, deu-se conta 
da realidade outra vez, o squito real j se tinha ido. 
-J se foram, querido!... -diz Drusilla Antnia, apertando-lhe a mo. 
Caius nada diz. Apenas se limita a olhar, embevecido, para a 
mulher. Ela tinha um maravilhoso e intenso brilho no olhar! Era a 
certeza de que Jesus j os preparava para o terrvel impasse pelo 
qual, brevemente, teriam de passar. 


Na base da guarnio,  sada da priso do Circus Maximus, Nero 
aproxima-se do centurio e lhe ordena, soberbo: 
-Comandante, libertai, imediatamente, o general Caius Petronius 
Tarquinius! -e, arreganhando um sorriso pejado de maldade, acrescenta: 
-Somente o general, entendestes bem?... A esposa, no! 
Depois, deixa, apressado, o Circus Maximus, radiante de felicidade, 
enquanto pensava: "Desejamos que sofrais, general, as dores 
infernais da perda de vosso amor!... E juramos estar presentes, 
quando isso acontecer, para gozarmos um pouco da vossa dor!...", e 
um sorriso de felicidade ilumina-lhe a face redonda e enxundiosa. 


Captulo XIII 
Os terrores do crcere 


Deixando, apressadamente, a priso, sobre a proteo do centurio 
e do guarda que Caius corrompera, Flavius e Susanna foram engolidos, 
rapidamente, pela densa escurido da noite. 
-Querida, passaremos, ligeiramente, em casa, apenas para apanharmos 
dois bons cavalos e dinheiro suficiente para a viagem!... 


#
exclama Flavius, conduzindo a jovem esposa pela mo, em passos 
rpidos. 
-Oh, meu amor!... -exclama a moa, entre lgrimas. -Que ser de 
Drusilla Antnia e de Caius! 
-Aguarda-os o que tu j sabes, querida!... -responde o rapaz, com a 
voz embargada pela tristeza. -Terrvel suplcio, a meio de odientas 
humilhaes, no CircusMaximus! 
-Mas, como isso foi acontecer?... -questiona Susanna. -Cercamonos 
sempre de tantos cuidados!... At Pedro encontra-se 
aprisionado!... 
-Presumo que fomos delatados, minha cara!... -observa Flavius. 
-Sempre h os traidores!... 
-Difcil acreditar que um cristo de verdade tenha feito tal coisa!... 
-diz Susanna, enquanto caminha apressada, firmemente presa o 
brao do jovem esposo. 
-Sempre existem os falsos em tudo, minha cara!... -diz ele. -Crs, 
ento, que no haveria os falsos cristos?... E, como se repentina luz 
iluminasse-lhe a mente, Flavius pra, de inopino, e exclama: 
-Iulius Maximus!... Queres apostar que o miservel encontra-se por 
trs de tudo isso? 
-Iulius!!... -repete Susanna.-Ser mesmo possvel que teve a 
coragem de nos delatar? 


-Oh, Susanna!...-exclama o rapaz, abraando-se  jovem esposa Ele 
te quer!... Ele no desistiu!... Deseja tomar-te de mim!... 
Um calafrio percorre o corpo de Susanna. Era bem caracterstico de 
Iulius!... Conhecia-o muitssimo bem!... Se o primo, realmente, 
intentava algo contra eles, iria at o fim!... 
-Temo que tenhas razo!... -exclama ela. -Ainda mais agora que o 
traste  amicssimo de Nero!... 
-O imperador, certamente, faz-lhe as vontades, minha cara!...-diz o 
rapaz. -Tudo se toma mais e mais difcil para ns! 


#
-Mas, se conseguirmos escapar e fugir para Neapolis, l, certamente, 
no nos acharo!... -observa Susanna. 
-Enganas-te, querida!... -exclama Flavius. -Pensando bem, a casa 
de meu av j  no se torna lugar to seguro para ns!... O imperador 
conhece meu av e sabe onde ele mora!... 
-Oh, que faremos, ento?... Para onde iremos? 
-De imediato, acho que nos procuraro por Roma inteira, o que nos 
dar tempo suficiente para fugir e chegar a Neapolis. Depois, com a 
ajuda de vov e de mame, decidiremos o que fazer. 
Duas horas depois, quando a aurora principiava a tingir o horizonte 
com seu lumaru rosa, um garboso rapaz e uma jovem e belssima 
senhora, deixavam Roma, cavalgando, desabaladamente, rumo ao 
Sul. 

***** 
A priso de Pedro, juntamente com expressivo grupo de cristos, 
trouxera grande comoo  cidade. nimos exaltavam-se, e grupos 
de sediciosos formavam-se diante das prises do Circus Maximus, 
intentando invadir a fortaleza, para justiarem os prisioneiros, mas 
eram brutalmente contidos pela guarda, que os impedia de entrar, 
formando barreiras com lanas em riste. Os mais atrevidos eram fria 
e barbaramente trespassados pelos soldados, fato que aumentava 
ainda mais a ira do populacho. Uma rebelio armava-se, e a notcia 
acabava de chegar at o palcio imperial. Nero, reunido com seus 

conselheiros, encontrava-se altamente nervoso e agitado, andando 
de um lado para outro. 
-Que nos dizeis, sapientssimo Crispus!... -pergunta ele a um de 


seus conselheiros. 
-Temo que a rebelio possa aumentar e se tomar incontrolvel, 
Majestade!... -observa o homem. -O povo encontra-se altamente 
enfurecido com os cristos, depois que esses fanticos seguidores do 
Judeu incendiaram acidade!... 
-E vs, Cneius Priscus, o que nos aconselhais? 


#
-Crispus tem razo, Majestade! -diz o conselheiro. -O povo 
encontra-se altamente enfurecido e sabeis que, uma vez 
descontrolada a turba,  impossvel det-la e tambm impossvel  
prevermos as conseqncias de uma revolta de tal monta!... Quem 
nos garante que, depois de esfacelarem os cristos, no se voltaro 
contra ns?... 
Nero olha para o conselheiro, grandemente transtornado. O homem 
tinha razo. 
-Sbias concluses, nobilssimo Cneius Priscus!... -exclama o 
imperador. -Podero voltar-se contra ns!... E, ento, o que faremos, 
no  mesmo?... Nem dez legies inteiras podero det-los!... E hoje, 
em Roma, no temos sequer uma delas sediada, a defender-nos, 
prontamente, se necessrio for!... Acham-se todas nas possesses, a 
abafarem as rebelies!... -diz ele, sentando-se e se encolhendo todo, 
transido de medo. E continua: -Mas, ide adiante, pois presumimos 
terdes alguma sugesto! 
-Sabemos que vossos soldados prenderam um dos grandes chefes 
dos cristos, Majestade -prossegue o conselheiro. -Deveis condenar 
esse homem, imediatamente,  morte, em grande estilo!... Isso, 
certamente, acalmar-lhes- os nimos! 
-Bravo!... -grita Nero, batendo palmas, efusivamente. -Bravssimo, 
carssimo Cneius Priscus!... Damos-vos, como prmio, trs milhes 
de sestrcios!... -e, depois, enchendo-se de curiosidade, pergunta: No 
sabamos que tnhamos aprisionado tal homem!... De quem se 
trata?... 
-Pedro, um dos apstolos do Judeu Cristo!... -ouve-se uma voz 
que at ento permanecera calada. Era Iulius Maximus. 


-Oh, um dos seguidores do Judeu Carpinteiro?!... -admira-se o 
imperador. -E como tomastes conhecimento acerca dessas cousas, 
nobilssimo Iulius? 
-Porque fui eu a delat-los todos, Majestade!... -responde, orgulhoso, 
o rapaz. 


#
-Oh, uma vez mais mostrastes o quanto sois valoroso para a coroa, 
querido!... exclama Nero, abraando-o, efusivamente, e o beijando, 
repetidas vezes, s faces. -A vs, entretanto, por nos prestardes tal 
relevante servio, presenteamos-vos com cinco milhes de 
sestrcios! 
-Sou-vos imensamente grato, Majestade! -diz o rapaz e prossegue: 
-Se me permitis, a sugesto de nosso nobilssimo conselheiro Cneius 
Priscus  excelente; entretanto, para arrefecerem-se os nimos da 
turba,  preciso mais!... E necessrio que se faa uma grande 
encenao!... E que vs, Majestade, em pessoa, visiteis o prisioneiro, 
que o apresenteis ao povo, que o achincalheis em pblico e que 
assineis a sua condenao ao suplcio, diante de todos, na praa do 
Forum!... E, como o tal chefe cristo no  cidado romano, ser 
crucificado!... Mas, que se faa essa crucificao em grande estilo, 
com pompa, com procisso, com uma hecatombe pblica a Jpiter 
Capitolinus!... 
-Esplndido!... -exclama Nero, com os olhos brilhantes. -Faremos 
uma linda festa!... O povo ir adorar!... 
A seguir, o monarca de Roma, j bastante aliviado em suas apreenses, 
encerra a reunio e despede seus conselheiros. Apenas Iulius 
Maximus permanece no grandioso salo e, levantando-se, 
encaminha-se para o lado de Nero e lhe diz baixinho: 
-Majestade, tenho um pedido a fazer-vos. 
-Oh, carssimo -diz o imperador -, pedi o que desejardes e vos 
daremos agora mesmo! 
-Sei que condenareis todos os prisioneiros cristos  morte, no  
verdade? 
-Claro que faremos isso, nobilssimo Iulius! -exclama Nero. -Ficai 
certo de que no iremos vos desapontar!...  para isso que os 
prendemos! 

-Entretanto, at mesmo o general Tarquinius e sua esposa sero 
condenados  morte?... -pergunta o rapaz, cheio de expectativa. 


#
Sabeis que tambm eles se encontram encarcerados por serem 
cristos, conforme nos indicastes? 
-Oh, se sabia!... -exclama o imperador, com estranhssimo brilho 
aos olhos. -Credes, acaso, que iramos perder tal oportunidade?!... 
Jamais!... E j os visitamos, ontem mesmo, nos crceres do Circus 
Maximus!... Ns nos encontrvamos ansiosssimos para ver-lhes as 
fuas, assim que nos informaram de suas prises! 
-Certamente, devestes ter visto, tambm, Susanna Procula e seu 
marido, no  mesmo? 
-Deixai-nos ver... -responde o imperador, revirando um par de 
olhos esprios, para forar a memria. No se lembrou de t-los 
visto; entretanto, prossegue, depois de alguns instantes: -A 
lindssima neta do senador Cornlius Helvetius Pisanus e o jovem 
esposo?... Que beleza de casal!... Que rapago, hein?... Excelente 
escolha fez a donzela!... Sim, vimo-los!... Os pombinhos arrulhavam, 
presos na gaiola!...Ha!... Ha!... Ha!...Ha!... 
O rapaz mal disfara a intensa raiva que lhe causaram as encomisticas 
palavras que o imperador dissera sobre o odiento rival. 
Entretanto, fazia-se extremamente necessrio controlar-se, pois era 
patente que o monarca de Roma zombava dele, elogiando as 
qualidades do outro. O miservel no perdia uma nica chance de 
se divertir s custas de quem quer que fosse!... Porm, Iulius, esperto 
como era, sabia que aquele no era o momento propcio para 
arrostar aquela fera sanhuda. 
-Entretanto, suplico-vos, Majestade!... -diz o jovem, srio, 
sofreando-se ao mximo para no se indispor com Nero, pois, mais 
do que nunca, naquele instante, precisava de sua imprescindvel 
cooperao. E prossegue, apondo alta dose de splica  voz: -Peo 
clemncia para ela, Susanna!... Sabeis o quanto a desejo!... 
-Oh, a paixo!... -exclama Nero, piscando-lhe um olho, marota-
mente. -Vs a quereis, no  mesmo?... Pois ns vo-la daremos!... 

Pouco depois, Iulius deixava o palcio imperial, fustigando, impiedosamente, 
os cavalos de seu carro, em direo das prises do 

#
Circos Maximus. Enrolado sob o manto, junto ao peito, levava o 
papiro com a ordem de soltura de Susanna, escrita e assinada a 
punho pelo prprio imperador! 
Uma hora depois, ei-lo a saltar, apressado, de seu carro, diante dos 
portes gradeados das enxovias do Circus Maximus. Ofegante e 
ansioso, apresenta ao centurio o documento que libertava Susanna. 
-Impossvel atender-vos, honrado tribuno!.. -diz o militar, devolvendo-
lhe o papiro. 
-Acaso no ireis acatar uma ordem imperial, imbecil?!... -exclama o 
rapaz, levando, acintosamente, a mo aberta ao peito do homem, 
que d um passo para trs e desembainha a espada para defender-
se. 
-Alto l, domine!... -exclama o centurio, apontando-lhe, ameaadoramente, 
a arma. -Se no atendemos  ordem de Sua Majestade 
 porque os prisioneiros j foram libertados por uma determinao 
anterior a essa! 
-Impossvel!... -brada Iulius Maximus, encolerizado. -Deve haver 
um engano!... Ningum autorizaria a libertao desses prisioneiros, 
a no ser o imperador em pessoa! 
-Engano nenhum, tribuno!... -responde o oficial, firme. -Eu mesmo 
soltei os prisioneiros!... 
-E a ordem de soltura?... -explode Iulius, irado. -Mostra-me a 
ordem de soltura!... Quero ver quem a assinou!... 
-Primeiro, vossa identificao, domine!... -exclama o centurio, 
arrostando-o, feroz. -Onde o documento que vos d tal direito?... 
Apresentai-mo!... 
Iulius ia revidar, mas se conteve. No era credenciado a nada e no 
tinha qualquer ascendncia sobre aquele militar. Mordendo, furiosamente, 
o canto do lbio inferior, lana um olhar de dio ao 
centurio e sai. Fora enganado. Menosprezara a inteligncia dos 
seus desafetos. Era patente que haviam corrompido aquele 
centurio desgraado!..-E, quela hora, fugindo desde a madrugada, 
por certo, j deveriam encontrar-se bem distante de Roma. Seria 

#
intil persegui-los, naquele momento. Resolutamente, salta para o 
carro e fustiga, violentamente, a belssima parelha de fogosos 
cavalos que arremete em louca disparada. De volta para o palcio 
imperial, Iulius remoa a decepo sofrida. "Miserveis!...", pensava 
ele, enquanto aulava os cavalos, aplicando-lhes violentas chibatas 
aos flancos luzidios. "Pensam que desistirei, facilmente?... No, 
idiotas!... Ca-los-ei at nos infernos, se preciso for!..." 

***** 
O general Caius Tarquinius Petronius vagara por toda a manh, sem 
ramo. Estava livre, mas tinha a boca seca e amarga. As lgrimas 
inundavam-lhe os olhos, ao rememorar, pela milsima vez, os 
acontecimentos daquela manh, logo aps a visita de Nero s 
prises do Circus Maximus. O centurio se aproximara da porta da 
cela em que se encontravam presos ele e Drusilla Antnia e ordenara 
que ele sasse, que estava livre. A princpio uma onda de alegria 
perpassara-lhe a alma para, logo em seguida, ser tomado de total 
desespero; pensara que estariam livres, ele e a esposa, que o 
imperador dera-lhes o indulto; entretanto, a crueldade daquele 
monstro superava-se: dera a liberdade apenas a ele, Caius, deixando 
a adorada esposa presa!... Separava-os, o miservel!... Monstro!... 
Ah, deveria t-lo matado!... Quantas chances no tivera de fazer 
isso?... Sabia que Nero no suportava os generais romanos, assim 
como no gostava dos senadores, posto que os temia a todos!... E se 
vingava, barbaramente, quando tinha alguns deles nas mos!... 
Vingava-se, empregando as formas mais cruis de que se tinha 
notcia, o monstro!... Daquele demnio tudo se podia esperar, 
menos clemncia!... Recentemente, correra a notcia de que havia 
assassinado a segunda esposa, Popeia Sabina, aplicando-lhe violentos 
pontaps ao ventre, sabendo-a grvida!... E, somente porque a 
imperatriz o admoestara por ter chegado tarde de uma rinha de 
galos!... Por motivo to banal, assassinara a esposa e o prprio 
filho!... Existiria monstro maior que aquele?... 

#
Caius percorria, desolado, as ruas da cidade, ainda atravan cadas de 
entulhos, resqucios do terrvel incndio, e pensava. Nero despejava 
seu dio nele!... Separava-o de Drusilla Antnia! Libertara-o, 
propositadamente, para que ele assistisse ao suplcio de seu amor!... 
Oh, desgraado!... Sabia o quanto ambos se amavam, e ele, Nero, 
como era um poo de maldade, desconhecia, completamente, o que 
era amar verdadeiramente!... Acaso os monstros poderiam amar?... 
No, sentimento to sublime, que cobre todas as deficincias do ser, 
s poderia constituir atributo de criaturas sensveis, tocadas pela 
plenitude do viver, do existir!... Inconcebvel a idia de que os 
monstros pudessem ser capazes de amar!... 
Lembra os olhos da amada, ao se despedirem. Haveria dor maior no 
mundo?... E ele, deixando-a ali, to fina, to educada, to gentil,  
merc da grosseria dos soldados!... 
-Oh, Drusilla, Drusilla!... -repete ele baixinho, com as palavras 
molhadas de lgrimas. -Quis tanto que fizssemos a Grande 
Viagem juntos, eu e tu!... Entretanto, Jesus testa-nos, ainda mais 
fortemente, a nossa f!... E rezo para que tenhas a fora suficiente 
para encarares o teu martrio sem medo, sem fraquejares!... E eu no 
estarei ali, ao teu lado, para segurar a tua mo, quando as tuas 
carnes forem estraalhadas pelas garras das feras, que promovero 
to monstruoso espetculo para gudio da fera maior, que se 
sentar no camarote imperial !... Oh, Jesus, dai-me as foras para eu 
prosseguir vivendo, pois a dor que sinto em meu peito acabar por 
faz-lo explodir em mil pedaos!... 
O dia todo, Caius passou-o a percorrer as mas, cheio de desespero 
Nada podia fazer por sua amada; sequer tentar corromper os soldados 
para que a soltassem, pois, agora, o imperador demonstrara 
pessoal interesse naquele caso, e ningum seria idiota a ponto de 
correr o risco, deixando-se corromper e ter de dar contas, depois, do 
sumio daquela prisioneira. 

Quando a noite caiu, Caius resolveu voltar para casa. Sabia que, por 
ora, no o molestariam. Nero queria-o vivo, para que sofresse os 

#
horrores do inferno, vendo sua amada esposa sendo devorada viva 
pelos lees, no Circus Maximus!... Extremamente cansado, ganha as 
imediaes de sua propriedade e estranha que tudo se encontrasse 
s escuras e que nenhum archote queimasse no jardim externo, 
iluminando a entrada da casa. Altamente intrigado, aligeira os 
passos e, ao se encontrar diante do portal que dava para o 
vestibulum, sente-se estarrecer: sua casa achava-se totalmente 
saqueada, pois a notcia de sua priso correra bem depressa, e os 
aproveitadores das desgraas do prximo j haviam se antecipado e 
levado tudo: a moblia, os vrios utenslios, valiosas e 
preciosssimas obras de arte, e tambm o que conseguiram arrancar 
do mrmore e do granito dos pavimentos, bem como do 
revestimento das paredes e dos tetos. A sua manso, que outrora 
fora um mimo de luxo e de suntuosidade, sempre impecvel e bem 
organizada nas mos de sua competentssima Drusilla Antnia, 
naquele momento, encontrava-se um caos, totalmente em minas, 
nada lembrando do antigo esplendor que ostentara. 
Caminhando com extrema dificuldade por entre os destroos, Caius 
entra pelo vestibulum e, entristecido, com lgrimas aos olhos, 
observa o que restara do que fora o seu querido lar!... Senta-se no 
cho, no meio do catico salo, e solua amargamente. A lembrana 
do rosto da esposa, ao se separarem, no lhe saa da mente. 
Grudara-se a ela, no a queria deixar. 
-Ordeno-vos que saiais, imediatamente, general!... -bradaro 
centurio, enfurecido com a relutncia de Caius em deixar a cela. So 
ordens expressas do imperador, para que vos libertemos, sem 
delongas!... Portanto, no nos crieis problemas, domine! 
-Deixai-me ficar, centurio!... -gritara ele, desesperado.-Olhai, dou-
vos tudo o que trago comigo!... -e lhe estendera uma mancheia de 
sestrcios de ouro. -Mas, suplico-vos, permiti que eu permanea ao 
lado de minha esposa!... 

-Impossvel, general! -bradara, rspido, o militar. E, deitando um 
par de olhos cpidos sobre o ouro, prosseguira: -No fossem as 

#
ordens expressas de Sua Majestade, j estareis longe daqui, vs e 
vossa esposa!... 
As lgrimas brotam-lhe abundantes dos olhos. Oh, desdita!... Lamenta-
se e chora at se cansar. O pensamento queima-lhe, num turbilho 
desencontrado. Perdia-se pelas voragens do dio e da revolta 
contra aqueles cruis verdugos!... Mas, e a f e o perdo?... Por onde 
andariam a sua f e a capacidade de perdoar, incondicionalmente, 
queles que lhe feriam a face direita?... No lhes deveria voltar, 
tambm, a outra?...1 De repente, sente-se envergonhar e, com o 
corao altamente contrito, lembra-se de Jesus. Ento, sentiu que 
invisveis mos tocavam-lhe o alto da cabea, e inefvel paz, 
paulatinamente, dele vai se assenhoreando, e terno consolo advmlhe, 
aos poucos, e ele, ento, empertiga-se. Jesus!... Sim, o 
Consolador por excelncia no o desampararia!... Pe-se de joelhos 
e ora, fervorosamente: 
-Oh, Divino Mestre Jesus!... Supri as deficincias de minha f!... Sei 
que, sem Vosso amparo, no suportarei as espinhosas urzes que 
ladeiam o meu caminho, a lanharem-me, impiedosamente, as 
carnes!... Oh, Senhor, antes tinha o amparo de meu amor, a dar-me 
foras!... Mas, e agora?... Encontro-me s, no meio dessa 
desolao!... E meus irmos na Vossa F?... Poucos restaram livres, e 
muitos desses se escondem acovardados, diante de tanta maldade!... 
Seremos todos dizimados, impiedosamente arrasados pela fria dos 
perseguidores implacveis?... Ser que Vossa Doutrina no 
persistir?... Tantas so as dvidas a me apoquentarem o corao, 
amantssimo Jesus!... No h pior dor que asolido!...-eos soluos 
embargam-lhe a voz, sacu-dindo-o, violentamente. 
Neste nterim, sente que lhe tocavam o ombro. 
-Domine!... -ouve conhecida voz, chamando-o. 
-Iustus?!... -exclama Caius, observando, atento, o vulto que se 
ajoelhava diante dele. Era a voz inconfundvel de seu mordomo, e 
sbita exploso de alegria invade-o. -Oh, Iustus!... Iustus!... Es tu!... 

#
-Sim, domine!... -fala o mordomo, espantando-se com a efusiva 
demonstrao de alegria que seu senhor demonstrava em v-lo. 
-Escapaste, ento!... -diz o general, premindo os olhos e se esforando 
para divisar a fisionomia de seu fiel servidor, no meio da 
escurido. -Dize-me, lustus, onde esto os outros?... E Dulcina! 
-Oh, domine!... Quanta desgraa!... -exclama, desolado, o mordomo. 
-Minha querida Dulcina encontra-se presa nas enxovias do Circus 
Maximus!... E os outros, os servidores da casa, foram todos 
friamente assassinados pelos saqueadores de vossa casa!... -relata, 
lacnicamente, o servidor de Caius, com a voz toldada pelo pranto. 
E prossegue, cheio de tristeza, como a se culpar pela terrvel 
tragdia: -Entretanto, nada pude fazer para salvar-lhes as vidas!... 
-Oh, no te culpes por essa tragdia, meu caro!... -exclama o 
general, atraindo o homem para si e o abraando forte. -Que culpa 
tens, diante dessa desgraceira toda?... No passas de mais uma 
vtima, como eu!... Mas, dize-me: como conseguiste escapar?... No 
te encontravas nas catacumbas? 
-No, domine! -responde o mordomo. -Naquela fatdica noite, no 
pude ir. Apenas minha adorada Dulcina foi, acompanhando alguns 
outros servidores de vossa casa!... Como eu tinha que fazer 
averiguaes em vossa adega, permaneci em casa. Dulcina, entretanto... 
-e os soluos sacodem-no violentamente. Depois de penoso 
esforo, consegue reequilibrar-se e prossegue relatando: -Como no 
regressastes das catacumbas, presumi que algo terrvel havia acontecido 
e sa a vossa procura. O dia j amanhecia, quando avistei, de 
longe, o triste cortejo de prisioneiros que os soldados conduziam s 
enxovias do Circus Maximus... Acobertado pela vegetao do campo, 
consegui, sem ser visto, seguir-vos, passo a passo, at serdes todos 
encarcerados. Como nada podia fazer, resolvi imiscuir-me no meio 
do populacho que se exaltava com as vossas prises e permaneci 
por ali, por todo o dia. Quando os soldados principiaram a 
dispersar a populao enfurecida, resolvi retomar para vossa casa e, 
ao chegar, deparei-me com o saque e a destruio total de tudo. 

#
Ainda havia alguns dos ladres perambulando por aqui, e ento, 
resolvi esconder-me entre os tufos do viridarium e aguardar at que 
todos se fossem. Meus antigos companheiros j se encontravam 
todos mortos; nada pude fazer para salvar-lhes as vidas!... 
-Sei que nada pudeste fazer, meu bom lustus!... -exclama Caius, 
consolando-o. -Os verdadeiros culpados da tragdia so outros!... 
-E, agora, domine, que faremos?.... -pergunta o mordomo. 
-No temos para onde ir, Iustus!... -responde o general, desolado. 
-Em breve, nossas esposas e amigos sero todos supliciados e restaremos 
apenas eu e tu!... Por ora, permaneceremos nestas runas; depois, 
decidiremos o rumo a tomar. 
O mordomo, ento, junta alguns destroos remanescentes do 
mobilirio do que fora, at bem pouco tempo, o triclinium da exuberante 
manso e acende pequena fogueira em torno da qual ambos 
terminariam de passar aquela noite que se lhes apresentava cheia de 
tormentos. O estado de nimo dos dois homens era deplorvel; 
apenas a companhia um do outro  que lhes dava um pouco de 
consolo, diante de to terrvel provao. 
-Crede, domine, que as supliciaro logo? -pergunta o servial, com 
a voz cheia de amargura. 
-No costumam demorar-se muito, para consumarem esses nefandos 
assassinatos, lustus -responde Caius, altamente entristecido. 
-Nero precisa inocentar-se, bem depressa, diante do senado e da 
opinio pblica, pelo incndio da cidade. Aquele monstro 
proporciona, talvez, a pior desonra que Roma j recebeu, em toda a 
sua espetacular histria, e inocentes pagam por esse execrvel 
delito!... 
-Oh, como gostaria de estar ao lado de Dulcina!... -exclama o 
mordomo, com os olhos rasos de lgrimas. -Ns nos daramos fora 
um ao outro, diante da provao extrema!... 
-Tambm eu, Iustus!... -diz o general, somando a sua dor  do fiel 

1. Evangelho de S. Mateus, 5.39 
#
amigo e servidor. -Tambm eu desejaria estar ao lado de minha 
adorvel Drusilla e, juntos, darmos nosso testemunho ao Senhor do 
Mundo!... Entretanto, meu fiel companheiro, penso que Jesus deseja 
testar-nos mais, tornar a nossa dor ainda mais digna de Sua inefvel 
confiana!... Que importncia tem a confiana que depositamos no 
Divino Mestre, se Ele ainda no confia em ns?... Essa confiana. 
Iustus, s se efetivar quando O imitarmos, seguindo-Lhe as 
pegadas at o fim, provando, assim, de que lado, realmente, 
encontramo-nos!... 
-Tendes razo, domine!... -concorda o mordomo, enchendo-se de f, 
ao ouvir as palavras do amo. -Que nos adiantaria lutar para 
mantermos a vida neste mundo, se perdssemos a vida eterna?... 
Acaso no disse Ele: "Pois quem quiser salvar a sua vida, perd-la-; 
quem perder a vida por minha causa, esse a salvar?... "2 
-Ests certssimo, meu caro! -exclama o general, com os olhos fixos 
na fogueira. As chamas amarelo-avermelhadas danavam um 
bailado lnguido, impulsionadas pelo vento frio da madrugada que 
entrava pelas portas e janelas grotescamente esborcinadas e 
roubadas pelos vndalos da vspera. -E hora de tomarmos a nossa 
cruz e de segui-Lo!...3 
As horas escoavam-se devagar. O glido frio de final de outono 
atormentava os dois homens que se acocoravam ao lado da 
fogueira. Nada haviam comido desde o dia anterior e nada tinham 
para comer ali nas runas; tudo fora saqueado, vilmente roubado. 
Entretanto, o sofrimento de suas almas era tanto que sequer sentiam 

o estmago reclamando por algum alimento. As acerbas dores da 
alma amortecem as dores da carne, superando-as em intensidade. 
No que sejam superiores umas s outras: dores so dores, em 
quaisquer circunstncias, entretanto as dores calcadas na paixo so 
mais intensas, acham-se aqum de qualquer um outro tipo de 
padecimento. So dores de amor, e dores de amor nunca so de 
2. Evangelho de S. Lucas, 9.24 
3. Evangelho de S. Lucas, 9.23 
#
brincadeira!... Realmente doem at no mais quererem, e no h 
remdio que as debele!... Resta-nos, ento, deix-las doerem, 
roendo-nos as entranhas, carcomendo-nos, impiedosamente, quais 
horripilantes cancros, at matar-nos, sem o mnimo de piedade!... 

Quando a madrugada desponta, encontra-os adormecidos, vencidos 
pelo cansao, ao lado das cinzas da fogueira que se extinguira por 
falta de realimentao. Tinham o corpo enregelado pelo vento frio 
da noite, e foi necessrio um esforo intenso para que os msculos 
das pernas e dos braos voltassem a obedecer. 
-Verei se encontro algo para comermos, general -diz o mordomo. Talvez 
tenham poupado a adega. 
Caius nada diz. Limita-se a aquiescer, com um sinal de cabea. A 
dor e o desnimo maltratavam-no sobremaneira. A lembrana da 
esposa, os olhos enchem-se-lhe de lgrimas pungentes. Como 
estaria ela?... Teria foras suficientes para suportar tamanha 
provao?... Oh, Drusilla, Drusilla!... A imagem da mulher 
amadaforma-se-lhe  mente. To bonita, fina, gentil!... Recorda-se 
de quando a encontrara!... Quanto tempo fazia?... Quarenta anos?... 
Tanto tempo assim?... Assusta-se com a enormidade de anos que j 
haviam passado desde ento. Lembra-se do casamento, da 
grandiosa festa na manso dos pais de Drusilla... Tantos eram os 
convidados!... At o grande imperador Caius Iulius Caesar estivera 
presente!... Eram amigos, ele e o imperador. Haviam lutado juntos, 
em vrias batalhas. Entretanto, que trgico fim todo aquele brilho 
estava tendo!... No conseguia imaginar a esposa, sempre to 
acostumada ao fausto e ao luxo, de repente, ver-se lanada numa 
enxovia imunda e mida, nos escuros subterrneos do Circus 
Maximus, sendo maltratada pela grosseria dos soldados, privando-
se do mnimo de conforto!... Sabia que Drusilla Antnia passava 
fome e sede, juntamente com os demais prisioneiros, amontoados 
nos crceres !... Ningum lhes daria nada para comer; sequer gua 
teriam para matar a sede!... Que monstruosidade mpar!... Que Jesus 

#
se apiedasse de todos eles e lhes abreviasse aqueles momentos de 
extrema dor!... 
Depois de algum tempo, Iustus retorna com duas pequenas nforas 
de vinho. 
-Felizmente no levaram tudo lde baixo!... -exclamao mordomo, 
demonstrando um pouquinho de nimo. -Desconheciam que 
mant-nhamos algumas nforas enterradas sob o solo da adega, 
para melhor envelhecer o vinho!... 


-O vinho aquecer-nos-, Iustus, e aquietar o nosso estmago!... diz 
o general, estourando o gargalo da pequena nfora com o 
pesado cabo de seu punhal. 
-Sim, domine -diz o mordomo, com um sorriso triste aos lbios -, ao 
menos por ora, teremos a companhia do vinho que, alm de nos 
aquecer o sangue, far-nos- esquecer um pouco as nossas dores! 
-Amortecer-nos as dores -corrige-o Caius. -No te esqueas de que 


o lcool apenas amortece, temporariamente, as mgoas e as dores 
da alma; depois de brevssimo tempo, tudo retoma a mesma 
crueldade de antes!... No h remdio conhecido para as dores da 
alma, meu caro amigo!...  sofrer, sofrer e nada mais... 
O novo dia chegava e se instalava, soprado por um ventinho frio. O 
cu estava cinza, de chumbo, prenunciando mais um inverno que 
chegava. Caius traga alguns goles de vinho e sente o estmago 
queimar pela ao do lcool. Em pouco tempo, leve zonzeira 
invade-lhe a cabea: no tinha o hbito de beber vinho puro. Seu 
mordomo bebera todo o contedo da outra garrafa e se sentara ao 
cho, recostando-se, displicentemente,  parede, e chorava baixinho. 
Lgrimas pungentes molhavam-lhe as faces, e os soluos sacudiam-
no, ligeiramente, a curtos intervalos. Caius apieda-se dele. Pobre 
homem!... Estava sofrendo a mesma dor que a dele. Dores horrveis. 
Dores iguaizinhas. 
-Vamo-nos daqui, Iustus -diz Caius, tomando-o pela mo. -Se nada 
podemos fazer por nossas esposas, ao menos fiquemos perto delas o 
mximo que nos permitirem. 
#
E, apoiando-se um ao outro, caminhando tropegamente, o general e 
seu servial deixam as minas do que, um dia, fora-lhes o inesquecvel 
lar... 

Captulo XIV 
O terrvel suplcio 


Depois que deixou as prises do Circus Maximus, extremamente 
enfurecido por ter sido passado para trs, Iulius perambulava como 
um possesso pelas mas, em busca de informaes que pudessem 
lev-lo ao encalo de Susanna Procula e de Flavius. Porm, suas 
buscas tinham se mostrado infrutferas at ento. Ningum havia 
visto o casal. Simplesmente, haviam sumido, sem deixar nenhuma 
pista. Altamente decepcionado, o rapaz decidia-se por retornar ao 
palcio imperial, quando sbita idia se lhe apresenta. 
-Claro!... -exclama baixinho. - bem possvel que tenham passado 
pela casa antes de partirem!... Ao menos, para apanharem dinheiro 
e cavalos!... Como  que poderiam fugir, sem dinheiro e sem 
cavalos?... 
Ligeiro, toma a direo da residncia de Flavius. L, certamente, 
deveria haver alguns dos criados e escravos que ficariam para 
cuidar da casa!... No seria difcil desatar-lhes a lngua!... Por bem 
ou por mal, qualquer escravo acabava sempre falando! 
Uma hora depois, saltava, abruptamente, de seu carro, diante do 
vestibulum da suntuosa manso do senador Rimalus que se 
encontrava aparentemente deserta. Chama, insistentemente, e,  primeira 
vista, no aparece vivalma. Quando, decepcionado, decidia


#
se por abandonar o local, v surgir, de um dos cantos da casa, uma 
figura familiar. 
-Hracles?!... -exclama Iulius, ao reconhecer o escravo que Nero dera 
de presente a Susanna. 


-Domine!... -diz o cativo, aproximando-se e, ajoelhando-se, beija a 
fmbria da clmide de linho branco de Iulius. 


-Onde esto os teus senhores? -pergunta Iulius, ansioso. 
O escravo olha para o rapaz, com os olhos carregados de tristeza. 
No ostentava mais a exuberncia do que fora um dia. Achava-se 
com o rosto esqulido, a pele cercea e macilenta e havia 
engordado, tomando as formas arredondadas. 
-Que te fizeram eles?!... -pergunta o rapaz e, antes que o escravo 
respondesse, prossegue: -Emascularam-te?... 
-Sim, domine... -responde o outro, baixando os olhos, envergonhado. 
-Meu amo exigiu que minha dona assim procedesse... Ah, 
senhor, levai-me convosco!...-suplica o escravo, em seguida, 
arrojando-se aos ps de Iulius e, tomando-lhe a mo, num rompante 
de atrevimento, beija-a com insistncia. 
-Ah, ento foi essa a sada que acharam para o presente de Nero!... murmura 
baixinho, cheio de raiva. Depois, lana ao escravo um 
olhar de desdm e de repulsa, empurra-o, grotescamente, para 
longe de si, com o cabo de seu chicote, e lhe pergunta, rspido: -E 
onde esto todos?... Onde esto teus senhores? 
-No h mais ningum aqui, alm de mim -responde o escravo, 
com os olhos inflamados de dio. -Foram-se todos e me deixaram 
para trs. Disseram-me que eu estava livre, mas no tenho para 
onde ir!... Do modo como saram apressados e sem nada levar, acho 
que fugiam, domine!... 
-E o que mais disseram durante o tempo que aqui estiveram?... 
Escutaste algum comentrio do local para onde pretendiam ir? pergunta, 
afoito, o rapaz. 
-Sim, por vrias vezes, ouvi o nome Neapolis, domine -diz o escravo. 
-Certamente  para l que se dirigiam. 

#
-Malditos!... exclama Iulius, cerrando os dentes. -Eu deveria 
saber!... 
E, ligeiro, o rapaz corre para o carro e sai em disparada, deixando o 
escravo a olh-lo, com estranho sorriso de satisfao aos lbios. 


Sabia que Iulius caava Susanna e Flavius por serem cristos. Satisfazia-
se, imensamente, em t-los denunciado, dando pistas de seu 
paradeiro. Certamente, seriam presos e supliciados no Circus 
Maximus!... Vingava-se, assim, do que os amos lhe haviam feito!... 
-Agora, pagaro caro pelo que me fizeram, malditos!...  murmura 
Hracles, baixinho, com um brilho de dio nos olhos.  E, se, 
eventualmente, forem supliciados no Circus Maximus, l estarei, 
com toda a certeza, para gozar, imensamente, de vosso infortnio, 
desgraados! 


***** 

Dois dias aps a priso dos cristos nas catacumbas, o suplcio dos 
infelizes inicia-se com grande alarde. Primeiro, os algozes trataram 
de supliciar Pedro, e grande festa programou-se. Armou-se imenso e 
esplndido palanque onde antigamente se erguia o Comitium, e 
Nero, em pessoa, leu a condenao do apstolo de Jesus  morte, por 
crucificao. Depois, o sumo sacerdote de Jpiter Capitolinus comandou 
os ofcios, sacrificando uma hecatombe ao pai dos deuses, 
diante de uma multido que se acotovelava interessadssima em 
assistir  espetacular cerimnia que o prprio imperador 
comandava. 
Pedro, manietado e seminu, e estrategicamente colocado no proscnio 
do palanque, a tudo assistia, guardado por dois pretorianos 
armados de lanas. O insigne apstolo, apesar de aparentar 
excessivo cansao, trazia as feies tranqilas e mantinha os olhos 
baixos, em atitude de profunda meditao, embora, a curtos 
intervalos, um frmito de dio percorresse a turba que, enfurecida, 
gritava terrveis improprios e longos apupos ao prisioneiro, 
quando o prprio Nero ou o sacerdote de Jpiter Capitolinus 

#
inflamavam-se em seus ataques aos cristos, culpando-os, 
publicamente, pela nefasta tragdia que, dias antes, vitimara a 
cidade e matara queimada dois teros de sua populao. 
Terminada a achincalhao pblica de Pedro, arma-se sinistra procisso 
 frente da qual, o apstolo foi colocado sobre um andor, 
dentro de pequena jaula em forma de gaiola, tudo adrede 
preparado, e carregado aos ombros por um grupo de pretorianos. A 
turba, enlouquecida e altamente furiosa e a gritar, em altos brados, 
terrveis xingamentos e improprios de baixo calo, seguia o cortejo 
at o local escolhido para a crucificao. Os pretorianos, armados de 
lanas, somente a muito custo,  que conseguiam manter o 
populacho em relativa ordem; o que realmente desejavam aquelas 
pessoas altamente enfurecidas era lanarem-se sobre o andor e 
justiarem o pobre seguidor de Cristo, com as prprias mos!... 
Ligeiramente atrs do andor, Nero seguia a procisso, 
satisfeitssimo, guiando o prprio carro e se divertindo, sobejamente, 
com o estrondoso espetculo que julgava dar ao povo. 
Depois de desfilarem, propositadamente, em ziguezague, por diversas 
mas do centro da cidade, a bizarra procisso toma a direo 
da colina Vaticana, local adrede escolhido para a crucificao de 

Pedro. 
No meio da turbamulta que seguia o cortejo, encontravam-se Caius 
e Iustus que, pesarosos e muito entristecidos, acompanhavam o 
insigne seguidor de Jesus at o seu suplcio. 
Aps uma caminhada de mais de duas horas, durante a qual o 
supliciado fora sobejamente maltratado, fsica e moralmente, at a 
exausto, finalmente, chega o momento final. Com muita 
dificuldade, a turba foi contida a distncia pela guarda pretoriana, e 
os carrascos principiaram a prender Pedro  cruz infamante!... O 
infeliz condenado aparentava paz profunda e sublimidade mpar, 
fato que causava espanto aos seus algozes, mormente a Nero e ao 
sumo sacerdote de Jpiter Capitolinus, que no conseguiam 
entender, de modo nenhum, o proceder dos cristos que se 

#
condenavam  morte!... Firmemente preso  cruz e, quando iam 
levantar o madeiro, Pedro, com extrema humildade, solicita ao 
centurio que comandava a operao: 
-Domine, por misericrdia, solicito-vos!... Sou indigno de morrer 
como morreu meu Senhor!... Prendei a cruz de cabea para baixo!... 
O centurio olhou para aquele rosto splice e se riu com escrnio. 
-s mais doido do que imaginei, prisioneiro!... -exclama o oficial. E 
se rindo, alarga, ordena, meneando a cabea, divertido: -Atendeilhe 
o pedido!... Ser-nos- mais emocionante o espetculo!... Que 
idiota!...Ha!...Ha!...Ha!...Ha!... 

A soldadesca, divertindo-se imensamente, acompanha seu comandante 
na gargalhada de deboche, enquanto, grotescamente, 
levantam a cruz, inusitadamente prendendo o crucificado de cabea 
para baixo!... 
-Recebei-me, Jesus, em Vossos amantssimos braos!... -ouvem-no 
murmurar sentida prece, enquanto a terrvel agonia, propiciada 
pelo horrendo suplcio, principia a atormentar-lhe, grandemente, o 
j to combalido corpo. 
A multido delirava, ao ver o incomum daquela crucificao em 
que o condenado encontrava-se de ponta-cabea. Porm, logo se 
cansaram do espetculo e comearam a dispersar-se. No local, permaneceram 
apenas alguns dos fiis seguidores de Jesus, dentre eles, 
Caius e Iustus que, de longe e sem chamarem muito a ateno dos 
soldados, murmuravam sentida prece. 
O sofrimento do grande apstolo de Jesus perdurou por mais de trs 
horas, ao final das quais, expira, entre terrveis estertores de agonia 
infinita. Um dos soldados que lhe guardavam a crucificao, 
percebendo que Pedro expirara, trespassa-lhe o corao, com a lana, 
como era de praxe, e chama pelo pequeno grupo de cristos que, de 
longe, assistia ao suplcio. 
-Se sois parentes do condenado, tendes a permisso para levardes o 
corpo! -grita o soldado. 

#
Caius, Iustus e mais reduzido grupo de cristos acorrem apressados 
e retiram da cruz o corpo do velho apstolo. Envolvendo o cadver 
num manto, levaram-no dali e o sepultaram num sepulcro aberto na 
rocha de um dos tneis da catacumba que havia ali mesmo, sob a 
colina Vaticana. 
Pouco depois, o pequeno grupo de cristos que sepultara Pedro 
espalhava-se; no era aconselhvel que permanecessem juntos, pois 
a perseguio aos proslitos da seita do Nazareno prosseguia mais e 
mais encarniada, e as prises continuavam enchendo-se, sem 
parar. 
-Fecha-se o cerco, meu amigo!... -exclama Caius ao fiel mordomo, 
enquanto caminham pelas mas de Roma, sem rumo definido. 

-Sim, domine -concorda o outro. -So tempos dificlimos estes e, 
enquanto no chega a nossa hora, seguimos sofrendo a agonia da 
espera.. 
-Tendes razo, Iustus -diz Caius, cheio de desolao. -E acho que, 
amanh, ou, a mais tardar, depois de amanh, Drusilla Antnia e 
Dulcina sero supliciadas no Circus Maximus! 
-Oh, terrveis dores aguardam-nas, domine!... -exclama o mordomo, 
cheio de tristeza. -Suplico a Jesus, todos os instantes, para que 
tenham foras!... 
-Que todos tenhamos foras, Iustus! -observa o general, com os 
olhos mareados de lgrimas. -Temo no suportar ver Drusilla 
Antnia sendo supliciada! 
-Jesus dar-nos- o suporte para tamanha provao, domine!... exclama 
o mordomo. -Deixou-nos a promessa de que no nos desampararia, 
que no nos deixaria rfos!... Prometeu-nos ir adiante, 
a preparar-nos o lugar!...1 
-Sim -concorda o general -, no fora a prova to tangvel que 
tivemos da existncia desse fantstico poder, ainda andaramos perdidos 
a meio das trevas da ignorncia!... 

1 Evangelho de S. Joo. 14.3 

#
Extremamente tristes e condodos pelo destino que aguardava as 
queridas esposas, os dois homens aproximam-se das enxovias do 
Circus Maximus e ali permanecem em angustiosa espera. Nada 
poderiam fazer pelas mulheres que se encontravam encarceradas 
naqueles subterrneos imundos e abafados. Certamente, j se 
achariam plenamente esgotadas e abatidas pela fome, pela sede e 
pelo cansao extremo!... Oh, Jesus, quo difcil  a passagem pela 
porta estreita que conduz  salvao!... Quo pequena  a porta da 
vida!... Quo apertado o caminho que a ela conduz!... E quo poucos 
a encontram!...2 
Os espetculos no Circus Maximus aconteciam diariamente. Era a 
forma de entretenimento preferida do populacho desocupado e 
parasita. E os governantes de Roma sabiam da necessidade de 
manterem aquela imensa massa ignorante ocupada e de estmago 
cheio, caso contrrio, a segurana da cidade e at mesmo a do Estado 
estariam ameaadas. E, sob altssimas expensas do errio pblico, 
promoviam-se espetculos fabulosos, diariamente, pois o povo era 
insacivel, sempre exigindo atraes novas e mais emocionantes!... 

Alm disso, o poder constitudo concedia um auxlio de 
alimentao aos cidados romanos comuns, consistindo, 
principalmente, da distribuio de pes,  entrada do circo, s 
tardes, antes dos espetculos -panem et circenses3 -, conseguindo 
manter, assim, relativa ordem, a altssimos custos, corroendo o 
tesouro nacional que tinha que ser sempre reposto,  custa de 
pesadssimos tributos que se impingiam aos comerciantes, aos proprietrios 
de terras e, principalmente, aos povos subjugados pelo 
poderio das legies. Em Roma e nos territrios dominados, 

2. Evangelho de S. Mateus. 7.13-14 
3 "po e circo", em latim Procedimento poltico assistencialista-paternalista encontrado 
pelos governantes romanos da antiguidade, como forma de manterem o populacho ignaro 
aquietado e fcil de ser conduzido e manejado politicamente. 
#
pagavam-se taxas e tributos por tudo: pelo comrcio, pela produo 
agrcola e pela produo industrial que consistia, principalmente, de 
pequenas fbricas artesanais de manufaturados de ferro, de bronze, 
de madeira, de couro e de cermica, alm da ourivesaria em ouro, 
em prata e em lato; cobrava-se, ainda, pedgio pelo trnsito nas 
vias oficiais e pelo uso das pontes construdas pelo governo; em 
todas as localidades, havia os coletores oficiais, os publicani, 
encarregados de cobrarem os impostos que eram, via de regra, 
roubados pela corrupo, ou ainda, vergonhosa e escandalosamente 
desviados ou mal gastos pelos governantes, redundando, assim, em 
pouqussimo aproveitamento, de fato, para a melhoria das 
condies do povo em geral, que vivia no mais completo abandono, 
amontoando-se em miserveis bairros perifricos, habitando 
cubculos erigidos de adobes e cobertos de colmo ou, ainda, em 
pequenssimos apartamentos, em edifcios de tijolos cozidos que 
atingiam at trs andares, e desprovidos de qualquer espcie de 
segurana ou de conforto, onde eram comuns os incndios, 
provocados pelo descuido nos precrios foges que se 
improvisavam sobre os pavimentos de tijolos, para o preparo de 
uma alimentao rala, que consistia, principalmente, de uma sopa 
de repolho, temperada com muito alho, ligstica, arruda, malva e 
sal; se houvesse um pouco mais de dinheiro, a refeio poderia ser 
enriquecida com po e com ricota -o queijo barato e 
engenhosamente obtido a partir da fervura do soro azedo do leite 
que seria fatalmente desprezado, ou dado a beber aos animais, aps 
a retirada dos elementos lcteos mais nobres, empregados no 
preparo da manteiga e dos queijos finos. O grosso do proletariado 
romano vivia em tais edifcios, que se erguiam colados uns aos 
outros, permeando vielas abafadas, estreitas e cheias de lixo, de 
ratos e de insetos, e onde a imundcie indecente era costumeira, 
correndo, continuamente, em escuros riozinhos de esgoto a cu 
aberto, e a exalarem, constantemente, terrvel mau cheiro!... 
Crianas nuas e imundas brincavam, enodando-se naquela sujidade 

#
inconseqente, empestando-se de doenas que acabariam, 
fatalmente, por vitimar a maioria delas, ainda em tenra idade!... A 
peste, o tifo, a varola e a malria grassavam, enormemente, 
dizimando aquelas populaes que pagavam o preo da ignorncia 
acerca da limpeza e da profilaxia de tantos males facilmente 
evitveis com medidas simples de higiene e de asseio!... Dessa 
maneira, chafurdando na lama da mais negra ignorncia, viviam 
quase um milho de almas na Roma Imperial !... A Roma dos 
grandes Csares, a Roma que dominou quase a totalidade do 
mundo civilizado de ento!... Entretanto, para uma pequena 
minoria, a dos poderosos, a vida era deslumbrante e, como nunca, 
mostrava-se abundante de tudo: de luxuosssimos palcios, 
palacetes e manses, erigidos em brilhantes mrmores e granitos 
polidos, em elegantssimos bairros impecavelmente urbanizados, 
com melas caladas e cercados de verdejantes campinas, de 
luxuriantes bosquetes e de jardins bem cuidados!... O patriciado 
romano viveu como poucos viveram neste mundo!... Fartas mesas, 
repletas de iguarias mpares, servidas em banquetes que se 
estendiam, escandalosamente, por dias inteiros!... Viviam cercados 
de luxo extremo, de mobilirio construdo em madeiras de lei; 
vestiam-se de linho e de cetim; cobriam-se de jias trabalhadssimas 
e se gabavam de sua limpeza fsica, tomando vrios banhos dirios; 
penteavam-se e se maquiavam, esmeradamente, e depilavam o 
corpo inteiro, untando-o com leos e cremes aromticos; enfim, 
portavam-se de forma extremamente adversa  dos seus patrcios 
da plebe ignara e terrivelmente pobre. Contratavam preceptores e 
pajens especializados ou pedagogos, para educarem-lhes os filhos, 
atravs de aulas de gramtica, de matemtica, de filosofia, de 
retrica e de literatura. Modernizaram a Poltica e criaram o Direito, 
fazendo valer a Justia para todos, atravs da Magistratura e de um 
cdigo de leis que serviu de modelo para a maioria dos povos do 
mundo; entretanto, legaram-nos, tambm, um dos piores exemplos 
de discriminao racial, de perseguio e de genocdio, quando, ale


#
gando a necessidade de limpeza tnica, exterminavam, 
sumariamente, grupos raciais que, eventualmente, oferecessem 
qualquer ameaa  segurana ou  integridade do Imprio -prticas 
nefastas que foram muitas vezes copiadas por governantes cruis, 
nas diversas fases da Histria da Humanidade, que tentaram fazer 
prevalecer as suas idias esdrxulas, em nome de pretensa pureza 
racial!... Assim era a Roma do Cristianismo nascente!... 


A tarde daquele dia, como de praxe, o Circus Maximus ficou lotado 
de expectadores para mais um emocionante espetculo! Caius e 
Iustus encontravam-se no meio da turba que, extremamente ruidosa 
e esfuziante, aguardava pelas atraes que se prometiam. O 
palanque imperial, entretanto, permanecia vazio, sinal de que coisa 
realmente importante no ocorreria naquela tarde. 
-O monstro no vir ao Circus Maximus hoje, Iustus!... -observa 
Caius. 


-Ento no supliciaro os condenados esta tarde! -exclama o 
mordomo. 
-Possivelmente, no, Iustus -diz o general. -Como, ontem, promoveram 
extraordinrio espetculo, com a crucificao de Pedro, 
propositadamente, reservam os prisioneiros para amanh!... 
Aguardam que o povo exija o martrio dos infelizes!... 
-E, certamente, o povo f-lo-, general!... 


-Sim, a turba tem sede de sangue, meu amigo!... -concorda o 
general, cheio de tristeza. 
De fato, os espetculos daquela tarde no contaram com a presena 
do imperador e se resumiram  apresentao de nmeros circenses 
e de lutas de gladiadores. A noite principiava a cair, e o circo 
esvaziou-se. Caius e Iustus perambularam pelos arredores, pois no 
tinham vontade de sair dali e, tambm, na verdade, nem lugar para 
onde ir. Tomaram leve e ligeira refeio, numa bodega prxima do 
Circus Maximus, pois sequer fome tinham e, depois, quando a noite 
caiu negra e gelada, enrolaram-se nas capas e se postaram, em 


#
penosa viglia, recostados s grossas paredes de pedras das 
enxovias que davam para uma viela deserta, estreita e escura como 
breu. Ao menos, ficariam prximos de suas esposas. Amide, Caius 
encostava os ouvidos s pedras da parede, mas os mataces que a 
constituam eram to grossos que nada se ouvia do outro lado. O 
vento sibilava glido, em redemoinhos, enregelando os dois homens 
at os ossos; entretanto, eles se mantinham firmes, colados  parede 
de pedras, enrolados em suas capas, como duas manchas ainda 
mais escuras que a negritude da noite que se fazia absolutamente 
sem luar e sem estrelas. Longa e penosa foi a noite, cheia de um 
silncio pavoroso, cortado apenas pelo ladrar distante de ces e pela 
bizarra cantoria dos galos a executarem sua roufenha e desgraciosa 
sinfonia. Quando, por fim, a aurora principiou a brotar tmida, 
trazendo fraca luminosidade pardacenta para um dia que j nascia 
sem-graa, os dois homens que, at ento, mantinham-se 
agachados, encolhidos bem junto  parede de pedras e cobertos com 
as capas, como dois montes disformes, principiaram a movimentar-
se, primeiro, lentamente, para desentorpecerem a musculatura dos 
membros que se encontrava dormente e enregelada. Depois, com 
intensa dificuldade, conseguem pr-se de p e se pem a caminhar 
em crculos, aquecendo-se. 
-Hoje, certamente, ser o dia mais cruel de nossas vidas, meu 
caro!... -exclama Caius, assoprando, violentamente, os dedos das 
mos em concha para aquec-los. 

-Sim, domine!... -concorda o mordomo, cheio de tristeza. -E, por 
outro lado, encontro algum consolo em sab-las livres, logo mais, 
desse terrvel jugo!... 
No horizonte, a luz da aurora aumentava sua claridade, e a cidade 
espreguiava-se. Alguns cidados madrugadores passavam apressados 
pelas mas, em busca de seus afazeres. Ces vadios uivavam 
lgubres, saudando o novo dia que surgia. 
Durante toda aquela manh, os dois homens permaneceram nas 
cercanias do Circus Maximus que at ento aparentava a costumeira 

#
rotina, com a troca da guarda sendo feita a intervalos regulares. 
Depois do meio-dia, entretanto, o nmero de soldados que 
chegavam ao circo aumentava, consideravelmente, sinal de que 
algum acontecimento diferente quebraria a rotina das prises. 
-Ser hoje o suplcio de nossas esposas, Iustus!... -exclama o 
general, com a voz pejada de tristeza. -A soldadesca prepara-se! 
-Tendes razo, domine! -concorda o mordomo, com os olhos 
lacrimejantes. -De hoje no passam! 
Cheios de terrvel ansiedade, ambos aguardam o desfilar das horas 
daquele funesto dia de suas vidas. E chegou, finalmente, a hora. 
Paulatinamente,  medida que a tarde caa, o Circus Maximus ia 
enchendo-se dos expectadores que, costumeiramente, acorriam 
quela praa de divertimentos, em busca das estupendas 
apresentaes que ali aconteciam, todas as tardes, a provocar-lhes 
sensaes extraordinrias. O teor das atraes variava, 
indefinidamente, com a finalidade de manter aquele pblico 
turbulento e deseducado sempre fiel e satisfeito. 
Caius e Iustus encontravam-se sentados no renque de arquibancadas 
de madeira que vibrava, perigosamente, com a tremenda algazarra 
que a esfuziante turba fazia, batendo, violentamente, os ps e 
explodindo em urros de impacincia pela demora no incio das 
apresentaes. O rudo de assovios estridentes, de risos e de 
gargalhares de cnico prazer antecipado era ensurdecedor. 
Na arena circular, encontrava-se fincada uma srie de postes de 
madeira. Certamente, nova modalidade de suplcio destinada aos 
cristos preparava-se. As mentes perversas dos algozes, calcadas na 
maldade extrema, eram prdigas em idearem novas e terrveis 
formas de suplcio, que promovessem maior sofrimento e, tambm, 
emoes mais fortes  turbamulta que se locupletava, at as raias do 
delrio, com os estertores da pobres vtimas ali supliciadas. O 
costume no era novo, pois os prisioneiros de guerra, 
habitualmente, sempre haviam sido violentamente execrados e 
martirizados, para gudio da plebe romana!... Quantos estupros 

#
coletivos no haviam acontecido, ali mesmo, diante de uma 
multido que, animalescamente, delirava diante de tais barbries?... 
Quantos reis, rainhas, prncipes e nobres estrangeiros, capturados 
nas batalhas, no foram ultrajados e grotescamente vilipendiados 
por gladiadores que lhes arrancavam, impiedosamente, partes dos 
corpos nus, numajudiao sem precedentes?... At crianas de tenra 
idade e jovens imberbes, frutos das terrveis e constantes guerras, 
eram sevi-ciados, grotescamente, at a morte, por homens 
animalizados, num despudor incondicional e irrestrito!... Ah, a 
Roma da decadncia!... Que diferena do tempo da Repblica, em 
que grandes pensadores, grandes polticos e grandes filsofos 
erigiram os alicerces de uma nao que dominaria o mundo por 
tantos sculos!... A Roma que valorizava os bons costumes, amoral 
impoluta, o cdigo de honra, a intocabilidade da famlia e o direito 
de todos os seus cidados, indistintamente, estabelecendo os 
alicerces da Magistratura e do Frum; a Roma que melhorou a 
Poltica, criando o Senado, como um segundo poder e legtimo 
representante da vontade soberana do povo; a Roma que cultuava 
os deuses imortais e que respeitava os deuses de todos os outros 
povos, chegando ao ponto de adot-los, e de lhes prestar culto, 
tambm, em seu Panteo; a Roma que educava seus cidados, 
ensinando-lhes a necessidade do asseio domstico e do banho 
dirio; a Roma que canalizava gua corrente, que construa redes de 
esgotos subterrneas e que tinha coleta de lixo regular; a Roma de 
Ccero, de Cato, de Virglio e de tantos outros que deixaram seus 
nomes indelevelmente escritos nos anais da Histria da 
Humanidade!... Infelizmente, nesse tempo, viviam-se as pocas do 
Imprio, os infaustos dias de Calgula, de Nero, de Tibrio, de Galba... 
No mais existiam o orgulho e o esplendor de Roma!... Tudo fazia, 
agora, parte de um passado ilustre, nada mais!... A Cidade dos 
Csares preparava-se para a sua derrocada final... 

Finalmente, os clarins troam alto. O imperador e seu squito de 
bajuladores assomava o camarote imperial, juntamente com sua 

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nova esposa, Messalina,10 criatura frvola e interesseira, que viria, em 
pouqussimo tempo, revelar uma personalidade diablica, a 
manipular, como ningum, em toda a Histria da Humanidade, o 
destino de tanta gente e que viveria sua trajetria de imperatriz de 
Roma, ao lado, e se ajustando, muitssimo bem, ao tamanho do 
nfimo carter do famigerado Nero, conspirando e armando, como 
jamais se vira antes, intrincada rede de intrigas e de traies, 
envolvendo e destruindo, impiedosamente, qualquer um que se 
apresentasse como ameaa potencial ou hipottica  sua alucinada 
escalada ao poder absoluto; Messalina ambicionava reinar sobre 
Roma e ningum mais,  exceo de Lucrcia Brgia -a concubina 
dos papas -soube, em todos os tempos, manejar to bem os venenos 
quanto a terceira esposa de Nero. E, com que habilidade e maestria 
irrepreensveis, a imperatriz aprendera a executar tal nefando 
mister! 
A chegada do imperador, o populacho abriu-se em extremados 
aplausos que fizeram as estruturas do Circus Maximus tremerem. 
Nero, satisfeitssimo, fazia ligeiras mesuras, voltando-se para todas 
as direes e abanava as mos, em agradecimento, pela honrosa 
deferncia que lhe prestavam seus sditos. Estatilia Messalina olhava 
para a multido, com os olhos brilhantes de satisfao. Era sua 
primeira apario em pblico ao lado do imperador, e o orgulho 
extravasava-lhe por todos os poros, inchando-a de vaidade extrema. 
Amplamente maquiada, quase s raias do exagero, e penteada com 
perfeio e requinte, trazia os longos cabelos castanho-claros e 
ligeiramente ondulados presos ao alto da cabea por urna meada de 
rutilantes fios de ouro, a carem-lhe pelo lado da cabea, cobrindo-
lhe a orelha esquerda e, apesar de apresentar nas faces uns 

10Estatilia Messalina, terceira esposa de Nero, j era uma de suas antigas favoritas, mesmo quando ele ainda se encontrava 
casado com Popeia Sabina. Pertencente a destacada famlia do patriciado romano. Messalina era neta de Tauro, general 
que fora honrado com dois consulados e com um triunfo -entrada solene e aparatosa, feita em pblico, para homenagear os 
heris de guerra. Casada com eminente personalidade do governo, o cnsul Aticus Vestinus, ela freqentava o pao imperial e 
mantinha um relacionamento muito ntimo com o imperador. Como enviuvara, recentemente, de sua segunda esposa, Popeia 
Sabina -a quem ele prprio assassinara -, e, para conseguir casar-se com Messalina, Nero pagou, regiamente, a 
eficientssimos sicrios, para que degolassem o esposo de sua antiga amante, forando-lhe a viuvez e lhes possibilitando, assim, 

o matrimnio que a elevou  condio de imperatriz de Roma. 
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ligeirssimos olhos fesceninos, cor de esmeraldas e uns lbios 
aberrantemente pintados de vermelho-vivo e sempre abertos num 
sorriso de constante deboche, a imperatriz era uma mulher muito 
bonita. Vestindo uma impecvel e transparente clmide de tule de 
seda azul-celeste que lhe cobria o peplo de linho branco, Messalina 
recosta-se, elegantemente, no rico canapeum recoberto de 
almofades de cetim prpura com debruns dourados, ao lado de 
Nero, que a contempla maravilhado. 
-Estais um verdadeiro primor!... -exclama o imperador, apertando-
lhe a mo, cheio de orgulho. 
-So vossos, olhos, Majestade!... -diz ela, lisonjeada. 
-Estais pronta, querida? -pergunta Nero, depois que algumas 
escravas retocaram a maquiagem da imperatriz. 
-Sim, querido! -exclama ela, radiante. -Podeis dar incio aos 
espetculos! 
Nero faz, a seguir, um significativo sinal com a mo ao mestre-decerimnias, 
e o espetculo principia-se. E ento, l em baixo, de um 
dos portes laterais, uma leva de pessoas surge e  conduzida, em 
fila, para o centro da arena. Caminham todos cabisbaixos, em silncio, 
tranqilos, sem atropelos, sem desespero. A multido, excitadssima, 
inicia os apupos, num frenesi enlouquecido, despejando 
uma saraivada de assobios e de xingos, recheados de palavras de 
baixssimo calo. 
Em volta da mureta de pedras que cercava a arena, algumas pessoas 
amontoavam-se, apertando-se mais fanaticamente contra a cerca, 
para melhor haurirem o sofrimento daquelas criaturas. Entre 
aquelas pessoas, encontravam-se Caius e Iustus. Espremiam-se ali, 
de encontro ao cercado, com outra finalidade. Queriam ver se suas 
mulheres encontravam-se, naquela primeira leva que adentrava a 
arena. 

E, com o corao quase a sair-lhes pela boca, premidos pela alta 
ansiedade, buscavam os rostos das mulheres que passavam na triste 
procisso. 

#
-No as pude ver, Iustus!... -exclama o general. 
-No, domine!... No esto nesta leva!... -diz o mordomo. -Tenho 
certeza de que no se encontram l! 
Os dois homens deixam escapar nervoso suspiro de alvio. Ainda 
no seria daquela vez. Entretanto, altamente ansiosos, passam a presenciar 
o incio dos suplcios. Os cristos haviam se espalhado, em 
pequenos grupos, pela arena, abraando-se e se amparando, mutuamente, 
e aguardavam. Uma voz firme e cheia de f principia a 
cantar um hino, cujas palavras enalteciam a glria de morrer por 
Jesus, e  imediatamente formado um coro a segui-la. Estarrecidos, 
Caius e Iustus, haviam reconhecido aquela voz potente, que 
principiara a cantar o hino: era Rufus!... O insigne pregador e 
seguidor inconteste de Jesus era um dos primeiros a ser supliciado!... 
De fato, o valoroso apstolo do Cristianismo nascente achava-se de 
joelhos e fixava o cu. Trazia o rosto sereno e parecia nimbado de 
magnificente luz. Caius e Iustus apertam-se, fortemente, as mos e 
murmuram uma prece sentida pelo amigo que se ia, enquanto as 
grades das jaulas so abertas, e uma dezena de lees esfaimados 
adentram, furiosos, a arena. Os felinos, largamente estumados por 
seus tratadores, com longas varas pontiagudas, achavam-se em 
excitao mxima e, ainda, cruelmente premidos pelo jejum de 
vrios dias, lanam-se, impiedosamente, sobre aquelas criaturas 
que, em sua grande maioria, postavam-se de joelhos e cantavam 
hinos de louvor a Jesus. E, sem demonstrarem qualquer titubeio, os 
sanhudos bichos, com as patas vigorosas, aplicam brutais golpes 
quelas indefesas criaturas e, aps arrebentarem-lhes os pescoos e 
as colunas vertebrais, pespegam-lhes violentas mordidas, com as 
possantes mandbulas, e lhes dilaceram as carnes e os ossos, com 
fora descomunal, arrancando e comendo, brutal e vorazmente, os 
largos bocados de carne sanguinolenta, ainda trmula e quente!... 
Alguns poucos supliciados, entretanto, vacilam na f e, premidos 
pelo tenor extremo, correm desesperados, em crculos e em 
ziguezague, tentando, desesperadamente, escapar do trgico 

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desfecho, mas so perseguidos pelos lees, num pattico jogo de 
gato e rato, e acabando, invariavelmente, sendo covardemente 
vencidos naquela luta tremendamente desigual, para gudio da 
multido que delira extasiada, diante de to brutal quadro de 
carnificina desumana e cruel! 
Ao final de curto espao de tempo, quadro ttrico e dantesco apresentava-
se na arena: pedaos de corpos espalhados por todos os 
lados, e os bichos, agora apaziguados em sua ira diablica, 
pastavam, sossegados, dos rebotalhos sangrentos de suas vtimas, 
fartando-se at no mais quererem!... E a turbamulta, sempre 
sequiosa de mais e mais emoes fortes, entediava-se com o 
demorar da sinistra refeio dos felinos e principia a exigir novas 
atraes, em altos brados e com alta dose de impacincia. 
A seguir, os tratadores adentraram a arena, munidos de longas 
varas pontiagudas e, acuando as feras, fizeram-nas, uma a uma, 
retornarem s jaulas. Depois, sobraando grandes cestos de vime, 
recolheram os despojos da carnificina que se espalhavam, 
ttricamente, sobre a arena toda, deixando-a livre, novamente, para 
que o horripilante espetculo continuasse. 
A tarde avanara bastante, e o sol, escondendo-se, completamente, 
no horizonte, apagava-se, permitindo que a noite, vestindo seu 
negro manto de crepe, sorrateiramente se aproximasse e tomasse 
posse do cu. No alto, algumas estrelas tmidas atreviam-se a pisca-
piscar suas luzinhas diamantinas. 
Limpa a arena, abrem-se, novamente, os portes laterais e nova leva 
de pessoas surge. Alguns archotes queimavam, presos a tocheiros 
de ferro que se projetavam dos muros de pedra que ladeavam a 
arena. Apesar do lusco-fusco do anoitecer, com a luz das tochas, era 
perfeitamente possvel divisarem-se os rostos dos supliciados que 
caminhavam em fila para o centro da arena. Soldados armados de 
lanas guardavam quase uma centena de pessoas que, naquele 
momento, seriam supliciadas. 

#
-L esto elas!... -brada Caius, apontando para duas mulheres que. 
no meio da fila, caminhavam cabisbaixas e aparentando serenidade 
incomum. 
-Dulcina!... -grita Iustus, tentando chamar a ateno da esposa que 
no lhe ouve a voz, posto que esta se perdia no meio da imensa 
profuso de gritos e de assobios que fazia a multido ensandecida. 
-No nos ouviro, Iustus!... -exclama, desolado, o general. -Intil 
gritares, pois sequer sabero que nos encontramos aqui! 
-Oh, no!... No!... -diz o mordomo, inconformado. -Elas tero de 
nos ouvir!... Jesus no permitir que elas se vo, sem saber que aqui 
estamos, acompanhando-lhes o martrio at o fim!... 
-Gritemos, ento, Iustus!... -diz o general. -Quem sabe no nos 
ouvem as vozes? 
Neste comenos, os soldados principiaram a atar, fortemente, com 
cordas, os condenados aos postes que ali se achavam adrede 
fincados e, em seguida, os corpos das infelizes criaturas foram 
grotescamente untados com betume. O populacho exultava, 
explodindo em aplausos, vivas, urras e assovios estridentes, ao 
pressentir o terrvel destino que aguardava aquelas criaturas: tochas 
vivas!... Os cristos, entretanto, no gritavam, no se desesperavam; 
dir-se-ia que fora descomunal e potentssima guardava-os 
daqueles momentos de terror! Em vez de se lamuriarem ou de 
gritarem, implorando por piedade ou clemncia, coisas que o 
imperador, decididamente, gostaria de ouvir naquele momento -, os 
supliciados cantavam hinos de louvor a Jesus, juntando-se as vozes 
em coro carregado de tocante e inexplicvel f!... 
-Mas, no gritam?!... -No se desesperam?!... -espanta-se a 
imperatriz Messalina, intrigada com aquela patente demonstrao 
de f verdadeira que, decididamente, ela desconhecia 
completamente. 
-Essa gente  por demais estranha, minha cara!... -responde, 
intrigadssimo, o imperador. E, procurando justificar o que, de fato, 
ignorava plenamente, prossegue: -So todos feiticeiros!... Vivem a 

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praticar bruxarias e encantamentos de toda a espcie!... Por certo, 

conhecem ervas poderosssimas que lhes tiram o medo... 
-Tendes razo, Majestade!... -diz a imperatriz, com um sorriso falso 
nos lbios. -Somente a prtica ostensiva da bruxaria poder 
explicar tal faanha, porque ningum, certamente, em seu juzo perfeito, 
cantaria diante da morte iminente!... 
-Vede, querida, quem  que se encontra l embaixo, atada a um dos 
postes!... -exclama Nero, chamando a ateno da esposa. E se abre 
numa gargalhada espalhafatosa: -Ha!... Ha!... Ha!... Ha!... 
Adoramos v-la, assim, to baixo, to descomposta!... Ha!... Ha!... 
Ha!...Ha!... 
-Aqum vos referis, Majestade?... -pergunta Messalina, ardendo-se 
de curiosidade. -Por favor, dizei-me sobre quem falais!... 
-Ela!... Drusilla Antnia!... A esposa do general Tarquinius!... exclama 
Nero, apontando o dedo para um dos cantos da arena. -
Apreciai, querida, como se encontra ridcula!... Ela que sempre 
andou com o nariz empinado!... Agora se apresenta toda suja, 
escangalhada e humilhada, como sempre desejamos v-la!... Ha!... 
Ha!... Ha!... Ha!... 
-De fato!...-exclama Messalina ,empertigando-se, satisfeitssima, em 
seu canapeum, ao divisar, finalmente, a matrona que se encontrava 
grotescamente amarrada a um dos postes e toda encharcada do mal-
cheiroso betume. -Quem diria, hein? 
- o que sempre dizemos, querida! -observa o imperador, de 
repente, ficando srio e fingindo alta preocupao. -Esses cristo 
no passam de terrveis bruxos que andam a enfeitiar at a fina flor 
de nossa sociedade!... No temos, ento, razo de sobra para 
extermin-los? 
Neste nterim, Caius e Iustus, como doidos, buscavam postar-se bem 
diante das esposas que se achavam amarradas aos postes, uma ao 
lado da outra. E, depois de muito sacrifcio e de se acotovelarem 
com os curiosos que se juntavam prximos ao muro de pedras, puderam, 
por fim colocar-se em posio fronteira s duas mulheres 

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que se achavam cabisbaixas, em atitude splice, movendo os lbios 
em prece contrita. 
-Drusilla!... -grita Caius, a plenos pulmes!... -Aqui estou eu, meu 
amor!... Por Deus, ouve-me!... 


A seu lado, seu mordomo igualmente gritava por Dulcina, sua 
esposa. Entretanto, o barulho que a platia do Circus Maximus fazia 
era ensurdecedor. As vozes dos dois homens eram simplesmente 
abafadas pelo troar dos outros milhares de vozes que gritavam 
juntas. O terror, porm, toma conta de ambos, quando os tambores 
estrugem rufos ensurdecedores, e as trompas troam alto, como 
selvagens gritos de guerra, e a orquestra principia a tocar 
estridulante e zombeirona melodia, enquanto alguns bufes, 
vestindo roupas extravagantes e executando burlesca dana, 
adentram a arena, carregando tochas acesas s mos. Eram os 
incendirios!... Deus do cu!... Um calafrio gelado percorre os 
corpos dos dois homens. Sofriam a mesma dor!... Achavam-se 
unidos pelo desespero. Acometidos de aflio suprema, trocam-se 
um olhar carregado de dor, a dor da impotncia que sentiam  
frente do inevitvel, do que se consumaria de forma to aviltante, 
ali, diante de seus olhos terrificados!... E ento, gritam, gritam at 
enrouquecer, at enlouquecer, at os olhos toldarem-se de lgrimas 
quentes de dor extrema, e incharem, e nada mais enxergarem, a no 
ser borres difusos!... E as tochas humanas foram sendo acesas, uma 
a uma, iluminando a arena com uma luz amarelo-avermelhada, 
ttrica, lgubre, luz de desespero, luz de dor acerba... Caius e Iustus 
gritavam, acometidos de desespero extremo, e a multido uivava de 
prazer, vendo os corpos carbonizarem-se. O cheiro de carne tostada 
comeou a espalhar-se; a msica soava mais e mais alta, e os 
danarinos danavam sua macabra dana e iam acendendo as 
tochas. Mais luz, mais cheiro, mais desespero. Caius e Iustus 
gritavam. Drusilla Antonia e Dulcina, ainda inclumes, agora tinham 
os olhos voltados para o cu. Estavam serenas, rezavam para Jesus. 
A platia ululava feroz, aculada pelo cheiro de carne assada. De 

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repente, como se invisvel mo tocasse-lhe a cabea, Drusilla Antonia 
endireita a cabea e encara a multido, de frente, pela primeira vez. 
Estranho, mas lhe parecera ouvir, no meio daquele frenesi de vozes 
enlouquecidas, a doce voz de seu Caius!... Seria possvel?... Firma, 
ento, os olhos e, no meio da quase penumbra, ali, diante dela, a 
poucos passos, divisa-lhe o rosto querido. Meu Deus!... Eraele!... 

-Caius!... -escapa-lhe o grito rouco da garganta. 
-Drusilla!... -grita ele, com a voz j enrouquecida pelo desmedido 
esforo que fizera para chamar-lhe a ateno. 
E seus olhares enroscam-se e se prendem firmemente. Riem-se e se 
falam com os olhos. J no era mais preciso gritar. Sabiam conversar 
com os olhos. E se falaram tanto!... Tanta era a saudade!... 
Dulcina ao perceber que a outra gritara o nome do esposo, buscara, 
com os olhos, a mesma direo para onde sua ama olhava e 
divisara, tambm, o rosto do marido. E, felizes, gritavam-se e 
buscavam conversar, mas pouco se ouviam, porque a balbrdia era 
muito grande. 
Entretanto, pouco durou aquele enlevo do reencontro, porque os 
bufes danarinos, danando sua dana macabra, aproximaram-se e 
atearam fogo, primeiro, ao corpo de Drusilla Antnia; depois, ao de 
Dulcina. E as chamas, num timo, com suas vorazes lnguas 
vermelhas lamberam os corpos das duas mulheres, transformando-
as em aberrantes tochas de luz amarelo-avermelhadas, luz de dor, 
luz de suplcio, luz de morte!... 
Caius e Iustus choravam desesperados, abraando-se, diante do 
dantesco espetculo. No despregavam os olhos das imensas 
chamas que envolviam as criaturas amadas e que, crepitando, 
espocando e lanando chiados ttricos, comiam, avidamente, as 
carnes de suas amadas. Durante todo o penoso tempo em que 
durou a consumpo dos corpos pela voracidade das chamas, Caius 
e Iustus permaneceram ali, premidos pelo desespero e pela dor. 
Nada poderiam ter feito. Nada, alm de lhes darem o derradeiro 
alento com suas presenas. E foi o que fizeram. E, quando as 

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chamas, plenamente saciadas pelo alimento recebido, recolheram-se 
 ridcula insignificncia das cinzas, os dois homens deixaram o 
Circus Maximus, lanando um derradeiro olhar para os dois 
pequenos montes de detritos escuros que restavam onde antes se 
achavam amarradas as duas mulheres. Na alma, carregavam a 
maior tristeza do mundo. Entretanto, no se achariam to tristes, se 
pudessem enxergar, ali mesmo, nos espaos circunscritos ao 
ambiente do circo, o que se passava na esfera onde vivem os 
espritos!... 

Drusilla Antnia, no momento em que o bufo danarino ateara fogo 
ao seu corpo, sentira o estupor inclemente do calor extremo invadindo-
a por inteiro, num timo, antes mesmo que pudesse 
raciocinar acerca do que sentia. Naquele instante crucial, pouco 
antes de perder os sentidos, ela olhava firme, nos olhos de seu 
amor, e vira a dor lancinante brotar  fisionomia dele e lhe 
contorcer, impiedosamente, o rosto, em esgares cheios de 
incontrolvel desespero. Quis gritar, dizer-lhe que no se 
preocupasse com ela, mas no conseguiu. A dor que sentira, quando 
as chamas a envolveram por inteiro, fora intensa, inominvel!... 
Quanto tempo suportara aquilo?... Minutos, segundos?... Porm, 
enquanto durou, pareceu-lhe uma eternidade infernal!... Entretanto, 
a seguir, doce e suave dormncia invadira-a; sentia, em quase semiinconscincia, 
o fogo devorar-lhe, vorazmente, o corpo, mas, 
incrivelmente, nada mais sentia!... No mais sentia o calor do fogo 
ou as dores excruciantes e nem se sentia mais sufocar com a fumaa 
negrae malcheirosa, nada!... Encontrava-se ali, estranhamente flutuando 
no ar e vendo tudo acontecer, ao lado da imensa fogueira que 
ardia furiosa e inclemente, alimentando-se de seus despojos 
carnais!... Depois, deliciosa sonolncia dela foi se apoderando, e 
tudo se apagou. Pouco depois, entretanto, suave melodia 
despertou-a. Percebeu que no mais flutuava no ar e que se 
encontrava em lugar estranho para ela. A paisagem que se abria em 
derredor era peculiar e deslumbrante: rvores frondosas 

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sombreavam sobre agradabilssima campina verdejante e macia 
como plumas e mosqueada de florinhas multicores. Um regato de 
guas purssimas e cristalinas corria, gorgolhando entre pedras 
cobertas de limo verde e, no cu, pssaros coloridos voejavam em 
crculos. Drusilla olhava tudo, extasiada. De repente, percebeu que 
fortssima luz se formava, a poucos passos dela, e, tomando, a 
seguir, a forma de um homem, vinha em sua direo. 
-Domine!... -exclama Drusilla, caindo de joelhos, estarrecida e em 
lgrimas, ao constatar Quem  que lhe vinha ao encontro, de braos 
abertos. 
-Sim, Drusilla, sou eu!... -exclama o Ser Luzente, ternamente, 
fazendo-a levantar-se e a tomando nos braos. 

A seguir, surgiram, sorridentes e felizes, de todos os lados da campina, 
todos os que j haviam sido supliciados no Circus Maximus e 
se juntaram, cantando magnifcente hino de louvor ao Insigne 
Mestre Nazareno, Que ali se reunia com eles. 
-Que linda festa, Domine!... -exclama Drusilla Antonia, aninhada 
nos braos do Senhor e observando a magnificncia do lugar que se 
descortinava, bem acima de onde ardiam as infames fogueiras da 
arena do Circus Maximus. 
-Sim, querida Drusilla!... -responde o Mestre Nazareno, todo 
nimbado de esplendente luz mirfica que Lhe iluminava o rosto 
como se fosse um sol. -A ocasio mereceu tal procedimento, e eu 
no disse que viria antes para vos preparar o lugar?5 
E assim procedeu Jesus. Recebeu, pessoalmente, todos os supliciados, 
um a um, abraando-os, ternamente,  medida que iam deixando 
os corpos, terrivelmente esfacelados pela ferocidade dos 
lees ou que se carbonizavam na fogueira inclemente. E, quando 
tudo se consumou, todos aqueles espritos deram-se as mos e 
rodearam o Divino Mestre que, qual um pastor a guiar, firmemente, 
suas ovelhas, elevou-se ao infinito, transformando-se, depois, em 
magnifcente sol, rodeado de estrelas diamantinas, qual constelao 
plena de luminescncia a ganhar alturas inconcebveis... 

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Captulo XV 
A caada 


Aps descobrir o possvel paradeiro de seus desafetos, lulius 
Maximus planejava ca-los, prend-los e, depois de muito bem 
acorrentados, reconduzi-los a Roma. Para o odiento rival, Flavius, 
maquinara um fim terrvel: intentava entreg-lo  justia para ser 
supliciado no Circus Maximus, como cristo confesso que era; j para 
Susanna Procula, tinha outros planos. Uma vez morto o marido, ele, 
lulius, iria reconquist-la!... Tinha a absoluta certeza de que 
conseguiria ter de volta as atenes de sua adorada prima, que to 
vilmente o trocara por aquele bandido grandalho!... Ah, como 
odiava aquele sujeito!... Enquanto no o visse perecer, grandemente 
ultrajado, naquela arena infamante, no sossegaria!... Com o firme 
propsito de viajar at o Sul, conseguira, assinado pelo prprio 
imperador, um documento que o credenciava a prender e a 
reconduzir Flavius e Susanna, de volta, a Roma. Levava ainda, a dar-
lhe a cobertura necessria, uma bem armada escolta de experientes 
pretorianos da guarda pessoal do soberano de Roma; gentilmente, 
Nero houvera colocado aqueles soldados de sua inteira confiana  
disposio de lulius, porque este conhecia, de sobra, o potencial 
guerreiro de seu rival e no desejava, de forma alguma, correr 
nenhum risco de ser ludibriado mais uma vez. 
E foi com esses firmes propsitos que lulius Maximus rumou para o 
Sul. Ia para Neapolis e levava informaes precisas sobre a localizao 
da propriedade do senador Lucius Antoninus Rimaltus, o av 
de seu desafeto. Certamente, ambos, Flavius e Susanna, encontrar-seiam 
escondidos l, sob a proteo do av do rapaz, e no seria difcil 
localiz-los e os prender. E, nem a proteo do av, pessoa influente 
no governo, impedi-lo-ia de fazer as prises!... Tinha o documento 
que o credenciava a realizar tal procedimento!... E, se o senador 
tentasse obstruir seu intento, mat-lo-ia, sem piedade!... No tinha 

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ordens expressas do imperador de Roma?... Um sorriso de ntima 
satisfao brota dos lbios do rapaz, enquanto galopa seu fogoso 
animal pela ViaApia, em direo do Sul. 
Foram cinco dias inteiros de cavalgada ligeira, parando o mnimo 
para o refazimento das foras, em estalagens  beira do caminho. E, 
quando a noite do quinto dia vinha caindo, o pequeno grupo, que 
tinha o sempre incansvel lulius Maximus  frente, v abrir-se, 
abruptamente, do alto do grande planalto, a magnificente baa de 
Npoles, com o rutilante brilho das guas do Mar Mediterrneo, a 
reverberarem esplendorosa luz plenilunar opalescente. Qual 
gigante ciclpico, acocorado  margem da baa, o descomunal 
Monte Vesvio fumava grossssima coluna de sulfrico vapor que 
se elevava, languidamente, s alturas, perdendo-se, num cu azulcobalto, 
pejado de estrelas mulantes. A viso era deveras 
estonteante, l do alto. Entretanto, aqueles homens que cavalgavam 
ligeiros, em direo da cidade, agora descendo a via que 
ziguezagueava, qual colossal serpente enroscada nos flancos da 
descomunal montanha, no tinham tempo para admirar tal esplndida 
paisagem. Eram homens duros, frios, calcados na maldade e 
tinham em mente apenas um terrvel intento: encontrar, prender e 
recambiar a Roma um casal de cristos fugitivos! 
Depois da longa descida em forma de caracol, rodeando a imensa 
montanha, chegam ao nvel do mar, e as patas dos cavalos batem 
sobre o calamento das ruas de Neapolis. As janelas e as portas das 
casas achavam-se abertas, pois era o incio da primavera, e a temperatura 
j se fazia amena; a luz amarelada dos fogareiros e dos 
tocheiros chegava esmaecida s ruelas desertas, quela hora em que 
todos se recolhiam aos lares, para a refeio da noite e para o 
descanso, aps um dia inteiro cheio de tarefas rduas e estafantes. 

O pequeno grupo de cavaleiros pra diante de uma estalagem e, 
apeando de seu combalido cavalo, Iulius Maximus ordena aos pretorianos 
que o seguiam: 

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-Vs vos recolhereis com os animais, no estbulo, aos fundos!... 
Depois, achareis vossa refeio com o cozinheiro. 
O rapaz entra apressado pela porta dianteira da hospedaria. Tomaria, 
primeiro, um bom banho; depois, comeria algo e iria deitar-
se. Precisava levantar-se muito cedo no dia seguinte. 
Neste nterim, a poucos quilmetros dali, bem do outro lado da 
montanha, o casal Flavius Antoninus e Susanna Procula achava-se no 
peristylium de modesta, mas bem aconchegante casa de uma quinta 
rural. Recostados em confortveis canapei, ambos observavam as 
guas do mar que refletiam os raios argentinos da lua cheia. 
-Que ter acontecido aos nossos amigos em Roma? -pergunta 
Susanna, enquanto acaricia, ternamente, a mo do esposo que trazia 
presa  sua. 
-A essas alturas, minha querida, j devem ter sido supliciados no 
circo!... -responde ele, com infinita tristeza  voz. 
-E crs que estaremos a salvo aqui? -pergunta ela. -Se foi mesmo 
Iulius que nos delatou, certamente, encontrar-se- furioso por 
termos escapado! 
- o que temo, minha cara! -responde o rapaz. -Apesar de vov 
nos ter arranjado este lugar, aparentemente bem escondido, aqui no 
meio de suas vinhas, no nos acho seguros!... Penso que seria 
melhor fugirmos para a Grcia!... Poderemos instalar-nos, em 
aconchegante lugar, que se perca naquele labirinto de ilhas do Mar 
Egeu, e ser quase impossvel algum nos encontrar l, disfarados 
de pescadores helnicos!... Amanh mesmo falarei com vov e com 
mame!... Apesar de eles acharem um absurdo esse meu excesso de 
preocupao, venho tendo, ultimamente, uma srie de pesadelos em 
que te vejo mergulhada numa poa de sangue!... Oh, Susanna, no 
podes aquilatar meu desespero!... E no sei se  conseqncia desses 
sonhos terrveis, mas me acometem, ainda, pressentimentos 
horrveis!... Sinto-me desesperar! 

-Oh, querido!... -diz a jovem, apertando-lhe, firmemente, a mo. 

#
-Se quiseres, fugiremos, amanh mesmo, para onde quiseres!... At 
para a Britannia, lugar mais longe que a Grcia, e imagino ser ainda 
mais seguro para ns! 
-Sim -concorda ele -, iremos para bem longe daqui!... Para a Grcia, 
para a Hispnia ou para a Britannia!... Para qualquer parte, onde 
aquele infame no nos possa encontrar, pois presumo que, cedo ou 
tarde, vir ao nosso encalo! 
-Sim, e como  muito amigo do imperador, no lhe ser difcil 
arrancar de Nero uma autorizao para caar-nos e nos prender 
como cristos fugitivos!... -observa, preocupadssima, ajovem. 
-E nos mandar de volta s terrveis prises do Circus Maximus!... 
-exclama o rapaz, com um calafrio. E, aconchegando, ternamente, a 
jovem esposa ao peito forte, prossegue: -Se isso acontecer, acho que 
enlouquecerei antes! 
-Oh, meu amor!... -diz ajovem, com um fundo suspiro. -Juro que 
no me importaria, nem um pouco, de morrer pela nossa f!... 
Entretanto, somos to jovens!... Amo-te tanto e te queria ao meu 
lado, por muito tempo ainda, antes de morrer!... Sonho ter os nossos 
filhos, cri-los, com a tua ajuda amorosa, e os ver crescerem belos, 
fortes, saudveis e livres como eu e tu sempre fomos... 
-Lutarei para que tudo isso acontea, meu amor!... Para que acontea, 
exatamente, do modo como desejas!... -exclama ele, abraando-
a e a beijando, ardentemente, aos lbios. 
E, abraando-se fortemente, emudecem, por alguns instantes, perdidos 
em cogitaes ntimas. A noite avanava, e o vento que 
soprava do mar principiava a gelar-lhe os corpos. 
-Faz frio, meu amor!... -diz ele. -Entremos e nos aqueamos junto 
ao fogo. Preciso dormir, pois amanh, bem cedo. irei ter com vov. 
Quando amanhece, Flavius levanta-se, veste-se, toma ligeira refeio 
e, ao sair, recomenda para a esposa: 
-Irei s, para no chamar a ateno. Tu ficars com Servula e com 
Priscus, que te guardaro de eventuais importunos. E, principal


#
mente, no saias, querida!... Aconselho-te que permaneas em casa 

at que eu volte!... 
Susanna despede-se do esposo  porta da casa. 
-Vai em paz, querido!... -exclama ela, quando ele a beija  testa, 
despedindo-se. -Ficarei em casa, rezando por ti. Jesus guiar teus 
passos!... 
Flavius abraa-a forte, e lgrimas descem-lhe pela face. Triste pressentimento 
invadia-o. 
-Oh, querida, querida!... -exclama ele, relutando em deix-la ali 
sozinha. -Temo por tua segurana!... 
-Estarei bem, querido!... -diz ela, encorajando-o. -Nossos fiis 
servos far-me-o companhia. Vai, que estarei suplicando a Jesus, por 
ns dois!... E, sorrindo, com os olhos brilhantes, acrescenta: -Se 
Deus est conosco, quem h de estar contra? 
Flavius parte, mas terrvel pressentimento estrangulava-lhe o peito. 
Intimamente, lutava contra aquela horrvel sensao, mas era 
preciso ir entrevistar-se com o av e com a me, dizer-lhes que no 
se achavam seguros ali e que seria melhor fugirem para mais longe. 
Neste comenos, Iulius Maximus j se levantara fazia tempo. Mal 
raiara o sol, reunira sua escolta e se pusera a subir a montanha, 
mmando para o lugar onde, de antemo, por informaes obtidas 
em Roma, j sabia localizar-se a villa do senador Rimaltus. A 
exuberante propriedade no ficava muito distante da cidade; 
apenas a trs quilmetros, subindo o sop do Monte Vesvio, local 
de onde se descortinava esplndida vista da baa de Npoles. Iulius 
sabia da necessidade de valer-se de ardis e de manobras para 
descobrir o paradeiro de seus desafetos ou sua viagem redundaria 
em fracasso total. Para tanto, pensava em usar artimanhas, no a 
fora bruta. Deixaria a fora para depois, para a captura!... 
Instmindo a escolta para que se mantivesse recuada e acobertada 
pelas rvores de pequeno pomar de limoeiros, Iulius seguiu sozinho 
e se manteve de espreita,  margem do pequeno caminho que dava 
 propriedade do senador. Sabia que escravos eram, diariamente, 

#
despachados para a cidade, para a aquisio de alimentos, e no lhe 

seria difcil abordar algum deles e o fazer abrir o bico!... 
Foi o que aconteceu. No teve de esperar muito e eis que v 
surgirem, pela estradinha, duas pessoas que deixavam a villa e iam 
em direo da cidade. Eram duas escravas, uma delas bastante 
jovem e at bonita, e a outra j bem idosa; carregavam cestos de 
vime vazios e, presumivelmente, buscavam alimentos frescos no 
mercado da cidade. 
-Ave!... -exclama Iulius, saindo de inopino do esconderijo  
margem da estrada e, cortando-lhes o caminho, apanha-as de 
surpresa. Faz longa mesura diante da jovem escrava e arrisca um 
meloso galanteio: -Aonde vo flores to finas, a hora to fresca da 
manh? 
As mulheres entreolham-se espantadas. Amais velha fecha a cara e 
se pe a caminhar mais apressada. A jovem, entretanto, arreganha-
se em sorrisos brejeiros e abre a guarda ao malandro. Iulius, ousada-
mente, apanha-lhe uma das mos e a beija longamente. Altamente 
lisonjeada pela ateno que lhe despendia o nobre e belo cavalheiro, 
a mocinha pra e passa a olh-lo. embevecida. 
-Vais ficar a parada feito uma tonta? -pergunta a outra, com voz 
cida. 
-Anda  frente, Lolia!... -exclama a mocinha, cheia de enlevos com 
os olhares lascivos que lhe lanava o rapaz bem trajado e de finos 
modos. -Encontro-te no mercado logo mais!... 
-Vais  dar-te com teu jumento no atoleiro!... -exclama a velha, 
estugando o passo e resmungando, enfezada. -Espevitada de miolo 
mole!... Aviso-te: depois no me venhas com choradeiras! 
-Dize-me, minha linda, como te chamas? -pergunta Iulius, aproximando-
se, ousadamente, da ingnua mocinha e a tomando nos 
braos, assim que a outra escrava desaparece numa curva do 
caminho. 
-Cneia  meu nome, domine!... -responde a mocinha, abrindo-se em 
abundantes sorrisos voluptuosos. 

#
-Ento, Cneia, vives na casa do senador Rimaltus, no? -pergunta 
ele, abraando-a forte e lhe mordiscando, ousadamente, o lbulo da 
orelha. 

-Oh, sim -responde ela, extravasando faceirice no olhar e nos 
modos lbricos com que correspondia s despudoradas apalpaes 
que o desfaado e desconhecido jovem, cheio de cpida avidez, desferia-
lhe pelo corpo rijo e bem torneado. 
-E o senador encontra-se em casa? -prossegue o canalha, fazendo 
propositais rodeios, antes de obter a informao que realmente 
desejava. 
-Sim, o senador e sua nora encontram-se sempre em casa; raramente 
deixam a manso -responde a mocinha, mais preocupada em 
deliciar-se com as vigorosas e bestiais carcias que lhe fazia o belo 
mancebo. 
E o rapaz, chegando s raias da obscenidade animalizada com 
aquela garota ingnua, continua o ataque. 
-E o neto do senador e sua jovem esposa?... No se encontram mais 
na manso? 
-No, o jovem Flavius e sua esposa vivem na quinta, do outro lado 
da montanha -diz a mocinha, sem titubear, entregando, assim, o 
paradeiro do jovem casal. 
Iulius Maximus abre pleno sorriso de satisfao. Fora-lhe mais fcil 
do que pensara!... Agora s restava descobrir detalhes do caminho 
que o conduziria at o esconderijo de seus desafetos. 
Meia hora depois, Iulius deixava a escrava que se despedia dele, 
extremamente feliz, pelos momentos de prazer que o belo jovem de 
fino trato dispensara-lhe e segue, apressada, seu caminho ao 
encontro da companheira que, possivelmente, a aguardava na praa 
do mercado, bufando de raiva e de indignao. O rapaz, por sua 
vez, toma, apressado, o cavalo e vai juntar-se  sua escolta que o 
esperava um pouco mais recuada, oculta no pomar de limoeiros. 
Agora j sabia onde encontrar o que buscava e exultava de 
satisfao. Achava-se em situao melhor do que esperava: o local 

#
onde vivia o casal era discreto, longe da cidade e dos demais 
parentes e, alm disso, contaria com o elemento surpresa a seu 
favor. No lhe seria difcil cair sobre ambos que, certamente, 
encontrar-se-iam desprevenidos e os prenderia com a maior 
facilidade! 

A manh j avanara bastante, quando Iulius, finalmente, localiza a 
quinta do senador Rimaltus. Estacando sua montaria diante da 
entrada da propriedade, concluiu que o lugar era realmente 
discreto; no passava de uma sucesso de pequenos e curtos 
terraos, escavados na montanha e separados por taludes no muito 
altos, em formato de escada e sustentados por muretas de pedra, 
onde se cultivavam exuberantes videiras. No meio de um dos 
terraos, erguia-se modesta residncia de pedras regulares, que se 
apresentava sem ostentao de qualquer espcie de luxo, alm dos 
relativos conforto e bem-estar necessrios a uma vivenda campestre. 
Algumas oliveiras e amendoeiras sombreavam ao derredor da casa, 
quase a ocultando de quem passasse pelo pequeno caminho que 
ziguezagueava, enroscado na montanha. Ali do alto, tinha-se 
privilegiada viso do mar que ondeava em translcido azul, l 
embaixo, a partir do sop da montanha e se estendendo at se 
fundir com o longnquo horizonte, a esmaecer-se em cambiante 
azul-esmeraldino. 
-Lugarzinho bem pitoresco arranjaram os pombinhos!... -murmura 
Iulius, com um sorriso cnico nos lbios. E prossegue, com os olhos 
falseando de excitao: -Mas, em brevssimo tempo, tudo estar 
mudado!... -e apeia do cavalo. 
Os pretorianos aguardavam-no a distncia. Era preciso, agora, 
traar um plano para a abordagem. E foi o que fez. Tomaria o lugar, 
no de assalto, mas se aproximando devagar, sem fazer o mnimo 
rudo, e cercaria a residncia, juntamente com os soldados. Depois, 
entrariam de surpresa e fariam as prises. Possivelmente, Flavius 
encontrar-se-ia desarmado, fato que facilitaria as coisas, dando-lhes 
uma enormidade de vantagem sobre o rival. 

#
Depois de muito bem combinado com sua escolta, Iulius d a 
ordem de abordarem o local. Tudo estava em silncio, sinal de que 
havia pouca gente na casa que se achava com as portas e janelas 
trancadas. Sorrateiros como felinos em caa, o grupo, tendo Iulius 
sempre  frente a comand-lo, pe-se a caminharem direo de seu 
objetivo, protegendo-se atrs dos troncos das rvores que formavam 
pequeno parque em derredor da residncia. Uma vez bem prximos 
das grossas colunas que sustentavam o peristylium, a erguer-se ao 
longo de toda a parede lateral da edificao, os pretorianos 
postaram-se em locais estratgicos, sempre no mais absoluto 
silncio e sob o comando de lulius que, percebendo que a porta que 
dava acesso  varanda no era do tipo muito robusto, intenta 
arromb-la. E  o que faz. Com formidvel pontap, estoura-lhe a 
tranca e, ligeiro como uma raposa, salta para dentro, sendo seguido 
pelos pretorianos a darem-lhe cobertura  retaguarda. 
Susanna encontrava-se recostada num canapeum, no modesto 
triclinium, lendo uns escritos de Plauto1 e, ao ouvir o estrondo 
provocado pelo arrombamento da porta, sobressalta-se; entretanto, 
tivera tempo apenas de se erguer e de ver, terrificada, o primo que 
assomava  sala, empunhando uma espada  mo e seguido por 
uma leva de pretorianos. Um frmito de pavor percorre-lhe a 
espinha de alto a baixo. 
-Lulius!... -exclama Susanna. altamente exaltada pela abrupta 
invaso do lar que lhe fazia o primo. -Que fazes aqui?!... 
-Onde est ele?... -pergunta o rapaz, agitadssimo, brandindo, 
ameaadoramente, a espada. -Onde est o miservel?... 
Neste nterim, Priscus, o escravo, alertado pelo rudo da porta 
arrombada e das vozes exaltadas, adentra o tricilinium, e lulius 
apanha-o, mesmo antes que pudesse esboar qualquer reao em 
defesa de sua senhora, e  violentamente ferido ao peito com 

I. Tito Macei Plauto (250 -184 a.C), poeta e teatrlogo romano. 
#
terrvel golpe de espada e tomba, pesadamente, sobre o piso de 
pedras, es-vaindo-se em sangue. 
-Priscus!... -grita Susanna, arrojando-se sobre o corpo do escravo 
que dava os derradeiros estertores, motivados pela violncia da 
morte que lhe impusera a mo assassina de lulius. E, constatando 
que o rapaz fora vilmente assassinado, a jovem levanta-se, tomada 
de fria insana e, arrostando, corajosamente, o primo, lana-se sobre 
ele, como uma leoa enlouquecida, e tenta lanhar-lhe o rosto com as 
unhas, gritando: -Assassino!... s um assassino cruel, lulius !... 

Servilla, a escrava, que se achava na cozinha, a preparar o almoo, 
tambm acorrera aflita  sala e, temendo pela senhora, tenta contla, 
mas  brutalmente afastada pelo rapaz que se deixa tomar por 
violncia incontida. 
-Dize-me, desgraada!... -grita lulius para Susanna, segurando-a, 
fortemente, por um dos pulsos. -Dize-me onde se esconde o 
covarde de teu marido!... Quero mat-lo com minhas prprias 
mos!... 
-Jamais te direi, demnio!... -grita Susanna, arrostando-o, ferozmente, 
enquanto d violentos safanes, tentando livrar-se da mo 
que lhe prendia o punho como tenaz de ferro. -Mesmo que me 
mates, no te direi, maldito!... 
-Ah, cadela desgraada!... -grita o rapaz, possesso, enquanto 
desfere violento bofeto ao rosto da infeliz Susanna. -Tu me dirs!... 
Ah, se me dirs!... 
Servula, vendo que sua senhora apanhava do infame invasor, lana-
se sobre ele como uma fera e  violentamente aparada com um 
terrvel golpe de espada que lhe abre o peito em chaga funda e 
mortal. A escrava apenas tem o tempo de enviar um olhar de 
profundo desespero para Susanna e, revirando os olhos, tomba, 
pesadamente, j sem vida. 
-Oh, monstro!... -grita Susanna, entre aterrada e profundamente 
enraivecida, pelas monstruosidades que cometia o primo, sem 

#
pestanejar, ali, diante dela. E, num mpeto de dio extremo, lana-se 
sobre o rapaz e, como fera sanhuda, arranha-lhe, profundamente, o 
rosto, enquanto grita, tomada de raiva insana: -Demnio!... 
Monstro, desgraado!... Odeio-te, lulius, como a peste mais abjeta!... 
O rapaz, muito mais forte que ela, domina-a com facilidade e tenta 
beij-la  fora. Os pretorianos, que a tudo haviam assistido, sem 
necessidade de nenhuma interveno, divertiam-se, rindo-se, 
imensamente, com as cenas de crua violncia que lulius lhes 
proporcionava. Apesar de estarem habituados a promoverem e a 
presenciarem tais constrangimentos extremos, sempre lhes era 
motivo de gudio o sofrimento impingido s criaturas, num mundo 
em que as pessoas valiam menos que um cavalo ou uma boa besta 
de carga!... lulius, entretanto, percebendo-lhes o interesse no caso e 
j se certificando de que Flavius no se encontrava em casa, ordena 
que sassem e que mantivessem guarda no exterior da residncia. 
Iria arrancar a confisso de Susanna sobre o paradeiro do esposo e, 
para tal mister, no precisava de ajuda e, muito menos, daquela 
incmoda platia. 
Uma vez a ss, o rapaz prossegue o interrogatrio, ainda mantendo 
a infeliz Susanna presa, firmemente, pelo punho. 
-Dize-me, maldita, onde se encontra o imbecil de teu marido?... 
-No te direi, jamais, demnio!... -responde a jovem, espumando 
de raiva. -Se quiseres, mata-me, mas no te direi onde se encontra 


Flavius!... 
lulius encara-a com olhos terrveis, transtornados pelo dio. E prossegue, 
apertando-lhe ainda mais forte o pulso. 
-Tu me dirs, desgraada!... Sei que dirs!... 
E Susanna, num ato de raiva extremada, cospe no rosto do rapaz. 
lulius, ento, tomado de furor insano, deixa cair a espada que 
segurava com a mo direita e, utilizando-se de ambas as mos, 
segura, fortemente, o corpo da jovem e o atrai, violentamente, para 
si. A proximidade do objeto de seu desejo f-lo fremir de excitao. 
O delicado perfume de Susanna enlouquecia-o de paixo, 


#
exacerbando-lhe os mais selvagens instintos. De repente, idia 
tenebrosa perpassa-lhe a cabea. Sabia que sua prima era 
teimosssima e, dificilmente, dir-lhe-ia onde o idiota do marido 
encontrava-se. Como um doido, rasga-lhe as roupas, desnudando-a, 
completamente. 
-Que vais fazer, demnio?... -pergunta a jovem, antevendo o 
terrvel ato que lhe faria o tresloucado primo. 
-Desdenhas-me, tens asco de mim, no ? -diz ele, com terrvel 
brilho nos olhos. -E, principalmente, ocultas-me o paradeiro de teu 
esposo!... Pois bem, retomarei o que, por direito, j era meu!... -e, 
num gesto brusco, atira-a sobre o canapeum. 
-No, Iulius!... -grita Susanna. E pensa. Tinha de agir rpido, antes 
que o monstro a tocasse. E lhe diz, abrandando um pouco a 
expresso facial: -Se no me tocares, digo-te onde se encontra 

Flavius!... 

-Ah, resolveste tra-lo, ento?... -diz o rapaz, com um riso horrvel. 
Tinha o rosto banhado de suor e tremia de excitao nervosa. -Mas, 
no confio em ti!... Primeiro, dize onde  que o miservel se 
encontra; depois, soltar-te-ei!... 
Susanna ia dizer que no confiava nele, tambm, mas no estava em 
condio de negociar. Encontrava-se em desvantagem total. Precisava 
arriscar. 
-Flavius viajou para Roma... -mente ela. 
-Para Roma?!... -exclama lulius, com um sobressalto. -E te deixou 
aqui, sozinha?... 
-Sim, para o propsito a que foi, melhor sem mim!... -diz a jovem, 
prosseguindo na mentira. 
-E que propsito era esse?... 
-Matar-te, lulius!... -diz ela, olhando-o, firme, nos olhos, pois era 
preciso ser muito convincente. 
-Maldito!... -exclama lulius, largando, abruptamente, a moa e se 
pondo a murmurar, enquanto fitava o nada, com os olhos cheios de 
dio: -Covarde!... Maldito!... Era esse o plano!... Assassinar-me!... -e, 


#
virando-se para a jovem que agora se encolhia nua sobre o canapeum: 
-Ento suspeitveis de que eu poderia vir ca-los aqui, no 
? 
-Sim, lulius, sabamos que tu estavas por trs de nossas prises e 
resolvemos dar-te um fim! 
-Malditos!... -grita o rapaz, semi-enlouquecido e, atirando-se sobre 
a moa, prossegue, segurando-a, firme, pelos pulsos: -Tu tambm 
desejavas a minha morte, no e? 
Susanna sabia que agora era chegado o seu fim. Encurralava uma 
fera infinitamente mais forte que ela e sabia, de antemo, que sairia 
derrotada daquele embate feroz. Mas, morreria feliz. Seu amor 
estaria a salvo; imolava-se por ele!... Que no faria por seu amor?... 
-Sim, lulius, eu desejava a tua morte!... -diz a jovem, agora, dando o 
golpe de misericrdia a si mesma. E, olhando fundo nos olhos dele, 
prossegue: -Tenho dio de ti!... Odeio-te at a morte!... Ainda mais: 
tenho nojo de ti!... Sinto asco, quando me tocas!... Tu me enojas, 

lulius!... 

O que se seguiu foi deveras terrvel!... Emitindo um rugido rouco, 
como de fera acossada, lulius tateia a prpria cintura e. tomando o 
punhal que ali trazia, com ele golpeia fundo e furiosamente o peito 
de Susanna, repetidas vezes, at cansar-se. A jovem no emite 
sequer um gemido. Apenas os olhos enchem-se-lhe de lgrimas, 
enquanto murmura baixinho, cerrando os dentes, violentamente, 
para suportar a dor lancinante que lhe rasgava o peito, qual chama 
viva: 
-Amo-te, querido!... Amo-te... 
Exaurido pelo esforo de golpear, covardemente, o corpo de 
Susanna at a morte, lulius deixa-se cair de joelhos ao lado do 
canapeum. Trmulo pela terrvel sobrecarga emocional, fita, longa-
mente, o rosto empalidecido de Susanna. 
-Linda at na morte!... -exclama ele, levantando-se e lhe beijando, 
longa e voluptuosamente, os lbios descorados. -Roubo-te o beijo 
que sempre me pertenceu e que me negaste por toda a tua vida!... 


#
depois, permanece de p, olhando-a. com os olhos cheios de 
lgrimas. Em seguida, meneia a cabea, tristemente, e prossegue 
baixinho: -Ah, cara Susanna!... Como foste tola cm acreditar que, se 
no vivesses comigo, viverias para o infame que te roubou de 
mim!... -e se cala, com a voz travada pelos soluos. Depois, contm-
se e, sorrindo um sorriso com laivos de loucura, continua: -Jamais 
te daria tal prazer!... Jamais!... -e. apanhando a espada do cho, 
embainha-a  cintura e sai, sem olhar para trs. 
L fora. os pretorianos aguardavam-no  sombra das rvores. 
-Vamos para casa!... -ordena ele. com a voz seca. 
Passava de duas horas da tarde, quando Flavius apeia de seu cavalo, 
diante do vestibulum de sua residncia. Percebe a porta do 
peristylium arrombada, e um sbito calafrio percorre-lhe a espinha 
de alto a baixo. "Deus do cu!... Ser que...", pensa, tomando-se de 
desespero extremo. E adentra a residncia a correr, com o corao a 
sair-lhe pela boca. Pobre Flavius!... Um grito de dor ouve-se ento; 
dir-se-ia assemelhar-se mais a um urro que escapasse da garganta 
de uma fera que de voz humana!... Era dor infinita, dor lancinante, 
to infinitamente profunda, a rasgar-lhe as fibras do corao, uma a 
uma!... Indescritvel foi o desespero a invadi-lo, aps ter ele se 
deparado com o terrvel quadro que se descortinava to cruel, 
diante dos olhos aterrados. Que nefando pesadelo seria aquele?... 
Ento o desgraado destino brincava com ele?... No, era-lhe por 
demais aterrorizante aquilo!... A adorada esposa toda banhada em 
sangue, nua. sobre o canapeum, terrivelmente mutilada por dezenas 
de golpes de punhal que mo criminosa desferira-lhe, brbara e 
impiamente, pelo corpo todo!... E, sobre o piso da sala, jaziam, 
ainda, os corpos dos dois fiis escravos, tambm covardemente 
assassinados e mergulhados em poas de sangue!... 
Flavius ps-se a tremer, e as pernas se lhe fraquejaram, apesar de 
toda a fortaleza que j angariara diante de tantas desgraas que presenciara, 
mesmo sendo ainda to jovem, nas ementas batalhas de 
que participara sob o comando do general Tarquinius!... Os olhos en


#
chem-se-lhe de lgrimas, quando ele, finalmente, consegue sentar-se 
ao lado dela, no canapeum, e, tomando-a nos braos, sente-a ainda 
quente. Existir no mundo dor ainda maior que essa?... Sentir inerte, 
sem vida, em nossos braos, o nosso nico e verdadeiro amor, posto 
que grotescamente assassinado por um monstro desalmado?... Oh, 
Deus!... Como as coisas, neste mundo, s vezes, tomam-se to infinitamente 
cruis!... 
E, como ele a abraou forte, premido pelo desespero, chamando-a 
pelo nome!... E, como a beijou s faces cerceas, ainda molhadas 
pelas derradeiras lgrimas!... 
-Oh, choraste, meu amor!... -exclama ele, percebendo-lhe as faces 
molhadas de lgrimas. -Choraste por mim?... Sim, eu sei!... 
Certamente, teus ltimos pensamentos tu os dirigiste para mim!... 
Eu sei!... -e suas lgrimas quentes, lgrimas de dor acerba, 
juntavam-se s lgrimas frias de Susanna. -Morreste para salvar-me, 
meu amor!... Sei que foi lulius, o infame!... S ele teria motivos para 
fazer-te tal coisa!... Oh, Jesus!... Porque fui deixar-te sozinha?... 


Muito tempo Flavius permaneceu abraado ao corpo de Susanna. 
Seus tristes lamentos e seu choro tocante perderam-se pelas horas 
daquela tarde e, somente quando as trevas da noite que chegava 
inundaram a sala,  que ele caiu em si. Resoluto, enxuga os olhos 
com as mos e se levanta do canapeum. Depois, delicadamente, toma 


o corpo da esposa aos braos e o carrega at o balneum e, longa e 
jeitosamente, banha-o. Depois, veste-o com um manto de l 
alvinitente e o deposita sobre o leito que fora do casal. A seguir, faz 
o mesmo com os corpos de seus fiis escravos. Terminada a triste 
tarefa, fecha a casa, apanha o cavalo e sai. Ia avisar o av e a me 
sobre a tragdia. 
Fizeram um longo e luxuoso velrio para Susanna Procula, como era 
costume nas famlias patrcias. Indignadssimo com o assassinato da 
esposa do neto, o senador fez a denncia ao pretor de Neapolis; 
procederam-se s investigaes e, presumivelmente, a partir de descries 
de testemunhas, Flavius chegou  concluso de que o 
#
assassino era, de fato, Iulius Maximus, e um ardente desejo de 
vingar-se daquele monstro desalmado foi nascendo dentro do peito 
do jovem vivo. No se conformava em ter perdido seu amor de 
forma to brutal e covarde!... Malgrado as lies evanglicas que 
recebera, na prtica, entretanto, como se mostrava difcil para ele o 
exerccio do amor incondicional a todas as criaturas, e como se 
tomava quase irrealizvel a prtica do perdo!... Contudo, existiria 
exerccio maior para o perdo irrestrito -como o que pregou Jesus que 
provao extrema, semelhante a essa que ele vivia?... No, por 
certo, mas a sua dor afigurava-se-lhe maior que tudo!... Eis, talvez, 
porque as palavras do insigne Mestre Nazareno encontrem ainda 
to pouco eco nos coraes dos homens!... Ah, se as pessoas 
soubessem perdoar!... Evitariam tantas dores futuras, tantos 
sofrimentos inteis!... Mas, os homens no costumam perdoar 
ofensas assim to extremas, porque  necessria fora muito grande; 
 preciso que o ofendido coloque-se bem alto, que se poste to 
acima do comezinho material e se encha tanto de espiritualidade mas, 
que se espiritualize muito mesmo, bem alm da intensidade da 
ofensa recebida -, pois, s assim, obter a fortaleza suficiente para o 
exerccio do perdo incondicional! 

No ntimo, Flavius queimava de dio e desejava vingar-se; entretanto, 
luta atroz travava-se em seu corao: conhecia as 
imarcescveis lies de perdo s ofensas que aprendera, ouvindo as 
inesquecveis pregaes evanglicas de Rufus, quando 
acompanhava Susanna ao templo cristo: at mesmo havia ouvido 
muitas das pregaes que o prprio apstolo Pedro houvera feito 
nas catacumbas e at se considerava um seguidor de Cristo, mas o 
desejo de vingar-se do assassino de Susanna perseguia-o, sem lhe 
dar um mnimo de trgua. J no era mais o rapaz tranqilo de 
antes; tornara-se agitado, no se alimentava direito, havia 
emagrecido e no aparentava mais a truculncia de antes. O av e a 
me preocupavam-se com os novos rumos que tomava a vidado 
rapaz. 

#
Fazia, j, trs meses, depois da morte de Susanna, e Flavius sentia-se 
mais e mais afogueado pela idia de vingar-se do assassino de seu 
amor. A saudade da esposa no passava nunca, e ele se sentia 
enlouquecer. Sua vida transformara-se num pesadelo insuportvel. 
Precisava tomar uma atitude e, resoluto, certa manh, procurou 
pelo av e pela me. 
-Vou a Roma -diz ele aos familiares que tomavam o ientaculum no 
peristylium. 

O av e a me entreolham-se, cheios de preocupao. 
-Podes dizer-nos o que pretendes fazer na capital, meu filho? pergunta-
lhe a me. 
-A saudade de Susanna mata-me, mame -responde ele, com um 
fundo suspiro. -Penso que, se sair e tentar divertir-me, talvez possa 
esquec-la. 
-Vai. meu filho!... -exclama o senador, animando-o. -Acho 
excelente essa tua idia!... Roma possui uma infinidade de divertimentos 
para um jovem de tua idade!... E ser, exatamente l, que tu 
conseguirs desafogar as tuas mgoas!... Tens a nossa bno! 
-E, quando pretendes partir? -pergunta-lhe a me. 
-Hoje mesmo -responde ele, com o rosto duro. Fazia tempos que 
ningum o via mais sorrir. 

Da a duas horas, um cavaleiro solitrio subia a ViaApia, serpeando 
a encosta do Monte Vesvio. Ia sem pressa. Estava muito triste e,  
mente, apenas uma idia: procurar Iulius Maximus, onde quer que se 
escondesse o desgraado e, fria e impiamente, mat-lo, da mesma 
forma que o infame fizera com o amor de sua vida... 
Por seis longos dias, cavalgou em direo ao Norte. No via nenhuma 
graa em nada. Aquela viagem, na realidade, era um 
tormento para ele.  mente, apenas uma idia: localizar o monstro 
assassino e dar cabo dele, o mais rpido possvel!... 
Para chegar at  manso da famlia, Flavius teve de passar pelo 
centro da cidade. Roma ressurgia das cinzas do terrvel incndio 
provocado por Nero. Por todos os lados, erguiam-se obras 

#
monumentais, ostentando o brilho do mrmore polido e do granito 
reluzente. Morrera uma cidade feia e anacrnica, cheia de 
antiqussimas construes de tijolos desbotados e carcomidos pelo 
tempo, e renascia uma outra, moderna, limpa e rutilante, bem ao 
gosto do imperador que, para tanto, espoliava o errio pblico e 
escorchava o povo com pesadssimos tributos e provocando, ainda, 
altssimos ndices de inflao nunca vistos antes, no Imprio. 
Flavius atravessa a cavalo todo aquele bulcio, prestando pouca 
ateno ao que se passava na cidade. Encontrava-se exausto pela 
viagem e almejava apenas o descanso. Pouco depois, apeava de seu 
combalido cavalo diante da porta de entrada do vestibulum da magnfica 
manso da famlia. Como haviam sado dali s pressas, ele e 
Susanna, meses atrs, e pensavam jamais retornar a Roma, haviam 
liberado os serviais, e se espanta ao constatar que a casa 
encontrava-se miraculosamente intacta. Algum houvera 
permanecido ali, cuidando de tudo, ou ento, os ladres no teriam 
deixado pedra sobre pedra. Intrigado, fora a porta de entrada do 
vestibulum, e ela cede. No se encontrava trancada, e ele entra. O 
interior da casa no se achava de todo limpo, mas se notava que 
algum vinha limpando, freqentemente, uma das alas. 
Empunhando a espada, Flavius revista o imenso casaro, cmodo a 
cmodo, mas no encontra ningum; porm, em pequena parte da 
casa, constatou haver indcios de que algum vivia ali, de forma 
muito discreta. Estava faminto e, vasculhando a cozinha, encontrou, 
muito bem escondidos num armrio, um pouco de po de centeio e 
um meio odre de vinho. Alimenta-se e vai deitar-se no que, um dia, 
fora o seu quarto e de Susanna. A vista do local onde vivera os 
primeiros dias de casado com seu amor, as lgrimas brotam-lhe 
abundantes, num choro profundo, dodo, como se chaga mal 
fechada, de repente, voltasse a abrir-se, e o sangue jorrasse profuso, 
de novo. 
Por muito tempo, chorou, amargamente,  lembrana de sua esposa. 
Entretanto, o cansao vence-o, e ele dorme profundamente. 

#
Mais tarde, desperta sobressaltado, com algum que lhe tocava, 
levemente, o ombro. Abre os olhos sonolentos. 
-General Tarquinius!... -exclama espantado, ao reconhecer o rosto 
que se debruava sobre ele. -Que fazeis aqui?!... 
-Oh, meu rapaz!... -diz o general, abraando-o forte. -Que felicidade 
rever-te!... 
O jovem senta-se no leito e corresponde ao forte abrao do grande 
amigo. As lgrimas brotam-lhe dos olhos, abundantes. 
-Pensei que estivsseis todos mortos!... -exclama Flavius, levantando-
se do leito. -E Drusilla Antnia, onde est? 
-Morta... -responde o general, baixando os olhos cheios de 
lgrimas. 
-Mataram-na. ento!... -explode o rapaz, esmurrando a parede com 


o punho fechado. -Os covardes mataram-na!... 
-Sim, mataram-na, covardemente, no CircusMaximus... 
-E vs, como escapastes de l?... -pergunta o rapaz. 
-No escapei!... -responde o general, encarando-o nos olhos. -O 
demnio quis ver-me sofrer as dores do inferno!... Libertou-me, 
para que eu sofresse mais, permanecendo vivo e presenciando o 
suplcio dela!... 
-Monstro!... -explode o rapaz, cheio de dio. -s vezes me 
pergunto se Nero  humano ou se  uma fera!... 
-E Susanna, onde est? -pergunta o general. 
O rapaz limita-se a olh-lo com os olhos cheios de lgrimas. Depois, 
lana-se aos braos do amigo e. entre profundos soluos de dor, diz-
lhe: 
-Iulius Maximus assassinou-a, covardemente, general!... 
-O qu?!... -exclama Caius, afastando-se do abrao do amigo e, 
olhando-o nos olhos, prossegue, estarrecido: -Dizes que o miservel 
foi at l e a assassinou?!... 
Flavius apenas sacode a cabea, confirmando. Depois, deixa-se 
sentar, pesadamente, sobre o leito, e passa a relatar, 
minuciosamente, ao amigo a tragdia que lhe vitimara a esposa. O 


#
general ouvia-o em silncio, sentado numa cadeira. A grande dor 
que sentia era patente. Depois que o jovem amigo encerra a 
narrativa, levanta-se e o abraa, dizendo: 
-Tua dor no  maior nem menor que a minha, Flavius!... Tua dor  
a minha dor!... 
E, por longo tempo, permanecem abraados, chorando a dor da 
terrvel perda que haviam sofrido. Pouco depois, lustus, o 
mordomo, anuncia que lhes havia preparado algo para comer. 
-Apropriamo-nos de tua casa, Flavius, eu e lustus, pois no tnhamos 
mais para onde ir, depois que a minha villa foi vilmente 
saqueada pelos ladres, assim que a notcia de nossas prises 
espalhou-se -explica o general, enquanto tomavam rala sopa 
preparada pelo mordomo. 
-Fizestes muitssimo bem, general!... -diz o rapaz. -Caso contrrio, 
esta propriedade tambm no mais existiria!... 
-A propsito, por que vieste a Roma?... -pergunta o general. -No 
crs estares correndo perigo? 
Flavius precisou pensar rpido. No contava encontrar o general e 
ter de dar-lhe explicaes. 
-Vov incumbiu-me de vender a villa, general -mente ele. No 
desejava que o amigo soubesse do real motivo de sua vinda a Roma. 
E prossegue, tranqilizando o outro: -E bvio que no sabamos 
que a estveis ocupando!... Agora, entretanto, ficai tranqilo, que os 
planos so outros!... 

-Contudo, afiano-te de que a poders vender, Flavius!... -diz o 
general. -Eu e lustus pretendamos mesmo deixar esta propriedade 
amanh!... Se te demorasses um dia a mais, no nos teria encontrado 
aqui!... Apesar das perseguies, vamos reerguer nosso antigo 
templo e nos dedicar  assistncia aos desvalidos, como fazia Rufus. 
A propsito, no desejas permanecer conosco? 
-No, general -responde o rapaz. -Terminada a minha misso em 
Roma, retomarei a Neapolis e passarei a cuidar de nossos interesses 

#
por l -e prossegue, com um sorriso triste nos lbios: -Apesar de 
tudo, a vida continua... 
Terminado o frugal jantar, permanecem conversando no peristylium. 
A primavera fazia o jardim, embora descuidado, brotar em olentes 
flores. A noite cresceu e avanou. Cansados, os homens foram 
dormir. No dia seguinte, tomariam rumos diferentes. 
Quando o dia amanheceu, o general despediu-se de Flavius e, 
juntamente com seu fiel mordomo, tomou o rumo de onde antes se 
erguia o antigo templo fundado por Rufus. Doravante, ambos residiriam 
l. Flavius v-os desaparecerem na curva do caminho e pensa: 
-Agora, ns dois, Iulius Maximus!... Agora, ns dois!... 
O primeiro passo foi descobrir o paradeiro do desafeto. E buscou tal 
informao, junto ao antigo camarada de armas, Lucius Nigrus, e 
que, no momento, servia na milcia pretoriana que guardava o 
palcio imperial. "O covarde agora mora em sua prpria casa", 
informara-lhe o amigo. "Uma vez cessado o perigo que lhe rondava 
a porca vida, o infame resolveu deixar a proteo do imperador e 
voltar para seu antigo covil!... E, se precisares de minha ajuda para 
dares cabo do desgraado...", completara Lucius, altamente 
indignado com a tragdia que sucedera ao companheiro. 
Conhecedor do paradeiro do infame assassino, Flavius passou a 
segui-lo como uma sombra,  espera do melhor momento para 
atac-lo. Disfarado e sempre coberto com um manto escuro, o 
rapaz seguia lulius Maximus aonde quer que fosse e tinha a certeza 
de que no lhe seria difcil surpreender o outro, pois o sabia um 
estrdio bomio que no parava em casa, sempre  cata de 
aventuras e de fortes emoes. 

Flavius no teve de esperar muito. Fazia apenas trs dias que chegara 
a Roma, e a oportunidade de um entrevero com seu desafeto 
apareceu, quando este cavalgava de volta para sua villa, 
ligeiramente embriagado, de madrugada, depois de uma esbrnia, 
num lupanar da Via Trentina. Flavius estugou a marcha de sua 

#
montaria e alcanou o infame, quando este atravessava trecho 
deserto da viela que conduzia  sua casa. 
-Desce de teu cavalo, desgraado!... -grita-lhe Flavius, 
ultrapassando-o e, interpondo o animal atravessado  frente, fecha-
lhe, totalmente, a passagem pelo estreito caminho. 
-Tu?!... -espanta-se o covarde, tomado pela surpresa, ao reconhecer 


o rosto de Flavius que se iluminava pela farta claridade da luz 
plenilunria. 
-Sim, maldito!... -grita Flavius, apeando ligeiro de seu cavalo e, 
puxando o outro pela perna, derruba-o da montaria. 
Encontrando-se ligeiramente bbado, Iulius no consegue colocar 
nenhuma resistncia e tomba, fragorosamente, estatelando-se sobre 
o cho de terra batida. Flavius, ento, salta sobre ele e passa a 
esmurrar-lhe as faces, com extrema violncia, despejando-lhe o 
imenso cabedal de dio que se avolumara dentro do peito, desde 
que aquele infame assassinara-lhe, covardemente, a esposa. 
-Maldito!... Miservel!... -repete o rapaz, como se possudo por 
fora descomunal, enquanto arrebentava, violentamente, o rosto do 
assassino, desfigurando-o terrivelmente. 
Iulius Maximus, nem de longe, possua a truculncia de Flavius. Era-
lhe muito menor em estatura e em compleio corporal e, alm 
disso, era um bomio e no dado a exercitar-se, fisicamente, e 
possua, como conseqncia disso, um corpo frouxo e flcido. 
Tentou reagir ao ataque do outro, mas no pde. Limitou-se a 
gemer e a implorar por piedade. Flavius ignorava-lhe as splicas 
covardes e continuou batendo. Bateu forte, at cansar-se, at 
esfalfar-se. Depois, arfando pelo excesso de esforo, parou e se 
acocorou ao lado do outro que gemia baixinho, com o rosto todo 
lanhado e ensangentado pela tunda recebida. 
-Deixa-me, maldito!... -escutou, por fim, Iulius murmurar, rilhando 
os dentes. 
-Deixar-te?... Oh, no!... -diz Flavius, olhando-o nos olhos. -Acaso 
no implorou tambm Susanna que tu a deixasses, maldito?... 


#
-Sim, e como implorou, a cadela!... -diz Iulius, abrindo um sorriso 
de sarcasmo. 
-Ah, desgraado!... -explode Flavius, num grito de dio. -Ainda 
tens a coragem de tripudiar sobre a nossa dor?... -e, a seguir, como 
um possesso, apanha o punhal que trazia preso  cintura e, 
segurando firme o outro pelo pescoo, diz, rilhando os dentes: Sentirs, 
agora, o mesmo que fizeste  minha Susanna!... 
Iulius nenhuma resistncia ofereceu, posto que j se encontrava em 
frangalhos. Flavius, ento, emitindo terrveis gritos de fria e 
empunhando, firmemente, a arma, passou, tresloucadamente, a desferir 
impetuosos golpes ao peito de seu desafeto, repetidas vezes, 
at cansar-se. 
L no alto, redonda e impassvel, banhando o mundo com sua luz 
de prata, a lua cheia foi a nica testemunha de mais aquela 
tragdia!... Esfalfado pelo esforo e pela carga emocional, Flavius 
pra. Enojado, d-se conta de que o outro no passava de uma 
irreconhecvel massa de carne sanguinolenta. 
-Vai-te, demnio, para as profundas do Avernum!... Hecate deve 
estar felicssima, a receber-te de braos abertos!... -diz ele, com 
desdm, mirando o rosto altamente desfigurado de Iulius. Depois, 
levanta-se cambaleante e murmura, com os olhos cheios de 
lgrimas: -Vinguei-te, meu amor!... Agora podes repousar em paz!... 
Estranhamente, suas atitudes e seus pensamentos voltavam aos 
moldes da antiga religio que professava. O paganismo ainda 
encontrava forte suporte em seu corao. Parecia ter-se esquecido, 
completamente, das inefveis lies do Cristo. A dor suplantara 
tudo!... Pena que no tivera foras para perdoar!... Teria evitado 
tantas dores e tantos sofrimentos futuros, para si e para seu amor!... 
Mal sabia que, agindo daquela forma, afastavam-se mais e mais um 
do outro. 

Com o corao mais gelado que o vento que soprava frio, monta seu 
cavalo e se vai. No horizonte, a aurora j se fazia anunciar, pintando 

o cu com laivos cor-de-rosa... 
#
Duas horas depois, quando chegou em casa, estava agitado. Pensou 
em tomar um banho, pois o cheiro do sangue de Iulius, a empapar-
lhe as roupas, dava-lhe nuseas. Busca o antigo cubiculum e se 
despe. Entretanto, em vez de se dirigir ao balneum, para lavar-se, 
arroja-se sobre o leito. Amargura intensa dominava-lhe o ser. 
Vingara Susanna, impingindo a seu assassino o mesmo suplcio que 

o verme abjeto fizera-a sofrer, porm se sentia afoguear. O sangue 
do maldito no lhe trouxera a paz desejada. "Oh, meu amor!...", 
exclama baixinho, entre soluos. "Sem ti, sinto-me perdido!... No 
sei mais viver neste mundo cruel!...", e as lgrimas descem-lhe 
abundantes, molhando-lhe o rosto altamente entristecido e 
amargurado. A luz do dia nascente coava-se pelos interstcios da 
janela fechada. Cheio de dor e de desespero, Flavius olha em 
derredor, e os soluos sacodem-no. "Oh, Jesus!...", lembra-se ele, de 
repente, do Mestre Nazareno. "Que fiz eu da minha vida?... Perdi o 
meu grande amor e ainda me tornei um assassino!... Desdenhei 
vossas lies de perdo incondicional s ofensas e manchei as 
minhas mos de sangue!... Mas a dor, Senhor, foi maior que a minha 
f!...", e os soluos sacodem-no, violentamente. A volta  triste realidade 
dos fatos e a constatao de que nenhum interesse mais 
possua neste mundo fazem crescer nele o desespero. As horas 
escoavam-se, e a angstia dominava-o. J no conseguia mais 
raciocinar direito. nica idia invadia-lhe o pensamento: a 
inutilidade da vida da para frente. Levanta-se do leito e se senta. 
Corre os olhos pelas roupas sujas que deixara espalhadas sobre o 
pavimento do quarto. O punhal, ainda com laivos de sangue, jazia 
sobre uma cadeira, juntamente com o cinto de couro trabalhado, 
bem ali, a seu lado. Fita, demoradamente, a arma pontiaguda que 
brilhava na semi-obscuridade do quarto. Depois, estende a mo e a 
apanha. Segura-a, por alguns instantes, com os olhos mareados de 
lgrimas. Em seguida, fixa o vazio e, soluando, murmura: 
-Por qu?... Por que tudo isso aconteceu, meu amor?... 
#
E, com um gesto firme e preciso, finca a arma, fundo, no prprio 
peito. A intensa dor que lhe sobreveio f-lo arrojar-se para trs, de 
costas, sobre o leito. Foi num timo. Depois sentiu como, se, de 
repente, uma imensa catadupa se estourasse sobre ele, arrastando-o 
e o afogando numa violenta enxurrada vermelha: seu prprio 
sangue, que lhe brotava aos borbotes, pelo rasgo aberto no peito e 
em fartos gorgoles a jorrarem-lhe pela boca entreaberta. A seguir, 
forte tontura abateu-se sobre ele, e tudo ficou escuro. Ao recobrar a 
conscincia, tentava reerguer-se do leito, quando, estarrecido, v 
seu prprio corpo todo ensangentado e se assusta. No conseguiu, 
de imediato, entender o que se passava. Porm, seu espanto 
aumenta ao ouvir terrvel gargalharas costas. Vira-se, de inopino, e 
seus olhos arregalam-se, de espanto: 
-Tu?!...-grita, aterrado. 
-Sim, desgraado!... Sou eu!... -exclama o outro. 
Era Iulius Maximus que o fixava com uma aparncia horrvel. O 
esprito ainda trazia as marcas de sua recente e traumtica desencarnao. 
Furioso, salta sobre Flavius que se esquiva, pondo-se mais 
longe e, aterrado, observa o repugnante espectro que, 
insistentemente, tentava atac-lo. Iulius Maximus trazia a algidez da 
morte estampada nas faces tremendamente desfiguradas pela surra 
e ainda o corpo todo perfurado pelas vigorosas punhaladas que 
recebera, na madrugada daquele dia. 
-No pode ser!... -exclama Flavius, estupefacto. -Acabo de matar-
te, ainda h pouco, desgraado!... 
-Sim, maldito!... -diz o outro, rilhando os dentes, enfurecido. E 
prossegue, cheio de escrnio  voz: -V!... Mataste-me o corpo, mas 
no morri!... -e, abrindo um sorriso diablico, cheio de desprezo, 
prossegue: -Tambm tu mataste, covardemente, o teu corpo, mas 
no morreste!... Ah, Flavius, facilitaste bastante minha sede de 
revanche!...-e explode numa despicadora gargalhada: Ha!... Ha!... 
Ha!... Ha!... 

#
Estarrecido, Flavius olha-se e, depois, apavorado, olha em derredor. 
Seu cadver permanecia de costas, sobre o leito, com o punhal ttricamente 
fincado ao peito. Iulius, percebendo que o outro se descuidava, 
salta sobre ele, e ambos rolam, atracando-se em feroz luta, socando-
se e violentamente jungidos em contumaz obsesso!... 
Neste nterim, dois outros seres espirituais aparecem no recinto. Um 
deles encontrava-se ainda muito debilitado, posto que seu peito 
revelava uma srie de ferimentos e vinha amparado pelo outro 
esprito que se apresentava refulgente e nimbado de luz 
diamantina. Eram Susanna Procula e Drusilla Antonia. Mesmo se 
sentindo altamente debilitada, a jovem assassinada acorrera em 
socorro de seu amor, mas no tivera foras suficientes para demovlo 
das terrveis idias de vingana. Com o prestimoso amparo de 
Drusilla Antonia, tentara dissuadir Flavius de perseguir e de matar 
Iulius, insuflando no esposo idias de perdo, mas fora tudo em 
vo. O rapaz fechara-se a qualquer tipo de influenciao, que ambos 
os espritos amigos tentaram, baldadamente, fazer em seu benefcio, 
para livr-lo de tais intentos; entretanto, ele se mostrara irredutvel 
e, mantendo-se em terrvel monoidesmo, arquitetara o plano de 
vingana que, consumado, culminara em seu suicdio irresponsvel. 
-Agora, nada mais podemos fazer por ele, minha querida!... sussurra 
Drusilla Antonia, docemente, ao ouvido de Susanna. -
Flavius escolheu o caminho mais difcil, e s a dor e o tempo  que o 
traro de volta  realidade. Por ora, enxerga apenas seu oponente e 
quer destru-lo, e o outro age da mesma forma!... Almejam, nica e 
exclusivamente, aniquilar-se, mutuamente!... O dio uni-los-, 
infelizmente, por muitos e muitos anos!... 
Com os olhos cheios de lgrimas, Susanna olha, demoradamente, 
para o esposo que, transtornado e desfigurado pelo dio, no lhe 
notara a presena ali. Chamara-o, insistentemente, pelo nome, 
vrias vezes; entretanto, ele sequer conseguira ouvi-la. Tentara 
abra-lo, mesmo dificultosamente, e o arrancar daquela situao, 
mas ele parecia no a notar. Com a maior tristeza deste mundo, 

#
constata que o destino, de forma to cruel, separava-a de seu amor. 
Oh, Deus, por quanto tempo duraria aquele martrio?... Anos, 
sculos?... 


-Eu aguardarei por ti, meu amor!... -murmura a jovem, com o 
pranto a inundar-lhe os olhos. -Ainda que tenha de esperar por 
toda a eternidade!... 
-Vamo-nos daqui, querida!... -diz Drusilla Antnia, puxando-a, 
amorosamente, pela mo. -Nada mais temos a fazer!... 
E, amparando Susanna, delicadamente, toma-a nos braos e ala um 
vo, desaparecendo, a seguir, como um raio luminoso. 


Eplogo 

A pequena assemblia acocorava-se sobre esteiras de palhas no cho 
de tijolos crus do singelo templo. Eram homens, mulheres e crianas 
que mal sustinham a ansiedade, enquanto aguardavam o incio das 
oraes da noite. Seus olhos buscavam, amide, a porta lateral do 
pequeno salo. De repente, ligeiro burburinho agita aquelas 
criaturas. Um homem de longas barbas, j quase totalmente 
brancas, surge pela porta e adentra o salo, fazendo-se seguir de seu 
fiel companheiro. Ambos traziam o rosto sereno e comedimento nos 
gestos e no andar. Eram o general Caius Petronius Tarquinius e seu 
antigo mordomo, lustus. 
O homem de longas barbas brancas postou-se sobre o pequeno e 
tosco plpito de madeira lavrada e passeou, demoradamente, os 
olhos pela pequena platia que se acocorava diante dele. Depois, 
abriu um sorriso cheio de bondade e se voltou para o companheiro 
que se mantinha de p a seu lado. lustus passou-lhe, ento, um rolo 
de pergaminho que trouxera consigo. Caius desenrolou o velino e, 
com a voz tomada de ardor e de paixo, leu: "Por isso vos digo: No 

#
andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou de beber; 
nem pelo vosso corpo quanto ao que haveis de vestir... 1 

Sua voz soava firme, forte, enquanto lia o trecho do Evangelho de 
Jesus. Apequena confraria bebia-lhe as palavras, pejadas de emoo. 
Tinha sido assim, desde que ele e seu fiel companheiro decidiram 
reerguer o templo e retomar as antigas atividades de assistncia, 
desenvolvidas por Rufus. As perseguies aos cristos, entretanto, 
no haviam terminado; pelo contrrio, recrudesciam mais e mais, a 
cada dia. Nero supliciava centenas e centenas de cristo, 
diariamente, no Circus Maximus, com requintes de crueldade, para 
divertimento de uma turba ensandecida tal qual seu imperador!... 
Contudo, quanto mais cristos se enviavam ao suplcio, mais e mais 
converses  nova seita aconteciam, todos os dias. para estupefao 
e desespero dos perseguidores!... Quanto mais Nero tentava afogar 
as imarcescveis lies do Carpinteiro Nazareno num imenso mar 
de sangue, mais as lies de Amor. de Pai, e de Perdo 
propagavam-se para uma multido de desesperados que viviam 
num mundo tomado pela violncia e pejado de injustia e de 
desamor! 
Caius Petronius termina a leitura do trecho e levanta os olhos. Fixa, 
demoradamente, aquele amontoado de cabeas e, num timo, seu 
pensamento voa para ela. Sempre ela!... Drusilla Antonia, a esposa 
supliciada no Circus Maximus, fazia j trs anos. Entretanto, ele dela 
no se esquecia!... Nunca!... A lembrana da mulher amada estivera 
sempre, desde ento, todos os dias, em seu pensamento!... Como 
esquec-la?... No, era-lhe impossvel no pensar nela!... A saudade 
batia forte, arrancando-lhe as fibras do corao, uma a uma!... 
Admirava-se de como  que tinha conseguido viver at ali, sem 
ela!... As vezes, sentia-se fraquejar, diante de tal provao!... Se o 
famigerado Nero dele quisera judiar, com requintes de diablica 
crueldade, houvera conseguido!... Como sofrera, assistindo, 

1. Evangelho de S. Mateus, 6.25 
#
impotente e terrificado, ao terrvel suplcio da amada!... E os dias 
que se seguiram, numa solido imensa, do tamanho do mundo?... 
No sabia como houvera suportado tudo at ento. Enquanto tais 
dolorosas reminiscncias perpassavam-lhe pela mente, a pequena 
assistncia, em alta expectativa, aguardava-lhe as palavras de 
ensinamento e conforto, como sempre, aliceradas nas inefveis 
lies de Jesus. O antigo general que, antes, to destemidamente, 
comandara as legies de Roma, ora se encontrava irreconhecvel, 
como valoroso soldado a defender as legies de Cristo!... Caius 
Petronius ia abrir a boca, para iniciar a to esperada pregao, 
quando inefvel luz projeta-se, bem diante do singelo plpito de 
madeira lavrada. Ele se espanta com a magnitude do fenmeno e  
tomado de intensa emoo. A luz, paulatinamente, vai tomando a 
forma humana e um ser luminescente surge. 

-Caius!... -brada o esprito, abrindo-lhe os braos, num largo gesto 
de afeio intensa. 
-Drusilla!... -exclama ele, com as lgrimas a explodirem-lhe, 
abundantes, nos olhos. 
-Sim, meu amor!... -diz ela. cheia de orgulho. -Vim para asseverar-
te de que este  realmente o caminho a seguir!... Todas as promessas 
que nos fez Jesus so verdadeiras e, mesmo que at agora tu te 
tenhas mostrado sempre fiel  promessa que a Ele fizeste, no fujas 
jamais ao teu testemunho!... Sei que sofres muito, mas tem f!... 
Continua, sempre firme, a espalhar as luzes do Evangelho!...  
preciso que se faa a luz, bem depressa, a fim de que se espantem as 
espessas trevas que se assenhorearam deste mundo!... S 
eternamente fiel a Jesus, meu amor!... Sei que te  muito penoso e 
difcil o teu caminho; entretanto, persevera, com muito ardor, que, 
muito brevemente, chegar a tua hora, e aqui estarei, juntamente 
com o Divino Mestre, a aguardar-te!... Amo-te, querido!... Deixo-te a 
inquebrantvel Paz de Cristo!... At bre ve, meu amor!... 
O esprito encerra sua lacnica mensagem e se desvanece no ar. 
Caius Petronius, banhado pelas lgrimas, soluava. lustus, 

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juntamente com a pequena congregao, nada percebera do 
fenmeno, e todos estranharam a repentina mudana de atitude do 
pregador. O antigo general do Imprio Romano, entretanto, enxuga, 
resolutamente, os olhos e, retomando a costumeira empolgao, diz, 
com um ligeiro sorriso nos lbios e um renovado e intenso brilho no 
olhar: 
-A que se deve a ansiosa solicitude pela vida?... Observai as aves 
dos cus...2 
E sua voz prossegue, semeando apenas amor e avivando a f daqueles 
coraes que, desesperados, perdiam-se na dor das 
provaes atrozes; voz tocante, apaixonada, consoladora, como 
deve ser a voz dos que se decidem, definitivamente, por Jesus... 


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